Todas Essas Heroínas Perdedoras! — Capítulo 67: Volume 6 – Capítulo 2 – Capítulo 2: Tão úmido quanto o número de lágrimas

Todas Essas Heroínas Perdedoras!
Cap. 67
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Todas Essas Heroínas Perdedoras!

Volume 6 – Capítulo 2 – Capítulo 2: Tão úmido quanto o número de lágrimas

Capítulo 67

16.359 palavras~71 min de leitura

A SEGUNDA-FEIRA DEPOIS de um feriado sempre parecia pesada.

Em meio a todo aquele peso, de algum modo consegui chegar até a reunião de classe depois das aulas. Uma atmosfera sombria envolvia toda a sala.

— Uma amiga minha acabou de me contar que arranjou um namorado novo.

Assim começou o prenúncio de mais uma história deprimente. Nossa professora responsável pela turma, Amanatsu-sensei, estava em seu modo mais sombrio possível.

Apoiada no púlpito, Amanatsu-sensei começou a enrolar uma mecha do cabelo na ponta dos dedos.

— Eu nem fiquei sabendo que ela tinha terminado com o namorado anterior. Isso não é muito estranho? Eu nunca passei por nada particularmente bom ou ruim, então por que ela continua conseguindo uma coisa boa atrás da outra?

Acho que eu sabia quem era essa amiga.

Enquanto o drama de Amanatsu-sensei se desenrolava, lancei discretamente um olhar para Yakishio, que estava junto à janela, com o rosto apoiado na mão. Yakishio contemplava o lado de fora da janela, aparentemente perdida em pensamentos.

Sem saber muito bem como reagir, acabei dizendo quase nada. Depois disso, seguimos juntos em silêncio, até que meu primeiro encontro chegou ao fim diante do aquário.

Meu único consolo foi o delicioso ramen do Sugakiya que comi sozinho na Estação de Gamagori.

— Mesmo que vocês digam que ficam solitários por causa do frio, o que eu deveria fazer, se estou sempre com frio? Até o gato da minha própria casa só fica agarradinho com a Konuki-chan... Quando será que o inverno da querida professora de vocês vai acabar?

Eu só queria que a reunião de classe acabasse antes do inverno da Amanatsu-sensei.

Àquela altura, ela já havia começado a caçar pontas duplas no cabelo. Depois de eliminar o que parecia ser a enésima ponta dupla, Amanatsu-sensei finalmente pareceu satisfeita e se levantou devagar.

— Bem, já estamos em março. A cerimônia de formatura será na sexta-feira, e vocês vão para o segundo ano no mês que vem.

A luz retornou aos olhos dos meus colegas quando o fim do teatro de Amanatsu-sensei pareceu estar próximo. Amanatsu-sensei olhou ao redor com uma expressão mais séria do que o habitual.

— Haverá uma troca de turmas no segundo ano, então só ficaremos juntos por mais um tempinho. Na verdade, eu me diverti bastante este ano com todos vocês.

No passado, Amanatsu-sensei levava muito a sério a responsabilidade de nos ensinar. No entanto, a partir de amanhã, ela não teria mais que lidar conosco. Com certeza seria difícil para ela. Será que ficaria bem?

Não era realmente da minha conta, mas ainda assim eu me preocupava com ela. Então, a sensei bateu o livro de chamada contra o púlpito.

— Certo, é só isso por hoje! Não se metam em confusão no caminho para casa!

Quando a longa reunião de classe finalmente chegou ao fim, procurei Yakishio entre os colegas que se levantavam. Eu não havia falado com ela durante toda a manhã, mas sabia que precisava ter uma conversa de verdade com ela.

— Yakishio!

Yakishio pareceu surpresa quando bloqueei seu caminho.

— O que foi, Nukkun? Você até levantou a voz.

— Não, é que... sobre ontem...

Bem, aquilo era constrangedor. Eu tinha a chamado por impulso, mas agora estava tendo dificuldades para começar a conversa.

Fiquei em silêncio, e Yakishio também começou a remexer os dedos, inquieta.

— É. Desculpa por ter dito uma coisa daquelas tão de repente. Deve ter te deixado incomodado.

— Não é que tenha me incomodado. É só que... foi tão repentino...

O que as palavras dela de ontem significavam? Se alguma coisa tivesse acontecido no clube, talvez eu ainda pudesse fazer algo a respeito...

Havia tanta coisa que eu precisava perguntar, mas ali estava ela, remexendo os dedos nervosamente diante de mim.

— Pode ter sido repentino para você, mas, para mim, não foi. Por isso… — Yakishio ergueu o rosto e me encarou. — Eu ficaria muito feliz se você pensasse nisso com seriedade.

— C-Claro.

Yakishio fez a barra da saia curta balançar quando assenti de maneira desajeitada.

— Então, hoje preciso ir ao ginásio. Já vou indo.

— Ah... até mais.

Yakishio saiu correndo da sala de aula, que de repente havia ficado silenciosa. Fiquei apenas encarando sua figura se afastar... Espera aí, por que a sala estava tão silenciosa...?

Quando percebi e olhei ao redor, todos os meus colegas estavam me encarando com expressões sérias. Até Yanami me lançava um olhar que eu nunca tinha visto antes. A parte branca dos olhos dela sempre foi tão grande assim...?

Enquanto eu permanecia ali, confuso, uma leve música de fundo começou a tocar na minha cabeça, e o aroma de flores pareceu preencher o ar. Karen Himemiya parou diante de mim, com as mãos na cintura, bloqueando meu caminho.

— Posso falar com você um instante, Nukumizu-kun?

— Hã? Na verdade, não...

Recuei, assustado, mas senti uma presença pesada bloquear minha rota de fuga por trás.

— Ohoho, pensar que você rejeitaria um convite da Karen-chan... Você tem coragem, hein, Nukumizu-kun?

Aquela pressão vinha de Yanami, que estava atrás de mim. Com o 8K no portão da frente e o 4K no portão de trás...

Diante do orgulhoso combo 12K do Colégio Tsuwabuki, não tive escolha senão obedecer.

*

Em um restaurante familiar um pouco afastado da escola. Tomei um gole de refrigerante de cola enquanto tremia naquele refúgio. Do outro lado da mesa, sobre a qual havia uma enorme porção de batatas fritas, estavam Karen Himemiya, sorrindo, e Anna Yanami, com uma expressão um tanto vazia.

— Nukumizu-kun, fiquei um pouco curiosa sobre aquela conversa que você teve com Yakishio-san mais cedo.

Himemiya-san insistiu com um sorriso que, de alguma forma, exercia certa pressão. Mesmo que ela dissesse estar curiosa, não era como se qualquer coisa relacionada ao Clube de Literatura fosse da conta de Himemiya-san...

— Ah, desculpa, mas não é algo que diz respeito à Himemiya-san, e eu realmente não posso entrar em detalhes...

Bam!

Himemiya-san bateu com força na mesa.

— É claro que diz respeito a mim! Eu não posso simplesmente ignorar qualquer coisa que envolva minha melhor amiga, Anna!

Hã? O que a história de Yakishio tinha a ver com Yanami?

E essa história toda de elas serem melhores amigas... Juro que eu precisava ser lembrado disso regularmente, ou acabaria esquecendo…

— Eu estava planejando contar para Yanami-san mais cedo ou mais tarde... mas ontem eu saí com a Yakishio.

— Foi um encontro, não foi?

Yanami me corrigiu com um olhar afiado.

— Bem, foi, mas isso não faz muita diferença...

Tentei minimizar o assunto, mas, dessa vez, Himemiya-san me lançou um olhar severo.

— É claro que faz diferença! Você já tem a Anna, não tem!?

— Hã? — dissemos Yanami e eu ao mesmo tempo.

Em primeiro lugar, eu não "tinha" a Yanami. E, em segundo, do que diabos ela estava falando? Até Yanami parecia perplexa com aquilo.

— Você já tem a Anna como sua namorada e, mesmo assim, sai em um encontro com outra garota? É óbvio que isso não está certo!

Ela começou a fazer acusações sérias do nada.

— Espera! Yanami-san e eu não estamos namorando, sabia!?

— Hã?

Agora foi a vez de Himemiya-san ficar chocada. Seus olhos se arregalaram enquanto ela alternava o olhar entre Yanami e eu.

— Então, Anna, isso significa que você levou um fora de novo...

Epa, espera aí. Esse era um caminho que definitivamente não queríamos seguir. Ao ver a expressão de Yanami, comecei rapidamente a agitar as mãos.

— Não, não, não! Nós nunca estivemos juntos para começo de conversa! Anda, Yanami-san, fala alguma coisa!

Yanami virou lentamente a cabeça na minha direção, como se suas articulações rangessem.

— B-Bem, acho que o que a Karen-chan está dizendo é... um mal-entendido?

— Isso, isso.

— Se formos analisar direito, seria mais correto dizer que fui eu quem deu um fora no Nukumizu-kun.

— Hã? Você não me deu nem um pouquinho de fora.

Muito bem. Então aquilo significava guerra. Terminei meu refrigerante de uma vez e bati o copo com força sobre a mesa.

— Se você está falando do que aconteceu em julho, no ano passado, aquilo foi inteiramente um mal-entendido seu, Yanami-san. Considerando um equívoco dessa magnitude, era inevitável começar a questionar sua percepção dos acontecimentos posteriores.

