Todas Essas Heroínas Perdedoras! — Capítulo 55: Volume 5 – Capítulo 4 – Capítulo 4: Esteja Preparado para Deixar Ir

Todas Essas Heroínas Perdedoras!
Cap. 55
0%
Todas Essas Heroínas Perdedoras!

Volume 5 – Capítulo 4 – Capítulo 4: Esteja Preparado para Deixar Ir

Capítulo 55

18.390 palavras~80 min de leitura

ERA O DIA DE VISITAÇÃO DO COLÉGIO TSUWABUKI.

Naquele momento, o relógio marcava 12h30. Os quatro membros do Clube de Literatura estavam reunidos ao redor da mesa na sala. As garotas trocaram olhares entre si. Yakishio foi a primeira a pegar uma caixa.

— Bem, eu vou primeiro! Por favor, deem uma olhada. Estou muito orgulhosa disso.

Dizendo isso, ela abriu a tampa. Havia uma grande quantidade de chocolates em formatos variados e completamente desajeitados.

Yanami e Komari olharam para mim em silêncio. Elas queriam que eu fosse o primeiro a comentar...?

— Ah... está muito bom. Deixe-me pensar... Acho que isso aqui é uma ameba daquelas que estudamos na aula de Biologia———

— Essa é a flor da Tsuwabuki. Aquela é a folha. ...Nukkun, o que foi que você acabou de dizer?

— Nada, nadinha. Entendi. Essa aqui é a flor da Tsuwabuki...

— Essa é a folha.

— Então esta é a flor?

— Essa também é uma folha.

...Por que isso era tão difícil? Era algum daqueles captchas impossíveis de sites estrangeiros? Yakishio lançou um olhar descontente para mim.

— Ei, Nukkun, você anda meio mal-educado ultimamente, sabia?

De fato, talvez fosse melhor dar minha opinião só depois de experimentar. Peguei um dos pedaços mais tortos e o coloquei na boca. O sabor do açúcar, acompanhado de uma textura crocante, espalhou-se pela minha língua. Tinha gosto de um chocolate que ficou esquecido no fundo de uma mochila escolar por meio ano...

— É... está gostoso. Dá para sentir um sabor... bem amadurecido.

Escolhi minhas palavras com cuidado antes de comentar. Ainda desconfiada, Yakishio deu uma mordida no próprio chocolate.

— Sério? Eu acho que ficou meio ruim. Nukkun, você tem um gosto bem peculiar.

Ué...? Como assim? Eu também achava que estava ruim. O interesse de Yanami pareceu aumentar depois de ouvir nossa conversa. Ela pegou um pedaço de chocolate e o jogou na boca.

— Oooh... É meio difícil descrever esse chocolate. A temperatura não ficou exatamente certa, mas sinto que vou acabar ficando viciada depois de comer. Também tem um ar nostálgico. Parece aquele muro de terra que eu comi uma vez. Não sei muito bem como explicar...

Nhac, nhac.

Yanami continuou mastigando. Por que essa garota sabia qual era o gosto de um muro de terra...?

— E-Eu... e-eu fiz este.

Desta vez, Komari tirou uma marmita da bolsa. Dentro estavam os chocolates que ela havia preparado na minha casa alguns dias antes. Havia o amargo, o de leite e o de groselha-preta...

— Hm? Para onde foi o vermelho em formato de coração? — Perguntei casualmente, mas Komari congelou no mesmo instante. — O que foi, Komari?

— E-Eu só fiz um daquele sabor! N-Não tinha ingredientes suficientes!

Entendi. Acho que ela tinha usado o restante da calda que havia na minha casa. Eu entendia isso, mas... por que ela estava corando tanto...?

Yanami já tinha devorado uma boa parte dos chocolates da Yakishio. Agora, voltou os olhos para os de Komari.

— Yanami-san, precisamos entregar esses chocolates aos visitantes, certo? Não vá comer todos.

— Eu sei. Além disso... eu também fiz os meus próprios chocolates.

— Como ficaram os da Yana-chan?

Enquanto perguntava, Yakishio experimentou um dos chocolates de Komari.

— Eu queria ajudar todo mundo a realizar seus sonhos. Foi por isso que fiz esse chocolate.

Parecia estar cheio de sentimentos. Yanami então tirou uma caixa alta e abriu a tampa cuidadosamente. Parecia uma caixa de bolo.

— Tcharam! Este é o chocolate especial da Yanami-chan.

Dentro da caixa havia um enorme chocolate esférico, do tamanho aproximado de uma bola de beisebol.

Nós três — eu, Yakishio e Komari — ficamos completamente em silêncio.

Assim, acabei assumindo o papel de representante.

— Hã...? Só tem esse?

— Isso mesmo. Eu tive uma ideia e misturei todos os ingredientes nesse único chocolate. Aliás, não foi nada fácil fazer um chocolate perfeitamente esférico.

— Então... como a gente vai comer isso?

A pergunta era séria. Yanami inclinou a cabeça, confusa.

— Ué? É só dar uma mordida.

Depois de dizer isso, Yanami deu uma mordida no chocolate e passou a enorme esfera para Yakishio. Yakishio mordeu o chocolate com uma expressão intrigada e, em seguida, o passou para Komari. Por fim, ele chegou às minhas mãos.

Ao ver as três marcas de dentes, resolvi dar uma pequena mordida no lado mais distante.

Tinha... gosto de chocolate. Isso mesmo, era um chocolate comum.

— Não tem como entregarmos isso aos visitantes.

Depois de guardar cuidadosamente o chocolate de volta na caixa, Yanami me lançou um olhar descontente.

— Nukumizu-kun, se vai apontar os defeitos dos outros, então você também não deveria ter trazido chocolate?

— Hein? Eu também tinha que preparar um?

— Claro. Eu falei isso antes... Mesmo que não tenha explicado em detalhes, você precisa aprender a considerar a situação, os sentimentos das outras pessoas e esse tipo de coisa. O que vamos fazer se você nem consegue preparar algo tão simples quanto chocolate?

Ahh…

A Yanami definitivamente era a última pessoa que eu gostaria de ter como chefe no futuro.

Ah, mas...

— Eu recebi chocolate antes de sair de casa. Não é caseiro, mas podem ficar com ele, se não se importarem.

Tirei uma caixa de chocolates da minha mochila. Os olhos das três garotas se arregalaram.

— Q-Quem f-foi que te deu isso?

— Aposto que o Nukumizu-kun comprou sozinho, não foi? Comprou na Kalmia? Lá vende um monte de doces famosos, sabia?

Senti que estavam falando coisas extremamente maldosas sobre mim.

— Não, eu realmente ganhei isso de alguém. Eu nunca inventaria uma mentira tão patética.

Nesse momento, Yakishio arrancou a caixa das minhas mãos.

— Hehe, Nukkun mandou bem. Que tipo de garota é ela?

— Como assim...? Quem me deu esses chocolates foi a minha mãe.

Yanami e Komari, que haviam se levantado, soltaram um suspiro e voltaram a se sentar.

— E-Eu sabia.

— Afinal, é o Nukumizu-kun. Isso era o esperado.

As três abriram a caixa e começaram a comer meus chocolates sem nem pedir permissão. Primeiro, roubaram meus chocolates. Segundo... por que eu ainda estava sendo zoado?

— Minha mãe disse para eu trazer chocolates e dividir com todo mundo antes de sair de casa... Mas, Yanami-san, isso não significa que você pode comer todos eles. Está me ouvindo?

Recuperei a caixa de chocolates enquanto organizava mentalmente a programação do dia. Depois disso, todos, exceto Komari, deveriam esperar os visitantes no ginásio. Assim que a apresentação geral terminasse, os visitantes teriam um período de tempo livre. Nessa hora, eu voltaria para a sala do clube.

Komari, por outro lado, precisaria permanecer na sala do clube do começo ao fim. Se algum visitante aparecesse antes de voltarmos, ela teria que recebê-los sozinha. Sim... Komari ficaria por conta própria.

— O-O quê...? Por que você está olhando para mim?

— Ah... não foi nada.

Pensando bem, eu ainda não tinha contado à Komari que seria o guia dos visitantes… Desviei o olhar para os documentos sobre a mesa para evitar encará-la. Logo depois, Yanami limpou a boca e se levantou.

— Lemon-chan, Nukumizu-kun. Está quase na hora. Vamos.

— Certo. Ei, Nukkun, levanta.

Levantei-me lentamente. No mesmo instante, os olhos de Komari começaram a tremer.

— Hã...? O N-Nukumizu também vai?

— Alguém me escolheu para ser o guia dos visitantes. Eu volto mais tarde. Até lá, estou contando com você.

Evitei olhar para ela. Quando me preparava para sair da sala, Komari segurou a manga do meu uniforme.

— M-Mas eu não c-consigo atender todo mundo sozinha...!

— Mas eu preciso ir. Yanami-sa...

Virei-me para pedir ajuda. Yanami e Yakishio já tinham desaparecido.

— Essas duas fugiram... Ei, para de puxar minha roupa!

Que situação complicada. Eu não conseguia escapar. Foi então que percebi uma mulher espiando pela porta entreaberta.

— Sensei!

— Precisam da minha ajuda?

A mulher entrou calmamente na sala do clube. Era Sayo Konuki, a orientadora do Clube de Literatura e também a enfermeira da escola.

Essa pessoa tinha problemas de sobra, mas, entre as duas opções, era melhor lidar com o mal menor.

— Chegou na hora certa. Agora eu preciso guiar os visitantes. A senhora pode ficar na sala do clube e receber o pessoal junto com a Komari?

— Iih!?

Komari soltou um pequeno grito e correu para o canto da sala. Konuki-sensei lambeu os lábios e se sentou em frente a ela, do outro lado da mesa.

— Deixa comigo. Apesar de tudo, a sensei sabe que não deve fazer coisas ruins com estudantes do ensino fundamental.

Entendi. Que bom saber disso.

— Então, sensei, estou deixando tudo nas suas mãos. Komari, escute o que a sensei disser.

— V-Vai morrer...!

Deixei para trás a trêmula Komari e saí da sala do clube. No dia anterior, Kaju tinha preparado chocolates para o Dia dos Namorados. Se aqueles chocolates não eram para mim, então ela os entregaria a outra pessoa hoje.

E essa pessoa era… Balancei a cabeça, zombando de mim mesmo. Tinha que ser outra pessoa. Será que Kaju e Tachibana-kun já estavam namorando? Ou ela pretendia se declarar hoje...?

Dei alguns tapinhas nas próprias bochechas para me animar e acelerei o passo em direção ao ginásio.

Não adiantava ficar pensando demais. Era melhor simplesmente deixar as coisas seguirem seu curso.

*

Uma atmosfera animada envolvia o ginásio.

Eu conseguia ver inúmeros estudantes uniformizados, vindos das escolas de ensino fundamental de toda a cidade. Havia gente suficiente para encher uma série inteira.

Quantos deles se tornariam meus meus calouros no próximo ano?

Ao longo das paredes do ginásio, os membros do conselho estudantil pareciam organizar os visitantes em filas de acordo com suas escolas.

Kaju havia me designado como guia do seu grupo.

Tachibana-kun também estava ali... Talvez Kaju estivesse tentando me apresentá-lo oficialmente.

A amiga dela, Gondou, também tinha vindo. Quem sabe ela pudesse ajudar a acalmar os ânimos caso alguma discussão acontecesse. Claro, isso supondo que ela ficasse do lado da Kaju. Enquanto eu refletia sobre isso, um suave perfume floral acariciou minhas narinas.

Uma melodia familiar começou a tocar em minha mente.

— Nukumizu-kun, posso ficar ao seu lado?

— Ah... claro.

Karen Himemiya parou ao meu lado. Ela era a heroína vencedora que havia se tornado namorada de Sosuke Hakamada. Yanami a considerava sua rival no amor.

Pensando bem... era verdade.

— Você não está com o Hakamada hoje?

— Fufu. Hoje o Sosuke vai à minha casa cozinhar para mim. Ele quer me fazer uma surpresa.

Então era esse o "compromisso" que Hakamada tinha mencionado mais cedo?

— Uma surpresa...? Mas a Himemiya-san já sabe.

— Ele sempre é tão desajeitado. Mas acho justamente essa parte dele muito fofa.

Himemiya-san não respondeu diretamente. Em vez disso, falou casualmente sobre o namorado enquanto observava o ambiente ao redor.

— Nukumizu-kun, hoje é Dia dos Namorados. Você ganhou chocolates?

...Hã? Era assim que extrovertidos provocavam introvertidos? Fechei parte do meu coração antes de responder.

— Ganhei alguns da minha mãe de manhã. Isso conta, não é?

— Ah... A Anna não te deu chocolates?

— Haha. Não especificamente para mim.

Os chocolates que estavam na sala do clube… não eram para mim.

...Estranho. Himemiya-san pareceu decepcionada. De alguma forma, até a música de fundo que eu imaginava na minha cabeça pareceu perder o volume.

— Ontem eu fiz chocolates junto com a Anna lá em casa.

Hein? Então aquele chocolate que parecia um artefato pré-histórico tinha sido feito na casa da Himemiya-san? Himemiya-san mostrou um sorriso brilhante e se inclinou um pouco para perto de mim, observando atentamente meu rosto.

— Ela se esforçou bastante para fazer aquilo. Por isso fiquei pensando... será que ela pretendia dar para alguém importante?

Alguém importante? Em outras palavras, Himemiya-san achava que Yanami era do tipo que dava chocolates para o garoto de quem gostava?

Claro, eu não pretendia negar essa possibilidade. Ainda assim... pela primeira vez, senti um pouco de pena dela.

— Bem, todos os membros do Clube de Literatura trouxeram chocolates. A ideia é deixar os visitantes experimentarem. O chocolate esférico foi o que ela fez, certo?

— Ah, foi. Nossa, vocês vão servir isso para os visitantes?

— Como posso dizer... Eu provei lá na sala do clube. Acho que não vamos oferecer o dela.

— Hein? Por quê?

Himemiya-san inclinou a cabeça de forma adorável. O motivo… As três marcas de mordida vieram imediatamente à minha mente.

— Eu não posso deixar outras pessoas comerem o chocolate da Yanami-san.

No instante em que aquelas palavras escaparam da minha boca sem que eu percebesse, a música de fundo imaginária de Himemiya-san pareceu entrar em completo caos.

— Hã!? Q-Quer dizer que... isso?

— É. Quero dizer exatamente isso.

Respondi de maneira distraída. Himemiya-san ficou completamente desnorteada.

— Ah... Nukumizu-kun. Não imaginava que você fosse tão... dedicado.

— Não sei se é dedicação ou senso de responsabilidade. Enfim... sinto que a responsabilidade é minha.

Afinal, eu era o presidente do Clube de Literatura. Não podia deixar outras pessoas comerem um chocolate que já tinha marcas de mordidas de garotas do ensino médio. Os olhos de Himemiya-san se arregalaram ainda mais depois que falei isso.

— Responsabilidade!? Nukumizu-kun, desde quando vocês dois chegaram a esse ponto!?

A reação dela estava exagerada até demais. Obviamente, era porque ela não sabia que eu estava falando da minha responsabilidade como presidente do clube.

Ainda assim... era algo tão chocante assim? Até eu fiquei um pouco assustado.

(N/SLAG: Que mal-entendido desgraçado kkkkk)

— Ah... bem... já faz bastante tempo que é assim.

— E-Entendo... Então... vocês dois já estão assim faz bastante tempo...

O que havia com aquela reação? Realmente, parecia que Himemiya-san e eu nunca estávamos na mesma sintonia quando conversávamos. Ela continuava extremamente agitada, e eu só podia suportar aquele clima constrangedor.

Nesse momento, a presidente Hokobaru subiu ao palco com um microfone nas mãos.

