Todas Essas Heroínas Perdedoras!Volume 6 – Capítulo 1 – Capítulo 1: A Confissão de Seabreeze
Capítulo 65A SALA DO CLUBE DE LITERATURA do Colégio Tsuwabuki ficava na extremidade do prédio oeste. Yanami e eu caminhávamos pelo corredor que levava à sala do clube, carregando sacolas de compras.
— Vamos confirmar isso mais uma vez. Hoje, não vamos tocar no assunto das provas. Só vamos falar de coisas divertidas.
— Não se preocupe. Pode confiar no meu repertório de assuntos interessantes.
Certo, conto com você. Não que eu confiasse, é claro.
Ao chegarmos à sala do clube, respiramos fundo antes de abrir a porta.
— Voltamos...
Lá dentro, só estava Komari, em pé sobre uma cadeira, ocupada com as decorações.
— V-Vocês dois estão atrasados. Venham ajudar com os p-preparativos.
— Então, Tsukinoki-senpai ainda não chegou?
Komari desceu da cadeira com as pernas trêmulas e me entregou uma longa decoração. Ela era feita de tiras finas de papel de origami, dobradas em argolas e entrelaçadas umas às outras, formando uma corrente.
Yanami espiou por cima do meu ombro.
— Isso parece aquelas decorações de festa de aniversário, não é?
— S-Sim. A-Achei que ajudaria a criar um clima melhor.
Komari respondeu com um sorriso tímido, mas balancei a cabeça.
— Komari, eu entendo que queira animar a Tsukinoki-senpai, mas acho que isso é um pouco demais.
— Verdade. Deveríamos ter usado papel preto e branco.
Também não achava que essa fosse uma boa ideia.
— Ueh? M-Mas a senpai está prestes a...
Foi então que passos animados ecoaram pelo corredor. Instintivamente, voltamos os olhos para a porta, e os passos pararam bem diante da sala do clube. Após uma breve pausa, a porta se abriu com energia.
— Quanto tempo! Como vocês estão?
A pessoa que surgiu com um sorriso radiante era Koto Tsukinoki, a antiga vice-presidente do Clube de Literatura. Seu familiar cabelo preso em duas marias-chiquinhas parecia um pouco mais ralo do que da última vez em que eu a vira, e seus olhos de pálpebras duplas, emoldurados por longos cílios, pareciam mais maduros sem os óculos de sempre.
— Você trocou os óculos por lentes de contato?
— Ah, você percebeu?
Tsukinoki-senpai abriu um sorriso malicioso. Uma mudança radical de visual logo antes da formatura. Ela realmente não tinha medo de nada.
Tsukinoki-senpai deu um passo elegante à frente — e bateu em cheio na mesa.
— Isso doeu. Acho que não consigo enxergar direito sem meus óculos.
Tsukinoki-senpai tateou até encontrar uma cadeira e se sentou. Em seguida, tirou os óculos do bolso e os colocou. Por que ela sequer fingira que não precisava deles?
— Obrigada aos dois por terem ido fazer as compras. Quanto ficou?
Enquanto Tsukinoki-senpai remexia os bolsos, Yanami rapidamente lhe entregou um taiyaki.
— Tsukinoki-senpai! A vida tem seus altos e baixos, mas, por favor, não desanime!
— Hm? Não sei bem do que você está falando, mas obrigada. Espera... alguém já deu uma mordida neste taiyaki?
Seguindo o exemplo de Yanami, coloquei uma caneca de refrigerante de cola diante da senpai.
— Um ano não é grande coisa. Se pensar bem, isso até vai lhe dar um certo prestígio, como se você tivesse passado por uma experiência difícil.
Yanami assentiu vigorosamente.
— Isso mesmo! Meu pai vivia à toa quando era jovem, mas hoje está muito bem! Então, senpai, você também vai ficar bem!
Enquanto mordiscava o taiyaki, Tsukinoki-senpai inclinou a cabeça, pensativa. ...Espera. Aquela não era a reação que eu esperava. Será que tínhamos tocado numa ferida?
— É. Komari, diga alguma coisa gentil e irresponsável também.
Sem saber mais o que fazer, olhei para Komari em busca de ajuda, mas ela apenas balançou a cabeça.
— A-A senpai... passou no v-vestibular.
— Hã?
Yanami e eu exclamamos ao mesmo tempo. Atônitos, olhamos para Tsukinoki-senpai, que ergueu a caneca orgulhosamente.
— Eu, Koto Tsukinoki, finalmente passei no vestibular.
Depois de alguns instantes de silêncio, Yanami limpou a garganta.
— Eu acreditei em você desde o começo. Ao contrário do Nukumizu-kun.
Foi você quem disse primeiro que ela tinha reprovado, tá? Droga. Desse jeito, eu acabaria sendo o único vilão da história.
— Senpai! Em qual universidade você passou?
— Hã? Espera, qual era mesmo?
Enquanto eu tentava desesperadamente mudar de assunto, Tsukinoki-senpai inclinou a cabeça para o lado e começou a mexer no celular. ...Espera aí. Ela realmente tinha sido aprovada? A tensão dentro da sala do clube era palpável.
— Ah, achei. Olhem, está escrito "Aprovada" na tela de login, estão vendo?
Todos nos inclinamos para observar a tela do smartphone que ela estendia em nossa direção.
— Ah, certo. É o Departamento de Administração de Empresas da Academia Meiai.
— Meiai? Uau, então vou estudar lá a partir de abril.
— Sim, por favor. Afinal, você não passou nas outras.
Com a aprovação finalmente confirmada, a comemoração de Tsukinoki-senpai enfim começou. Hoje, estava tudo liberado. Yanami abriu um pacote de batatas chips atrás do outro sem que ninguém reclamasse.
— Ei, Yanami-san, você já comeu todas as batatas sabor shoyu branco?
— Ainda tem um pacote... Ah, espera. Eu comi no caminho de volta do supermercado.
Quando aquilo tinha acontecido? Eu nem sequer conseguira comer uma única batatinha. Yanami empilhou três tipos diferentes de chips para comer de uma só vez e perguntou a Tsukinoki-senpai:
— Então, senpai, você vai se mudar quando começar a faculdade em abril?
— Esse é o plano. Tenho uma reunião com uma imobiliária amanhã.
Tsukinoki-senpai disse aquilo com um sorriso um tanto solitário.
A Universidade Meiai ficava em Nagoya, enquanto Toyohashi também ficava na província de Aichi, mas uma cidade estava a oeste e a outra a leste. Algumas pessoas faziam esse trajeto todos os dias, mas eu tinha certeza de que ela acabaria matando aula. Com certeza. Ter o namorado por perto talvez ajudasse um pouco, mas...
— Aliás, como está indo a preparação do Tamaki-senpai para as provas?
Shintaro Tamaki era o antigo presidente do clube e namorado de Tsukinoki-senpai. Sua primeira opção era uma universidade nacional em Nagoya, e ele não havia se candidatado a nenhuma outra como segunda opção.
— A segunda etapa das provas dele é amanhã. Agora ele está na reta final — respondeu ela casualmente, colocando uma batatinha na boca. Apesar do tom despreocupado, havia um traço de preocupação em seus olhos.
— O-O Tamaki-senpai vai f-ficar bem — murmurou Komari, como se falasse consigo mesma, apertando com força o copo de chá oolong.
— Isso mesmo. O presidente vai mandar muito bem.
Yanami se intrometeu e afagou a cabeça de Komari. Só para constar, agora o presidente era eu. Tsukinoki-senpai soltou uma risadinha e abriu um pacote grande de chocolates.
— Parece que deixei todo mundo preocupado. Bem, vamos comer todos os lanches que compramos!
— M-Mas será que conseguimos comer tudo isso...?
Antes que Komari terminasse a frase, seu olhar acompanhou Yanami enquanto ela despejava o restante das batatas chips diretamente na boca.
— Hm? Komari-chan, quer experimentar também? Espera, vou abrir outro pacote.
— Ueh!? N-Não, estou bem...