— Questionar?

Yanami ergueu uma sobrancelha e enfiou uma batata frita na boca. Assenti e estendi a mão para o prato de batatas, que já estava quase vazio.

— Por exemplo, em relação ao incidente no observatório no fim do ano, foi você quem sugeriu unilateralmente que eu me declarasse. Normalmente, uma conversa dessas jamais surgiria se não houvesse um interesse mútuo no assunto de confissões amorosas. Isso sugere que talvez exista uma distorção fundamental na sua percepção. Em outras palavras————

Yanami apontou uma longa batata frita na minha direção, interrompendo-me.

— Você está querendo dizer que fui eu quem começou, unilateralmente, a ficar consciente de você, Nukumizu-kun?

...Minha resposta foi o silêncio. Yanami, que até então estreitava os olhos para mim, abriu um sorriso presunçoso.

— A premissa está errada, Nukumizu-kun. Uma garota e um garoto estão sozinhos, e o garoto diz que tem algo sério para conversar... Isso é universalmente entendido como uma confissão amorosa, não é?

— Eu já disse que aquilo foi um mal-entendido...

— É o inconsciente coletivo. Você só ainda não percebeu, Nukumizu-kun, mas aquilo foi, na verdade, uma confissão.

Inconsciente... coletivo? Ela definitivamente estava usando termos cujo significado não entendia.

— E, já que eu rejeitei essa confissão, naturalmente significa que eu dei um fora em você, não é?

— Então por que eu não via as coisas dessa forma?

— Aquilo no fim do ano foi como rejeitar você antes mesmo que pudesse se declarar. Se for pensar bem, você deveria até me agradecer.

Agora ela queria até que eu agradecesse. Certo, já estava mais do que na hora de Yanami encarar a realidade.

— Então vamos deixar Himemiya-san julgar.

— De fato. Karen-chan, como alguém de fora, você deve conseguir enxergar a situação com clareza, não é?

— Hã? Eu?

Himemiya-san se encolheu quando, de repente, jogamos a responsabilidade para ela. Depois de alternar o olhar entre nós dois por algum tempo, inclinou a cabeça e disse:

— Então vocês dois... ficam terminando e voltando o tempo todo?

— Não! — respondemos os dois ao mesmo tempo. Acabamos falando em perfeita sincronia. Yanami soltou um gemido sofrido enquanto segurava a cabeça.

— P-Por enquanto, o julgamento de Nukumizu-kun ficará suspenso até a chegada da terceira juíza.

— Uma terceira? Tem mais alguém vindo?

— Isso envolve o Clube de Literatura, não é? Por isso também chamei a Komari-chan.

A Komari também vinha? Enquanto olhava casualmente ao redor, notei uma cabeça subindo e descendo atrás de uma planta decorativa.

...O que ela estava fazendo?

Assim que peguei o celular para chamá-la, uma mensagem chegou como se tivesse sido enviada no momento exato.

"Quem está ao lado da Yanami?"

Pensando bem, aquela seria a primeira vez que ela encontraria Himemiya-san.

Eu estava prestes a responder, mas mudei de ideia e me levantei. Já que ela estava ali, seria melhor simplesmente buscá-la.

*

Depois de acomodar a Komari capturada ao meu lado, Himemiya-san se inclinou sobre a mesa, com os olhos brilhando.

— Prazer em conhecê-la, Komari-san. Anna me contou várias coisas sobre você. Você escreve romances, não é?

— Ueh... a-ah...

Brilho, brilho, brilho.

Komari estava completamente intimidada pela aura de Himemiya-san. Ao perceber isso, Himemiya-san mostrou a língua e soltou uma risadinha brincalhona.

— Desculpe, acabei monopolizando a conversa. Que tal começarmos com um brinde? Saúde!

— Ah... a-ah...

Com as mãos trêmulas, Komari encostou sua caneca nas nossas antes de voltar a ficar paralisada.

Essas duas... pareciam ser uma combinação terrível.

— Karen-chan, a Komari-chan parece assustada. Desculpa por chamar você tão de repente, Komari-chan.

Yanami interveio entre as duas. Komari assentiu vigorosamente antes de virar a tela do celular na direção dela.

"O que você quer?"

— Hã….? Komari-chan, por que está falando comigo pelo celular?

Tomei um gole de café enquanto Yanami continuava destruindo o próprio medidor de afinidade com as outras pessoas.

— Na verdade, nós chamamos você aqui por um motivo específico, Komari-chan. Estamos prestes a começar o julgamento do impeachment de Nukumizu-kun.

— Espera um pouco, Yanami-san. Eu só saí com Yakishio para aconselhá-la. Não aconteceu nada suspeito.

O melhor era atacar primeiro para evitar acusações. Comecei imediatamente a me explicar antes que Yanami pudesse partir para cima de mim. Ela, porém, apenas bufou com desdém.

— Sim, sim, aconselhar, aconselhar. É sempre "não aconteceu nada" até vocês dois acabarem misteriosamente mais próximos. Que tipo de "conselho" você estava dando, hein?

O que havia dado em Yanami? Será que ela estava revivendo alguma lembrança desagradável?

Então, Himemiya-san murmurou enquanto olhava para uma direção completamente diferente.

— Ah, Anna, naquela época realmente não foi assim, está bem?

— Eu sei. Como se você fosse capaz de fazer uma coisa dessas, Karen-chan. Como se———

Ei, não mudem de repente para uma atmosfera tão sinistra. Por favor.

Debaixo da mesa, Komari agarrava minha jaqueta enquanto tremia.

— Podemos voltar a falar sobre a Yakishio? Afinal, não foi por isso que todos nós nos reunimos aqui?

As três trocaram olhares e assentiram em concordância. ...Por que o cara que estava sendo acusado precisava ser o mais sensato dali?

— Tudo isso começou por sua causa, Nukumizu-kun. Você estava cochichando de maneira suspeita com a Lemon-chan na sala de aula. Gostaria de fazer uma declaração antes de anunciarmos o veredito de culpado?

Yanami disse aquilo enquanto digitava no tablet de pedidos sem sequer olhar para a tela.

— Olha, o motivo da Yakishio ter me chamado para sair foi porque ela tinha algo difícil para conversar... ou melhor, para propor. Ah, basicamente...

A voz tímida de Yakishio, pedindo que eu entrasse com ela no clube dos que vão direto para casa, ainda ecoava nos meus ouvidos. É claro que eu não tinha intenção alguma de abandonar minhas atividades no clube. Portanto, o ponto principal era aquele:

— Vou falar sem rodeios. Yakishio está pensando em sair do clube.

Explicação perfeita. Agora elas certamente perceberiam que me culpar por aquilo não fazia sentido.

Contrariando minhas expectativas, Yanami me lançou um olhar severo.

— Nukumizu-kun, o que você fez?

— Hã? Eu já disse, só estava aconselhando... Ei, Komari, para de me chutar. Ela está pensando em sair não apenas do Clube de Literatura, mas também do Clube de Atletismo.

Os olhos de Yanami se arregalaram de surpresa.

— Espera, sair do Clube de Literatura é uma coisa, mas ela não pode abandonar o Atletismo.

— S-Sim. Assuma a responsabilidade, Nukumizu.

Por que estavam me culpando ainda mais?

Himemiya-san observava calmamente a confusão, com as sobrancelhas franzidas de um jeito adorável.

— Hmm, eu não conheço os detalhes, mas ela é muito rápida, não é? Parece um desperdício ela desistir.

Aquela era uma reação normal. Completamente sensata e sem absolutamente nada de errado. Mas os olhos inquietos da Yakishio no dia anterior me davam motivos suficientes para ter dúvidas.

— É, acho que todas vocês têm razão. Mas, se a Yakishio se sente tão mal a ponto de pensar nisso, eu não quero simplesmente dizer a ela o que deve fazer.

O silêncio nos envolveu, mas logo foi quebrado pelo sorriso gentil de Himemiya-san.

— É verdade. Não deveríamos falar demais sem conhecer as circunstâncias ou as dificuldades pelas quais ela está passando.

Era mais fácil conversar com ela do que com as garotas do Clube de Literatura, mesmo que, no fim das contas, ela fosse uma pessoa de fora.

Enquanto pensava em uma maneira educada de mandá-la embora justamente por ser uma pessoa de fora, uma mensagem de Komari apareceu no meu celular.

"Por que ela está aqui?"

"Pois é. Eu também queria saber."

Terminei de digitar minha resposta justamente quando...

— Aqui está sua porção extra grande de arroz!

A garçonete, sempre animada, colocou sobre a mesa um prato de arroz que mais parecia uma montanha e foi embora.

O que era aquilo...?

— Yanami-san, você pediu isso?

— Pedi o prato errado…..

Com uma expressão solene enquanto encarava o tablet, Yanami murmurou aquilo e estendeu a mão para o saleiro.

*

O céu já havia começado a escurecer quando saímos do restaurante familiar e nos despedimos.

No fim, concordamos que cada um de nós tentaria conversar com a Yakishio. E, por sinal, Yanami acabou saboreando a porção extra grande de arroz. Aparentemente, molho de pimenta Tabasco combinava surpreendentemente bem com aquilo.