— Sejam todos muito bem-vindos à Escola Tsuwabuki.

Sua voz solene transformou completamente a atmosfera do ginásio em questão de segundos. Os estudantes do ensino fundamental, que conversavam animadamente até então, silenciaram imediatamente.

Sem perceber, eu também endireitei a postura. Depois de observar atentamente o público alinhado diante do palco, a presidente Hokobaru começou seu discurso com uma expressão calma e serena.

— Acho que muitos de vocês já decidiram estudar no Colégio Tsuwabuki, enquanto uma boa parte ainda está em dúvida. Mesmo assim, espero que, pelo menos hoje, deixem tudo isso de lado. Apenas levem consigo as impressões que tiverem após a visita. E, se ainda houver alunos dispostos a escolher a Tsuwabuki... para fazer parte da nossa família, eu me sentirei profundamente honrada.

Depois do discurso, a presidente Hokobaru desligou o microfone e fez uma reverência respeitosa para todos. Sua postura elegante era cativante. Fiquei observando-a, absorto, até que a voz firme de Tiara-san ecoou por todo o ginásio.

— Muito bem! Todos os guias, por favor, recebam seus visitantes!

Era a minha vez. À primeira vista, o primeiro aluno de cada fila segurava uma placa com o nome de sua escola. Eu era responsável pela turma 3-5 da Escola Momozono. Isso significava que Kaju deveria estar por ali...

Procurei entre a multidão o uniforme característico da Momozono. Então encontrei um rosto familiar, agora quase uma cabeça mais alta do que eu me lembrava.

— Você é o irmão da Nuku-chan, não é? Faz tempo.

Era uma garota alta usando o uniforme da Momozono. Eu tinha certeza de já tê-la visto algumas vezes na vizinhança.

— Ah... você é...

— Sou Gondou. Prazer em conhecê-lo.

— Ah, sim. O prazer é meu.

Respondi um pouco nervoso. Ao lado dela estava um garoto de baixa estatura. Era Tachibana-kun.

— Eu sou Tachibana. Conto com vo...

A expressão dele congelou no meio da frase.

...Ah.

— Hã...? W-Watanabe-kun?

— Ah! Isso é...

Droga. Eu não conseguia pensar em nenhuma desculpa. Os dois ficamos imóveis. Nesse instante, Kaju se aproximou, apoiou-se em mim e segurou meu braço com força.

— Certo! Na verdade, isso tudo foi uma pegadinha! Foi um sucesso, não foi, onii-sama?

— Hein? Do que você está falando...? Ai!?

Kaju beliscou minhas costas. Tachibana-kun continuou sem reagir. Kaju começou a falar rapidamente.

— Aproveitando o Dia de Visitação do Colégio Tsuwabuki, o onii-sama quis conhecer melhor o Tachibana-kun. Foi por isso que ele veio dar uma olhada em você! Poxa, onii-sama, eu já não tinha dito que o Tachibana-kun é uma pessoa muito séria?

Mesmo sem entender direito a situação, parecia que ela estava tentando me tirar daquela enrascada.

Tudo bem. Eu faria a minha parte.

— V-Você tem razão. Me desculpe, Tachibana-kun. Eu fui muito indelicado.

Tachibana-kun abaixou a cabeça e se aproximou de nós. Ainda era impossível esconder sua confusão.

— Não tem problema. Fui eu quem fez um pedido inconveniente. Conto com você hoje.

...O Tachibana-kun era realmente uma boa pessoa. Eu também era uma boa pessoa. Mesmo tendo sido um perseguidor. Gondou-san observou a cena com uma expressão atônita. Depois deu um leve tapinha no ombro de Kaju.

— O que aconteceu? Seu irmão conhece o Satoshi?

— Bem... eu explico depois. Agora estamos sem tempo! Vamos!

— Ah, espera aí, Nuku-chan.

Kaju segurou a mão de Gondou-san, e as duas saíram andando. Depois de trocarmos um olhar, Tachibana-kun e eu fomos atrás delas, deixando o ginásio.

— Desculpe. Eu apareci de repente e acabei causando problemas para você.

Tachibana-kun falou preocupado. Balancei a cabeça apressadamente.

— Não, claro que não. Ah... tem algum lugar que você gostaria de conhecer?

Esforcei-me para soar animado. Tachibana-kun mexeu um pouco nas mãos antes de tirar o guia dos visitantes.

— Hum... eu gostaria de assistir à aula aberta da sala 1-C.

Era justamente a minha turma. Mesmo que Amanatsu-sensei gostasse de reclamar, ela sempre cumpria o que precisava fazer. No guia estava escrito: "Venha observar como são nossas aulas no dia a dia."

Embora eu não gostasse muito da ideia de mostrar aquela professora preguiçosa para outras pessoas, ela sempre levava as aulas a sério. Então não haveria problema.

Enquanto caminhávamos pelo corredor que ligava os dois prédios, falei com os três.

— Bom, vamos assistir à aula aberta mais tarde. Ainda falta um pouco para começar. Tem algum outro lugar que vocês gostariam de visitar?

Kaju, ainda de mãos dadas com Gondou-san, virou-se para mim.

— Onii-sama, leve a gente aos lugares onde você costuma ficar!

— Aos lugares onde eu fico? Não vejo muito sentido nisso.

Kaju fez um bico de insatisfação.

— É porque a Kaju quer conhecer como é o dia a dia do onii-sama. Depois que você entrou no ensino médio, quase nunca mais fala sobre a escola comigo.

Porque eu simplesmente não tinha nada para contar. Além da sala de aula e da escada de emergência, os lugares onde eu costumava ficar eram...

— Bem... posso mostrar a tubulação de água da escola———

— Onii-sama, existe algum outro lugar?

Kaju me interrompeu.

— Mas a torneira em frente à sala de Artes foi trocada———

— Mais. Algum. Lugar. Onii-sama?

Ah.

Por algum motivo, Kaju estava um pouco assustadora. Mas havia mais alguma coisa?

— Bem... tem a sala do Clube de Literatura... mas vocês não devem ter interesse nisso, né?

Era a única coisa que consegui pensar. No instante seguinte, os olhos de Kaju brilharam.

— Eu vou! Na verdade, eu até preparei um manuscrito para levar ao Clube de Literatura!

Um manuscrito...? Desde quando essa era uma opção?

— Ah... por que você vai levar isso?

— A Kaju já pensava nisso faz tempo. Seria tão bom publicar um texto meu na mesma edição da revista do clube que um texto do onii-sama. Ver o nome dos irmãos juntos no índice seria como se estivéssemos publicando uma obra em conjunto. Só de imaginar isso já fico muito feliz!

— Eu não entendo esse sentimento... mas, por coincidência, hoje vamos montar a revista do clube. Podemos tentar incluir o seu texto.

— Sério!? Ei, Gon-chan, Tachibana-kun! Vocês dois também vêm?

Gondou-san sorriu e deu de ombros.

— Eu não me importo. E você, Satoshi?

— Ainda falta um tempo para a aula aberta começar. Eu vou também. Para falar a verdade... fiquei um pouco curioso sobre o... Clube de Literatura.

Ah.

Esse cara claramente não estava interessado. Aposto que muita gente nem sabia diferenciar o Clube de Jardinagem do Clube de Literatura.

Desculpem por fazer todos se preocuparem tanto… No momento, ele era muito mais maduro do que eu. Era mais atencioso, mais gentil e mais bonito. Mas eu era mais alto. E também mais velho. Além disso, meu tipo sanguíneo era A. Eu tinha vantagem quando o assunto era doar sangue.

...Isso mesmo.

Empate.

Sem saber que eu já havia iniciado uma competição unilateral contra ele, Tachibana-kun apenas sorriu calorosamente para mim.

— Ouvi dizer que o Nukumizu-san já é o presidente do Clube de Literatura, mesmo estando apenas no primeiro ano. Isso é incrível.

— Hã? Ah... bem, alguém precisava assumir o cargo. Acho que, no fim das contas, foi uma questão de responsabilidade.

Tachibana-kun realmente era uma boa pessoa. Cocei a bochecha para esconder meu constrangimento. Eu já estava começando a confiar nele. Por isso, relaxei a expressão e entrei no prédio.

...Mas isso não significava que eu já aprovava o relacionamento dele com a Kaju, ouviu?

*

Estendi a mão em direção à porta da sala do clube, localizada no canto do prédio oeste, mas parei pouco antes de tocar na maçaneta.

É mesmo... A Komari e a Konuki-sensei estavam aí dentro...

— O que foi, onii-sama?

Kaju olhou para minha mão, intrigada.

— Tenho uma pergunta. Kaju, Gondou e Tachibana estão na mesma série que você, certo? Eles têm quatorze anos?

Dentro daquela sala estava a pior professora da Tsuwabuki... pelo menos quando o assunto era bom senso como educadora. Depois de receber um aceno de confirmação dos três, segurei a maçaneta.

Sensei... por favor.

— Sou o Nukumizu. Trouxe os visitantes.

Clac.

Abri a porta com cuidado. Konuki-sensei estava de costas para mim, agachada. Quanto à Komari, ela permanecia encolhida no canto da sala, usando uma cadeira como escudo. Enquanto isso, a sensei balançava uma varinha de brinquedo para gatos diante dela.

— Muito bem, muito bem. Venha cá, bebê Komari.

— Fuuu!

Komari respondeu soltando um chiado ameaçador. Hum… Ainda era uma cena apropriada para todas as idades. Estava dentro do que eu esperava. Assim, fiz um gesto para os três entrarem.

— Entrem, fiquem à vontade. Sentem onde quiserem. Vou preparar um chá para vocês.

— Ara, temos visitas. Sejam bem-vindos.

……….

Hã? Os três continuavam parados na entrada. Nenhum deles entrou. Kaju perguntou com cautela:

— Hã... o que aconteceu com a Komari-san...?

Naturalmente, era nela que toda a atenção estava concentrada. Olhei para a frente. Konuki-sensei assentiu e começou a explicar.

— Vou pular os detalhes. Eu queria me aproximar dela como orientadora do clube... e foi assim que as coisas acabaram.

Eu até queria saber quais eram esses "detalhes", mas, se ela dizia isso… Não havia o que fazer. Afinal, Konuki-sensei era desse jeito.

Os três visitantes finalmente se sentaram, ainda confusos. Servi chá e chocolates para eles.

Enquanto observava a sala, Gondou-san perguntou curiosa:

— O que vocês costumam fazer no Clube de Literatura?

— Principalmente escrevemos romances. Também produzimos uma revista do clube e, às vezes, lemos o mesmo livro para depois discutir nossas impressões.

— Então é por isso que tem tantos livros aqui.

— Isso mesmo.

E essa era toda a explicação. Minha confiança começava a desaparecer. Ainda assim, eu já havia me preparado para uma situação dessas.

— Ah... temos uma ficha de apresentação. Que tal vocês preencherem? Depois podemos grampeá-la junto com os textos e transformar tudo em uma edição especial da revista do clube.

Recitei rapidamente as falas que havia ensaiado enquanto distribuía as fichas para todos. Tachibana-kun olhou para a folha e levantou a cabeça.

— Eu não costumo ler romances. Posso escrever sobre uma revista ou um mangá?

— Claro. Pode escrever até sobre um filme, anime ou jogo. Escreva sobre o que quiser.

...Ótimo. Enquanto estivessem escrevendo, eu não precisaria conversar. Foi isso que pensei. No entanto, por algum motivo, Kaju não começou a escrever. Ela apenas olhava ao redor da sala.

— O que foi, Kaju? Não sabe sobre o que escrever?

— Hum... posso... entregar meu manuscrito para o onii-sama?

Pensando bem, eu realmente tinha dito algo assim. Assenti. Kaju abaixou a cabeça, um pouco envergonhada, e tirou uma folha dobrada.

Peguei o manuscrito. Era um conto curto. Tinha aproximadamente duas folhas A4 de extensão.

— É a primeira vez que ouço dizer que você escreve histórias. Quando começou?

— Ontem, eu fiquei tão nervosa que não consegui dormir... então uma ideia simplesmente surgiu. Foi a primeira vez que escrevi um romance. Estou com muita vergonha.

Ela simplesmente teve uma ideia... e escreveu seu primeiro conto inteiro em uma única noite...? Bom, ainda faltava analisar o conteúdo. Apesar da minha aparência, eu já acumulava alguns meses de experiência escrevendo.

Respirei fundo, contive o nervosismo e comecei a ler.

*

Relatório do Clube de Literatura — Edição Especial

"Como um Filme Japonês Ruim", Por Kaju Nukumizu

A cozinha sombria estava envolta por um silêncio frio.

A cena diante dos meus olhos me lembrava um filme japonês que eu havia assistido em algum momento, embora já não conseguisse recordar seu título.

Todos os dias, às seis da manhã, eu preparava o café da manhã sozinha naquele lugar.

Crac.

Arranquei a cabeça de uma sardinha seca e retirei suas vísceras.

Crac.

Depois de repetir o processo dez vezes, coloquei todos os peixes em uma panela com água. Enquanto o caldo fervia, preparei apenas mais um prato. Cortei em fatias o gengibre cru favorito do meu irmão e o misturei com gergelim e folhas verdes, formando um acompanhamento simples.

Meu irmão e eu morávamos juntos havia dez anos. Para mim, esse era um período inacreditavelmente longo. Naquela manhã, continuei seguindo minha rotina de sempre.

...Mesmo sabendo que aquele seria o último dia em que viveríamos juntos.

O relógio marcava seis e meia. Normalmente, naquele horário, meu irmão se sentava à mesa e começava a ler o jornal.

Eu estava preocupada. Com uma leve ansiedade no peito, caminhei silenciosamente até o corredor. Ao abrir a porta de correr do quarto, encontrei meu irmão parado bem no centro do cômodo.

Ele já estava vestido. A seus pés havia uma mala.

— Nii-san, está na hora do café da manhã.

Ele apenas assentiu. Voltei para a cozinha e acendi o fogão. Meu irmão entrou carregando o jornal. Ligou a televisão e sentou-se à mesa. Enquanto assistia ao noticiário, continuava lendo o jornal, quase como se estivesse conferindo as respostas de uma prova.

Nesse intervalo, preparei a sopa de missô. O único ingrediente era tofu cortado em fatias. Usei missô vermelho Hatcho para o caldo.

Às sete horas em ponto, nós dois tomávamos café da manhã juntos. Era um hábito que nunca havíamos abandonado durante aqueles dez anos. Nem mesmo no Ano-Novo.

Nós dois sempre achávamos isso um pouco engraçado.

Ah...

Pensando bem, houve apenas uma única exceção. Foi naquele único dia. O primeiro dia em que meu irmão e eu acordamos debaixo do mesmo cobertor. Naquela manhã, fiz birra como uma criança que não queria sair da cama.

Então, com sua expressão habitual, meu irmão acabou assumindo a cozinha. Achei que ele fosse se atrapalhar, mas, para minha surpresa, preparou uma tigela perfeita de sopa de missô.

No fim, ainda conseguimos tomar café às sete horas.

Desde aquele dia, nunca mais deixei de cuidar dessa tarefa, nem uma única vez.

Observei atentamente a chama azul do fogão enquanto ajustava o botão com cuidado.

Depois que as sardinhas secas eram colocadas na água, ela não podia ferver. Era preciso extrair o caldo lentamente antes de adicionar as fatias de tofu. Também era necessário controlar a intensidade da chama para que nada passasse do ponto.

Levava trinta minutos para uma tigela de sopa de missô ficar pronta. Meu irmão gostava do som que eu fazia enquanto preparava o café da manhã.

...Como sempre, preparei-me para desligar o fogo assim que senti o calor atravessar o tofu.