— O melhor jeito de apreciar batatas chips é com a garganta. Aqui, incline a cabeça para trás e abra a boca!
Incapaz de recusar, Komari acabou engolindo as batatas de uma vez. Aquilo parecia uma nova modalidade de tortura. Tsukinoki-senpai observava a cena com um olhar gentil enquanto comia seu mitarashi dango.
Coloquei uma xícara de chá diante dela.
— Preparei chá quente. Vou deixar aqui para você.
— Ara, que atencioso.
— Afinal, você é a patrocinadora de hoje. Deixe a gente mimá-la um pouco.
Tsukinoki-senpai tomou um gole do chá quente e me lançou um olhar de soslaio.
— E quanto ao evento de boas-vindas aos novos alunos? Já prepararam alguma coisa?
— Ainda não comecei de verdade. Com você aparecendo assim na sala do clube, nem parece que estou prestes a ir para o segundo ano.
Respondi com sinceridade, e Tsukinoki-senpai riu.
— É verdade. Eu também ainda não sinto que estou realmente me formando.
Ela girou o espetinho de dango entre os dedos.
— Acho que só vou perceber de verdade na manhã seguinte à cerimônia de formatura. Quando me der conta de que não preciso mais vir para o colégio, aí sim vai cair a ficha de que chegou a hora de seguir para um novo lugar.
...Faltava apenas uma semana para a formatura. Aquilo que antes parecera tão distante agora estava logo ali.
— Mas talvez eu continue aparecendo na sala do clube até o último minuto. Vou ter algum tempo livre antes de me mudar e começar a faculdade.
— Bem, fico feliz em ouvir isso.
Ficamos sentados em um silêncio confortável enquanto Yanami e Komari faziam barulho ao nosso redor. E, justamente quando aproveitávamos aquele momento de tranquilidade...
— Parabéns, senpai!
A porta se escancarou, e Yakishio entrou como um furacão.
— Ah, você também veio, Yakishio-chan. Quanto tempo.
— Pois é, faz tempo. Eu estava preocupada porque o Nukkun disse que você com certeza reprovaria.
— Hoho, foi isso que o Nukumizu-kun disse?
...Eu tinha dito isso? Por algum motivo, achava que sim. Levantei-me rapidamente para preparar mais chá. Enquanto despejava água quente no bule, Yakishio se aproximou de mim com um taiyaki na mão.
— Pode fazer um para mim também?
— Claro, mas também compramos chá oolong e refrigerante de cola.
— Hm... Eu não queria muito baixar a temperatura do meu corpo.
Yakishio hesitou mais do que de costume, o que era raro. Ela também lançava olhares na direção de Yanami e das outras.
— Eu preparo o chá. Pode ir se sentar.
— Ei, você está livre no domingo?
Yakishio me perguntou aquilo de repente. É claro que eu não tinha nenhum compromisso.
— Bem, estou livre, mas por quê?
Quando respondi, curioso, Yakishio se aproximou. O leve aroma cítrico de seu desodorante pairou no ar. Nossos ombros se encostaram de leve. Então, seu sussurro fez cócegas em meu ouvido.
— Então, Nukkun... que tal sair comigo num encontro?
*
Depois de voltar para casa e subir as escadas, peguei-me remoendo repetidamente as palavras de Yakishio.
Um encontro.
Embora a palavra pudesse ter diferentes significados, o fato de ela ter me convidado explicitamente confirmava que aquilo definitivamente era um encontro. Nunca imaginei que algo assim aconteceria durante minha vida no ensino médio...
Tentando acalmar o coração agitado, abri a porta do meu quarto e encontrei Kaju segurando uma fita métrica.
— Kaju, você está aqui?
— Bem-vindo de volta, onii-sama!
Ela largou a fita métrica e caminhou para trás de mim, ajudando-me a tirar o paletó.
— Você deve estar cansado depois de hoje. No jantar teremos o favorito do onii-sama, buri daikon, sabia?
(N/SLAG: O Buri Daikon (ブリ大根) é um prato tradicional japonês de inverno que combina lombo ou cabeça de peixe yellowtail (buri) e nabo gigante (daikon) cozidos lentamente em um caldo agridoce à base de shoyu, saquê, mirin, açúcar e gengibre)
— Ohh, parece ótimo. ...O que você estava medindo antes?
Enquanto Kaju pendurava meu paletó e começava a desfazer minha gravata, olhei para a fita métrica sobre a escrivaninha.
— Kaju estava pensando em reorganizar um pouco o quarto.
Sério? Mas esse é o meu quarto.
— Hã... nós realmente precisamos reorganizá-lo? Tem algum problema com o jeito que está agora?
Kaju inclinou a cabeça de maneira adorável enquanto segurava a gravata que acabara de tirar de mim.
— Sim. Na verdade, Kaju estava pensando se caberia a minha cama aqui.
— Não vamos fazer isso.
— Então finalmente vamos comprar uma cama de casal!?
— Também não.
Ora, ora. Kaju continuava tão imprevisível quanto sempre. Não fazia muito tempo que Kaju e eu tínhamos tido uma pequena discussão, no Dia dos Namorados. Eu me sentira inquieto por causa da mudança na relação entre nós, irmãos.
Mas achava que tínhamos conseguido nos entender um pouco melhor depois de finalmente dizermos aquilo que vínhamos deixando sem dizer. A única coisa que vinha me incomodando desde então era que Kaju parecia manter uma distância física um pouco menor de mim...
Enquanto Kaju guardava minha gravata, espiei o guarda-roupa, pensando no que deveria vestir para o encontro com Yakishio.
— Onde está aquela camisa que comprei no ano passado? Aquela com estampa de jornal?
— Aquela camisa estava cheia de buracos de traça, então eu a joguei fora. Os buracos ficavam bem em cima das letras.
Ah, entendi. Acho que essas coisas aconteciam.
— E aquela camisa com a estampa discreta de dragão?
— O dragão discretamente voou para os céus. Afinal, os ventos deste inverno foram bem fortes.
Verdade. Os ventos eram fortes em Toyohashi. Com isso, sobravam para mim basicamente roupas sem graça.
— Isso não é simples demais para o fim de semana?
Os olhos de Kaju brilharam quando murmurei aquilo.
— Onii-sama, você vai sair para algum lugar?
— Hã? Não, é só que...
Murmurei algo vago, como "talvez" ou "só por um tempinho", enquanto fechava o guarda-roupa. Contar à minha irmãzinha sobre um encontro parecia constrangedoramente o tipo de coisa que um siscon faria.
*
Quando finalmente chegou o domingo, dia do encontro, o céu estava estranhamente limpo. Sem vento, o sol do fim de fevereiro trazia uma inesperada sensação de que a primavera se aproximava.
Eu estava diante do Aquário de Takeshima, a apenas doze minutos de Toyohashi de trem expresso.
...Por que Yakishio tinha me convidado para um encontro?
Já havia perdido a conta de quantas vezes me fizera aquela pergunta. Normalmente, um encontro implicava que ambas as partes tinham algum grau de interesse uma pela outra.
Mas, em um sentido mais amplo, a sociedade parecia interpretar a palavra de maneira mais flexível, como acontecia com a expressão "encontro em grupo". Levando isso em consideração, parecia exagero imaginar que alguém tão popular quanto Yakishio pudesse gostar de mim.
— Talvez ela só esteja brincando comigo…
Disse aquilo em voz alta, tentando convencer a mim mesmo. Uma visita secreta ao aquário, apenas nós dois… Embora a situação pudesse sugerir algo a mais, eu não era ingênuo o bastante para interpretar aquilo como um sinal romântico.
Yakishio só estava me levando junto para espairecer um pouco. Sim, devia ser isso. Depois de chegar a essa conclusão, ajeitei inquietamente a gola do paletó. Meu traje havia sido escolhido por Kaju: um paletó emprestado do guarda-roupa de nosso pai combinado com uma blusa leve de gola alta.
Era um pouco adulto demais para mim, mas jovem demais para o papai usar. Ficara muito bom quando o compramos, mas agora só ocupava espaço no guarda-roupa.