Enquanto eu caminhava sozinho por uma área residencial em direção à estação mais próxima, uma bicicleta se aproximou por trás e parou ao meu lado.

— Nukumizu-kun, posso ir andando com você... Espera, por que você está fugindo!?

— Achei que poderia acabar me envolvendo em alguma coisa problemática.

Yanami resmungou enquanto descia da bicicleta e começou a caminhar ao meu lado, empurrando-a.

Acelerei o passo, tomado por um mau pressentimento, mas Yanami acompanhou meu ritmo sem a menor dificuldade.

— Ah... tem alguma coisa que você quer conversar comigo?

— Nukumizu-kun, ainda tem alguma coisa que você não me contou, não tem?

Dei de ombros, fingindo não saber do que ela estava falando.

— Eu disse tudo o que precisava ser dito antes. A Yakishio está tão angustiada com a ideia de sair dos clubes que tudo o que podemos fazer é ficar de olho nela.

— Então o que foi aquilo entre vocês dois na sala de aula?

— Ah, aquilo foi...

Hesitei antes de continuar.

— Eu também fui convidado. Para entrar com ela no clube dos que vão direto para casa.

— Juntos? Nem existe um clube de verdade para quem vai direto para casa, então entrar juntos não faz muito sentido——

A expressão de Yanami mudou quando ela própria interrompeu a frase.

— Espera. A Lemon-chan realmente disse isso? Nukumizu-kun, você entende o que isso significa, não entende?

Se eu entendia o que aquilo significava? Ora, ora. Ela estava me subestimando.

— Sim, significa que ela quer que eu saia do Clube de Literatura também. A Yakishio provavelmente achou constrangedor demais sair sozinha, não é?

Os olhos de Yanami se arregalaram de surpresa quando respondi com uma expressão confiante.

— Hã? É nisso que você está prestando atenção?

— Hmm? No que mais eu deveria prestar atenção? Além disso, não tenho a menor intenção de sair do Clube de Literatura.

Yanami assentiu com uma expressão aliviada.

— É, continue sendo exatamente quem você é, Nukumizu-kun.

...Eu tinha a impressão de que acabara de ser insultado. Apesar do meu conflito interno, Yanami continuou me provocando com um sorriso radiante.

— Mas, ainda assim, um encontro com a Lemon-chan... Você deve ter ficado um pouquinho consciente dela, não ficou?

— Bem, sim. Não é como se eu estivesse acostumado a sair em encontros nem nada assim.

— Viu só? A Lemon-chan é bonita. É natural ficar um pouco empolgado uma ou duas vezes. Vou deixar passar.

Que atitude era aquela?

— Quer dizer, talvez eu tenha ficado empolgado umas dez ou vinte vezes...

— Isso não é vezes demais?

Yanami me lançou um olhar descontente.

— A quantidade de vezes importa?

— É claro que importa! Isso significa que você ficou empolgado o tempo inteiro! Misturar assuntos públicos e privados desse jeito não é nada apropriado da sua parte!

Havia alguma coisa de "pública" no meu encontro com Yakishio?

— Não é como se a Yakishio me enxergasse como um interesse amoroso. Estamos falando da Yakishio, sabia? E de mim, sabia?

— Bem, é verdade. Afinal, estamos falando da Lemon-chan e do Nukumizu-kun.

Ainda bem que ela entendia. Mas bem que poderia ter negado pelo menos um pouco. Com o humor aparentemente recuperado, Yanami montou novamente na bicicleta.

— Então, até amanhã. Também vou ficar de olho na Lemon-chan.

— Ah, sim. Até amanhã.

Afinal, com o que exatamente Yanami estava tão insatisfeita? E por que seu humor melhorou de repente?

...Bem, era a Yanami. Não adiantava tentar entender. Depois de chegar a essa conclusão, acelerei o passo em direção à estação.

*

"Vou fazer uma pausa no clube hoje."

Enviei uma mensagem para o grupo do Clube de Literatura e afundei ainda mais no assento do trem.

No dia seguinte ao suposto julgamento do impeachment, fui direto para o trem depois das aulas, sem passar pela sala do clube. Por favor, não entendam errado. Eu não estava fugindo dos meus problemas. Tentei conversar com a Yakishio, mas acabei perdendo-a de vista.

— Eu jurava que ela tinha entrado neste trem...

Enquanto procurava por Yakishio, as portas se fecharam, e a lenta vibração do trem começou a embalar meu corpo. Por algum motivo, o vagão estava relativamente vazio, então me acomodei confortavelmente no meio de um longo banco.

— Bom, não tem o que fazer se eu a perdi de vista.

Com aquele inesperado tempo livre em mãos, tirei um livro de bolso da mochila.

Aquela light novel se chamava "As 101 Alunas Transferidas que Estão Atrás de Mim", abreviada como "Zeroten". Eu já havia lido metade do volume mais recente.

Era uma comédia romântica sobre um protagonista que precisava lidar com uma nova garota bonita se transferindo para sua escola durante 101 dias consecutivos. A série era conhecida pela seção de apresentação dos personagens, que ficava cada vez mais grossa a cada volume.

Aliás, 27 alunas transferidas haviam aparecido no volume anterior, e 18 delas já tinham deixado a escola.

Os personagens desapareciam de cena quando deixavam de ser necessários para a história, mas, fora dela, continuavam vivendo suas vidas como qualquer outra pessoa. Começavam o dia, iam para a escola, estudavam, saíam com os amigos e, às vezes, se apaixonavam.

Tentei continuar lendo, mas não conseguia me concentrar, então fechei o livro.

Yakishio era a estrela em ascensão da equipe de atletismo. Que papel a aguardaria se ela abandonasse aquilo? Fosse qual fosse, ela certamente o enfrentaria com um sorriso tão radiante quanto o sol de verão…

Enquanto eu estava perdido em pensamentos, alguém se sentou ao meu lado. O trem devia ter ficado cheio sem que eu percebesse. Coloquei a mochila sobre o colo e olhei ao redor.

O vagão continuava confortavelmente vazio.

...O quê?

Quando lancei um olhar para a pessoa ao meu lado, vi uma aluna do Colégio Tsuwabuki que eu não conhecia, sentada enquanto apertava a bolsa contra o peito. Ela tinha cabelos lisos que chegavam aos ombros e murmurava alguma coisa em voz baixa.

Assustador.

Levantei-me discretamente, fui até o vagão seguinte e me sentei.

...Qual era o problema daquela garota?

Eu já tinha ouvido histórias de pessoas que ficavam ansiosas quando não conseguiam se sentar em seu lugar favorito. Talvez o assento que eu ocupara fosse justamente um desses lugares para ela.

Nesse caso, eu acabara de fazer outra boa ação ao cedê-lo. Satisfeito com minha conclusão, logo senti novamente a presença de alguém ao meu lado.

Quando olhei de esguelha, cauteloso, encontrei a mesma garota murmurando ao meu lado outra vez. Espera aí, aquilo estava ficando assustador de verdade. E se ela fosse algum tipo de fantasma que só eu conseguia enxergar?

Enquanto permanecia sentado, apavorado, o trem começou a diminuir a velocidade. Havíamos chegado à Estação Shin-Toyohashi, o ponto final da Linha Atsumi.

Desci junto com os outros passageiros, mas a pessoa que estava ao meu lado continuou me seguindo de perto. Contendo a vontade de sair correndo, disparei pelas catracas assim que passei por elas.

Eu era homem. Ela não conseguiria me alcançar tão facilmente...

— Espere um momento!

Ela me alcançou imediatamente. A garota misteriosa agarrou meu braço na praça sul, logo do lado de fora da estação.

— O que você quer!? Eu não tenho dinheiro!

Ainda segurando meu braço, a garota misteriosa gritou em voz alta:

— Chá! Você não quer ir tomar um chá ou alguma coisa comigo?

— Hã?

Será que aquilo era o que chamavam de uma cantada reversa? Era uma situação clássica das light novels, em que um garoto sem nada de especial era abordado do nada por uma garota, mas aquilo parecia um pouco diferente.

Consideravelmente diferente.

— Eu tenho minha garrafa de água, então estou bem! Agora, poderia, por favor, me soltar!?

Tentei escapar com todas as minhas forças, mas acabei sendo arrastado por ela.

— É só um chá! Eu não vou fazer nada! Só me faça companhia por um tempinho!

Então era por aquilo que os protagonistas de comédias românticas passavam. Aterrorizante. De agora em diante, eu só leria novels de isekai.

Resignado com meu destino, assenti em derrota.

*

Fui capturado pela misteriosa garota do Colégio Tsuwabuki na praça sul da Estação de Toyohashi. Nós nos sentamos frente a frente em uma cafeteria de frente para a praça. O motivo para escolher aquele lugar era simples: havia um posto policial bem ao lado.

Tomei um gole do "Café do Dia" enquanto a observava discretamente de relance. Ela mantinha a cabeça baixa, então eu não conseguia enxergar seu rosto direito, mas definitivamente não era alguém que eu conhecia.

Tinha um rosto pequeno e um corpo esguio, que parecia pertencer a uma atleta. Ela bebia uma bebida em camadas de morango e iogurte. Para alguém que parecia uma bandida das montanhas, aquela garota estava bebendo algo surpreendentemente fofo...