Mas meus dedos giraram o botão na direção oposta. A chama azul aumentou, queimando o fundo da panela. Lá dentro, os pedaços de tofu ferviam e giravam sem parar.

Durante aqueles dez anos, eu nunca havia deixado meu irmão cozinhar. Agora, todo esse tempo parecia ter se transformado em ingredientes e se dissolvido naquela sopa de missô.

Era um sentimento difícil de explicar. Ergui a cabeça de repente. Meu irmão continuava resolvendo as palavras cruzadas do jornal. Por algum motivo, senti que eu era uma completa idiota.

Desliguei o fogo às pressas e acrescentei o tempero de costume.

O relógio marcou sete horas.

Meu irmão e eu nos sentamos frente a frente e saudamos mais uma manhã que jamais havia deixado de acontecer durante aqueles dez anos.

Na entrada da casa, ele calçou seus habituais sapatos de couro e pegou a mala. Dentro dela estavam os dez anos que meu irmão passara naquele lugar.

Todo o resto permaneceria naquela casa.

Provavelmente… ele nunca mais voltaria depois de partir. Talvez fosse melhor mantermos distância por algum tempo.

Eu ainda não conseguia acreditar que estava me despedindo dele por um motivo tão vago. Essas palavras haviam sido empurradas de um dia para o outro até chegarem àquele momento. Depois de um longo silêncio, meu irmão finalmente falou, quase num sussurro.

— Será que ela vai ficar bem sozinha?

Ele realmente era um péssimo irmão. Sempre tomava suas próprias decisões, não importava o que eu dissesse. Foi a primeira vez que percebi a raiva que sentia.

Olhei para ele com indignação. Mas, em seus olhos, encontrei apenas ansiedade.

Respirei fundo.

Então coloquei delicadamente a mão sobre a pequena saliência logo abaixo do meu umbigo e a acariciei.

— Vai ficar tudo bem. Afinal... eu não estou sozinha.

Meu irmão arregalou os olhos, completamente surpreso. Em resposta, sorri para ele com a maior inocência do mundo.

— Nós sempre estaremos juntos, nii-san.

(N/SLAG: Que merda foi essa que eu li agora / Shisuii: Escrita deixou a desejar, narrativa faltou elementos e o plot simplesmente de quebra a cabeça.)

*

...Entendo.

Coloquei o manuscrito sobre a mesa.

Que tipo de expressão eu deveria fazer depois de ler um conto como esse, escrito pela minha irmã mais nova...? Senti uma estranha frustração. Kaju me observava com preocupação.

— E então? Como ficou? Ainda acho que ficou meio infantil comparado aos textos do onii-sama.

— Não... ficou muito bom. Sério. É impressionante, principalmente considerando que foi sua primeira vez escrevendo.

— Sério!?

O rosto de Kaju se iluminou imediatamente.

— Então... você não vai usar um pseudônimo? Vai publicar com seu nome verdadeiro?

— Vou!

Ela realmente pretendia publicar usando seu próprio nome… Entendi… Komari surgiu do nada, engatinhando até a mesa, e pegou o manuscrito sem pedir permissão. Depois de terminar a leitura, olhou para mim como se eu fosse lixo.

— E-Entregue-se para a polícia agora.

— Isso não é um romance do tipo I-novel, tá!? Não tem nenhum elemento baseado na vida real!

(N/SLAG: O I-novel (shishosetsu ou watakushi shosetsu) é um gênero de literatura japonesa em que o autor conta histórias baseadas na própria vida)

Tomei o manuscrito de volta das mãos dela.

— Bem... primeiro precisamos imprimir isso. Hum...

A loja de conveniência mais próxima ficava um pouco longe. Eu queria usar a sala de impressão da escola, mas o clube já não tinha mais orçamento. Enquanto quebrava a cabeça procurando uma solução, Konuki-sensei arrumou o cabelo e se levantou.

— A sensei pode imprimir isso na sala dos professores. Me empreste o manuscrito.

— Hein? Tem certeza?

— Deixe comigo. Apesar das aparências, a sensei é a orientadora do Clube de Literatura, sabia? Ainda se lembra desse detalhe?

— Um pouco.

Quando já estava prestes a sair da sala do clube, a sensei parou de repente. Parecia ter se lembrado de alguma coisa.

— Não fujam enquanto eu estiver fora, está bem? A sensei vai ficar bem triste se voltar e não encontrar ninguém.

— A Komari vai ficar aqui. Pode ficar tranquila.

— Que bom.

Konuki-sensei piscou para Komari antes de deixar a sala.

— Muito bem, agora as fichas de apresentação... Komari, para de me chutar por baixo da mesa.

Enquanto suportava os chutes silenciosos de Komari, comecei a ler as fichas dos três visitantes.

Hum...

Então a Gondou-san gostava de dramas históricos.

— Você também lê romances históricos? A propósito, sabia que a série Espadachins Furiosos foi adaptada de um romance?

— Eu comecei pelo seriado também. Já consegui todos os DVDs lançados entre 1978 e 1989, mas ainda estou só na metade.

Gondou-san estufou o peito com orgulho. Ela era uma fã de verdade.

— A Asami é completamente apaixonada pelo Ken-sama — Tachibana-kun soltou uma risadinha.

Pensando bem, o protagonista de Espadachins Furiosos era natural de Toyohashi. O ator já havia participado de inúmeras produções famosas e, além disso, sempre aparecia nas apresentações dos festivais da cidade.

— O mesmo vale para o Satoshi, né? Na apresentação do Festival dos Fantasmas do Clube Infantil, você até fez aquela dança de samba imitando o Ken-sama. Fui eu quem teve que te ensinar quando você vivia esquecendo as poses, lembra?

— Tá bom, tá bom... isso é vergonhoso.

Gondou-san respondeu em tom provocador. Tachibana-kun apenas balançou a mão, envergonhado.

— Hein? Vocês dois já se conheciam?

Os dois trocaram um olhar antes de responder.

— A Asami e eu estudamos na mesma turma durante o ensino fundamental 1.

— O Ken-sama também estudou na nossa escola, sabia?

Ah...

Esses dois eram como a Yakishio e o Ayano? Observei os dois conversando animadamente enquanto voltava minha atenção para Kaju. Ela não parecia incomodada. Continuava escrevendo alguma coisa com o lápis...

Ou pelo menos era o que parecia.

...Segundo certa garota, qualquer garota que não fosse amiga de infância era uma "gata traidora".

Mesmo assim, se eles apenas tinham estudado na mesma escola, mal dava para chamá-los de amigos de infância. Parecia cedo demais para concluir que havia uma "gata traidora" dentro da minha própria casa.

Baseando-me em toda a minha vasta experiência amorosa... em jogos e obras 2D... acabei mergulhando em meus próprios pensamentos. Nesse momento, Kaju me entregou sua ficha de apresentação.

— Pronto, onii-sama. Terminei.

Certo...

O que será que Kaju andava lendo ultimamente?

Hum...

Não eram apenas light novels. Também havia mangás shoujo e romances.

— Ah, então você também leu a série Reino de Lápis-Lazúli? Pegou emprestado na biblioteca da Momozono?

— Sim. Foi uma recomendação da bibliotecária.

Observando melhor...

Naquela lista havia muitos livros que eu mesmo havia pegado emprestados quando estudava na Momozono.

Não. "Muitos" era pouco. Será que aqueles eram todos os livros que eu tinha retirado da biblioteca naquela época? Se não fosse coincidência. Será que ela tinha consultado todos os registros de empréstimos da biblioteca da Momozono?

— Hum... Kaju... esses livros... você...

— Sim? O que foi, onii-sama?

Kaju inclinou a cabeça de maneira adorável.

— Você tem um gosto bem refinado.

— A Kaju também acha.

Muito bem. Vamos fingir que isso resolveu o assunto.

Depois de algum tempo, todos terminaram de preencher suas fichas. Komari colocou silenciosamente sobre a mesa os manuscritos já impressos.

— Organize as páginas na ordem certa e grampeie tudo. As fichas de apresentação vão na parte interna da capa...

— O-Onde está a acusação criminal da sua irmã?

Komari empurrou meu braço de leve. Ah. Eu tinha me esquecido. Além disso... aquilo era um romance.

— Então... vamos colocar primeiro o conto da Kaju e depois o meu, tudo bem?

— Este é o romance do Nukumizu-san?

Tachibana-kun apontou para o título.

"Minha Namorada Tem um Namorado, Mas Eu Não Esperava Que Não Fosse Eu."

Assenti. Era um romance de romance puro (vanilla) que eu vinha escrevendo havia bastante tempo. Embora... tivesse uma dose relativamente alta de elementos de NTR.

— Vamos colocar apenas um marcador por enquanto. Depois acrescentamos o conto da Kaju.

Agora bastava esperar a versão impressa do manuscrito da Kaju para começarmos a grampear tudo.

...Hm?

Tachibana-kun olhava inquieto para todos os lados. Em seguida, conferiu o relógio na parede.

Ah, verdade. Ele queria assistir à aula aberta da turma 1-C.

— Tachibana-kun, você ainda vai para a sala da 1-C, não é? Podemos terminar a revista do clube depois. Vá sem se preocupar.

— Ah, sim! Muito obrigado!

Tachibana entrou em pânico e se levantou às pressas. Eu também ia segui-lo, mas Komari agarrou minha camisa.

— V-Você não vai me deixar aqui sozinha... vai?

— Fica tranquila. A Konuki-sensei já deve estar voltando.

— E-Eu também não quero isso.

Eu sentia exatamente o mesmo, mas ela teria que aguentar. Como Komari não soltava minha camisa de jeito nenhum, tentei convencê-la.

— Relaxa. A Yanami-san já deve estar chegando. Hum... acho que ela disse que viria daqui a pouco.

— M-Mentiroso.

Como ela descobriu? Desviei o olhar, sem jeito. Komari me encarou furiosamente.

— S-Seus olhos de peixe morto ficam muito mais brilhantes q-quando você está mentindo.

Já que tinha sido descoberto, não havia mais motivo para insistir. Resolvi mudar de estratégia.

— Komari, vem aqui um instante. Não se preocupa. Eu não vou fazer nada.

— Ueh!? O-O que você está fazendo...?

Levei Komari até o canto da sala do clube.

— Escuta. O resultado dessa Visitação influencia diretamente o número de novos membros que vamos conseguir no ano que vem. Então receber bem a Kaju e os amigos dela é...

— E-Eles ainda estão no segundo ano do fundamental. Eles só entram aqui daqui a dois anos, c-certo?

— É.

— A-Além disso, outras pessoas vão aparecer depois de visitar o Clube de Cultura. P-Precisamos recebê-las também. E... v-você está perto demais de mim. Afasta.

Entendi. Ela tinha razão. Nossa vice-presidente era surpreendentemente confiável.

— Mas também não podemos simplesmente ignorar a Kaju e os amigos dela. Podemos nos dividir em dois grupos e...

— E-Eu já falei! V-Você está perto demais!

Komari me empurrou com força.

— Minha irmã vai acabar ouvindo a gente. Fala mais baixo, Komari.

— E-Eles já f-foram embora!

...Hã? Olhei para trás. Os três já tinham desaparecido da sala do clube.

— Espera... para onde todo mundo foi?

— Sua irmã me mandou uma mensagem dizendo que eles estavam indo embora.

Komari mostrou rapidamente a tela do celular. Ah, verdade. A Kaju também tinha dito que queria assistir à aula aberta da nossa turma.

Ou seja… No fim das contas, eu simplesmente tinha encurralado a Komari no canto da sala e ficado cochichando com ela. Isso não fazia de mim um criminoso? Pelo menos a Konuki-sensei não tinha visto...

...Hm?

Um arrepio familiar percorreu meu corpo. Virei-me lentamente. Konuki-sensei espiava pela porta entreaberta.

— Está tudo bem. A sensei vai observar vocês dois e garantir que não ultrapassem a linha. Então sigam seus desejos e desafiem seus próprios limites.

— Eu não quero ultrapassar nem desafiar limite nenhum.

Afastei-me de Komari e arrumei meu uniforme.

— Sensei, eu ainda preciso acompanhar os visitantes. O resto fica com a senhora. A Komari também——

Antes mesmo que eu terminasse de falar, Komari acertou minhas costas com o celular.

— Ai! O que foi agora?

— É p-por isso que eu odeio esse seu jeito!

— Eu falei que dói! Sensei, me ajuda aqui.

Ao ouvir meu pedido de socorro, Konuki-sensei abriu um sorriso satisfeito.

— Que bom. A sensei vai apoiar vocês dois no desenvolvimento desse tipo de hobby.

...Por favor, não apoie. E, de preferência, me ajude.

*

Aquilo tinha sido cansativo.

Tudo bem, eu realmente tinha assustado a Komari… Mas precisava ficar tão brava assim?

Saí correndo do prédio oeste. Logo avistei os três caminhando pelo corredor em direção ao prédio novo.

— Desculpem pela demora.

— Onii-sama... você realmente deixou a Komari-san para trás?

Kaju perguntou sem muito entusiasmo. Antes mesmo que eu pudesse responder, ela acelerou o passo. Acho que até a Kaju estava brava comigo. Por via das dúvidas, mantive certa distância dela e caminhei ao lado de Tachibana-kun.

— Desculpe, onii-san. Pode ir na frente.

— Não, quem deve pedir desculpas sou eu. Nós só tivemos uma pequena discussão...

...Hã? Ele tinha acabado de me chamar de onii-san? Espera… Não me diga que a próxima frase seria algo como: "Por favor, deixe a Kaju comigo."

Meu coração disparou. No entanto, Tachibana-kun apenas falou seriamente:

— Muito obrigado por nos guiar hoje.

Tudo o que consegui responder foi um vago:

— Ah... quer dizer... bem...

Nem eu sabia o que dizer. Enquanto isso, observei discretamente Kaju. Ela caminhava à frente, conversando normalmente com Gondou-san. Nenhuma das duas prestava atenção em mim.

— Tachibana-kun... o que você——

"O que você sente pela Kaju?" Engoli a pergunta antes que ela saísse da minha boca.

— O que foi?

— Ah... você pretende estudar na Tsuwabuki, não é?

Para minha surpresa, ele sorriu sem graça.

— Eu realmente gostaria de estudar no Colégio Tsuwabuki, mas não sou tão bom nos estudos quanto a Asami ou a Kaju-san. Acho que minhas notas não são suficientes para conseguir entrar.

Hã? Então ele nem pretendia estudar na Tsuwabuki?

— Então por que veio participar da visita hoje?

Tachibana-kun abaixou a cabeça, envergonhado.

— É que... existe uma pessoa com quem eu precisava conversar de qualquer jeito.

...!

Engoli em seco. Precisava perguntar.

— Essa conversa... tem a ver com amor?

Ao ouvir isso, Tachibana-kun parou de andar e arregalou os olhos.

— Ah... a Kaju-san já comentou com você? Poxa... eu tinha pedido para ela guardar segredo.

— Mas você ainda pretende dizer isso hoje, não pretende?

Tachibana-kun assentiu.

— Sim. Hoje eu finalmente quero reunir coragem para transmitir meus sentimentos.

Então… Ele ainda não tinha se declarado. Aquilo me trouxe um certo alívio. Mas eu não tinha tempo para relaxar.

— Vocês dois! Já vai começar!

A voz de Kaju interrompeu meus pensamentos. Já estávamos diante da sala da turma 1-C. Kaju e Gondou-san acenavam para nós. Tachibana-kun respirou fundo e fez um pequeno gesto com a mão na direção de Kaju.

...Era mesmo isso?

Depois de tantos mangás e comédias românticas que eu havia lido, eu já sabia muito bem o que aquilo significava.

A história daqueles dois estava prestes a chegar ao clímax. E o que os aguardava era...