Já fazia anos desde minha última visita ao aquário, mas sua atmosfera praticamente inalterada me trouxe uma sensação de alívio. O prédio modesto, que parecia carregar uma longa história, já funcionava desde a época dos meus avós. Apesar da aparência, o lugar estava cheio de famílias. O térreo do prédio ao lado antigamente abrigava uma loja de lembranças, mas agora estava fechado.
Cercado por aquela mistura de nostalgia e agitação, eu quase me sentia como se tivesse viajado no tempo quando uma garota se aproximou pelo lado do estacionamento. Seu pequeno rosto bronzeado, emoldurado pelo cabelo curto, era inconfundível.
Era Yakishio.
Quando ergui a mão para cumprimentá-la, fiquei momentaneamente impressionado com sua aparência. Yakishio usava uma minissaia justa combinada com um suéter de tricô fofo, de mangas largas. Era um visual simples, mas que combinava de maneira impressionante com ela e imediatamente atraía o olhar.
...Yakishio sempre tinha sido tão bonita assim?
Ao perceber minha expressão atônita, ela acenou delicadamente.
— Desculpa fazer você esperar, Nukkun. O que foi? Você parece congelado.
— Ah, não. Por favor, não se preocupe.
Sem querer, acabei respondendo de maneira excessivamente formal. Eu sabia que ela era bonita, mas aquilo tinha me pegado de surpresa...
— Hã... vamos comprar nossos ingressos?
— Espere um pouco, Nukkun.
Quando tentei me apressar em direção à bilheteria, Yakishio delicadamente entrelaçou o braço no meu. Ela colocou o cabelo atrás da orelha, revelando um pequeno brinco cintilante.
— Não tem alguma coisa que você deveria dizer primeiro?
...O que poderia ser? Eu não tinha chegado atrasado, e também não lhe devia dinheiro. Será que era aquela conversa típica que acompanhava encontros?
— Ah, bem... você está muito elegante hoje.
— Elegante?
— E... muito bonita também, eu acho...
Quando terminei minha resposta atrapalhada, Yakishio abriu um sorriso radiante, mostrando os dentes brancos.
— Certo, eu perdoo você.
Eu tinha sido perdoado.
— Vamos, é melhor nos apressarmos ou os ingressos vão acabar.
— Não, eles não vão acabar... Ei, não me puxe.
Enquanto uma animada Yakishio me arrastava alegremente, enxuguei às escondidas o suor da testa com um lenço.
Naquele momento, já não havia mais dúvida. Eu estivera desconfiado — quase noventa por cento convencido de que não era nada —, mas tinha interpretado a situação completamente errado.
Aquilo não era apenas um passeio por diversão. Era um encontro de verdade.
*
A área de exposições do Aquário de Takeshima ocupava apenas o primeiro andar. Não era particularmente grande. Era pequena o bastante para ser percorrida em apenas alguns minutos, mas havia um motivo para ser tão popular.
— Ei, Nukkun, você sabia que caranguejos-ferradura não têm um gosto muito bom?
— Sim. O sangue deles também é azul.
Isso mesmo. Aquele aquário era conhecido pelas explicações escritas à mão pelos funcionários, especialmente pelas famosas avaliações sobre o sabor dos animais.
Yanami conseguiria passar um dia inteiro ali.
Enquanto líamos as explicações e observávamos os peixes, Yakishio de repente gritou diante do tanque seguinte.
— Uwah, olha quantas moreias!
Exatamente como Yakishio dissera, cerca de dez moreias nadavam em um tanque um pouco maior. Segundo a explicação, aquele tanque abrigava oito espécies diferentes de moreias. Yakishio murmurou consigo mesma, maravilhada, enquanto observava o tanque com curiosidade.
— A gente realmente precisa de tantos tipos de moreia? Eu nem consigo diferenciar uma da outra.
Com quem você estava reclamando? Com Deus?
— Precisamos, sim. Sabe, é por causa da... biodiversidade e essas coisas. É, algo assim...
— Ah, biodiversidade. Entendi. Então não tem jeito.
Continuamos nossa conversa de nível intelectual ligeiramente abaixo da média antes de seguir adiante.
Logo depois, um grande tanque raso no meio do corredor chamou nossa atenção. Tinha aproximadamente o tamanho de três tatames (três metros quadrados, mais ou menos) e podia ser observado de todos os ângulos, não apenas pelas laterais.
Yakishio correu animadamente até ele, e eu a segui com certa resignação.
...Eu estava conseguindo conversar normalmente.
Para ser sincero, a palavra "encontro" ainda me deixava nervoso, mas Yakishio estava agindo mais como ela mesma do que nunca, então eu precisava agir duas vezes mais normalmente. Certo, eu não estava agindo de maneira estranha nem nada do tipo... estava?
— Ei, Nukkun, venha aqui!
— Ah, sim.
Quando parei ao lado de Yakishio e olhei para dentro do tanque, vimos corais dispostos em camadas que pareciam prateleiras, com peixes tropicais coloridos nadando ao redor.
Nossa conversa foi diminuindo até cessar, e os peixes tropicais, nadando suavemente, prenderam nossos olhares. ...Aquele momento tranquilo me fez lembrar do verão anterior. Naquela noite no santuário, cercada pelo cheiro de grama e terra, Yakishio estivera ao meu lado, com lágrimas escorrendo pelo rosto.
Agora, ela estava novamente ao meu lado, toda arrumada, exalando uma mistura de maquiagem e perfume. Quando olhei discretamente para ela, os olhos castanhos de Yakishio já estavam voltados diretamente para mim.
— O que foi?
— Hã, nada. E você, Yakishio?
Enquanto eu me atrapalhava com as palavras, Yakishio me deu um sorriso maduro.
— É bonito, não é?
— Sim, é.
Baixei novamente os olhos para o tanque, tentando esconder meu constrangimento. Nossos olhares se encontraram outra vez através do reflexo na água, e ambos acabamos sorrindo.
Os brincos de Yakishio captavam a luz refletida na superfície da água, cintilando enquanto balançavam. O reflexo dançava diante dos meus olhos, fazendo com que todo o barulho do aquário parecesse estranhamente distante.
Permaneci em silêncio, observando os peixes tropicais e o reflexo de Yakishio sobre a água.
*
Enquanto eu observava as capivaras através do vidro, Yakishio começou a murmurar baixinho.
— Ficar assim, lado a lado, me faz lembrar daquela noite. Lembra quando fomos juntos até a Escola Primária Aoki?
— No verão passado?
Yakishio assentiu levemente. Perto do fim das férias de verão, Yakishio e eu caminháramos pelas ruas à noite para encontrar Ayano uma última vez.
Aquilo havia sido o ápice e a conclusão de um amor não correspondido. Mesmo naquele momento, eu ainda não sabia o conteúdo da conversa entre Yakishio e Ayano naquela noite, nem compreendia completamente os sentimentos dela.
Mas a lembrança daquela ocasião permanecia como um fragmento importante no coração de Yakishio. Ainda ocupava espaço demais, sem deixar lugar para que outro romance entrasse. Então, o olhar de Yakishio me arrancou de meus pensamentos sentimentais.
— Hã? O que foi?
Yakishio me encarava em silêncio, com um olhar intenso. Tentei sustentar seu olhar, mas, naquele exato instante, ela desviou o rosto. Hã? Será que eu a tinha irritado de alguma forma...?
Quando estava prestes a seguir para o próximo tanque, senti seu olhar sobre mim novamente. Ao olhar para ela, Yakishio rapidamente virou o rosto para o outro lado, contendo um sorriso enquanto os ombros tremiam levemente.
...Ela estava brincando comigo. Certo. Se era assim que ela queria, eu entraria no jogo. Fingi que ia embora e então me virei subitamente para ela.
— Ei, isso é trapaça, não é?
— Não existe trapaça nesta competição. Agora estamos empatados — respondi calmamente antes de continuar andando.
— Eu ainda estou ganhando por dois a um — protestou ela enquanto me seguia.