— Ah... nós já nos encontramos em algum lugar?

A garota bandida estremeceu.

— Q-Que tipo de garota você gosta, Nukumizu-kun!?

Que pergunta repentina. E como ela sabia meu nome?

Enquanto eu permanecia em silêncio, intimidado, a garota bandida finalmente ergueu o rosto. Seus olhos redondos estavam cheios de lágrimas, e seus lábios pareciam ligeiramente pálidos.

— Eu perguntei de que tipo de garota você gosta...

Então ainda estávamos naquele assunto. Ela definitivamente não parecia estar interessada de verdade no meu tipo de garota.

— Ah, já que você sabe meu nome, precisa de alguma coisa de mim? Ou alguém mandou você falar comigo?

Isso mesmo. Se ela ousasse tentar me intimidar, eu a mandaria direto para o posto policial. Se aquilo fosse uma pegadinha... direto para o posto policial. Viva o posto policial.

A garota, que havia ficado paralisada com minhas palavras, de repente ergueu a voz enquanto olhava ao redor.

— Viram!? Eu falei que não conseguiria seduzir ele!

Eu estava sendo seduzido? E com quem ela estava falando?

Enquanto eu tentava entender, cerca de dez clientes sentados ao nosso redor se levantaram cheios de energia.

— Vai com tudo, capitã!

— Ele já está quase caindo!

— Só mais um empurrãozinho!

...Mas que merda é essa?

Enquanto eu permanecia ali, atônito, a garota que elas chamavam de capitã coçou a cabeça e abriu um sorriso sem graça.

— Desculpa, Nukumizu-kun. Todo mundo acabou me seguindo até aqui.

— Ah, e você é...?

— Ah, eu sabia que você não tinha me reconhecido. Só um instante.

Ela rapidamente prendeu o cabelo em um rabo de cavalo e usou um grampo para prender a franja para trás, transformando completamente sua aparência na de uma garota alegre e cheia de energia.

— Pronto. Agora você me reconhece, não é?

Quem é você?

Como eu continuava sem fazer ideia, o sorriso sem graça da garota de rabo de cavalo ficou ainda mais evidente.

— Qual é, nós já nos encontramos nas reuniões dos presidentes dos clubes. Sou Kurata, da equipe feminina de atletismo.

Ah, a capitã do segundo ano da equipe feminina de atletismo. Eu me lembrava de ela ter vindo falar comigo algumas vezes.

— Quanto tempo. Mas e todas essas pessoas ao nosso redor...?

Quando olhei em volta, as garotas apontaram simultaneamente as câmeras dos celulares para mim.

— Sim. São as integrantes do clube que estavam de prontidão para pegar você no flagra, caso estivesse traindo a Lemon.

— Traindo? Ah, o que você quer dizer com isso?

As garotas da equipe de atletismo trocaram olhares e, em seguida, curvaram-se todas ao mesmo tempo.

— Por favor! Termine com a nossa Lemon!

O quê!?

As vozes delas ecoaram pela cafeteria. Um grupo de garotas acabara de se curvar diante de mim em plena cafeteria na frente da estação, que, por acaso, ficava ao lado de um posto policial.

— Por favor, levantem a cabeça! Antes de falar em terminar, Yakishio e eu nem sequer estamos namorando.

As garotas da equipe de atletismo levantaram lentamente o rosto enquanto eu respondia às pressas. Será que tinham entendido? Meu alívio durou pouco, pois as garotas do atletismo começaram a cochichar entre si de maneira sinistra.

— Ele só estava brincando com ela...?

— Isso é cruel demais.

— Igualzinho ao ex-namorado da Satoko.

— Mas eles ainda não são ex, são?

Aquilo era ruim. Rumores completamente infundados começavam a se espalhar, e o ex-namorado da Satoko parecia ser o pior tipo de pessoa possível. Procurei algum aliado ao redor, até que meu olhar encontrou os olhos sérios da capitã Kurata.

— Vocês dois estão... só brincando?

— Não, não estamos! Nossa relação não é assim! Somos apenas amigos.

As garotas da equipe de atletismo ficaram em silêncio. A tensão aumentou até quase explodir, mas a capitã Kurata levantou a mão para acalmar todas.

— Podemos confiar nisso?

Confiar ou não, Yakishio e eu já tínhamos dado as mãos, mas não em um contexto romântico. Assenti com seriedade, e a capitã Kurata fez o mesmo.

— Pessoal, sentem-se. Estamos incomodando os outros clientes.

As garotas não pareciam totalmente convencidas, mas voltaram para seus lugares e começaram a beber novamente suas bebidas fofas. A capitã Kurata soltou o canudo e começou a falar em um tom tranquilo.

— A Lemon-chan pode até conseguir competir no Intercolegial deste ano se continuar mantendo esse desempenho. Isso é importante para as recomendações universitárias dela, e todas nós a apoiamos.

Ela lançou um olhar para as outras integrantes da equipe antes de continuar.

— Nós não interferimos no fato de ela estar tanto no Clube de Literatura quanto no Atletismo porque era isso que ela queria. Mas, se você estiver realmente tentando afastá-la daqui, não podemos simplesmente ficar olhando.

— Hã? Eu não estou tentando afastá-la de nada...

A capitã Kurata balançou a cabeça e me interrompeu.

— Nosso clube tem uma política que permite treino individual mediante solicitação. A Lemon-chan pediu para treinar sozinha por um tempo. E, aliás… — a capitã Kurata sorriu, com um pedacinho de morango grudado nos lábios. — Ouvi dizer que havia um clima estranho entre a Lemon-chan e alguém da turma 1-C. Isso é verdade?

Ela sabia daquilo. Também reconheci alguns rostos da minha turma entre as pessoas ao redor. Parecia impossível escapar daquela pergunta, mas falar sobre esse tipo de coisa em público...

Terminei meu café frio e coloquei a xícara sobre o pires.

— Senpai, podemos conversar só nós dois?

— Hã? Só eu e você?

A capitã Kurata ficou imediatamente paralisada.

— Eu gostaria de conversar a sós com você, em algum lugar mais tranquilo, se possível.

— A-Ah, bem, se for só por um momento, tudo bem.

A capitã Kurata começou a procurar o celular, toda atrapalhada, enquanto evitava meu olhar.

— O Kalmia tem uma cafeteria famosa pelos doces de matcha, e, se andarmos um pouco, tem karaokê. ...Ah, você gosta de filmes? Neste fim de semana vai ter o Slow Town Film Festival.

...Espera. Do que ela estava falando?

Enquanto a capitã Kurata mexia no smartphone, uma das garotas da equipe de atletismo cutucou seu ombro.

— Não, não, Kura-chan. Ele só disse que quer conversar com você como presidente de clube.

— Hã?

Kura-chan... quer dizer, a capitã Kurata, me encarou com uma expressão vazia antes de olhar ao redor. As garotas da equipe de atletismo desviaram o olhar. Sinceramente, eu me sentia como se estivesse sentado sobre um monte de agulhas.

— Ah, desculpa. Eu só queria conversar um pouco.

— I-I-Isso mesmo! Sim, entendi! Vamos andar e conversar!

A capitã Kurata saiu apressada da cafeteria, com o rosto completamente vermelho. Devolvi a xícara de café no balcão, fiz uma reverência para as integrantes da equipe de atletismo e fui atrás dela.

...Aquilo tinha sido constrangedor demais.

*

O lugar onde eu estava naquele momento era provavelmente a melhor opção para quem procurava um local tranquilo perto da Estação de Toyohashi.

A região era conhecida como "Estação Oeste". Dependendo do horário, podia ficar cheia de carros esperando passageiros, mas, fora isso, era surpreendentemente silenciosa, quase como se toda a agitação da estação fosse uma mentira.

Caminhamos sem conversar muito, saímos do prédio da estação e seguimos pela direita, ao longo da rua paralela aos trilhos. Uma fileira de pequenos izakayas começava lentamente seu dia, quase como se ainda fosse de manhã cedo.

(N/SLAG: Um izakaya é um tipo de bar japonês que também serve alimentos para acompanhar as bebidas)

— Desculpa por tomar seu tempo.

— Não, eu é que deveria pedir desculpas pela forma estranha como abordei você. Passei dos limites.

É, passou mesmo. Kurata-san coçou a ponta do nariz, constrangida.

— Eu achei que a Lemon talvez tivesse arranjado um namorado e que fosse por isso que estava pensando em sair do clube.

— E você achou que esse namorado era eu?

Ela assentiu com um sorriso sem graça.

— Você foi ao Festival Tsuwabuki por causa da Lemon, não foi?

Festival Tsuwabuki… Certo. Um colega da época do ensino fundamental havia tentado se aproximar da Yakishio e fora completamente rejeitado.

— Sim, eu fui ver a equipe de atletismo.

— Ela é popular, sabia? Apesar da aparência, ela toma bastante cuidado na forma como interage com os garotos.

Hã. Ser popular realmente parecia dar trabalho.

— Foi por isso que fiquei curiosa quando percebi como a atitude dela com você era diferente da forma como trata os outros garotos.

Ela queria dizer que eu nem era considerado um garoto aos olhos dela...?