Uma confissão.

*

A aula aberta da Amanatsu-sensei já havia começado.

As carteiras e cadeiras usuais estavam reunidas em um canto da sala. O quadro branco ficava ao lado da janela, e todas as cadeiras tinham rodinhas, permitindo que cada visitante escolhesse livremente onde se sentar.

Depois de ver Kaju e seus amigos encontrarem seus lugares, decidi permanecer próximo à entrada da sala e apenas acompanhar a aula. Pelo que eu lembrava, as aulas abertas serviam justamente para que os alunos visitantes conhecessem como eram as aulas da escola.

Pensando bem... eu nunca tinha participado de uma aula aberta como aquela.

Quando as dezenas de visitantes finalmente se acomodaram, Amanatsu-sensei caminhou até a frente do quadro.

— Bem, eu sou a Amanatsu. Dou aulas de História Mundial nesta escola.

Todos voltaram sua atenção para ela. Ela pigarreou e pegou o livro didático.

Amanatsu-chan... você representa os professores da Tsuwabuki hoje. Estou contando com você.

— Algumas pessoas dizem que não faz sentido decorar datas nas aulas de História e que nunca vão usar isso depois de adultos. Eu acho que esse tipo de gente devia simplesmente morrer.

...Estou contando... com você...?

— Muito bem. Agora quero perguntar a opinião de vocês sobre as aulas de Educação Física. Eu já sei o que vocês vão dizer: "Quando formos adultos, ninguém vai ganhar a vida pulando cavalo ou fazendo espacate seguido de cambalhota." Mas como a sensei já é adulta, vou resumir. Certo, vamos começar a aula.

Clac.

Amanatsu-sensei retirou a tampa do marcador. Parecia que a escuridão dentro do coração dela havia diminuído. Agora sim começaria uma aula normal...

— Ah, ali está o presidente do Clube de Literatura. Nukumizu!

Ela me envolveu na aula de repente.

— Hein? Em que posso ajudar?

— Qual é o romance mais antigo que você conhece?

Todos estavam olhando para mim. Fiquei completamente desconcertado e forcei minha memória a trabalhar.

— Hum... O Conto de Genji, por exemplo...?

Amanatsu-sensei assentiu e começou a escrever no quadro.

— Exatamente. O consenso é que O Conto de Genji seja o romance mais antigo do mundo. Ele foi escrito no início do século XI. Na mesma época, o Império Bizantino vivia seu período de maior prosperidade no leste europeu.

Ela continuou falando sem sequer fazer uma pausa.

— Enquanto isso, o Japão vivia o período Heian. Nessa época, uma dama da corte escreveu um romance levemente erótico. A obra circulou por todo o palácio e chegou até o imperador Ichijo. Já os bizantinos venceram a Batalha de Clídio e capturaram mais de dez mil prisioneiros. Depois, os romanos do Oriente arrancaram os olhos deles e os enviaram de volta ao próprio país...

Finalmente ela tinha entrado no modo professora. Depois disso, Amanatsu-sensei lançou alguns temas para discussão entre os visitantes. A aula prosseguiu de maneira organizada.

O tema parecia girar em torno das diferenças de mentalidade e do senso comum entre pessoas de épocas e culturas distintas.

A atmosfera ficou mais leve. Em seguida, Amanatsu-sensei dividiu os visitantes em dois grupos.

— Com base no que ouviram até agora, este grupo será composto por moradores de Paris do século XIV. O outro grupo representará japoneses do século XXI que viajaram no tempo. Os dois lados deverão pensar em maneiras de conter a Peste Negra naquela época.

Ela cruzou os braços e permaneceu orgulhosamente entre os dois grupos.

— A sensei será a mediadora. Ah, e eu vim do século XXIII. Minha personagem é uma conspiracionista extremamente teimosa.

Que tipo de cenário maluco era esse? Mesmo assim… A aula estava indo muito bem.

Amanatsu-sensei apresentava temas adequados para os alunos mais tímidos, fazia com que interagissem naturalmente e, aos poucos, conduzia todos para que expressassem suas opiniões.

Eu estava genuinamente impressionado com a maneira como ela conduzia a aula.

Foi então que...

Clac.

Ouvi o som de uma câmera. Virei-me. Shikiya-san estava parada ao meu lado, procurando o melhor ângulo para tirar uma foto com o celular.

— Ah, Shikiya-senpai. O conselho estudantil também precisa registrar tudo?

— Registro fotográfico... para... o relatório...

Ela conferiu as fotos que havia acabado de tirar. Parecia satisfeita. Assentiu discretamente e, com seus olhos claros e quase sem expressão, voltou a observar a sala.

— Apesar da aparência dela... a Amanatsu-sensei... tem uma reputação... muito boa... quando o assunto é dar aula...

— É verdade. Apesar da aparência, ela realmente dá ótimas aulas.

— Sim... apesar da aparência...

Shikiya-san guardou o celular por um instante e ficou parada ao meu lado, balançando levemente o corpo. Enquanto isso, a discussão na sala se tornava cada vez mais animada.

Kaju interpretava uma moradora de Paris do século XIV. Ela explicava que ervas medicinais eram capazes de curar venenos. Do outro lado, os alunos representando japoneses modernos ouviam aquilo completamente perplexos.

Mesmo assim, todos continuavam balançando a cabeça em concordância. Até eu começava a acreditar que Kaju estava certa só de ouvi-la falar.

— Será que a Peste Negra podia mesmo ser curada com ervas...?

— Não... tem como... né...?

Shikiya-san murmurou para si mesma. Logo em seguida… tirou uma foto minha.

— Por que tirou uma foto de mim?

— Sinto que... alguém... vai querer...

Ela respondeu algo estranho e voltou a mexer no celular.

— Até faz sentido alguém querer uma foto sua, senpai. Mas ninguém vai querer uma minha, né?

Soltei uma risada sem graça. Shikiya-san parou de digitar.

— Você... quer... uma foto minha?

— Hã?

Ela inclinou a cabeça. Suas íris claras refletiam vagamente meu rosto.

— Ah... bem... eu poderia verificar se existe alguma demanda geral... ou perguntar se alguém quer a foto...

Comecei a dizer um monte de bobagens sem sentido. De repente, Shikiya-san virou-se completamente para mim e encostou o ombro no meu.

Em seguida, estendeu o braço.

Clac.

Ela apertou o botão da câmera frontal.

— Eu vou te dar esta. ...Não... compre de outras pessoas, tá...?

Meu celular vibrou. Shikiya-san já havia me enviado a foto.

— Hã...? Ah... essa foto é para mim?

Shikiya-san assentiu. Sem jeito, voltei o olhar para a sala de aula. Amanatsu-sensei irradiava uma aura sombria.

— Vocês dois, parem de ficar exibindo esse clima meloso aqui. Vão paquerar em outro lugar.

Calma aí, Amanatsu-chan. A senhora está falando isso na frente de alunos do ensino fundamental.

Depois de despejar sua reclamação venenosa, Amanatsu-sensei voltou a si e continuou a aula. Soltei um suspiro de alívio. Então, Shikiya-san e eu passamos a observar a aula em silêncio.

Pensando bem, desde a véspera de Natal nós ainda não tínhamos tido a oportunidade de conversar a sós. Naquele dia, Shikiya-san tinha demonstrado um lado um pouco diferente do habitual.

Sob a luz das velas, suas bochechas levemente coradas, misturadas ao aroma de maquiagem e perfume, haviam ficado profundamente gravadas em minha memória.

Às vezes, aquela cena até aparecia nos meus sonhos. Sempre que nos encontrávamos, nós acenávamos um para o outro.

Mas...

Ainda não éramos exatamente amigos. Mais do que simples conhecidos, menos do que amigos... talvez fosse essa a melhor definição.

— Hum... como você tem passado?

Mantive os olhos voltados para a frente e falei baixo para não despertar a ira da Amanatsu-sensei.

— Tenho estudado... e trabalhado... ...Não tenho tido tempo... para brincar...

Shikiya-san não era apenas integrante do conselho estudantil. Ela também era uma aluna exemplar. Apesar da aparência tranquila — ao menos fisicamente —, sua rotina era bastante corrida.

Na verdade, eu queria voltar ao café de jogos de tabuleiro com todo mundo mais uma vez. Só não tinha coragem de chamar o pessoal. Enquanto eu passava o tempo inteiro hesitando, Shikiya-san murmurou:

— Como você... parece gostar... de jogos de tabuleiro... eu comprei um...

Hum? Será que eu tinha pensado em voz alta?

— Ah... você está falando daquele café de jogos? Da próxima vez eu chamo todo mundo...

— Esse jogo... é só... para duas pessoas...

Nesse caso, não dava para ir todo mundo. Por exemplo, a Yanami certamente reclamaria por não conseguir jogar logo na própria vez.

— Bem... então nós dois podemos ir da próxima vez.

— Sim...

Shikiya-san assentiu discretamente. Cocei a bochecha para esconder minha vergonha. O que era essa atmosfera estranhamente tranquila?

— Minha irmã participou da excursão do conselho estudantil no ano passado. Senpai, você também participou?

Mudei de assunto para aliviar aquele constrangimento. Shikiya-san voltou o olhar para mim.

— Participei... A Kaju Nukumizu... se parece... muito com você...

— Não, não... nós somos... ah, espera, nós parecemos mesmo!?

Acabei protestando enquanto refletia sobre o que ela havia dito. Era óbvio. A Kaju e eu nos parecíamos muito. Mesmo assim, ninguém jamais tinha comentado isso comigo todos esses anos.

— É, somos irmãos, afinal.

Enquanto isso, Tachibana-kun continuava interpretando um cidadão do século XXI. Ele explicava sua teoria de que a doença poderia ter origem em infecções nas plantas. Até a Kaju, representando uma moradora de Paris do século XIV, concordava repetidamente com suas explicações.

Os dois grupos continuaram trocando opiniões. A aula estava chegando ao fim. Depois do debate, Amanatsu-sensei começou a fazer um resumo. Tachibana-kun prestava atenção em cada palavra.

………

Pelas conversas que tivemos mais cedo, ele realmente não parecia ser uma pessoa ruim.

Na verdade… Era um cara muito bom.

Kaju ainda era nova demais para ter um namorado.

Esse sentimento dentro de mim permanecia o mesmo. Mesmo assim… Ainda era muito melhor do que vê-la sendo levada por algum sujeito esquisito.

Perdido nesses pensamentos, percebi que a aula já havia terminado. Amanatsu-sensei apagou o quadro branco.

— Lembrem-se, pessoal. O senso comum muda de uma época para outra. Da mesma forma, aquilo que parece natural também muda conforme o grupo ou a posição de cada pessoa. Mesmo que algo pareça errado pelos padrões atuais, procurem entender por que aquilo surgiu e por que as pessoas daquela época agiam daquela maneira. Se vocês tiverem uma base em História, poderão refletir sobre essas coisas com calma no futuro.

Depois de dizer isso solenemente, ela apagou a última palavra escrita no quadro e se virou.

— Bom, é nisso que eu costumo pensar durante as aulas. Mas, na prática, eu só sigo normalmente o conteúdo do currículo. Se pretendem entrar na Tsuwabuki, estudem direito.

Com mais algumas observações aleatórias, Amanatsu-sensei encerrou a aula. Naquele instante, alguém começou a bater palmas. Era Kaju. Logo depois, os demais alunos a acompanharam, enchendo a sala com aplausos.

Até Amanatsu-sensei pareceu um pouco envergonhada. Ela virou de costas e fingiu continuar limpando o quadro.

— Certo, a aula acabou. Não tenho mais nada para ensinar.

Era hora de levar os três de volta para a sala do clube. Será que a Komari estava conseguindo conviver em paz com a Konuki-sensei? Foi então que Amanatsu-sensei pareceu se lembrar de algo.

Ela virou a cabeça.

— Ah, alguém pode me ajudar a devolver o quadro branco e as cadeiras? Peguei tudo emprestado da sala de reuniões sem pedir autorização. Vou levar uma bronca se não devolver.

Tachibana-kun levantou a mão imediatamente. Provavelmente pensou: "Ah, parece que ela está precisando de ajuda."

— Sim! E-Eu ajudo!

Continuava sendo um rapaz admirável. Muito bem. Então eu voltaria primeiro para a sala do clube...

— Você também vem, Nukumizu. Já que teve tempo para paquerar, deve ter tempo para carregar umas cadeiras.

Amanatsu-sensei lançou sobre mim um olhar repleto de desprezo.

……….

Suspirei. Já esperava por isso. Desisti de fugir e apenas assenti.

*

Sala de Materiais de Estudos Sociais. Era um cômodo pequeno, abarrotado de livros e materiais empilhados até quase o teto. Shikiya-san já havia seguido para o próximo local onde faria registros fotográficos.

Quanto a nós quatro, depois de terminar de guardar tudo, nos reunimos em volta da mesa no centro da sala.

— Obrigada pela ajuda, pessoal. Aproveitem para tomar um chá. Também temos alguns doces.

Amanatsu-sensei fechou a porta da geladeira com o pé e colocou sobre a mesa uma garrafa plástica de dois litros.

— Eu sirvo para todo mundo.

Enquanto distribuía os copos descartáveis, observei Kaju. Normalmente, ela seria a primeira a ajudar numa situação dessas. Mas, naquele momento, apenas segurava seu copo enquanto olhava discretamente ao redor, claramente nervosa.

Gondou-san mantinha a cabeça baixa, completamente imóvel. Já Tachibana-kun parecia extremamente tenso. Provavelmente até estremeceria se alguém encostasse nele.

………

Espera um pouco. Pela atmosfera atual… Não me diga que ele pretendia se declarar bem aqui.

Acho que escolhi o comando errado. Amanatsu-sensei, completamente alheia ao clima delicado do ambiente, começou a distribuir doces típicos do Ocidente chamados Pyrenees.

Os Pyrenees eram um doce bastante famoso em Toyohashi. Consistiam em uma camada de pão de ló envolvendo um recheio de creme.

Sinceramente… Fiquei muito feliz. Porque eram deliciosos.

— Não precisam fazer cerimônia. Comam à vontade. Trouxe justamente para vocês.

Como sempre, essa professora não fazia a menor ideia de como ler o ambiente.

Ainda assim… Era gentil da parte dela nos oferecer aquilo. Muito bem. Eu impediria essa confissão aqui mesmo. Um homem precisava cumprir sua palavra.

— Muito obrigado. A senhora trouxe isso especialmente para hoje?

— Bem, eu ainda vou servir esses doces durante a reunião daqui a pouco. Mas ninguém vai descobrir se vocês ficarem de boca fechada, não é?

Dizendo isso, Amanatsu-sensei deu uma enorme mordida no bolo. Ela realmente estava deixando a gente comer aquilo? Depois de praticamente destruir as provas enfiando o doce inteiro na boca, limpou o canto dos lábios e olhou para Kaju e os outros.

— Vocês três usam o uniforme do Colégio Momozono, certo? Então são meus veteranos... digo, meus kouhai.

— Hã? Sensei, a senhora estudou lá também?

Acabei interrompendo. Ela assentiu energicamente.

— Sim. Estudei na Escola Primária Aoki. Você também, Nukumizu?

— Ah... eu e minha irmã não estudamos lá. Mas esses dois...

Olhei para Tachibana-kun. Ele assentiu.

— Ah, sim! Eu também estudei na Aoki.

— Entendo. Vai ver nós até estudamos juntos alguma vez. Brincadeira. Hahaha.

Ignorei a piada sem graça da Amanatsu-sensei. Foi então que...

— Sim. Eu me lembro da senhora, sensei.

Tachibana-kun falou em um tom extremamente sério.

— A senhora fez estágio supervisionado na Escola Primária Aoki há seis anos, não foi?