Mas aquilo também fazia parte do meu plano. Virei-me sem aviso. Só que Yakishio foi mais rápida. Ela girou para o meu lado e cutucou minha bochecha.
— Peguei! Agora está três a um.
...Ela estava mesmo brincando comigo. Mas, afinal, quais eram as regras daquele jogo?
— Ei, Nukkun, tente me encontrar.
Parecia que, daquela vez, ela pretendia se esconder atrás de mim. Quando me virei, ela agarrou meus ombros e rapidamente escapou para o meu outro lado.
— Pronto, quatro a um!
— Não vale segurar meus ombros.
...Aquilo estava ficando ruim. Eu conseguia sentir os olhares das pessoas ao nosso redor. Para quem observasse de fora, provavelmente parecíamos um casal idiota.
— Certo, eu desisto. Por favor, tenha piedade.
— Ahh, já vai desistir?
— Estamos incomodando as pessoas. Vamos, é melhor continuar andando.
Yakishio mostrou a língua de maneira brincalhona e então me empurrou pelas costas, fazendo com que eu continuasse andando. Francamente, Yakishio estava mesmo muito animada naquele dia.
Tentei manter uma expressão séria, mas, por algum motivo, os cantos da minha boca insistiam em formar um sorriso.
— Eu não sabia... — murmurei baixinho para mim mesmo. — Que sair em um encontro... podia ser tão divertido.
*
Meu primeiro encontro estava transcorrendo surpreendentemente bem. Depois de sair do banheiro e confirmar que Yakishio não estava por perto, coloquei a mão sobre o peito e respirei fundo.
Depois daquele nosso misterioso jogo de trocar olhares, começamos outro em que passávamos um na frente do outro para bloquear a visão.
Era uma brincadeira digna de crianças do ensino fundamental. Mas, sob a premissa de que aquilo era um encontro, aquelas brincadeiras infantis se transformavam nas demonstrações de afeto de um casal bobo.
Eu realmente queria compartilhar aquela descoberta com alguém. Talvez pudesse incluí-la em meu próximo romance (escrita) e pedir a opinião de Yanami e Komari.
— Não. Preciso me acalmar.
Para deixar bem claro, Yakishio e eu éramos apenas amigos, em um encontro entre amigos. Para Yakishio, aquilo não passava de uma oportunidade para se entregar à alegria infantil.
Enquanto repetia aquele fato para mim mesmo, uma sombra fugaz chamou minha atenção.
...Aquela silhueta me era familiar. Mais especificamente, era aquela pequena criatura que ou lia encolhida em um canto da sala do clube ou tinha um ataque de raiva.
Enquanto pensava nisso e começava a caminhar naquela direção...
— O que foi, Nukkun?
A voz de Yakishio me fez parar.
— Ah, achei que tinha visto alguma coisa ali.
— Será que era uma daquelas coisas?
Surpreendentemente, Yakishio embarcou na ideia e espiou o corredor por cima do meu ombro.
— Alguns zoológicos deixam gansos e outros animais andando soltos por aí, não deixam? Talvez tenham soltado alguma coisa aqui também.
— Estamos em um aquário. Seja lá o que for, vai acabar ressecando.
— É só jogar um pouco de água em cima. Enfim, é melhor a gente ir.
Ah, verdade. Não tínhamos tempo para aquilo. A principal atração do aquário, o show dos leões-marinhos, estava prestes a começar.
Passamos pelas portas automáticas e saímos para a área externa.
O palco do show tinha aproximadamente o tamanho de duas salas do Clube de Literatura juntas, com uma piscina cerca de duas vezes maior diante dele. Em resumo, o lugar tinha uma atmosfera bastante aconchegante.
As arquibancadas eram divididas em níveis e tinham apenas cinco fileiras. Yakishio e eu nos sentamos na terceira. Ela olhou ao redor com nostalgia.
— Já faz uns cinco anos desde a última vez que assisti a um show aqui. Não mudou nada.
Fiquei me perguntando quantos anos também haviam se passado desde a minha última visita.
À medida que os passeios em família se tornaram menos frequentes, percebi que cada um de nós começara a passar os fins de semana por conta própria. Não era exatamente algo que me deixasse triste, mas, olhando para trás, parecia que aquela mudança havia acontecido cedo demais.
— A última vez que vim aqui foi quando minha irmãzinha entrou no ensino fundamental. A gente acaba não vindo muito a lugares assim quando não tem irmãos mais novos.
— Talvez. Eu também tenho uma irmãzinha no sexto ano.
Espera. Essa garota era uma irmã mais velha? A imagem de Asagumo e Yakishio fazendo uma brincadeira de irmãs passou pela minha cabeça, e definitivamente não era culpa minha.
— Ela é muito comportada. Nukkun, você não está pensando que ela é o meu completo oposto, está?
— Como você descobriu?
Depois que respondi sinceramente, Yakishio me lançou um olhar furioso e puxou minha orelha.
Ai.
Enquanto eu suportava aquela violência injustificada, o número de pessoas ao nosso redor começou a aumentar. Assim que o espaço para assistir em pé começou a ficar cheio, uma mulher e um leão-marinho apareceram casualmente no palco.
O show começou depois que ela deu um sinal ao leão-marinho. A mulher lançou algumas argolas, que o animal habilmente aparou com o pescoço.
— Olha, Nukkun! Esse leão-marinho não é incrível?
Yakishio apontou para ele, empolgada. Francamente, mesmo aos dezesseis anos, Yakishio ainda tinha um lado infantil.
De fato, a habilidade da mulher em lançar as argolas era impressionante, e o vínculo entre ela e o leão-marinho era inegável.
...Eu não percebera quando era criança, mas aquela era uma apresentação de nível bastante alto.
O show não era extravagante, mas, quando o salto final para dentro da piscina foi executado com sucesso, acabei aplaudindo naturalmente.
— Você viu aquele último salto? Se viemos até aqui, tínhamos mesmo que assistir ao show dos leões-marinhos!
— Ah, sim, você tem razão...
Eu esperava que Yakishio estivesse igualmente empolgada, mas, em vez disso, ela hesitou, mexendo inquietamente a mão direita no ar.
— O que foi, Yakishio? Pegou algum inseto ou coisa assim?
— Hã, bem...
O show terminou, e o público começou a voltar para dentro do prédio. De repente, Yakishio se levantou num pulo.
— Nukkun, preciso fazer uma ligação. Já volto!
— Hã? Claro, pode ir.
— Vou ser rápida!
Ela tirou o celular e voltou para dentro do prédio, deixando-me sozinho nas arquibancadas, que agora estavam vazias.
O que tinha sido aquilo? Foi então que percebi um pequeno pedaço de papel dobrado no lugar onde Yakishio estivera sentada. Talvez fosse uma anotação com os horários do ônibus? Peguei-o sem pensar muito e vi uma caligrafia arredondada e bonitinha no interior.
"ETAPA 1 — Dar as mãos:
Tomar a iniciativa de segurar a mão dele está fora de questão! Dê pistas discretas para que o garoto tome a iniciativa!"
...O que era aquilo? Sério, que diabos era aquilo? Antes de mais nada, por que Yakishio estava carregando algo assim?
Parecia haver outras etapas, mas decidi que seria melhor não olhar.
— Mas eu já não segurei a mão dela antes...?
Então qual era o propósito daquela anotação?
Confuso, levantei-me.
A ligação repentina, o bilhete misterioso… Aquilo parecia o começo de uma reviravolta chocante de um mangá que eu tinha lido recentemente.
Enquanto esses pensamentos circulavam pela minha cabeça, alguma coisa no canto do meu campo de visão chamou minha atenção.
Parecia haver alguém atrás das arquibancadas. A pessoa chegava mais ou menos à altura do meu ombro, tinha uma pequena mecha de cabelo presa de lado e aparecia e desaparecia enquanto espiava.
...Só podia ser aquela garota.
Aproximei-me sorrateiramente da parte de trás das arquibancadas para confirmar a identidade daquela figura misteriosa.
Sim.