— Mas a equipe de atletismo não tem nenhuma regra proibindo namoro, certo? Então não precisa se preocupar tanto.

— A Lemon é do tipo que poderia arruinar a própria vida por causa de um homem, não acha?

— Isso é impos...

...Bem, pensando melhor, talvez fosse possível. Considerando como ela reagia perto de Ayano, que nem sequer era namorado dela, ter um namorado de verdade realmente poderia ser um problema...

— É verdade. A Yakishio parece mesmo do tipo que poderia acabar se apaixonando pelo cara errado. Sim, vou precisar tomar cuidado.

— É. Você realmente precisa tomar cuidado.

Por algum motivo, Kurata-san me encarou fixamente.

— Então vocês estavam tentando tirar uma foto minha "traindo" a Yakishio para mostrar para ela? Para fazer com que terminasse comigo?

— Bem, sim. Nós achamos que iríamos salvar a grande estrela da equipe de atletismo de um sujeito ruim que estivesse tentando tirá-la de nós.

Ela riu, mostrando os dentes brancos. Ao ver aquele sorriso, decidi confiar nela. Chamei Kurata-san enquanto ela caminhava um pouco à minha frente.

— Yakishio falou comigo antes. Ela perguntou se eu queria entrar no clube dos que vão direto para casa junto com ela.

Kurata-san olhou por cima do ombro enquanto continuávamos andando.

— Juntos? Você quer dizer os dois saindo do Clube de Literatura?

Assenti, e Kurata-san soltou uma risada alegre.

— Isso é muito a cara dela. Provavelmente se sentiria culpada se abandonasse apenas o Atletismo. Você acabou sendo arrastado para isso, hein?

Kurata-san riu novamente.

— A Lemon é incrível, sabia? Eu percebi isso porque costumávamos competir nas provas curtas quando ela entrou.

— Isso quer dizer que você não corre mais provas curtas, senpai?

— Eu não era rápida o suficiente. Quando a Lemon entrou, eu até perdi minha vaga na equipe do revezamento. Então passei para as provas de média distância.

Quando eu estava prestes a dizer alguma coisa, ela me silenciou com um olhar.

— Logo no começo, já tinham me escolhido para assumir como capitã. Não ficaria bem se a capitã nem conseguisse competir nas provas.

Ela não parecia buscar pena nem consolo ao dizer aquilo. Provavelmente era uma questão de orgulho, uma parte importante da identidade dela. Sem precisarmos trocar uma única palavra, paramos quando chegamos ao fim do caminho.

— Será que ela ainda está preocupada comigo por eu ter mudado para média distância...?

Kurata-san se virou antes que eu conseguisse pensar em uma resposta adequada.

— Vou voltar primeiro. Preciso me reunir com todo mundo.

— Sim. Obrigado por tudo em relação à Yakishio.

— Eu que agradeço. Também vou ficar de olho nela por aqui, então, se acontecer alguma coisa, pode me avisar.

— Ei, senpai!

Chamei-a sem pensar. Kurata-san se virou com uma expressão intrigada.

— Deixando de lado o fato de você ser a capitã... como senpai dela, você quer que Yakishio volte?

Os olhos dela se arregalaram. Ela chegou a abrir a boca para responder, mas hesitou e voltou a fechá-la. Então me ofereceu um sorriso tímido, algo que eu ainda não tinha visto nela naquele dia.

— Desculpa, mas eu sou a maior fã dela.

Pensei em Yakishio enquanto observava Kurata-san se afastar correndo depois de dizer aquilo. Sempre incrivelmente radiante, mas também incrivelmente delicada. Justamente porque raramente demonstrava fraqueza, quando seu sorriso perdia o brilho, aquilo significava que alguém deveria estar ao lado dela...

Screeech!

O som repentino de freios de bicicleta destruiu meus pensamentos sentimentais.

Bam.

E então ela bateu em mim.

— V-Você está atrapalhando, p-parado no meio da rua desse jeito.

— Então por que você simplesmente veio bater em mim...?

É claro. Quem havia avançado direto contra mim era Komari. Ela me encarou por baixo da franja.

— O-O que você está fazendo? Você não foi ao clube.

Porque uma garota completamente descontrolada não parava de mexer comigo.

...Era isso que eu queria dizer. Mas contive o impulso e, como uma pessoa mais madura, apenas dei de ombros.

— Eu estava procurando a Yakishio. Só que não consegui encontrá-la.

Komari desceu da bicicleta e encarou a direção por onde Kurata-san havia ido.

— Q-Quem era aquela g-garota de agora?

— Hm? Era Kurata-san, do segundo ano. Ela é a capitã da equipe feminina de atletismo.

— A-Atletismo...? E-Então vocês dois estavam falando sobre a Yakishio?

— Sim. Parece que a Yakishio também está dando uma pausa na equipe de atletismo. Então nós só estávamos trocando informações sobre ela.

Decidi omitir a parte da quase armadilha de sedução para evitar mais mal-entendidos. Komari fez uma expressão preocupada quando estava prestes a empurrar a bicicleta para longe.

— Ueh...?

— Hmm? O que foi?

— A-Ah, a corrente caiu.

Era isso que acontecia quando você saía batendo a bicicleta nas coisas. Eu até me senti um pouco satisfeito vendo Komari colher o resultado da própria bagunça, mas não podia simplesmente deixá-la entrar em pânico sozinha ali.

Levei a bicicleta até o canto da rua e comecei a girar o pedal para verificar a corrente.

— Haha, parece que a corrente caiu.

— E-Eu já sei disso.

Certo. Mas aquilo continuava sendo culpa dela, independentemente de qualquer coisa. A questão era: como se consertava aquilo...? Agachei-me para pesquisar no celular, e Komari veio ficar ao meu lado.

— V-Você consegue consertar?

— Hmm... pode procurar na internet como faz para colocar a corrente de volta?

— E-Entendi.

Depois de mexer um pouco no celular, Komari me mostrou a tela.

— A-Achei um vídeo.

— Ah, ótimo.

Enquanto ela se inclinava para perto de mim, seus cabelos roçaram minha bochecha. Fazia cócegas. Komari começou a falar baixinho enquanto eu travava uma batalha contra a corrente.

— V-Você vai à sala do c-clube amanhã?

— Quero ir, mas também estou preocupado com a Yakishio.

— A-A Yakishio é importante, mas pense também no Clube de Literatura.

Verdade. Embora, naquele exato momento, eu estivesse consertando uma corrente por culpa dela.

— A-A cerimônia de formatura é neste fim de semana. É-É a última chance de ver os veteranos com o u-uniforme.

Já era março. O tempo dos veteranos estava acabando, e os preparativos para o próximo ano também não podiam esperar.

— Desculpa. Amanhã eu vou.

Pedi desculpas com sinceridade, mas Komari ainda parecia ter alguma coisa em mente.

— Tem mais alguma coisa?

— A-Ah, sobre fazer a r-revista do clube.

— Aquela que vamos preparar para a cerimônia de formatura? Meu manuscrito já está pronto.

Aquela edição da revista do clube seria um presente-surpresa para os veteranos no dia da formatura. Eu não temia nada, afinal, tinha sido o primeiro a terminar o rascunho.

— Vamos imprimir amanhã. Ou podemos ir fazer isso agora mesmo.

— V-Vamos esperar mais um pouco antes de fazer a revista.

— O que foi? Seu rascunho não está pronto?

— J-Já está pronto f-faz um tempo, mas...

Komari hesitou antes de continuar.

— E-Eu queria que a Yakishio também e-escrevesse alguma coisa.

— Entendi. Tudo bem.

A Yakishio tinha sido a primeira pessoa de quem Komari se tornara amiga no primeiro ano. Ela devia estar bastante angustiada com toda aquela situação.

— Além disso, o resultado da prova do Tamaki-senpai sai na semana que vem. Talvez seja melhor esperarmos até lá.

— S-Sim, o próximo é o Tamaki-senpai………

O fim da frase foi perdendo força até desaparecer.

A situação de Tamaki-senpai, que havia mudado para a área de exatas no terceiro ano, estava longe de ser otimista. Pela própria correção, seu resultado na primeira etapa o deixara exatamente no limite, e as provas seguintes seriam ainda mais difíceis.

Eu havia percebido que a Komari estava ficando cada vez mais nervosa desde que Tsukinoki-senpai conseguira ser aprovada.

— Aliás, Komari, por que você estava andando de bicicleta por esta rua? Fica bem longe da avenida principal.

Mudei de assunto na tentativa de dissipar o clima constrangedor, fazendo Komari erguer o rosto.

— A-Ah, ultimamente tenho visitado santuários para pedir sorte nas provas. E-E eu li na internet que rezar para estátuas de Jizo também ajuda.

— Tem estátuas de Jizo por aqui?

— E-Eu já fui a todos os lugares que consegui imaginar, então agora estou só p-procurando pela região da estação.

Então era por isso que ela estava perambulando por ali. Mas, nossa, ela estava levando aquilo surpreendentemente a sério...

— Quando eu tiver um tempo livre, também vou dar uma olhada por aí.

— O-Obrigada...

Seguindo as instruções do vídeo, encaixei novamente a corrente e girei o pedal no sentido contrário. A corrente se encaixou na engrenagem com um estalo firme.

— Pronto, terminei.