— Sim. Nossa, já faz tudo isso...

Amanatsu-sensei deu um gole no chá.

Hã? Não me diga que a história tinha avançado direto para o evento principal.

— Eu sou o Tachibana. A senhora deu aula para a nossa turma naquela época. Acho que não deve se lembrar de mim, mas...

Ao ouvir isso, Amanatsu-sensei congelou por um instante.

— Ah... s-sim. Eu lembro de você. Lembro, sim.

— S-Sério!?

Os olhos de Tachibana-kun brilharam enquanto ele se inclinava para a frente.

— Claro... hum... bem... eu sinto que...

A voz dela foi diminuindo aos poucos enquanto desviava o olhar para baixo.

Aposto que ela não fazia a menor ideia de quem ele era.

Mas isso significava que alguma coisa realmente ia acontecer? Se eles estavam falando daquela época, Gondou-san também deveria ter estudado na mesma escola.

Quando virei o olhar para ver sua reação… Depois de permanecer calada o tempo todo, Gondou-san levantou-se de repente.

— Vou ao banheiro.

Ela lançou um rápido olhar para Tachibana-kun e saiu apressada da sala.

Hã? Uma das personagens simplesmente saiu de cena. Por que a Gondou-san fez isso de repente? Amanatsu-sensei acompanhou sua saída com uma expressão confusa. Em seguida, respirou fundo, pigarreou e tentou retomar o controle da conversa.

— Enfim, Tachibana-kun. Você participa de algum clube? Hum?

— Faço parte do Clube de Jardinagem.

Era óbvio que ela estava tentando mudar de assunto. Mesmo assim, Tachibana-kun respondeu honestamente.

— Sempre gostei muito de plantas. Eu costumava cuidar das flores da sala de aula e também cultivava uma no vaso que ficava sobre a minha carteira. Como eu sempre fui baixinho, muita gente dizia que isso era coisa de menina...

Tachibana-kun inclinou levemente a cabeça e sorriu, envergonhado.

— Mas a Amanatsu-sensei sempre me apoiou. Eu fiquei muito feliz por causa disso.

— Ah... então aconteceu uma coisa dessas também...?

— Sim. Naquela época eu achava a senhora muito legal. E continuo achando isso quando vejo suas aulas. Mesmo sendo baixinha, a senhora sempre pareceu muito máscula e elegante. Acho isso incrível.

— Incrível!? Eu!? Bem... acho que faz parte do trabalho de um professor incentivar aquilo em que os alunos são bons. Fuhehe... muita gente vive dizendo isso para mim. Fuhehe...

Ela claramente não estava acostumada a receber elogios. Além disso… Aquela risadinha era um tanto assustadora. Depois de rir por alguns instantes, Amanatsu-sensei bateu palmas de repente.

— Ah, lembrei. Tinha um aluno que sempre deixava uma flor em cima da carteira. Era você?

— Era eu! Então a senhora realmente se lembra!

O sorriso de Tachibana-kun floresceu.

— Aquela flor sempre murchava muito rápido, então acabava sendo meio triste. Mas eu já ficava satisfeito só de alguém reparar nela.

— Sim. Eu olhava para ela todas as manhãs. Era bonita, afinal. Eu até pensei que ficaria linda no altar lá de casa... ah, não, esquece o que eu falei.

…….

Naquele instante… Eu finalmente entendi o que estava acontecendo.

— E, dois anos atrás, encontrei o nome da senhora na lista de professores publicada no jornal. Depois ouvi dizer que o irmão da Kaju-san estudava nesta escola. Foi por isso que implorei para ele me deixar vir até aqui... só para poder reencontrar a senhora.

— Hã...? Você foi tão longe assim... por minha causa?

Amanatsu-sensei permaneceu imóvel, segurando sua caneca com uma expressão completamente atônita.

Ela estava bem? Essa pessoa já devia ter percebido o que estava prestes a acontecer.

Na sala restávamos apenas eu, Kaju, Tachibana-kun e Amanatsu-sensei. Na vida real não existia botão de pular cena.

Quando as coisas começavam… Elas simplesmente aconteciam. Tachibana-kun levantou-se de repente.

Seu rosto estava tomado por determinação. Isso mesmo. Ele não ia se declarar para a Kaju...

— Eu sempre admirei a senhora... e sempre fui apaixonado pela senhora!

Era para a Amanatsu-sensei. Aquela declaração foi tão direta quanto desajeitada. Ao ouvi-la, Amanatsu-sensei apenas respondeu:

— Hã...

Sua voz saiu completamente sem força.

O silêncio tomou conta do ambiente, como se o tempo tivesse parado. Não consegui suportar aquilo e falei cuidadosamente com a sensei.

— Ei, sensei... a senhora não vai dizer alguma coisa?

— Hum...? Hein? Eu!?

Sim. A senhora. Depois de ficar alguns instantes atordoada, Amanatsu-sensei finalmente percebeu o que havia acontecido. Ela se levantou e caminhou até Tachibana-kun.

— Ah... você é o Satoshi Tachibana-kun, certo?

— Sim.

— Eu realmente agradeço pelos seus sentimentos. Mas eu sou professora. Não posso corresponder ao que você sente.

— Tudo bem. Só o fato de conseguir dizer o que sentia já foi suficiente para mim.

— Entendo... me desculpe.

Amanatsu-sensei sorriu calorosamente. O mesmo sorriso apareceu no rosto de Tachibana-kun.

...Diante dos meus olhos, um primeiro amor sem esperança chegava ao fim em poucos instantes. Curiosamente, em vez de tristeza, senti como se um peso tivesse sido retirado dos meus ombros.

Amanatsu-sensei pousou delicadamente a mão sobre o ombro dele.

— Além disso, se você tiver um irmão alguns anos mais velho———

— Sensei!? A senhora não tinha uma reunião para participar daqui a pouco?

Interrompi-a imediatamente. Sempre que essa pessoa começava uma frase daquele jeito, era porque vinha alguma besteira pela frente.

— Ah, é mesmo. Tenho uma reunião na sala de conferências menor. E ainda preciso subir quatro lances de escada...

Amanatsu-sensei suspirou, desanimada.

— Bem, então estou indo. O resto fica com você, Nukumizu.

— Ah... certo.

Depois de dar um leve tapinha no ombro de Tachibana-kun, ela saiu da Sala de Materiais murmurando:

— Catorze anos... faltam quatro anos...

Parecia já estar imaginando como as coisas seriam dali a quatro anos. Quando ela foi embora, permaneci onde estava. Tachibana-kun também continuou imóvel, então resolvi puxar assunto.

— Hum... Tachibana-kun, você está bem?

— Estou. Sinto muito mesmo. Acabei estragando a visita.

— Não precisa se preocupar. As outras duas já sabiam disso, não é?

Ele apenas assentiu em silêncio. Aquela atmosfera pesada começou, aos poucos, a desaparecer. Ele sabia que Amanatsu-sensei era minha professora. Tinha vindo ao dia da visitação apenas para transmitir sentimentos que guardava havia tantos anos.

Como ele nem conseguiria entrar na Tsuwabuki, talvez aquela fosse sua única oportunidade.

Mesmo assim… novas dúvidas começaram a surgir na minha cabeça. O que a Kaju tinha sentido ao acompanhá-lo até ali? E por que Gondou-san saiu da sala pouco antes da confissão?

…….

Falando nisso… Kaju estava estranhamente quieta. Voltei o olhar para o lugar onde ela estava sentada.

Kaju havia desaparecido.

*

Enquanto acompanhava Tachibana-kun até a entrada da escola, conversamos sobre várias coisas. Na verdade… Era mais ele quem falava. Falava sobre suas lembranças da Amanatsu-sensei.

Na visão dele, Amanatsu-sensei era uma pessoa livre, determinada e confiável. Mesmo sendo um pouco atrapalhada, também era uma mulher muito sensível. Era difícil acreditar que estivéssemos falando da mesma professora.

Mesmo assim… da maneira como ele a descrevia, ela realmente parecia bastante encantadora.

— Sinto... um pouco de vazio. Passei todo esse tempo pensando nisso. Agora nem consigo imaginar como vou me sentir quando acordar amanhã.

Tachibana-kun abaixou a cabeça, envergonhado, enquanto confessava seus sentimentos.

— Nukumizu-san... você deve achar que isso não passou de uma admiração infantil por parte de um estudante, não é?

— Não acho isso. Na verdade, nem acho que exista uma linha tão clara separando admiração e amor.

— É... mesmo?

Aquela hesitação entre admiração e amor já começava a se transformar numa bela lembrança. E isso era o melhor. Os amores da juventude também eram experiências. Um dia, ele encontraria alguém por quem realmente se apaixonaria.

Enquanto refletia sobre essas questões sentimentais, chegamos ao portão leste. Tachibana-kun fez uma reverência profunda.

— Muito obrigado por tudo hoje.

— Não foi nada. Tem certeza de que não quer que eu o acompanhe até a estação?

— Sim. Está tudo bem.

Seu sorriso era incrivelmente sereno. Parecia que ele já havia conseguido seguir em frente.

— Então... onii-san, até mais.

— Ei, Tachibana-kun.

Acabei chamando por ele antes que fosse embora. Então perguntei, surpreso comigo mesmo:

— O que... você acha da Kaju?

— Da Kaju-san?

Ele parou, claramente surpreso com a pergunta. Parecia confuso.

— É que ela é muito próxima da Asami...

Enquanto organizava as palavras, seus olhos vagaram por um instante. Depois ele voltou a me encarar.

— Fico muito feliz sempre que vejo as duas se divertindo juntas.

Ao ouvir aquela resposta tão inocente, senti meu rosto relaxar naturalmente.

— Entendo.

Fico mais tranquilo deixando a Kaju aos seus cuidados daqui para frente. Se fosse justamente dele que a Kaju gostasse… Eu acreditava que isso seria algo realmente muito bom para ela.

*

Caminhei de volta ao prédio da escola pela alameda cercada por árvores de tulipas. No caminho, ouvi as vozes animadas e ásperas dos clubes esportivos vindas do campo.

Olhei naquela direção. Yakishio estava no meio do pessoal do Clube de Atletismo. Também havia alunos dos clubes de Beisebol e Futebol. Na época de Momozono ela já era muito atlética.

Mas agora era diferente. Ela observava atentamente a posição dos visitantes. Mesmo de longe, era possível perceber o quanto estava levando aquilo a sério. Em abril, ela se tornaria veterana.

E teria que liderar os novos alunos. Eu também passaria a ser veterano… Mas, antes disso, ainda precisávamos recrutar novos membros para o Clube de Literatura.

Só que havia um problema ainda mais urgente. Kaju tinha desaparecido. E Gondou-san também havia sumido logo antes. Eu não acreditava que as duas tivessem desaparecido ao mesmo tempo por mera coincidência.

Provavelmente estavam atrás de Tachibana-kun. Embora talvez tivesse sido um pouco indelicado da minha parte interromper a situação…

Ainda tinha a sensação de que alguma peça daquele quebra-cabeça estava faltando.

— Ora, Nukumizu-kun. Você se separou da Imouto-chan e dos amigos dela?

Era Yanami. Ela acabava de voltar ao prédio da escola depois de deixar os sapatos no armário.

— Ah... acho que sim. Yanami-san, você já terminou de acompanhar os visitantes?

— Sim. Os alunos do fundamental foram visitar os clubes, então nos separamos. Ah, falando nisso, a Basori-san, do conselho estudantil, estava procurando por você.

— Por mim? Por quê?

Será que eu tinha feito alguma coisa que justificasse levar uma bronca dela? Enquanto pensava nisso, Yanami lançou um olhar desconfiado.

— Você anda bem suspeito com a Basori-san ultimamente. O que vocês dois estão fazendo? Aconteceu alguma coisa entre vocês?

— Não foi nada. Acho que é só por causa do dia da visitação.

É verdade que eu havia ajudado Basori-san a estudar algumas vezes. Mas não era nada parecido com o que Yanami parecia imaginar. Fingi não saber de absolutamente nada. Ao ver minha reação, Yanami deu de ombros.

— Se você não tem mais nada para fazer, vamos voltar para a sala do clube. Não é bom deixar a Komari-chan sozinha com a Konuki-sensei por muito tempo.

Enquanto falava, ela tirou do bolso uma caixinha.

— Isso é chocolate? Vai dar para alguém?

Perguntei casualmente. Por algum motivo, Yanami abriu um sorriso cheio de orgulho.

— Você é muito ingênuo, Nukumizu-kun. O Dia dos Namorados não serve só para dar chocolates. Também serve para comprar chocolates.

— Comprar? Mas... para dar de presente você já precisa comprar antes...

— Não, não.

Yanami balançou a cabeça.

— Nessa época do ano as lojas vendem produtos exclusivos. Tem chocolates que só aparecem nessa temporada. Então o Dia dos Namorados também é um ótimo dia para comprar chocolates para mim mesma. Esse aqui, por exemplo, foi um verdadeiro achado. Não é todo dia que se encontra um desses.

Então era assim que uma verdadeira amante de comida enxergava o Dia dos Namorados. Yanami abriu a caixa, pegou um chocolate e o estendeu para mim.

— Pronto. Nukumizu-kun também pode comer um. Toma.

Recusar só daria mais trabalho. Ignorei o chocolate que ela segurava e peguei outro diretamente da caixa. Era redondo.

Quase do tamanho de uma moeda de cem ienes. Por fora havia uma camada de cacau em pó. Era uma trufa bem comum, muito mais normal do que eu esperava. Assim que a coloquei na boca, o sabor do cacau e do chocolate se espalhou imediatamente.

Além disso… tinha gosto de chocolate. E… Bem… Era realmente chocolate. Sim. Tinha gosto de chocolate.

— Valeu.

...Yanami-san, o que você está fazendo? Ela continuava parada exatamente na mesma posição, ainda segurando o chocolate que pretendia me oferecer. Ao mesmo tempo, me encarava com uma expressão extremamente irritada.

— Você não viu esta mão?

— Vi. Mas ela estava segurando outra coisa. Para falar a verdade, eu já queria comentar isso lá na sala do clube. Acho meio anti-higiênico oferecer comida depois de já ter encostado em outra.

............

Sem dizer uma palavra, Yanami colocou o chocolate na própria boca. Depois lançou um olhar cheio de desagrado para mim.

...O que deu nela?

— Enfim, você volta para a sala do clube. A Kaju desapareceu. Eu preciso encontrá-la.

— Está procurando a Imouto-chan? Hehe... então realmente aconteceu alguma coisa.

Enquanto dizia isso, Yanami começou a mexer no celular.

— O que exatamente? Você sabe de algo que eu não sei?

— Claro que não. Mas o Tachibana-kun é da mesma turma da Imouto-chan. Ele deveria ser o principal suspeito, não é? Só pela atitude do Nukumizu-kun, já dava para perceber que alguma coisa tinha acontecido.

Yanami guardou o celular e voltou a me encarar.

— Foi você quem me arrastou para isso, então eu também tenho uma certa responsabilidade, certo? Como eu poderia simplesmente não me importar?

— Desculpa, mas eu também não tenho certeza do que aconteceu. De qualquer forma, agora eu quero confirmar a situação primeiro.

Pensei em como deveria explicar aquilo para ela. Nesse momento, uma garota baixinha, de longos cabelos balançando ao correr, surgiu do fundo do corredor. Era a Asagumo-san.

— Você está aqui, Nukumizu-san. Tome. Por favor, fique com isto.

Asagumo-san tirou uma caixinha pequena e fina. Ela até tinha um laço. Peguei a caixa por reflexo e, no instante seguinte, arregalei os olhos de surpresa.

— Isso é... não me diga que é chocolate!?

— Sim. É uma forma de agradecer por tudo o que você sempre faz por mim.