Exatamente como eu imaginava. O topo da cabeça dela chegava apenas aos meus ombros, e seus cabelos desgrenhados estavam presos de um dos lados.
Ela estava de costas para mim. Eu estava prestes a chamá-la, mas parei ao notar suas roupas. Ela usava um chamativo moletom amarelo com shorts, uma mochila verde enfeitada com chaveiros barulhentos, broches e todo tipo de penduricalho, além de tênis verdes combinando.
O penteado e a silhueta eram inconfundivelmente os de Komari, mas o que diabos era aquele visual?
Espiando por trás dela, vi Komari — provavelmente — assistindo no celular a um vídeo do show dos leões-marinhos.
— C-Consegui gravar direitinho...
— Komari, o que é essa roupa?
— Una!?
Assustada, Komari deu um pulo para trás, agarrando o smartphone enquanto abria e fechava a boca, chocada. Aquela roupa incomum e seu comportamento ainda mais suspeito do que de costume me deixaram desconfiado.
Não me diga que...
— Isso é algum tipo de disfarce?
Komari balançou a cabeça vigorosamente.
— E-E-Eu não sou a Komari!
Como se isso pudesse ser verdade. Eu não havia contado a ninguém sobre o encontro. Pelo que vira na sala do clube, Yakishio também não parecera comentar nada com os outros membros do Clube de Literatura.
E, ainda assim, Komari estava ali. Isso significava...
— Komari, quem contou para você? Tem mais alguém aqui além de você?
— H-Hã, a-além d-d-de mim...
— Quem. Mais. Está. Aqui?
Enquanto eu insistia para que respondesse, Komari ergueu os olhos para mim com ressentimento, já cheios de lágrimas.
— Ei! Eu não estou culpando você, está bem? Hã... quer chiclete? Daquele que dá para fazer bola.
Komari aceitou o chiclete, colocou-o na boca e murmurou baixinho:
— P-Para começo de conversa, eu nem sou a Komari.
Não, você era a Komari. Mas, daquela vez, senti que talvez eu tivesse sido o errado.
— Hã, desculpa. Eu não deveria ter falado daquele jeito. Então, sobre essa roupa… — olhei novamente para o traje chamativo, mas ainda assim fofo, de Komari. — Sim, ficou bonitinho. Combina bastante com você.
— Cof!
O que foi, Komari? Engasgou com o chiclete?
— Você está bem? Dizem que bater entre as omoplatas ajuda quando isso acontece.
Depois de uma crise de tosse, Komari me lançou um olhar furioso e disparou:
— V-Vai morrer!
Então saiu correndo. Eu não entendia muito bem o que havia acontecido, mas ela parecia estar bem. Ainda assim, por que Komari estava ali? Ela realmente estava nos seguindo...? Foi então que Yakishio apareceu no lugar onde Komari estivera.
— Yakishio, eu acabei de ver a Komari e...
Antes que eu terminasse, um projétil cor de trigo passou disparado por mim. Yakishio saltou para as arquibancadas e começou a procurar freneticamente perto de onde estávamos sentados.
— Hã? O que você está fazendo?
Quando me aproximei e perguntei, Yakishio ergueu o rosto com uma expressão de pânico.
— Nukkun! Você viu um pedacinho de papel por aqui?
Então aquele bilhete era dela. Em silêncio, entreguei-lhe o papel.
— Você achou! Ainda bem. Eu estava preocupada que alguém pudesse ver...
O sorriso de Yakishio vacilou enquanto ela inclinava a cabeça.
— Você leu?
— Só um pouco.
A expressão de Yakishio ficou séria, e ela agarrou a gola do meu paletó.
— Não é nada disso! Eu nem queria aquilo, mas minha mãe me deu! Foi só isso, está bem?
— Eu não li o conteúdo! Só respira e solta minha gola. Inspira, expira.
— É, inspira, expira...
Yakishio se acalmou e me soltou.
— Então, do que se trata esse bilhete?
— É tipo... umas dicas para encontros ou algo assim. Eu disse para minha mãe que ia sair num encontro, e ela ficou toda empolgada. Até me emprestou roupas.
Espera. Aquela minissaia era da mãe de Yakishio?
Sem nenhum motivo em particular, senti uma pequena agitação no peito. Nenhum motivo em particular mesmo.
— Mas você já saiu com o Ayano antes——
Parei no meio da frase e engoli as palavras. Yakishio bateu com força no meu peito, como se estivesse batendo numa porta.
— Não precisa se preocupar com isso. Sair com o Mitsuki era diferente de um encontro, não era? Tipo... um encontro só vira encontro quando alguém declara que é um.
Concordei. Ao contrário de certa glutona que eu conhecia, Yakishio havia levantado um bom argumento. Ela se virou e começou a caminhar de volta para o prédio enquanto cantarolava.
Quando a segui pelas portas automáticas, Yakishio acenou para mim da entrada de uma sala logo ali dentro.
— Ei, vem aqui.
— Hm? O que tem aí?
Entrei obedientemente na sala, que era mais escura do que as outras. No fundo, um aquário hexagonal estava iluminado, enquanto águas-vivas flutuavam graciosamente em seu interior.
Yakishio e eu ficamos lado a lado, em silêncio, observando-as. As águas-vivas não estavam iluminadas por aquelas luzes vibrantes e modernas que estavam na moda, mas apenas por uma simples luz branca.
Elas flutuavam suavemente. O tempo passou sem que precisássemos dizer nada. Comecei a me sentir um pouco desconfortável parado ali e acabei quebrando o silêncio.
— Isso está parecendo um encontro de verdade.
Ao ouvir aquilo, Yakishio beliscou meu cotovelo.
— Foi um encontro de verdade desde o começo. Você não está sendo um pouco rude, Nukkun?
Bem, sim, mas…
Yakishio me encarou, fazendo bico.
— Você estava todo empolgado antes, usando até fintas e tudo mais.
Ela estava falando daquela nossa brincadeira de parecermos um casal idiota… Não, de parecermos crianças do ensino fundamental brincando?
— Foi só porque eu não consigo vencer você nos reflexos.
— Hmph. Então você não gosta de trocar olhares comigo?
— Não, não é isso...
Enquanto eu tentava explicar, Yakishio me encarou diretamente nos olhos.
— Certo, começou. Perde quem desviar o olhar.
Hã? Que tipo de desafio era aquele?
O rosto sério de Yakishio estava muito perto do meu.
— Espera, eu...
— Também não vale falar, está bem?
Em um canto pouco iluminado do aquário, com as águas-vivas brilhando suavemente ao fundo, o pequeno rosto de Yakishio estava bem diante do meu. Seus longos cílios tremulavam toda vez que ela piscava. Sua pele bronzeada, mas delicada, parecia impecável.
Os lábios, um pouco mais finos que o normal, exibiam um sorriso discreto. Meu próprio reflexo me encarava de volta através de seus olhos castanho-escuros. O perfume adocicado dela fez minha cabeça formigar com uma leve dormência.
...Eu definitivamente estava chegando ao meu limite. E, justamente quando estava prestes a admitir a derrota...
— Certo, empate.
Yakishio se afastou um pouco, timidamente, enquanto abaixava o olhar.
— Hã? Ah, sim... empate...
Repeti aquilo com a mente ainda enevoada.
— Vamos, Nukkun! Vamos para a próxima coisa!
Apressei-me atrás de Yakishio enquanto ela se afastava a passos rápidos...
*
— Nukkun, você é mais medroso do que eu imaginava. Olha, é só tocar.
— Mas... dá um pouco de medo quando você realmente está prestes a fazer isso.
Hesitei e recuei um passo, mas Yakishio se aproximou com uma expressão travessa...
Nosso encontro continuou, e a parada seguinte foi o tanque de toque. Tanques de toque sempre eram atrações populares entre os visitantes.
— Pense bem. Normalmente, esses tanques têm caranguejos-eremitas ou estrelas-do-mar, não têm? Colocar um caranguejo-aranha-gigante-japonês aqui seria como chamar Shohei Ohtani como rebatedor substituto numa partida de beisebol no quintal.