— O-Ohh, incrível.

Levei cerca de dez minutos. Mais uma vitória dos tutoriais da internet.

— A corrente parece meio frouxa, então seria melhor levar a bicicleta a uma oficina para dar uma olhada.

Assim que me levantei e comecei a procurar algo no bolso, Komari me entregou um lenço branco.

— Minhas mãos estão sujas de óleo. Posso usar o meu.

— N-Não se preocupe com isso. A-Além disso, seu dedo está s-sangrando.

...Sangrando? Eu devia tê-lo cortado sem perceber. Sangue escorria do meu indicador. Komari tirou um curativo adesivo da bolsa, pressionou o lenço contra o ferimento e depois colocou o curativo com bastante habilidade.

— Q-Quando chegar em casa, lave bem o dedo e t-troque o curativo.

— Desculpa. Acabou sujando seu lenço de sangue, não foi?

— N-Não se preocupe.

Komari disse aquilo enquanto segurava minha mão, mas então ficou em silêncio.

— Komari?

— V-Você sempre se preocupa demais com os outros, N-Nukumizu.

Komari abriu e fechou os lábios secos várias vezes antes de finalmente conseguir falar.

— E-Então... por isso, agora é a minha vez de... me preocupar com você também.

Ela voltou a ficar em silêncio.

— Ah... claro.

Komari assentiu e soltou minha mão sem dizer mais nada. Passei o dedo sobre a textura do curativo enquanto observava Komari se afastar de bicicleta, sem acrescentar uma única palavra.

...Bem, para começo de conversa, aquilo tudo tinha sido culpa dela.

*

Relatório do Clube de Literatura — Edição Especial, por Chika Komari

A festa de formatura da Academia Real de Magia Faria.

Tratava-se de um baile luxuoso realizado em uma grande mansão, apropriada para uma escola frequentada pela nobreza.

Em um canto do enorme salão, Dazai, vestido com trajes tradicionais japoneses, balançava a taça com uma expressão mal-humorada.

— Um, dois, três... Que piada.

Dazai murmurou amargamente e esvaziou a taça. A valsa que tocava em algum lugar parecia exatamente igual às de seu mundo de origem.

Quase esperava que um agiota surgisse rindo de trás de uma coluna, revelando que tudo aquilo não passava de uma farsa…

Enquanto Dazai se entretinha com aqueles pensamentos nada divertidos, aceitou outra bebida de um garçom que passava.

Dazai não havia sido demitido. Estava trabalhando como professor em uma academia de magia.

Mas não naquela. Ele lecionava na Academia de Magia Zavit, no país vizinho. Naquele dia, estava ali para carregar as coisas de seu amigo juramentado, Mishima, um oficial superior.

...Formatura, hein?

Era irônico que ele, que havia sido expulso da Universidade Imperial de Tóquio, estivesse presente em uma ocasião daquelas. Mas não era só isso. Ele viera àquele mundo procurando alguém e, de alguma forma, acabara trabalhando no palácio, mal conseguindo sobreviver com o que ganhava.

Em que aquilo era diferente da época em que vendia manuscritos por uma ninharia?

Quando Dazai pegou uma nova taça, a música já havia parado. Os homens e mulheres que dançavam no centro do salão se dispersaram como pétalas levadas pelo vento. O olhar de Dazai pousou sobre um homem de uniforme militar.

Era Mishima. Depois de terminar a dança, Mishima caminhava de braços dados com uma garota de vestido. Ao notar o mal-humorado Dazai, Mishima se despediu da garota e correu até ele.

— Mishima, você também sabe dançar?

— Madame Kunieda me ensinou alguns passos antes. Gostaria de dançar comigo?

Dazai empurrou bruscamente a taça na direção do sorridente Mishima.

— Não seja ridículo. Mas este vinho não é ruim. Já experimentou?

— Estamos aqui como acompanhantes do diretor. Por favor, não beba demais.

— O próprio diretor desapareceu sabe-se lá para onde. Podemos fazer o que quisermos.

Embora exasperado, Mishima aceitou a taça, ergueu-a contra a luz, girou-a delicadamente e então provou o vinho.

— Ah, lembra um Pinot da Borgonha. Que luxo.

— Pra que toda essa pose? Ainda acho que o vinho Akadama combina mais comigo.

Dazai tomou a taça de volta das mãos de Mishima.

— Pare de fazer birra. Você já comeu bastante culinária francesa às custas dos editores, não comeu?

— Aqueles caras só me deixavam beber bebida barata. O tratamento é bem diferente para um formado pela Universidade Imperial de Tóquio e para um fracassado que abandonou o curso como eu.

No instante em que Dazai estava prestes a continuar suas reclamações, uma voz jovem e cristalina ecoou pelo salão.

— Senhorita Sylvia Luczel, por meio desta, estou anulando nosso noivado!

Os dois se viraram surpresos para o centro do grande salão, onde estava um jovem de cabelos loiros e encaracolados.

Sua beleza chamava atenção mesmo à distância, e as roupas perfeitamente ajustadas indicavam sua elevada posição social. Diante dele estava uma linda garota de vestido vermelho, com uma expressão determinada emoldurada por longos cabelos cor de mel.

Anulação de noivado.

Sim, fora exatamente aquilo que o jovem dissera. Dazai agarrou o braço de Mishima e seguiu em direção à multidão que se formava ao redor deles.

— Ei, isso é um verdadeiro espetáculo. Vamos chegar mais perto.

— Você tem um gosto péssimo, Dazai-san. Ahh, espere por mim.

O tal espetáculo ainda continuava.

— E daí?

A garota chamada Sylvia lançou aquelas palavras friamente, de braços cruzados. O jovem recuou, claramente desconcertado.

— Ah... eu disse que estou cancelando... nosso noivado...

— Gustave-sama, existe uma certa etiqueta para se anular um noivado. Onde está o relatório destinado ao meu pai, listando todas as minhas más ações?

— Ah... acho que deixei na sua mansão...

Sylvia levou a mão à testa e soltou um suspiro profundo.

— Foi por isso que eu disse para não esquecer. Francamente... Anne!

— S-Sim!

A pessoa que fora chamada de repente era uma garota de cabelos negros que se escondia atrás de Gustave. Apesar de sua aparência modesta, sua beleza não podia ser completamente escondida.

— Não há outro jeito. Vamos ouvir diretamente de você, a vítima. Por favor, condene-me!

— Ah, mas a senhorita sempre me tratou tão bem, Sylvia-sama... Então condená-la seria...

— Espera. Não foi isso que você disse antes.

Sylvia franziu a testa.

— Olha, lembra quando rasguei seu vestido durante a escola de verão na floresta? Aquilo foi realmente horrível da minha parte.

Anne balançou a adorável cabeça de um lado para o outro.

— Aquilo aconteceu porque uma abelha entrou no meu vestido, e a senhorita me ajudou, Sylvia-sama.

— Isso é uma configuração adicional da história paralela! Então lembra do evento de equitação, quando fiz o cavalo sair em disparada para colocar sua vida em perigo?

— Aquilo aconteceu porque uma abelha entrou na orelha do cavalo e o assustou...

— Isso é um desenvolvimento absurdo de uma antologia! Eventos relacionados a abelhas não são reconhecidos pelos fãs como parte do cânone oficial!

Dazai, que até então escutava tudo com expectativa, passou a exibir uma expressão confusa.

— Ei, Mishima. Do que elas estão falando?

— Eu também não tenho certeza. Talvez aquela garota...

A voz enérgica de Sylvia abafou as palavras de Mishima.

— Gustave! Depois de tudo o que eu disse, você não fez nenhum dos preparativos necessários nem contou a Sua Majestade? Você está tratando a anulação do noivado com leviandade demais. Muito bem, eu mesma mostrarei a todos vocês como se faz uma verdadeira "punição merecida"!

Sylvia agarrou o braço de Gustave.

— Então vou ensinar desde o início o que significa anular um noivado! Venha, Anne, você também!

— Sim, Sylvia-sama!

Sylvia e os outros dois saíram rapidamente do salão, escapando da multidão.

Os convidados que ficaram para trás permaneceram em um silêncio atônito diante de tudo o que acabara de acontecer.

— Dazai-san, o que será que aquelas pessoas vão... Dazai-san?

— Que mulher interessante.

Dazai, que observava embriagado a direção por onde os três haviam desaparecido, murmurou baixinho. Mishima deu de ombros, sem demonstrar interesse.

— Você está mesmo interessado naquela garota tão jovem?

— O quê? Está com ciúmes?

Naquele momento, a música voltou a preencher o salão. Dazai terminou sua bebida e entregou a taça a um garçom que passava.

— Decidi. Vou anular quem sou agora.

— O que quer dizer?

Mishima pareceu confuso, enquanto Dazai deu de ombros com seus ombros estreitos.

— Vou abandonar meu emprego como professor e partir em uma viagem. Por favor, mande minhas lembranças ao diretor.

— Espere, então eu vou com você———

Dazai balançou a cabeça antes mesmo que Mishima pudesse terminar.

— Você deve continuar ensinando. Além disso, há uma coisa que quero pedir a você.

Dazai baixou subitamente a voz. Mishima assentiu com seriedade.

— Se for algo que eu possa fazer.