Asagumo-san sorriu e se virou, afastando-se com passos leves.

— Bem, eu já vou. O Mitsuki-san e eu vamos sair para um encontro agora.

— Hã? Ah... obrigado...

Fiquei olhando para o chocolate, incrédulo, depois que Asagumo-san foi embora.

Sério? Eu já tinha experimentado um monte de chocolates na sala do clube. Cheguei a pensar se deveria contar aqueles como chocolates de obrigação, mas agora isso já não importava mais. Mesmo sendo apenas um chocolate por obrigação, eu, Kazuhiko Nukumizu, finalmente tinha recebido um chocolate de alguém de fora aos dezesseis anos...

— Ei.

Tum. Yanami me deu uma cotovelada na lateral.

— Ai! O que foi agora? Você acabou com a minha felicidade, sabia?

— A propósito, você ainda não me deu sua opinião sobre o chocolate que acabou de comer.

Ela estava interrompendo aquele momento por causa disso? Fiz o possível para não suspirar e guardei no bolso o chocolate que Asagumo-san havia me dado.

— Ah... é bem... chocolate. É. Tem gosto de chocolate.

— Então, é bom?

— Sim, é bom. Afinal, é chocolate.

............

Yanami tornou a me dar outra cotovelada e virou o rosto, claramente insatisfeita. Ué... mas eu tinha elogiado. Eu realmente não entendia por que ela tinha ficado brava de repente. Enquanto isso, ela ergueu o celular acima do ombro e começou a balançá-lo.

— Eu já ajudei você a descobrir onde a Imouto-chan está. Essa é a atitude que você deveria ter comigo?

— Hã? Quando foi que você descobriu onde ela está?

— Eu mandei uma mensagem no grupo da nossa turma no Line e responderam na hora.

Entendi. Era uma boa maneira de fazer isso. A Kaju realmente tinha vindo ajudar nos preparativos do Festival Tsuwabuki. Devia haver muita gente que sabia onde ela estava.

Além disso... eu ainda nem fazia parte daquele grupo do Line.

— Obrigado. Então, onde a Kaju...

Estendi a mão. Em silêncio, Yanami afastou o celular para longe.

— Ei? Me diz onde a Kaju está.

— Nukumizu-kun, tem uma coisa que você deveria dizer antes, não tem?

— Hum? Mas eu já não agradeci?

A expressão de Yanami mudou imediatamente. Ela virou o rosto, irritada.

...O que foi que eu fiz?

Eu não me lembrava de ter feito Yanami ficar brava, mas me lembrava muito bem de ela viver irritada comigo por causa da minha cara. Melhor resolver primeiro o problema que estava diante de mim.

— Ah... você quer dizer que eu não peguei o chocolate da Yanami-san?

Ela reagiu na mesma hora. As sobrancelhas de Yanami se ergueram. Pelo jeito, eu tinha acertado.

— Não era exatamente isso que eu queria dizer. Veja, tem uma gripe circulando ultimamente, não é? E hoje também temos um monte de visitantes de fora. Achei melhor tomarmos medidas preventivas.

Observei a reação dela enquanto continuava explicando.

— Em outras palavras, era para evitar contaminações. Não estou dizendo que haja algum problema com a flora bacteriana natural da sua mão, Yanami-san. Embora cada pessoa seja diferente, essa flora residente pode impedir a proliferação de outras bactérias quando o equilíbrio é mantido. Por isso, na verdade, ela é benéfica para os seres humanos.

— A-Ah... eu achei que você fosse dizer outra coisa.

Yanami assentiu. A expressão dela era a de alguém observando um pássaro extremamente raro.

— Nukumizu-kun, isso não era nem de longe a resposta que eu queria ouvir... mas já recebi seus sentimentos.

Eu não fazia ideia de que sentimentos ela tinha recebido, mas, se ela estava satisfeita, tudo bem. Yanami apontou para além do portão.

— Ouvi dizer que ela está no estande de arco e flecha. Está com uma garota da mesma escola. Que tal dar uma olhada por lá?

— Obrigado. Vou indo.

Virei-me e comecei a andar, mas parei mais uma vez.

— Yanami-san. Pode me dar mais um chocolate?

— Hã? Claro.

Yanami deu uma risadinha e me entregou a caixa de chocolates.

— Então você achou gostoso, não foi?

— Não. Mas vicia.

Coloquei mais um chocolate na boca e atravessei o portão.

Uma garota da mesma escola, é? Então a Kaju provavelmente estava com a Gondou-san. Fiquei aliviado por saber que as duas estavam juntas, mas a ansiedade que sentia ainda não tinha desaparecido.

O que me aguardava dali em diante… talvez não fosse um final feliz.

*

O estande de arco e flecha ficava em um canto ainda mais afastado do prédio antigo, cercado por árvores. Quase esbarrei em alguém enquanto descia a escada de emergência em direção ao estande.

— Kya!

— Desculpe... Ah, não é a Tiara-san?

— O que você quis dizer com isso? E, por favor, não me chame pelo meu primeiro nome.

Tiara-san suspirou aliviada. Arrumou a franja e fingiu que nada havia acontecido.

— Você apareceu na hora certa. Pode me conceder um instante?

— Desculpe, podemos conversar depois? Ainda estou procurando minha irmã.

Dei um passo à frente depois de responder. No fim, Tiara-san acabou me seguindo.

— Ara, eu também queria falar com a sua irmãzinha.

— Hã? Com a Kaju?

O que seria isso? Olhei para Tiara-san com cautela, mas ela apenas brincou de propósito com a própria franja.

— Eu a conheci durante o verão. Ela disse que tinha bastante interesse pelo conselho estudantil da Tsuwabuki. Por isso, queria convidá-la para conhecer o conselho.

Ah, então vocês se conheceram naquela viagem de verão. Mas eu não tinha tempo para aquilo agora. Ela não poderia falar disso outro dia...?

— Com licença, mas...

— Ela é realmente extraordinária. Essa é a opinião da presidente sobre ela.

— Sério?

Tiara-san assentiu. Tudo bem... Acho que eu podia ouvir o que ela tinha a dizer.

— Mesmo sendo a primeira vez que conhecia todo mundo, ela já agia como uma excelente líder. Também cuidava daqueles que não se davam bem em atividades em grupo. É uma garota muito atenciosa. Sua admiração pela Tsuwabuki e, acima de tudo...

Tiara-san fez uma breve pausa. Um sorriso gentil surgiu em seu rosto.

— O amor que ela sente pelo irmão mais velho. Fiquei profundamente impressionada. No entanto, nunca imaginei que esse irmão fosse você.

Ela estava elogiando a Kaju. Então por que eu estava ficando irritado? Não era de se admirar que o conselho estudantil a quisesse. Todo mundo tinha uma ótima impressão dela.

— Mas a minha irmã é dois anos mais nova. Ela provavelmente nem poderia trabalhar com vocês, certo?

Tiara-san assentiu antes de olhar ao redor.

— Estou me preparando para concorrer à presidência do conselho estudantil no ano que vem.

— Hã?

— Quando chegar a próxima transição do conselho estudantil, pretendo recomendar sua irmã.

Depois disso, ela sorriu discretamente.

— Claro... isso se eu conseguir ser eleita presidente primeiro.

Eu ainda estava preocupado com o que aconteceria hoje e amanhã, mas Tiara-san já estava pensando no ano seguinte. Ela realmente gostava de planejar tudo com antecedência...

Mas, então, era só isso que ela queria dizer. Nesse caso, era melhor impedir que ela visse o que estava prestes a acontecer. Afinal, eu provavelmente acabaria conversando com a Kaju sobre amor e relacionamentos.

O estande de arco e flecha já estava à vista. Parei e me virei para Tiara-san.

— Basori-san, pode esperar um pouco? Depois disso, tenho uma coisa muito importante para conversar. Acho melhor você...

— Hã? Uma coisa muito importante?

Só então percebi que estávamos em um canto isolado e sombrio do prédio antigo. Tiara-san corou instantaneamente.

— O quê!? É... é isso que você quis dizer com uma c-coisa importante!?

— Ah... não faço ideia do que você está imaginando, mas não é isso.

— Como assim não é!?

Por que ela estava brava? A Tiara-san realmente tinha uma personalidade única. Ela sempre conseguia me surpreender. Foi então que ouvi vozes de garotas discutindo vindas do estande de arco e flecha.

Uma delas era da Kaju. Eu jamais confundiria aquela voz.

— Desculpe, estou indo!

— Ah, espere, Nukumizu-san!

Deixei Tiara-san para trás e corri na direção das vozes. Atravessei rapidamente o pequeno bosque e logo avistei duas garotas.

Eram Kaju e Gondou-san. Eu não sabia sobre o que estavam discutindo, mas ainda pareciam estar brigando. As duas estavam no meio de uma discussão acalorada. Então corri em direção às duas...

*

Enquanto Nukumizu era envolvido por uma garota extremamente problemática… Em um canto silencioso próximo ao estande de arco e flecha, cercado por árvores...

Asami Gondou, aluna do segundo ano do Ginásio Momozono, permanecia parada em silêncio.

...De tempos em tempos, o som da corda de um arco ecoava pelo local. Sempre que uma flecha atingia o alvo, um grave som ressoava discretamente.

Uma brisa atravessou o bosque. Asami estremeceu. Ela se virou e ergueu os olhos para o prédio do Colégio Tsuwabuki. Havia acabado de sair da sala com o coração pesado.

Pouco depois, ouviu passos se aproximando. Era Kaju Nukumizu, vice-presidente do conselho estudantil do Ginásio Momozono. Ela tirava ótimas notas e era muito popular entre os garotos.

Sua única fraqueza era correr. Parecia até piada, mas ela realmente tinha um fã-clube. Kaju quase tropeçou enquanto corria pelo bosque. Ela parou diante de Asami.

— Gon...-chan... você está aqui...

Kaju levou as mãos ao peito e respirou fundo, tentando recuperar o fôlego.

— Como você soube que eu estava aqui, Nuku-chan?

— Eu sei que a Gon-chan gosta de ficar em lugares tranquilos. E aqui ainda tem árvores.

Kaju tentou sorrir, mas não conseguiu esconder a tristeza.

— Ei... o Tachibana-kun acabou de contar para a sensei———

— Quando eu entrar no ensino médio, vou entrar para algum clube.

Asami interrompeu Kaju. Ela ergueu a cabeça e olhou para a parede do estande de arco e flecha.

— Arco e flecha parece bem legal, não acha? A flecha voa... whoosh. Só de imaginar já parece incrível——

— Me escuta, Gon-chan! É que———

— O Satoshi foi rejeitado?

Asami perguntou de maneira indiferente. Kaju hesitou várias vezes antes de responder. No fim, assentiu.

— O Tachibana-kun reuniu toda a coragem que tinha e se declarou para a Amanatsu-sensei.

— Eu sei.

Ao ouvir aquela resposta fria, Kaju fez um bico.

— Gon-chan... você simplesmente fugiu naquela hora.

— E, se eu não tivesse fugido, o Satoshi teria se declarado do mesmo jeito, não teria?

— Sim...

A expressão de Asami misturava um leve ar de superioridade com uma solidão difícil de descrever. Kaju parecia incapaz de compreender aquele olhar. Ela apenas balançou a cabeça lentamente.

— Ei... você não deveria estar ao lado do Tachibana-kun agora?

— Deixa ele em paz.

— Mas a Gon-chan sempre gostou do Tachibana-kun...

— Chega, tá bom?

Desta vez, Asami foi firme.

— Você faz parecer que eu estava só esperando o Satoshi ser rejeitado para aproveitar a oportunidade e me aproximar dele… — ela virou as costas para Kaju e murmurou. — Você acha que eu sou tão miserável assim?

Os galhos assobiaram com o vento. Suas palavras, cheias de impotência, foram levadas pela brisa. Kaju a encarou por alguns instantes. Depois, escolheu cuidadosamente as palavras.

— Mas não é isso que o Tachibana-kun pensa, certo?

— Eu sei. Esse é um problema meu.

Asami pareceu perceber que havia falado com dureza demais. Ela ergueu um pouco a cabeça, mostrando parte do perfil, e sussurrou:

— Eu nunca disse que queria ficar com o Satoshi.

— Sério? Mas o Tachibana-kun é uma pessoa tão boa.

— Eu sinto que a relação que temos agora já é boa o bastante. Não vou me importar se ele arranjar uma namorada.

— Então por que você saiu correndo da sala?

— Porque...

Asami virou-se para encará-la. Ela quis dizer alguma coisa, mas nenhuma palavra lhe veio à mente. No fim, permaneceu em silêncio.

— Você não quis ficar lá porque sabia que o Tachibana-kun seria rejeitado pela sensei, não foi?

Asami não respondeu. Kaju aproximou-se dela.

— Se você não fizer nada, outra pessoa vai levá-lo embora. Você sabe disso, não sabe? Além disso, vocês dois vão estudar em escolas diferentes! Não vão poder ficar juntos para sempre! Você realmente acha que isso está bem?

Pressionada por Kaju, Asami finalmente falou:

— Eu só queria participar das atividades do clube com ele e conversar sobre o tempo. Era só isso que eu queria.

— Você não vai poder.

— Hã?

Kaju segurou as mãos de Asami.

— O Tachibana-kun não vai poder sair com a Gon-chan se tiver uma namorada. E se essa garota também participar de um clube? E se ela também entrar para o Clube de Jardinagem?

Depois de dizer isso, Kaju soltou um longo suspiro. Ela ainda queria dizer mais alguma coisa, mas Asami foi mais rápida.

— Você está falando do seu irmão mais velho, não está?

Desta vez, foi Kaju quem prendeu a respiração.

— Nuku-chan, você não disse isso antes? Que seu irmão provavelmente já tinha uma namorada? Mesmo que você entre na Tsuwabuki, só poderá ficar com ele por mais um ano. Depois disso, vocês vão seguir caminhos diferentes.

— Sim.

Kaju abaixou a cabeça e apertou ainda mais as mãos de Asami.

— É justamente por isso que eu não quero que a Gon-chan se arrependa. Vocês não vão estudar na mesma escola. Falta apenas um ano para a formatura. Eu quero que você passe esse tempo sem nenhum arrependimento.

— Nuku-chan, tudo o que você está dizendo é só o que você quer impor para mim, não é?

Os ombros de Kaju tremeram ao ouvir aquilo.

— Você está preocupada, então quer me obrigar a ficar preocupada também, não é? Na verdade, você não quer que seu irmão arranje uma namorada. Você quer mantê-lo só para você, não quer!?

— Isso...

Asami observou os olhos de Kaju de cima.

— Nuku-chan, você sempre amou o seu irmão, não foi!? Mas nunca disse isso!

— Como eu poderia dizer!? Eu sou a irmã mais nova!

Kaju soltou as mãos de Asami e deu alguns passos para trás.

— Nós não podemos ficar juntos para sempre! Irmãos acabam seguindo caminhos diferentes um dia! O Onii-sama com certeza vai encontrar uma mulher maravilhosa e passar o resto da vida ao lado dela!

Seus grandes olhos estavam cheios de lágrimas. Parecia que ela estava tentando convencer a si mesma.

— Mas eu sei que não posso fazer nada! A Kaju já fica feliz só por o Onii-sama ainda estar ao meu lado!

— Eu também sou assim! Nuku-chan, por que você simplesmente não diz ao seu irmão como se sente!?

— Eu só iria incomodá-lo com isso! Para o Onii-sama, a Kaju é apenas a irmãzinha dele! Ele só está mimando a irmã mais nova!

— Você não tem como saber disso!

— A Kaju sabe! É porque o Onii-sama está apaixonado por...

Kaju levou as mãos ao peito e respirou fundo.

— Um homem!

*

…Hã?