(N/SLAG: A comparação quer dizer que o caranguejo seria absurdamente grande e "fora de categoria" para aquele tanque, assim como Ohtani seria talento demais para um simples jogo de quintal. E Shohei Ohtani é um jogador japonês de beisebol, considerado um dos maiores astros do esporte atualmente.)
Isso mesmo. Aquele tanque de toque tinha, de maneira bastante incomum, um caranguejo-aranha-gigante-japonês, que facilmente ultrapassava um metro de comprimento.
Sua aparência era extraordinária. Parecia quase um boss final de videogame.
— Eu não teria problema nenhum em apertar a mão do Ohtani. Olha, a carapaça dele é toda irregular. É até fofinha.
Yakishio agarrou minha mão e a mergulhou à força na água. Como esperado, a carapaça do caranguejo era áspera e cheia de saliências.
— Eu toquei! Pronto, toquei, está bem?
Rapidamente puxei a mão de volta. Poucos instantes antes, meu coração tinha dado uma leve acelerada, mas, no fundo, ela continuava sendo a mesma Yakishio de sempre.
— Mesmo sem olhar aquele bilhete, você conseguiu segurar minha mão de um jeito bem natural.
— Bilhete?
Yakishio, que parecera confusa por alguns instantes, de repente ficou vermelha.
— Você viu mesmo! Eu já disse que minha mãe me deu——
Ela parou no meio da frase quando um sorriso infantil surgiu em seus lábios.
— O-O que foi?
— Olha ali. Tem um isópode gigante.
Isópodes gigantes eram como enormes tatuzinhos-do-mar do tamanho da palma da mão de uma criança. Por que alguém iria querer tocar neles — e, pior ainda, incentivar outras pessoas a fazer isso — estava além da minha compreensão.
— A gente devia lavar as mãos depois de tocar no caranguejo. Vamos, é melhor ir para a próxima coisa.
Tentei escapar discretamente, mas Yakishio segurou minha mão com firmeza.
— O próximo é o isópode gigante, não é? Vamos, Nukkun!
— Espera, espera! Eu não sou bom com insetos e coisas assim. Pode soltar minha mão por um segundo?
— Hã? Mas eu normalmente seguro sua mão de maneira natural sem nem pensar!
Ela ainda devia estar guardando rancor por causa daquele bilhete.
— Yakishio, eles estão vendendo lanches de edição limitada na loja de lembranças. Vamos dar uma olhada!
Foi exatamente quando soltei aquilo numa tentativa desesperada de mudar de assunto que...
— Hã? Eles são gostosos?
...uma voz familiar de garota respondeu.
— Essa voz agora...
Virei-me na direção de onde ela viera, e alguém rapidamente se escondeu atrás de uma prateleira da loja de lembranças.
— Era a Yana-chan, não era?
Yakishio e eu olhamos na direção da loja.
— Você viu quem era?
— Não. Só vi as costas.
Trocamos um olhar e, em silêncio, nos separamos, cada um seguindo por um lado diferente para cercar a loja. Quando dei a volta rapidamente, Yakishio surgiu pelo outro lado.
— Ninguém aí?
— Não tinha ninguém. Talvez aquela voz tenha sido só coisa da nossa imaginação?
Aquela voz. Aquele comentário. Existia alguém além de Yanami que diria uma coisa daquelas...? Depois de olharmos ao redor com desconfiança por algum tempo, Yakishio parou. Ela pegou um chaveiro da prateleira.
— Olha, areia de estrela!
Ela escolhera um chaveiro com o nome do aquário gravado, contendo minúsculos grãos de areia em formato de estrela dentro de um pequeno enfeite de vidro.
— Você gosta disso?
Yakishio assentiu com um sorriso infantil.
— Quando eu era pequena, ganhei um vidrinho cheio de areia de estrela. Eu queria muito tocar nela, então abri o vidro e acabei derramando tudo dentro do carro.
A confusão que aquilo devia ter causado dentro do carro surgiu imediatamente na minha cabeça. Yakishio pareceu hesitar por um tempo, mas acabou devolvendo o chaveiro à prateleira.
— Não vai comprar?
— Hm... talvez eu acabe querendo abrir de novo.
Resista a esse impulso, garota.
Saímos da loja de lembranças com Yakishio parecendo um pouco decepcionada.
— Será que a gente se enganou agora há pouco? Aquela voz parecia exatamente a da Yana-chan.
Komari disfarçada e aquela figura misteriosa que parecia Yanami… Falei com Yakishio enquanto examinava os arredores.
— Na verdade, encontrei a Komari mais cedo.
— Komari-chan? Então aquela pessoa agora há pouco era mesmo...
— Sim, pode ter sido a Yanami-san... Ai!?
Yakishio puxou minha orelha de repente.
— Ei, Nukkun. Você contou para todo mundo sobre o nosso encontro?
— Não! Eu não contei para ninguém!
Convencida pela minha explicação desesperada, Yakishio finalmente soltou minha orelha.
— Eu também não contei para ninguém. Então por que aquelas duas estariam aqui?
Eu não fazia ideia. Mas, pensando bem, com certeza Yakishio preferiria estar com todo mundo em vez de ficar só comigo...
— Já que descobriram, será que não seria melhor encontrarmos as duas e ficarmos todos juntos?
— Eu não gosto muito dessa ideia.
Yakishio murmurou baixinho e começou a se afastar.
— Hã? Eu realmente não faço ideia de como descobriram...
— Não estou falando disso.
Yakishio seguiu sozinha em direção à área de alimentação, com as mãos entrelaçadas atrás das costas.
A área de alimentação tinha uma piscina do tamanho de aproximadamente dez metros quadrados, cheia não apenas de peixes, mas também de tartarugas-marinhas. Aquele aquário parecia sempre proporcionar encontros próximos com criaturas incomuns.
— Hã... o que você quis dizer com aquilo?
Sem responder, Yakishio colocou algumas moedas na caixa de pagamento e pegou dois recipientes de ração.
— Aqui.
Ela me entregou um. Dentro havia pequenos camarões secos. Assim que o segurei, uma tartaruga-marinha começou a nadar lentamente em nossa direção.
— Essa aí está querendo muito. Aqui, Nukkun, dê comida para ela também.
Quando espalhei alguns camarões secos, os peixes que estavam por perto avançaram rapidamente e devoraram tudo. Ei, eu não estava dando isso para vocês. Vocês não eram a Yanami. Tenham um pouco de moderação, está bem?
— Nukkun, você precisa jogar mais perto da boca dela.
Yakishio, rindo alegremente, parecia já ter esvaziado o próprio recipiente. Bati de leve no tanque do lado oposto, e a tartaruga que estava perto dela nadou em minha direção. Eu apenas havia baixado a guarda antes.
Imaginando os peixes como pequenas Yanamis, deixei cair os camarões secos um por um, cuidadosamente, perto da boca da tartaruga.
— Viu? Quando eu me esforço, consigo até alimentar uma tartaruga-marinha.
— Você é muito devagar. Aqui, deixa que eu mostro.
Yakishio agarrou minha mão e despejou de uma vez todo o resto do conteúdo.
— Ah, eu estava indo tão bem...
Lamentei, enquanto Yakishio continuava segurando minha mão e falava em um tom mais baixo do que o habitual.
— Não tinha como evitar que descobrissem, mas lembre-se, Nukkun: hoje você está num encontro comigo.
Nos olhos dela se misturavam irritação, provocação e talvez alguma outra emoção. Engoli em seco e assenti de maneira desajeitada.
— É, verdade. Mesmo que aquelas duas estejam aqui, isso não muda o nosso encontro.
— Claro que não. Você continua sendo muito lerdo para essas coisas, Nukkun.
Com um sorriso travesso, Yakishio devolveu o recipiente vazio.
— Mas... talvez a gente também possa se divertir um pouco.
— Hã? O que você quer dizer?
— Eu tenho bastante confiança quando o assunto é pega-pega, sabia?
Yakishio piscou para mim e apontou com o polegar na direção da saída do aquário.