— Estou um pouco sem dinheiro para a viagem. Poderia me ajudar?

Mishima ficou em silêncio por alguns instantes antes de soltar um profundo suspiro.

— Você é mesmo um...

— Não se preocupe. Voltarei assim que terminar o que preciso fazer. Até lá, por favor, espere por mim.

— Mas pense nas pessoas que estão esperando. Isso não é justo com elas.

Dazai dispensou o protesto de Mishima com um aceno de mão e sorriu despreocupadamente.

— Parece que sou mais adequado para fazer os outros esperarem.

*

Naquela noite, eu estava no meu quarto, deslizando uma lapiseira pelo caderno.

Restava apenas um mês para o fim do ano letivo. Já estava na hora de começar a planejar o evento de recepção dos novos membros do Clube de Literatura.

Precisávamos fazer pôsteres e panfletos, preparar a revista do clube e, o mais preocupante de tudo, organizar a apresentação do clube durante a orientação dos novos alunos.

Só de imaginar Komari e eu no palco do ginásio para apresentar o clube, já sentia uma premonição de desastre.

Nós tínhamos Yanami, que pelo menos causava uma boa impressão por fora, mas os novos alunos interessados no Clube de Literatura provavelmente seriam introvertidos. Colocar uma garota bonita e estilosa na frente deles talvez acabasse apenas intimidando-os.

Como estratégia, que tal pedir para Yanami usar um saco de papel na cabeça?

— É uma boa ideia.

Enquanto anotava aquilo no caderno, o curativo enrolado no meu dedo indicador chamou minha atenção. Komari havia dito para eu trocá-lo, mas, por algum motivo, eu o mantive como estava.

Fiquei olhando distraidamente para meu dedo.

— Onii-sama, não tem problema deixar seu dedo assim?

Ouvi a voz de Kaju atrás de mim. Quando me virei, vi Kaju sentada na minha cama, tricotando.

— Vou trocar depois que tomar banho, então está tudo bem. Aliás, quando você entrou no meu quarto?

— Kaju já está aqui faz um tempo. A propósito, tricotar é bem difícil.

Kaju inclinou a cabeça de maneira adorável enquanto manipulava as agulhas de tricô. Um pequeno objeto parecido com uma bolsinha pendia das agulhas. O que será que ela estava fazendo?

— Mesmo que comece a tricotar agora, não vai ser verão quando terminar?

— Dizem que uma mulher grávida leva dez meses até dar à luz, não é? Kaju achou que deveria começar a se preparar aos poucos.

Kaju sorriu docemente. Ah, uma mulher grávida levava dez meses até dar à luz...

— Kaju, não me diga que...!?

Levantei-me tão rápido que derrubei a cadeira, mas Kaju apenas abriu um sorriso travesso diante do meu pânico.

— Não, nada disso. Você não esperava por essa, não é? Kaju está preparando isso para o onii-sama, não para mim.

Ah, então era sobre mim, não sobre Kaju. Soltei um suspiro de alívio e levantei a cadeira.

— Então o que isso tem a ver comigo?

As mãos de Kaju pararam, e ela me lançou um olhar sério.

— Não precisa esconder, onii-sama. Você finalmente criou um laço profundo com a Yakishio-san, não foi?

— Não. Isso está completamente errado.

Do que ela estava falando de repente? Kaju ergueu o olhar para o teto com uma expressão sonhadora.

— Kaju viu claramente. Em meio à brisa do mar, vocês dois estavam de mãos dadas e se abraçando. Aquela cena sagrada parecia saída de uma pintura religiosa, e lágrimas começaram a escorrer pelas bochechas de Kaju sem que eu sequer percebesse.

Espera, Kaju estava lá?

Bem, eu até entendia que ela tivesse interpretado errado, já que não conhecia as circunstâncias.

— Não, aquilo aconteceu porque ela me salvou quando eu quase caí das pedras.

— E salvar alguém exige que vocês deem as mãos como um casal de apaixonados?

...Ela tinha uma visão muito boa.

— Aquilo foi só por causa do embalo... do clima do momento.

— Sim, o embalo e o clima do momento são importantes. Por isso, como sua irmã mais nova, é meu dever estar preparada para quando esse mesmo embalo levar a Yakishio-san e você para longe, onii-sama.

Kaju voltou a tricotar.

— Então, o que você esteve tricotando esse tempo todo?

— Meias. Uma delas já está quase pronta.

— São meias bem pequenas, não são?

Kaju continuou tricotando, ainda com um sorriso no rosto.

— Como será que a Kaju deveria ser chamada? Tia Kaju, Kaju-nee... Kaju-chan também soa legal, se quisermos passar uma sensação mais amigável. Tenho que decidir como quero ser chamada daqui para frente.

Meu filho...? Será que os homens da família Nukumizu conseguiam ter filhos sozinhos?

A tendência de Kaju de se adiantar às coisas não era nenhuma novidade, mas, dessa vez, o mal-entendido tinha ido longe demais.

— Você ouviu alguma coisa do que seu irmão disse? Como eu já falei, a Yakishio e eu não temos esse tipo de relação...

— E que tal Mama Kaju!? Se o filho do onii-sama me chamar assim, não seria exagero dizer que eu sou a mamãe!

Era um exagero.

— E, se formos um passo além, seria como se onii-sama e Kaju fossem casados!

— Esse passo não foi grande demais?

— Nem um pouco.

É mesmo...? Que dilema…

Kaju se virou e ficou sentada de costas para mim, continuando a tricotar enquanto cantarolava.

Soltei um suspiro baixo enquanto sentia o calor das costas dela contra as minhas.

*

Dois dias se passaram, e já era quinta-feira na hora do almoço, véspera da cerimônia de formatura. Depois de terminar minha ronda pelo bebedouro, fiquei olhando as opções da máquina de vendas, pensando em comprar um café.

Alguém se aproximou de mim enquanto eu tirava algumas moedas da carteira.

— Ara, você está sozinho?

— Hã? Sim.

A voz era de Tiara Basori. Ela se despediu da amiga e veio parar ao meu lado.

...Ah, entendi. Afastei-me da máquina.

— Ainda não decidi o que vou pegar, então pode ir na frente.

— Não, eu não vou comprar nada.

Então por que veio até aqui?

Eu já estava prestes a ir embora depois de pegar minha bebida quando notei Tiara-san mexendo de forma excessivamente chamativa no smartphone.

— Hã? Basori-san, você não usava um celular de flip antes?

— Troquei recentemente por um smartphone. Percebi que era inconveniente ser a única pessoa do conselho estudantil que não tinha um.

Tiara-san tocou na tela do smartphone com um sorriso satisfeito.

— Também comecei a usar LINE. Você usa, Nukumizu-san?

— Sim. É útil para as atividades do clube e coisas assim.

— Não é!? LINE realmente é o melhor para se comunicar!

Por algum motivo, os olhos dela brilharam enquanto me mostrava o smartphone.

— Ah, sim. Você tem razão.

— Sim, exatamente.

O entusiasmo de Tiara-san desapareceu de repente. O que tinha acontecido?

Ela murmurou baixinho enquanto continuava mexendo no celular em silêncio.

— Nukumizu-san, você usa LINE….?

O quê? Por que a conversa tinha voltado ao início? Eu acabara de entrar em algum tipo de loop temporal?

— A gente não acabou de conversar sobre isso? Ou eu estou imaginando coisas?

— Desculpe, tenho andado um pouco esquecida ultimamente.

— Talvez fosse melhor procurar um médico.

Ignorando minha preocupação, Tiara-san pigarreou e recomeçou.

— Outro dia, nós fomos ao karaokê com o conselho estudantil. Olha, eu gravei um vídeo. Quer ver?

...Que trabalho.

Ainda assim, aceitei relutantemente o celular de Tiara-san quando ela o estendeu para mim. No vídeo, a presidente aparecia cantando em um microfone que segurava com as duas mãos.

— Ah, qual é mesmo essa música?

— É "Tentoumushi no Samba". A presidente costuma cantá-la em reuniões de família, então todos nós fomos praticar juntos.

Em seguida, apareceu uma foto da presidente e de Sakurai-kun fazendo um dueto. O título da música na tela era "Ginza no Koi no Monogatari"...?

— A presidente sempre fica tão elegante só de estar parada. Dá mesmo para perceber toda a classe dela.

Tiara-san contemplava a tela com uma expressão sonhadora. De fato, a presidente parecia uma pintura simplesmente por ficar ali parada. Era a própria definição de uma beleza digna e refinada.

Só que o gosto musical dela era um pouco... não, bastante antiquado.

— A presidente tem uma postura ótima. Ela praticava algum esporte?

— Ela fazia atletismo no ensino fundamental II. Provavelmente por isso tem o core tão firme.

Hã.

Ultimamente eu parecia estar esbarrando em assuntos relacionados a atletismo o tempo todo. Mas por que havia tantas fotos da presidente? Parecia uma sequência contínua de fotografias. E havia mesmo necessidade de tirar foto dela servindo Calpis no drink bar?

Meu dedo parou de deslizar pela tela.

Havia uma cena em que Shikiya-san, sentada no sofá do karaokê de pernas cruzadas, inclinava-se para a frente e oferecia um palito de Pocky ao fotógrafo, segurando-o com a boca.