Corri até onde as duas estavam. Aquela revelação chocante me fez parar no mesmo instante.

Eu só tinha ouvido a última frase… mas eu realmente estava apaixonado por alguém, e essa pessoa também era um homem?

Eu nunca tinha passado por algo assim. Foi por isso que fiquei tão surpreso ao ouvir aquilo. Kaju logo percebeu minha presença. Seu rosto empalideceu.

— O-Onii-sama!? Q-Quando você começou a nos ouvir!?

— Hã? Ah… eu queria perguntar sobre essa história de amor e ódio que vocês estavam comentando antes. O... o que aquilo significava?

Minha cabeça estava tomada por uma infinidade de pontos de interrogação. Então...

— B-Bem, e-eu esqueci o fogão ligado em casa. Vou indo!

— Hã!? Espera aí!

Minha cabeça simplesmente não conseguia acompanhar a situação. Eu tinha encontrado Kaju discutindo com a Gondou-san. Então descobri que, aparentemente, eu estava apaixonado por um cara... e, no fim das contas, Kaju simplesmente foi embora.

Além disso... o que eu tinha a ver com aqueles três? Fiquei parado no mesmo lugar, sem saber o que fazer. Tiara-san veio correndo até mim. Ela cobriu a boca com um lenço e se agachou.

— O que houve, Tiara-san?

— N-Não... é que... sangramento no nariz...

...Por quê?

— A-Ah... você está bem?

— E-Estou! Não se preocupe comigo!

Mesmo assim, o rosto de Tiara-san continuava extremamente pálido.

— Ei, Gondou-san. Desculpe, mas essa pessoa——

Virei-me. Ela já tinha desaparecido. Em outras palavras… Só restávamos eu e Tiara-san na mata atrás do prédio antigo. E ela ainda estava com o nariz sangrando.

...O que estava acontecendo?

— Você consegue ficar de pé? Posso acompanhá-la até a escola.

— E-Estou bem. Vá atrás da sua irmãzinha. Não precisa se preocupar comigo.

— Não tem como eu simplesmente deixar você sozinha. Está tudo bem. Minha irmãzinha provavelmente já chegou em casa.

Estendi a mão para Tiara-san. Ela a segurou, mas sua própria mão tremia. Mesmo sendo normalmente uma garota rígida e teimosa, dessa vez ela estava surpreendentemente dócil.

...Quem dera ela fosse sempre assim.

*

Levei Tiara-san de volta até a sala do conselho estudantil. Acabei demorando muito mais do que imaginava. Quando finalmente cheguei em casa, o sol já tinha se posto.

Avisei o pessoal do Clube de Literatura pelo Line que iria direto para casa, mas Komari acabou me bombardeando de mensagens. Parecia haver um monte de coisas das quais ela queria reclamar. Talvez fosse melhor eu simplesmente nem aparecesse no clube amanhã...

Suspirei enquanto olhava para o céu. O fraco brilho do entardecer tingia o horizonte e, silenciosamente, dava lugar a um azul-escuro profundo. Era quase como se o próprio céu estivesse com pressa de voltar para casa.

Ka-cha.

Parei diante da porta de casa. O sensor detectou minha presença e as luzes se acenderam. Enquanto destrancava a porta, pensava no que deveria dizer para Kaju.

Esta história começou com os sentimentos sem esperança de Tachibana-kun por Amanatsu-sensei. Depois disso, a próxima parte era sobre Kaju, Gondou-san e Tachibana-kun. A história deveria girar em torno dos três.

Então... por que Kaju tinha me colocado no meio daquilo?

Em outras palavras, até aquele momento eu só tinha interpretado tudo como uma história envolvendo aquelas três pessoas. Com certeza existia uma explicação mais simples...

Comecei a me preocupar imediatamente. Assim que entrei em casa, vi os sapatos de Kaju cuidadosamente alinhados na entrada.

Parecia não haver ninguém no primeiro andar. Acho que o papai e a mamãe ainda não tinham voltado.

Respirei fundo para criar coragem e subi as escadas. Parei diante da porta do quarto de Kaju. Bati algumas vezes, mas ninguém respondeu. Depois de hesitar por um instante, abri a porta.

O quarto estava completamente escuro. A luz do corredor invadia discretamente o ambiente. O quarto tinha o rosa como cor predominante. Era extremamente feminino. Havia até um pôster meu pendurado na parede.

...Acho que ela tinha comprado um novo.

Kaju estava sentada no chão, encostada na lateral da cama. Ela estava dormindo. Ao ver seu adorável rosto adormecido, finalmente soltei um suspiro de alívio.

É mesmo… Ela tinha dito que não conseguira dormir na noite anterior. Acendi a luz e percebi um álbum aberto diante dela. Nas páginas abertas havia fotografias minhas e de Kaju. Éramos muito pequenos naquela época.

...Ah, essa tinha sido tirada durante o Shichi-Go-San.

Eu estava usando um hakama, enquanto Kaju vestia um quimono. Nós dois sorríamos alegremente para a câmera. Naquele dia, comi tantos chitose ame que acabei ficando com uma cárie. Lembrei que Kaju tinha ficado muito preocupada comigo e até brincou de ser dentista. Foi um dia muito animado em casa.

(N/SLAG: Chitose ame é um doce tradicional distribuído durante o festival japonês Shichi-Go-San, simbolizando crescimento saudável(nem tanto, pelo visto) e vida longa.)

Dentro do meu coração, Kaju praticamente não tinha mudado. Ela ainda era minha adorável irmãzinha.

Mas...

Sem que eu percebesse, Kaju tinha crescido aos poucos. Daqui para frente, aquele álbum teria cada vez mais fotos dela sem a minha presença. Eu esperava que ela continuasse sorrindo em todas aquelas fotografias.

Mas, longe das câmeras… ela provavelmente não conseguiria conter as lágrimas, não é? O dia em que ela choraria nos braços de outra pessoa, em vez dos meus, não estava tão distante. Para mim, uma verdadeira família era formada por pessoas que estavam dispostas a me apoiar incondicionalmente sempre que eu quisesse parar para descansar.

Passei delicadamente o dedo pelas páginas do álbum. Sem querer, deixei algumas fotografias caírem no chão.

Sha.

— Uuugh... hum...

Aquele pequeno barulho pareceu ser justamente o que faltava para acordá-la. Uma voz fraca escapou dos lábios de Kaju. Suas sobrancelhas se moveram levemente.

— Kaju, você acordou?

— Onii-sama...?

Ela parecia não entender o que estava acontecendo. Esfregou os olhos ainda sonolenta.

— A Kaju acabou dormindo... ah... Onii-sama!?

Por um instante ela pareceu surpresa. Logo depois, sua expressão ficou abatida e ela segurou minhas roupas com força.

— Onii-sama! N-Na escola! Quando você começou a nos ouvir!?

— Hã? Ah... acho que foi quando você disse que a pessoa por quem eu estava apaixonado era um homem.

— E antes disso!? Você ouviu o que a gente falou antes também!?

— Hum? Não.

— Não ouviu...? Ufa... ainda bem.

Kaju soltou um suspiro de alívio. Espera aí... se ela podia deixar que eu escutasse uma coisa dessas, será que existia um segredo ainda maior?

— Falando nisso, Kaju. Você disse que eu estava apaixonado por um homem. O que foi aquilo?

Kaju fez um bico, emburrada.

— Por favor, não finja que não sabe. A Kaju estava falando do veterano que saiu com o Onii-sama na véspera de Natal.

...?

Do que ela estava falando? A Shikiya-san parecia uma garota, não importava por onde eu olhasse...

— Você me viu encontrando aquele veterano?

— Sim. Vocês dois beberam da mesma bebida. Pareciam tão íntimos.

Kaju virou o rosto.

— A ideia era ele jantar com a namorada, mas ela deu um bolo nele. Então eu só fui comer com ele. Não aconteceu mais nada.

— Então e aquele canudo de casal?

— Aquilo... pensa um pouco. Simplesmente aconteceu. A Kaju também já deve ter passado por uma situação dessas, não?

— Não.

É... imaginei.

— Enfim, aquele veterano já tem namorada. Os dois vivem grudados um no outro. Eu só servi como substituto.

— Sério?

— Sério.

Kaju me encarou por alguns instantes. Pareceu aliviada, mas ainda havia uma expressão complicada em seu rosto.

— Certo, Kaju. Eu queria falar sobre o Tachibana-kun.

— Sim. Foi uma pena.

Ver a pessoa de quem gostava sendo rejeitada só a fazia se preocupar ainda mais com ele. Era exatamente esse tipo de garota que Kaju era. Mesmo assim, aquela estranheza continuava presa no fundo do meu coração.

Kaju não estava sozinha na mata atrás da escola. Asami Gondou. Ela era uma boa amiga de Kaju e também parecia conhecer o Tachibana-kun desde muito tempo.

Só a existência dela já bastava para ocupar todos os meus pensamentos. Ela fugira quando Tachibana-kun se declarou e, depois, discutira seriamente com Kaju. No fim, foi Kaju quem saiu correndo.

Ela também era uma personagem daquela história. Eu sabia. Havia um toque de tristeza em seus olhos... e também de teimosia.

— Desculpa, o Onii-chan entendeu tudo errado.

As palavras escaparam da minha boca. Kaju balançou a cabeça.

— Não, o Onii-sama não teve culpa...

— Eu achei que a Kaju estivesse apaixonada pelo Tachibana-kun, mas estava errado.

A cabeça de Kaju tremeu levemente. Ela hesitou em responder, então ergui a mão, interrompendo-a antes de continuar.

— Eu sei que a Gondou-san gosta do Tachibana-kun. Pelo menos isso eu consegui entender. E, se eu consegui perceber, a Kaju também percebeu. Foi por isso que achei seu comportamento hoje muito estranho.

— Estranho?

Kaju repetiu, confusa. Assenti tranquilamente.

— Se minha irmã mais nova e a melhor amiga dela se apaixonassem pela mesma pessoa, eu perceberia na hora que alguma coisa estava errada. Ela ficaria frustrada, sofreria... e, no fim, seria a única a sair machucada.

Afaguei delicadamente a cabeça de Kaju.

— Então, se a Gondou-san está apaixonada por ele, a Kaju não estaria apaixonada também. O que achou? A lógica do Onii-chan é impecável, não é?

— Sim.

Kaju parecia uma criança pega em flagrante fazendo travessuras. Ela abaixou a cabeça, envergonhada.

— A Kaju realmente só vê o Tachibana-kun como um amigo. Eu não gosto dele desse jeito.

— Eu sei. O fato de você tê-lo convidado hoje não tinha nada a ver com o Dia dos Namorados. Vocês estavam conversando sobre o dia de visitação desde o começo.

Kaju assentiu, envergonhada.

— E aquele encontro no Templo Toyokawa Inari?

— Eu e a Gon-chan já tínhamos combinado de ir juntas. Uma veterana estava estudando para os exames. Nós queríamos comprar um amuleto para ela.

Desde o começo, eu estava pensando demais. Não consegui evitar um sorriso amargo.

— Então por que você dizia tantas coisas que davam margem para mal-entendidos?

— É porque...

Kaju abaixou a cabeça e refletiu por um instante. Depois, tomou uma decisão e falou:

— Naquele dia em que eu estava fazendo chocolate, o Tachibana-kun me ligou. O Onii-sama lembra disso, não lembra?

— O Onii-sama começou a desconfiar da relação entre mim e ele desde então... então a Kaju teve uma ideia ruim. Eu queria que o Onii-sama continuasse entendendo tudo errado.

Ela desviou o olhar, constrangida.

— O Onii-sama não tem amigos, não é? A Kaju sempre ficou ao lado do Onii-sama desde que éramos pequenos. Será que o Onii-sama não tem amigos por causa da Kaju?

— Eu diria que eu não tenho amigos por culpa minha mesmo.

Ela pareceu interpretar minha resposta sincera como uma piada e deu uma risadinha impotente.

— Por isso, a Kaju ficou muito feliz quando o Onii-sama entrou no ensino médio, entrou para o Clube de Literatura e fez muitos amigos. Se o Onii-sama encontrar uma namorada maravilhosa, a Kaju provavelmente não vai mais precisar cuidar dele, não é...? Sempre que penso nisso... fico muito preocupada.

Enquanto falava, Kaju folheou o álbum.

— Desde que me entendo por gente, a Kaju sempre esteve com o Onii-sama. O Onii-sama sempre esteve ao meu lado, tanto quando eu estava feliz quanto quando estava triste. Afinal, é natural ficar junto da família.

Ela levantou uma das folhas plásticas do álbum e retirou uma fotografia. Era da cerimônia de entrada da minha escola primária. Eu aparecia diante do portão com uma expressão preocupada, enquanto a Kaju, então com quatro anos, chorava ao meu lado com os olhos vermelhos.

Pensando bem...

Kaju deu uma risadinha.

— A Kaju achou que o Onii-sama nunca mais voltaria para casa depois que entrou na escola primária. Eu chorei a cerimônia inteira.

— Eu lembro. Naquela noite, a Kaju não queria me soltar.

Ela devolveu a foto ao álbum e continuou virando as páginas. Seu dedo parou na fotografia seguinte.

Devia ter sido tirada há cerca de três anos. Era da viagem da nossa família à praia. Na foto, Kaju corria atrás de mim segurando uma estrela-do-mar, enquanto eu fugia com uma expressão extremamente séria.

— Você não foi má demais, Kaju?

— O Onii-sama gostava muito de heróis, então a Kaju achou que ele ia gostar de estrelas-do-mar.

Até parecia uma arma. Kaju apontou para outra fotografia. Era do dia em que ela vestiu o uniforme da Escola Monozono pela primeira vez. Tiramos aquela foto para guardar de lembrança.

Ela estava agarrada ao meu braço, sorrindo radiante, enquanto eu fazia uma cara completamente contrariada.

— Ainda lembra? O Onii-sama até brigou comigo porque não queria tirar foto comigo.

Eu lembrava perfeitamente. Eu nunca me importei em não ter amigos no ensino fundamental, mas não queria que Kaju me visse daquele jeito. Foi por isso que eu não consegui parabenizá-la sinceramente quando passamos a estudar na mesma escola.

— Eu era bem imaturo.

Murmurei, rindo de mim mesmo.

— A Kaju também era só uma criança. Eu vejo o Onii-sama mudando aos poucos, e isso me deixa muito feliz... mas também um pouco solitária.

Kaju apoiou a cabeça no meu ombro.

— Por isso... a Kaju queria... que o Onii-sama prestasse um pouco mais de atenção em mim.

Seus longos cabelos negros escorregaram, fazendo cócegas no dorso da minha mão. O peso apoiado no meu ombro nunca havia mudado. Kaju sempre caminhara ao meu lado enquanto crescíamos.

Mas, dali em diante, precisaríamos seguir nossos próprios passos rumo à vida adulta.

— Ah, Kaju. E a Gondou-san?

— O que tem ela...?

Por enquanto, havíamos resolvido um problema. Mesmo assim, ainda havia outra questão.

— Ela também apoiou a confissão do Tachibana-kun?

— Não exatamente... mas...

Kaju gaguejou. Continuei:

— Ela também sabia que o Tachibana-kun ia se declarar, não sabia? Não havia como impedir alguém de se apaixonar, mas vocês não deveriam ter pedido para ela ajudar numa declaração dessas.

— Mas o Tachibana-kun gosta da sensei. A Amanatsu-sensei é uma pessoa séria. Ela com certeza iria rejeitá-lo. Foi por isso que a Kaju fez aquilo.

...Não. Aquela pessoa era perigosa demais. Se o Tachibana-kun tivesse esperado mais quatro anos para se declarar, estaria morto.