*
Nós nos escondemos atrás de alguns carros estacionados em um canto da área residencial do outro lado da rua, em frente ao aquário. Engoli em seco e esperei meu coração acelerado se acalmar.
Quando olhei de lado, Yakishio parecia completamente tranquila, com uma das mãos junto à orelha, escutando atentamente.
— Achei que eles tinham ido por aqui. O que você acha, Komari-chan?
Aquela era a voz de Yanami. Yakishio se abaixou ainda mais. As vozes altas e o som de pequenos passos apressados ecoaram pelo bairro.
— V-Você não consegue parar de comer nem numa hora dessas?
— Mas este biscoito de arroz tem pó de isópode gigante. Quer um pouco, Komari-chan?
— N-Não...! E-Eu já disse que não quero!
As duas estavam fazendo uma barulheira e tanto. Vão para outro lugar, garotas.
— Ei, vocês duas. Que tal voltarmos, pegarmos o carro e irmos até a estação para chegar antes deles?
...Espera. Aquela voz era de Tsukinoki-senpai. As coisas sempre ficavam complicadas quando ela se envolvia.
— Concordo! Mas a Lemon-chan é rápida. Será que vamos conseguir chegar a tempo?
— C-Com o Nukumizu, c-com certeza conseguimos.
— Tem razão. Isso me deixa mais tranquila.
A confiança inabalável que tinham em mim continuava a mesma de sempre.
...Quando as vozes finalmente desapareceram, Yakishio se espreguiçou e se levantou.
— Certo, deu tudo certo. Vamos sair daqui rápido.
— Mas eu preciso ir até a estação para pegar o trem de volta para casa.
Yakishio parou de se espreguiçar de repente.
— O que foi?
............
Ela cruzou os braços em silêncio.
— Hã, ei...
— Nukkun, o encontro ainda não acabou, sabia?
Ela falou em tom de brincadeira, mas havia um leve traço de timidez em sua voz.
*
Perto do aquário ficava uma ilha chamada Takeshima. Uma longa ponte de cerca de quatrocentos metros se estendia a partir do parque à beira-mar, e era possível atravessá-la a pé.
— Ei, anda logo!
Yakishio se virou e acenou para mim enquanto caminhava à frente. Nós ainda nem tínhamos chegado à metade da ponte, mas eu já queria voltar.
— Por favor, pare de correr na frente. Eu estou quase morrendo...
Apoiei-me no corrimão da ponte e olhei para trás, na direção de onde tínhamos vindo. Na entrada da ponte havia um parque gramado, e eu conseguia ver famílias brincando à distância. Yakishio correu de volta até mim e bateu nas minhas costas.
Ai.
— O que foi, Nukkun? Vamos.
— A gente correu demais antes. Estou cansado.
— Do que você está falando? A parte principal está só começando — Yakishio apontou animadamente para a ilha. — Está vendo aquelas escadas? Tem um santuário lá no alto!
— Sério? A gente precisa mesmo subir? O santuário não pode simplesmente descer até aqui?
— Não, ele não vai descer. Vamos!
Yakishio era implacável. Enquanto ela puxava meu braço, lancei-lhe um olhar de lado. Ela parecia tão alegre quanto sempre, apontando para aves marinhas e rindo com entusiasmo.
Ali estava eu, num encontro com a Yakishio de sempre, mas ainda assim aquilo não parecia totalmente real.
Atravessamos a ponte com o coração leve, passamos pelo portão torii e fui trazido de volta à realidade ao ver a escadaria íngreme diante de nós.
— Tem algum café no meio do caminho? Tipo um Doutor?
Para minha tristeza, Yakishio balançou a cabeça, com os olhos brilhando.
— Não. Ei, Nukkun, vamos apostar corrida até o topo! Preparar, já!
Antes que eu pudesse protestar, Yakishio já estava disparando escada acima.
*
Quando cheguei ao topo, agarrei minhas pernas trêmulas e arfava em busca de ar. Eu pretendia subir no meu próprio ritmo, mas Yakishio havia me obrigado a correr.
— Eu... normalmente... não faço muito exercício... sabia...?
— Mas é bom mexer o corpo, não é?
Na verdade, não. Era cansativo e sofrido.
Mas, já que estávamos ali, achei que poderíamos aproveitar e fazer uma prece no santuário. Segundo o mapa, além do Santuário Yaotomi principal, havia vários outros santuários dentro do terreno.
— Vamos ver... Santuário Daikoku, Santuário Chitose, Santuário Uga... todos esses são dedicados a divindades relacionadas à comida.
— Aposto que a Yanami-san ficaria radiante se a trouxéssemos aqui.
Comentei em voz alta, e Yakishio começou a cutucar minha bochecha com a ponta do dedo.
— Ei, o que foi? Espera...
............
Yakishio continuou cutucando minha bochecha, parecendo um pouco irritada. Espera, aquilo estava começando a doer.
— Tá bom, tá bom! Eu entendi! Foi mal!
Finalmente, os ataques incessantes pararam.
— Sério? Você entendeu mesmo?
— Bem, isso é... claro...
O biquinho de Yakishio deixava claro que ela sabia perfeitamente que eu não tinha entendido nada.
— As pessoas normalmente não falam de outras garotas durante um encontro?
Espera, isso não podia? Ainda havia tanta coisa para aprender.
— Desculpa, foi mal. Hoje eu só vou falar da Yakishio.
— Não, também não é bem assim.
Aquilo também estava um pouco errado. Complicado. Mesmo que eu tivesse entendido errado, aparentemente minha resposta melhorara o humor dela.
Com o sorriso de Yakishio de volta, rezamos juntos diante do salão principal do Santuário Yaotomi. Eu rezei pela saúde e segurança da minha família e, de bônus, pelo sucesso de Tamaki-senpai nas provas.
Mas então fiquei pensando: será que era permitido fazer dois pedidos depois de oferecer apenas cinquenta ienes? Enquanto pensava se deveria colocar mais alguma moeda na caixa de oferendas, Yakishio já terminara sua oração e observava as bandeiras do santuário tremulando ao vento.
— Nukkun, você parecia bem concentrado na sua oração.
— É, eu não conseguia decidir o que pedir. E você, Yakishio? O que pediu?
— Eu não costumo fazer pedidos em lugares assim.
Yakishio respondeu de maneira despreocupada, entrelaçando as mãos atrás da cabeça.
— Por quê?
— Tenho a impressão de que, se o meu desejo se realizar, talvez isso anule o desejo de outra pessoa.
Ela sorriu um pouco tristemente.
— Então eu não peço nada.
Dizendo isso, voltou a caminhar. Eu a segui, procurando a melhor maneira de responder.
— Tem alguma coisa incomodando você?
— Por que está perguntando?
Minha pergunta genérica foi gentilmente desviada, e seguimos lado a lado pelo caminho de pedras que levava mais para dentro do terreno do santuário.
— Você me chamou para sair num encontro do nada. Achei que talvez tivesse alguma coisa na cabeça que não quisesse contar para mais ninguém.
— É mesmo? Hm... eu mesma não tenho certeza.
Yakishio diminuiu o ritmo.
— Ultimamente, eu quase não tenho conseguido aparecer no Clube de Literatura. Não escrevo romances nem faço nada que pareça realmente atividade de clube.
Eu estava prestes a tranquilizá-la, dizendo que aquilo não era verdade, mas me contive. Não cabia a mim negar os sentimentos e preocupações dela.
— Quando finalmente apareço no clube depois de muito tempo, todo mundo está falando de coisas que eu não conheço. A Yana-chan e a Komari-chan também conversam sobre assuntos que eu não sei.
Yakishio deu de ombros com um sorriso autodepreciativo.
— Ultimamente, até a sua irmã aparece mais na sala do clube do que eu.
— Sério?
Eu sabia que ela vinha visitando o conselho estudantil de vez em quando, mas será que estava aparecendo tanto assim na sala do clube? Enquanto remexia minhas lembranças, Yakishio encostou de leve o ombro no meu.
— Por isso, hoje eu quis sair um pouco na frente.
— ? Por que sair num encontro comigo seria sair na frente?
— Quer saber?
— Sim, me conta... Uwah!
De repente, Yakishio agarrou minha mão e começou a correr.
— Espera, a gente vai cair!
— Eu estou tomando cuidado!
Memórias do verão anterior na praia atravessaram minha mente. Guiado por Yakishio, passei pelos fundos do terreno do santuário e chegamos a uma escadaria de pedra que descia.
Se caíssemos ali, definitivamente não seria motivo para rir. À medida que eu descia os degraus preparado para morrer, o horizonte foi se abrindo lentamente diante de mim. Então, de repente, Yakishio parou.
— Uau...
Ela deixou escapar a exclamação sem perceber. Havíamos chegado ao fim da escadaria, diante das águas tranquilas da Baía de Mikawa. O caminho que percorrêramos nos levara até o lado oposto da ilha. A partir dali, um calçadão se estendia ao longo de todo o perímetro externo.
— Olha, Nukkun! Ali!
Yakishio apontou para uma ilha que surgia no meio do mar.
— Foi ali que fomos à praia no ano passado, não foi? É aquela ilha?
— Aquela praia fica na margem oposta da Baía de Mikawa, então está além daquela ilha.
Para começo de conversa, nós nem sequer tínhamos ido a uma ilha.
— Além disso, a distância visível até o horizonte é de apenas uns cinco quilômetros, então não dá para ver a praia daqui. Talvez fosse possível do santuário, se verificássemos a altitude e fizéssemos alguns cálculos.
Enquanto procurava no smartphone um aplicativo para medir altitude, Yakishio arrancou o aparelho da minha mão.
— Ah, ei...
— Estamos num encontro, olhando para um mar lindo. Você não consegue pensar no clima da situação pelo menos uma vez?
Yakishio suspirou enquanto segurava meu celular.
— Bem, talvez seja difícil entrar nesse clima comigo como sua acompanhante. Você prefere garotas femininas de cabelo comprido, não é?
— Eu já falei isso para você alguma vez?
Yakishio me lançou um olhar significativo e mostrou a tela de fundo do meu celular.
— É porque o papel de parede do seu celular sempre tem personagens de cabelo comprido.
Eu não podia negar, mas perceber que ela tinha reparado no papel de parede do meu celular foi um pequeno choque. Só esperava que ela não tivesse visto a ilustração mais recente da Poyotan-sensei...
Depois de devolver meu celular, Yakishio começou a caminhar pelo calçadão à beira-mar. De repente, ela saiu do caminho e pulou sobre as rochas que se projetavam mar adentro.
— Ei, cuidado!
— Está tudo bem. Eu vi alguém tirando fotos por aqui antes.
O trecho rochoso avançava cerca de dez metros mar adentro, e era possível chegar até a ponta se a pessoa tivesse coragem suficiente. Enquanto eu a observava apreensivo, Yakishio chegou ao extremo e se virou.
— Olha, a vista é incrível! Vem, Nukkun!
— Hã, não. É perigoso.
Ela soltou uma gargalhada diante da minha resposta completamente sensata.
— Está tudo bem. Se você cair no mar, eu salvo você.
Comecei a atravessar as pedras com relutância, tendo dificuldade para me equilibrar naquela superfície irregular...
— É, a vista é bonita. Agora vamos voltar.
— Por que você tem que dizer isso daí de tão longe?
Yakishio reclamou, parada a cerca de dois metros de distância sobre outra pedra.
— Porque não consigo chegar até você sem pular por esses vãos. Isso aqui é o tipo de lugar onde você perde uma vida se errar o salto num videogame, sabia?
— Está tudo bem se tomar cuidado. Olha, é totalmente seguro... Uou!
Yakishio se desequilibrou perigosamente enquanto, de brincadeira, tentava ficar apoiada em uma perna só. Ei! Você não estava despreocupada demais!? Em pânico, corri até ela e saltei para a pedra onde estava, escorregando no processo.
— Nukkun, cuidado!
Quando quase caí, ela agarrou minha mão e me puxou de volta com uma força surpreendente.
— Você está bem? Não se machucou, não é?
— Sim, estou bem, mas essa foi por pouco...
Era irônico que eu tivesse acabado precisando ser salvo justamente quando tentara ajudá-la. Como sempre, a capacidade física de Yakishio era impressionante...
— Espera. Você fingiu que perdeu o equilíbrio agora há pouco?
— Hã...
Ainda segurando minha mão, Yakishio assentiu sem jeito, parecendo um pouco envergonhada.
— Desculpa...
Bem, como nada de ruim tinha acontecido, achei que estava tudo bem. Era difícil continuar irritado ao ver Yakishio com aquela expressão tão arrependida.
— Mas a vista daqui da ponta é diferente, não é?
Além do mar completamente aberto, a Península de Atsumi surgia ao longe, pálida e enevoada pela distância. Enquanto contemplava a paisagem, uma gaivota de bico vermelho passou voando rente à superfície do mar.
— Obrigado por me mostrar essa vista. Você queria que eu a visse, não queria?
— Sim.
Yakishio apertou um pouco mais minha mão, que ainda segurava.
— Agora estamos seguros. Já pode soltar... Yakishio?
De repente, lembrei-me do bilhete que encontrara no aquário.
Dar as mãos não devia ser grande coisa para Yakishio. Então, se ela hesitava em me soltar, provavelmente era apenas porque ainda estava preocupada comigo...
Mas, como se quisesse destruir todas as justificativas que eu acabara de inventar, Yakishio entrelaçou seus dedos finos nos meus.
— !?
— Esta é a etapa 2.
O sussurro de Yakishio, dispersado pela brisa do mar, fez cócegas em meu ouvido. Paralisado pela sensação inédita de nossos dedos entrelaçados, fiquei ouvindo enquanto Yakishio começava a falar baixinho.
— Você perguntou antes se eu estava preocupada com alguma coisa, não foi?
— Hã... então tem alguma coisa?
Ela balançou a cabeça.
— Não é exatamente isso. Na escola, meus amigos e os professores são gentis comigo. O pessoal do atletismo também é muito legal, todo mundo me apoia e me trata de maneira especial...
Ela hesitou por um instante.
— Mas, sabe, ser a pessoa que recebe esse tratamento especial também pode ser um pouco cansativo.
Sua voz, carregada por um leve sentimento de culpa, revelava uma vulnerabilidade que raramente mostrava. Enquanto eu permanecia em silêncio, sem saber o que dizer, Yakishio murmurou com a voz rouca:
— Ei, Nukkun. Quer entrar para o clube dos que vão direto para casa comigo?
...Hã?
O clube dos que vão direto para casa. Não era algum clube misterioso em que as pessoas competiam para descobrir a melhor maneira de voltar para casa... certo?
Na verdade, aquilo simplesmente significava ir direto para casa depois das aulas, sem participar de nenhuma atividade extracurricular.
— Não, mas nós já fazemos parte de clubes, então entrar nesse não é exatamente uma opção, é?
Yakishio balançou a cabeça com firmeza.
— Estou pensando em sair do Clube de Atletismo e do Clube de Literatura. Vamos criar nosso próprio clube dos que vão direto para casa, só nós dois.
Seus olhos de tom profundo encararam diretamente os meus. A luz do sol, refletida nas ondas, atravessava seus cabelos queimados de sol, fazendo-os brilhar intensamente.
Desviei o olhar, como se tentasse escapar daquele brilho. Depois de alguns instantes de silêncio, Yakishio soltou minha mão e começou a atravessar as pedras de volta ao calçadão.
— Ei, você estava brincando quando falou em sair dos clubes, não estava?
Yakishio parou.
...Percebi tarde demais o quanto minhas palavras haviam sido covardes, evitando confrontar diretamente o que ela dissera e tentando criar distância.
Será que Yakishio também percebeu?
Ela olhou para mim por cima do ombro, com uma expressão séria.
— Pense bem sobre isso. Eu não estava brincando com o que disse antes.
📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag e revisado por Shisui
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