— A Gon-chan disse que estava tudo bem deixar as coisas como estavam. Ela até falou que não queria se declarar para o Tachibana-kun, mesmo sabendo que havia outras garotas que gostavam dele também.

Ansiedade. Não era como se eu não conseguisse entender o que ela sentia. Mas, então... por que Kaju se esforçou tanto para interferir no relacionamento de outra pessoa, a ponto de ignorar os sentimentos dela?

— Ela já tinha concordado em deixar tudo como estava. Isso não era um "sim"?

— Sério? É isso que o Onii-sama acha?

Assenti em silêncio. Os olhos de Kaju começaram a vagar, nervosos.

— Em abril, a Kaju e os outros vão estar no terceiro ano. Os exames de admissão já estão logo aí. Depois que entrarem no ensino médio, todo mundo vai seguir seu próprio caminho...

Kaju entrelaçou os dedos e os apertou com força.

— A Gon-chan com certeza vai se arrepender se não fizer nada. Os dois vão estudar em escolas diferentes. Eles vão se ver cada vez menos. Até casais acabam terminando depois que começam a namorar. Se isso continuar...

Afaguei a cabeça de Kaju enquanto lhe perguntava com delicadeza:

— Então você incluiu a Gondou-san nesse plano para provocá-la e fazê-la agir?

Os ombros de Kaju tremeram de repente.

— A Kaju... não quer ver a Gon-chan sofrer. Se continuar desse jeito, eles não vão conseguir ficar juntos, e um dia talvez nem conversem mais... Só de pensar nisso, eu fico com medo.

Ao ver a expressão ansiosa de Kaju, finalmente compreendi. Ela havia projetado a nossa relação na relação dos dois. A Kaju que existia aos meus olhos. E o "eu" que existia aos olhos da Kaju.

Nossos pais precisavam trabalhar. Por isso, quem passara mais tempo ao lado de Kaju fora eu. Mas, dali em diante, minha posição certamente diminuiria. Quem estaria ao lado dela quando esse momento chegasse? Eu não sabia. Mas estaria mentindo se dissesse que não me sentiria sozinho.

— A Kaju também está preocupada?

— Sim.

Dei leves tapinhas nas minhas coxas, em silêncio. Kaju imediatamente se sentou no meu colo, animada.

— Muitas coisas vão mudar aos poucos daqui para frente... e eu também fico preocupado. Se a Kaju também quiser, eu gostaria que continuássemos como sempre fomos.

— Mesmo?

Em vez de responder, apenas acariciei sua cabeça.

— Mas a Kaju já vive há quatorze anos. O tempo que nós dois passamos juntos nunca vai mudar, não é?

Kaju ergueu a cabeça e olhou para mim em silêncio.

— Por exemplo, eu estou fazendo carinho na sua cabeça agora. No segundo seguinte, isso já vai ter se tornado passado. E, uma vez que se torna passado, ninguém mais pode tocar nisso nem mudar o que aconteceu.

Passei a mão por seus cabelos mais uma vez.

— Então não se preocupe. Nós dois temos incontáveis lembranças juntos, e ninguém pode tirá-las de nós. Isso não vai mudar, mesmo que um dia não estejamos mais juntos... mesmo quando você encontrar alguém especial.

— Sim.

Kaju assentiu, impotente.

— Talvez a Gondou-san e o Tachibana-kun também tenham muitas lembranças que só pertencem aos dois. Ninguém além dela pode decidir o que fazer.

— Mas, Onii-sama... e se a Gon-chan acabar se arrependendo?

Balancei a cabeça. Não existia resposta certa quando o assunto eram relacionamentos. Nós errávamos, transformávamos esses erros em lembranças. Às vezes nos perdoávamos; outras vezes, não. Eu acreditava que esse era um processo pelo qual todos precisavam passar.

— Talvez a Kaju esteja certa. Talvez a Gondou-san realmente se arrependa um dia... mas o fato de algo parecer certo não significa que seja a resposta correta.

Kaju tentou dizer alguma coisa, mas a interrompi e continuei:

— Ela é sua melhor amiga, não é? Então o melhor que você pode fazer é conversar bastante com ela.

— Sim. Amanhã a Kaju vai falar com ela na escola.

Finalmente, Kaju pareceu organizar os próprios sentimentos e apoiou a cabeça no meu ombro.

— Onii-sama... me abrace como fazia quando eu era pequena.

Hã? Será que eu fazia isso? Eu não conseguia lembrar... mas aquele não era o momento para pensar nisso. Então a abracei por trás. Kaju encostou a palma da mão na minha e deu uma risadinha suave.

Ela parecia uma criança.

...Enquanto sentia o calor dela sobre minhas pernas, outra dúvida surgiu na minha cabeça.

— Pensando bem... onde está o seu chocolate? Você se esforçou tanto para fazê-lo. Então vai dar para outra pessoa em vez de mim, é isso?

— Mas o Onii-sama já recebeu um monte de chocolate na escola, mesmo sem a Kaju dar nenhum, não foi?

As bochechas de Kaju inflaram como as de um baiacu enquanto ela me cutucava com o cotovelo.

— Se o Onii-sama já recebeu tantos chocolates de amor, seria muito triste a Kaju dar outro. A Kaju também tem o orgulho de uma garota.

— Espera aí. Eu não recebi nenhum chocolate de amor.

Como sempre, Kaju me superestimava. Só consegui dar um sorriso amargo.

— O Onii-sama não recebeu nenhum? Nem da Komari-san?

Os olhos de Kaju se arregalaram, incrédulos.

— Todo mundo levou chocolate. Era para os visitantes, só isso. Eu recebi um chocolate de obrigação...

— Recebeu!? De quem!?

Kaju avançou até mim num impulso. Empurrei-a de leve para afastá-la.

— Foi da Asagumo-san. Ela já tem namorado, então existe 99,9% de chance de ser um chocolate de obrigação.

— Não é 100%?

— Quando você compra um bilhete de loteria, acaba imaginando como vai gastar o prêmio antes mesmo de ganhar, não é? Esse 0,1% é tão importante quanto isso. Vai que quem me deu o chocolate era a irmã gêmea da Asagumo-san? Eu só não conheço essa irmã. Pensa nesse cenário.

— Entendi?

Kaju massageou o espaço entre as sobrancelhas com os dedos. Mesmo assim, parecia não querer pensar mais no assunto. Ela se levantou cambaleando e tirou alguma coisa da gaveta da escrivaninha.

Escondeu o objeto atrás das costas e voltou a se sentar à minha frente.

— Hum... Onii-sama, deixa eu confirmar só mais uma vez. Você realmente não recebeu nenhum chocolate de amor?

— Não.

Kaju remexeu as mãos, nervosa, até finalmente estender um pequeno saquinho. A embalagem era muito fofa.

— Este é um chocolate de amor... de irmãzinha! Aceite, por favor!

Recebi o saquinho, confuso. Dentro da embalagem transparente estavam os chocolates feitos por Kaju.

— São para mim? Você não tinha dito que não ia me dar?

— É porque o Onii-sama não recebeu nenhum chocolate de amor, não é? Então isso significa que este ano o Onii-sama pode aceitar o chocolate de amor da irmãzinha da Kaju!

Entendi. Era inútil tentar aplicar lógica diante de um conceito tão misterioso quanto "chocolate de amor da irmãzinha".

Kaju corou intensamente. Afaguei sua cabeça com delicadeza.

— Obrigado. Vou saboreá-los de todo o coração.

— Sim, Onii-sama!

A voz alegre de Kaju ecoou pelo quarto. Nesse instante, o som familiar de um motor de carro chegou pela janela.

— O papai e a mamãe voltaram.

— É. Precisamos preparar o jantar.

Kaju segurou minha mão com força enquanto se levantava. Finalmente, resolvemos o que era mais urgente.

O amor de Tachibana-kun havia chegado ao fim.

Kaju voltara a sorrir.

E, por algum motivo, Amanatsu-sensei agora estava um pouco mais popular.

Embora o incidente do Dia dos Namorados tivesse terminado, seus efeitos ainda continuariam presentes no nosso cotidiano. Segui Kaju enquanto nos preparávamos para sair do quarto.

Ela segurou a maçaneta, mas parou de repente.

— O que foi, Kaju? Não vamos sair?

De costas para mim, ela murmurou baixinho:

— O Onii-sama disse que, se a Kaju se apaixonasse pela mesma pessoa que a minha amiga, eu deveria ceder a vez para ela, não foi?

— Hã? Sim... foi isso que eu disse.

— Mas acho que o meu caso é um pouquinho diferente.

Hum? Do que ela estava falando?

Kaju virou-se para mim e endireitou a postura.

Então...

Ela depositou um beijo suave na minha bochecha.

No mesmo instante, Kaju recuou rapidamente e apontou para o próprio rosto.

— Ei!? O que você está fazendo, Kaju!?

— Tinha um pouco de chocolate na bochecha do onii-sama. A Kaju só limpou para você.

— Ehhhh, você está passando dos limites.

— Hehe. Mas guarde segredo da mamãe, tá?

Kaju disse isso com um sorriso radiante. Balancei a cabeça em silêncio. Eu só podia admitir a derrota, já que ela estava sorrindo daquele jeito.

*

No dia seguinte, era segunda-feira. Os ventos vindos do oeste estavam surpreendentemente calmos. No céu ao norte, algumas nuvens estratiformes flutuavam lentamente. Na Escola Momozono, a luz pura da manhã atravessava o teto da estufa do Clube de Jardinagem.

Asami Gondou — Gon-chan — estava diante de um vaso, banhada pelo sol.

Ka-chak.

O som agradável de uma tesoura de poda ecoou pela estufa. Gon-chan observou um dos galhos por alguns instantes. Depois de se decidir, estendeu novamente a tesoura.

Creek...

A velha porta da estufa se abriu com um rangido. Quem colocou a cabeça para dentro foi Kaju Nukumizu.

— Gon-chan... você pode ouvir o que a Kaju tem a dizer...?

— Tem um saco de adubo no chão aí. Cuidado.

Kaju assentiu em silêncio, desviou do saco aos seus pés e caminhou até ela.

— Ei, Gon-chan...

— O bonsai consiste em reproduzir, dentro de um vaso, uma paisagem da natureza. Olha por este ângulo.

Gon-chan fez um gesto para que Kaju se aproximasse. Confusa, Kaju obedeceu e estreitou os olhos ao observar a pequena árvore.

— Uma paisagem... parece uma miniatura.

Gon-chan ergueu a cabeça, organizando as palavras antes de responder.

— Está bem perto disso, mas há uma diferença. Um bonsai exige tempo para cuidar do tronco, dos galhos e das folhas. Só depois de muito tempo tudo isso se transforma em uma paisagem.

Ela fitou os galhos que cresciam na horizontal e murmurou:

— Este bonsai tem a nossa idade.

— Ele já vive há quatorze anos?

Gon-chan assentiu. Havia quanto tempo aquilo acontecia? Nem Gon-chan nem Kaju sabiam. Mesmo assim, para elas, aqueles quatorze anos eram tempo suficiente para abranger tudo o que haviam vivido.

— O professor que me deixou este bonsai dizia que nunca se consegue uma boa árvore tentando forçá-la a tomar a forma que queremos. Mas, às vezes, aqueles galhos que crescem de maneira inesperada acabam criando a paisagem mais bonita.

Ka-chak.

Gon-chan cortou a ponta de um galho. Observou o corte por alguns segundos antes de pousar a tesoura com delicadeza.

— Eu ficaria muito triste se o Satoshi arranjasse uma namorada.

— Sim, então...

— Mas você estaria errada se dissesse que eu quero namorar com ele agora.

Kaju abriu a boca para responder, mas desistiu. Gon-chan balançou lentamente a cabeça.

— O Satoshi que sempre esteve ao meu lado é um idiota que ama uma professora desde pequeno. Ele é incrivelmente fiel. Se eu me declarasse e ele mudasse de ideia só por causa disso... então ele deixaria de ser o Satoshi que eu conheço, não é?

— Então... a Kaju entendeu tudo errado?

Ao ouvir aquelas palavras inesperadas, Gon-chan não conseguiu conter um pequeno sorriso.

— Talvez. Então eu ficaria muito feliz se você fingisse que não viu nada.

— Tá bom. Desculpa, Gon-chan.

— Quem deveria pedir desculpas sou eu. Desculpa por fazer você se preocupar comigo.

Sem que percebessem, o sol já havia subido completamente. A estufa inteira estava iluminada. Kaju olhou ao redor antes de dar um passo em direção à amiga.

— Ei, Gon-chan. Posso te entregar uma coisa?

Gon-chan assentiu. Kaju tirou uma pequena caixa rosa, cuidadosamente decorada.

— A Kaju fez chocolate de amizade. Você aceita?

— Para mim? Tem certeza?

— Sim. A Kaju queria muito que você aceitasse.

Gon-chan recebeu o chocolate e, em troca, entregou a tesoura de poda para Kaju.

— Tenta podar esses galhos.

— Eh? A Kaju pode mesmo?

Ela segurou a tesoura com cuidado.

— Pode. Não tem problema se não ficar bonito. O importante é se divertir.

Kaju pareceu surpresa. Gon-chan então acariciou gentilmente sua cabeça. Nervosa, Kaju parou diante do vaso.

— Tem arames presos nesses galhos. Para que eles servem?

— Para ajustar o formato dos galhos. Assim eles recebem mais luz do sol e também melhora a circulação de ar. Como as árvores entram em dormência durante o inverno, é nessa época que colocamos os arames.

— Vocês colocam esses arames todos os anos? Então foi assim que esse bonsai ficou desse jeito.

Gon-chan assentiu e tocou delicadamente os galhos.

— Mas, mesmo com os arames, não dá para mudar o formato da árvore tão facilmente.

— Sério?

Ela acariciou o tronco áspero com carinho.

— Ela cresce aos poucos, com o passar do tempo. Às vezes deixa o dono satisfeito, outras vezes segue um rumo inesperado. Ela só chegou à forma que tem hoje depois de um longo período.

— Depois de um longo período...

Ao ouvir essas palavras, Kaju finalmente compreendeu. Independentemente do que o futuro reservasse, tudo exigiria tempo. O futuro do seu irmão. O seu próprio futuro. Os dois irmãos inevitavelmente seguiriam caminhos diferentes. Mas esses caminhos continuariam profundamente ligados ao tempo que passaram juntos.

— Bonsai é até bem interessante.

— É mesmo? Se você gostar, posso ensinar quando quiser, Nuku-chan.

Os olhos de Gon-chan brilharam. Kaju assentiu e tornou a erguer a tesoura.

— Então... posso cortar esta parte?

Assim que ela posicionou a tesoura sobre um galho, Asami estendeu a mão às pressas.

— Pode levantar a tesoura um pouco mais?

— Assim está bom, né?

— Ah, move só um pouquinho mais para aquele lado do galho...

Sem perceber, Gon-chan já havia começado a interferir. Kaju fez um biquinho e colocou as mãos na cintura.

— Poxa... a Gon-chan disse que a Kaju podia fazer sozinha.

Era verdade. Mesmo que um dia viesse a se arrepender. Mesmo que um dia viesse a chorar. Ela precisava seguir em frente com determinação pelo caminho que escolhesse. Era essa a decisão que havia tomado.

— Desculpa.

Gon-chan sorriu de forma constrangida, erguendo as mãos em sinal de rendição.

— No fim das contas... tanto faz como ele crescer, não é?

📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag e revisado por Shisui

💬 Quer acompanhar os próximos lançamentos, dar sugestões e trocar ideia com a gente?

Entre no nosso servidor do Discord e faça parte da comunidade! 🚀

Fim da leitura

Capítulo 55 concluído

Volume 5 – Capítulo 4 – Capítulo 4: Esteja Preparado para Deixar Ir