A foto de Shikiya-san parecia um pouco perigosa na região do peito. Por segurança, eu precisava conferir com mais atenção. Como fazia mesmo para aumentar o brilho da imagem?

— Nukumizu-san, você não está olhando um pouco demais para essa foto?

— É impressão sua.

Eu tinha esquecido completamente que Tiara-san estava ao meu lado. Fingindo que nada tinha acontecido, deslizei para a foto seguinte, e o cenário deixou de ser o karaokê.

O local parecia ser uma sala de aula do Colégio Tsuwabuki, e a pessoa na foto era...

Eu.

— Ah, essa é daquele———

Antes que eu pudesse terminar, Tiara-san arrancou o celular das minhas mãos e então——

Bam!

Jogou-o com força na lixeira ao lado da máquina de vendas.

— O quê!? O que você está fazendo, Tiara-san!?

— N-Nada! De repente me deu vontade de jogar meu celular fora!

...Eeh. Ela era emocionalmente instável demais.

— Foi ruim eu ter visto aquela foto?

— F-Foi Shikiya-senpai quem tirou aquela foto por conta própria!

— Ah, era do dia de visitação da escola, não era? Aquela que Shikiya-senpai tirou.

Tiara-san parou de corar e de agitar os braços abruptamente.

— Bem, se você colocar dessa forma, acho que conta como um dos registros.

— Ah, sim.

Por que ela tinha se acalmado tão de repente?

— Não sei quanto a isso, mas seu celular está bem?

— Sim, está ótimo. Mais importante, amanhã é a cerimônia de formatura, não é?

— É, isso mesmo.

Espera, estava mesmo tudo bem? Aquilo era um smartphone, certo?

Ignorando minha inquietação, Tiara começou a falar de maneira hesitante.

— Então, eu estava organizando os documentos do conselho estudantil do ano passado antes que os veteranos fossem embora. Parece que Tsukinoki-san fazia o trabalho dela direito.

— Oh, isso é surpreendente.

— Sim. Os documentos estavam corretos, e ela fez todas aquelas pesquisas tediosas até o fim.

Tsukinoki-senpai tinha sido vice-presidente do conselho estudantil por cerca de meio ano no ano anterior.

Já era surpreendente o bastante que ela tivesse feito parte do conselho estudantil, mas era ainda mais surpreendente descobrir que, na verdade, era dedicada.

Tiara-san apenas deu de ombros diante da minha expressão surpresa.

— Bem, considerando que ela própria é uma pessoa problemática, acho que uma coisa compensa a outra.

— Mas ela também tem seus pontos positivos, sabia?

Tiara-san sorriu diante da minha tentativa vaga de defendê-la.

— Sim, finalmente comecei a entender o que você queria dizer, Nukumizu-san.

Eu não tinha certeza do que exatamente ela queria dizer com aquilo, mas parecia que havia começado a reconhecer um pouco Tsukinoki-senpai depois do incidente com o livro BL recém-lançado no fim do ano.

Decidi não pensar muito sobre o motivo de ela ter passado a reconhecê-la.

— Então isso é bom. Afinal, ela se forma amanhã.

— Fufu, é triste, mas, para ser sincera, estou um pouco aliviada.

Tiara-san cobriu a boca para conter uma risada, e eu também acabei sorrindo sem perceber quando, de repente...

O som de metal chacoalhando chegou até nós.

Ao olhar para o lado, vi um funcionário da limpeza recolhendo as latas vazias da lixeira ao lado da máquina de vendas.

— Tiara-san, tem certeza de que seu smartphone está bem?

— Por favor, não se preocupe com isso. E não me chame pelo meu primeiro nome.

Tiara-san declarou aquilo com firmeza, mantendo o olhar reto à frente.

— Se eu tivesse prestado mais atenção às coisas que aconteceram entre Tsukinoki-san e eu... Eu queria ter conseguido conversar direito com ela sobre isso.

Ah, então era por isso que ela tinha vindo falar comigo.

— Obrigado por isso. Você não precisava ter se dado a esse trabalho.

— E sobre aquela foto de antes, por favor, não tire conclusões erradas.

— A foto do Festival Tsuwabuki? Aquela em que eu aparecia?

— N-Não era aquilo que parecia! ...Quer dizer, eu sou uma shipper de Nuku x Hoko, mas sei separar realidade de ficção!

...Acho que ouvi um termo bastante preocupante agora.

— Ah, o que exatamente significa Nuku x Hoko——

— Ah, bem, desculpe se minha explicação não foi suficiente! E, apesar das aparências, meus gostos são bastante onívoros, então não precisa se preocupar!

Não havia absolutamente nada de tranquilizador naquilo. Por favor, simplesmente cale a boca. Enquanto o funcionário terminava de recolher as latas vazias e se afastava com o saco...

— Seu smartphone está mesmo bem? O conteúdo da lixeira acabou de ser recolhido.

Ao seguir meu olhar, Tiara-san soltou um pequeno grito.

— Ah, espere, por favor! Com licença! Eu preciso pegar aquele lixo! Espere!

Enquanto observava Tiara-san sair correndo, refleti sobre nossa conversa anterior.

Tiara-san era uma shipper de Nuku x Hoko (♂). Eu era o de cima... não, eu estava do lado esquerdo. Bem, acho que era melhor do que estar do lado direito...

(N/SLAG: Hein? Eu não vou fazer nota disso nem fudendo. Não vou pesquisar. Vocês que vão em busca se quiserem saber.)

*

A manhã da cerimônia de formatura parecia estranhamente irreal.

O céu estava de um azul intenso e límpido. As tulipeiras alinhadas além do portão leste haviam perdido suas folhas, mas já era possível sentir no ar a transição do inverno para a primavera.

Enquanto eu esperava no semáforo em frente ao portão leste, uma bicicleta parou ao meu lado.

— Ei, Nukumizu-kun. Você sempre chegou tão cedo assim?

Era Yanami, descendo da bicicleta. Fiz um pequeno aceno para ela.

— Só fiquei meio inquieto hoje. Nem é a nossa cerimônia de formatura nem nada.

— É, eu entendo. O dia da formatura deixa até os alunos do primeiro ano um pouco sentimentais.

Yanami passou a mão pelos cabelos para arrumá-los para trás enquanto falava em um tom melancólico.

— É o último dia com os veteranos.

— É. Vamos nos reunir na sala do clube depois das aulas. Você consegue aparecer, Yanami-san?

— Sim, vou passar lá depois de me despedir de alguns veteranos mais próximos. Ah, e… — Yanami olhou ao redor antes de baixar a voz. — O ex-capitão do time de basquete disse que queria me ver uma última vez. Quer dizer, eu pensei em recusar, mas ele insistiu tanto...

Ela parecia estranhamente orgulhosa enquanto enrolava uma mecha do cabelo no dedo.

— Hmm. Mais importante, hoje as aulas acabam de manhã, não é? Será que podemos convidar os veteranos para almoçar?

— Espera, você não está nem um pouco interessado no que eu estava falando!? Aposto que está interessado, não está!?

Não, eu não estava. Na verdade, nem sequer tinha prestado atenção em tudo o que ela dissera, justamente porque não me importava.

— Ah... alguma coisa sobre você e o ex-capitão do time de basquete disputarem uma competição de lances livres?

— Eu não disse isso! E eu já recusei o convite dele!

Então por que tocou no assunto?

— Desculpa. Estou com a cabeça muito ocupada com a cerimônia de formatura.

— Tá, tá. O sinal abriu.

Atravessei a faixa de pedestres ao lado de uma Yanami emburrada. Que trabalheira logo no começo da manhã...

— Então, não é que eu não estivesse interessado no que você dizia, Yanami-san. Eu só... não ouvi direito. Quer dizer, o sol estava tão forte hoje de manhã, então...

Yanami soltou um suspiro resignado diante da enxurrada de desculpas que eu disparava.

— Vou perdoar você pelo esforço. Hoje é dia de formatura, então é compreensível que esteja se sentindo sentimental, Nukumizu-kun.

Hmm. Então era assim que alguém se sentia quando ficava sentimental...? Enquanto eu refletia sobre aquilo, Yanami abriu um sorriso e se inclinou para observar meu rosto.

— Você vai chorar na cerimônia de formatura, Nukumizu-kun?

— Eu não sou esse tipo de personagem.

— Nunca se sabe. Você pode acabar se emocionando por causa do clima. Se quiser chorar, posso emprestar meu ombro, sabia?

— Nesse caso, só vou precisar de um lenço.

Depois de me separar de Yanami, que seguiu para o estacionamento de bicicletas, ergui os olhos para as tulipeiras enquanto caminhava em direção aos armários de sapatos.

Minha própria cerimônia de formatura ainda estava a dois anos de distância.

Será que, quando chegasse minha vez, eu acabaria derramando lágrimas?

*

A cerimônia de formatura transcorria sem problemas.

O discurso do diretor havia terminado, e chegara a hora da entrega dos diplomas.

Não que todos fossem até o palco. Com exceção dos representantes de cada turma, os alunos simplesmente se levantavam e respondiam quando seus nomes eram chamados.

À medida que os nomes eram anunciados um após o outro, o pouco tempo que restava até a formatura se esvaía de maneira inexorável.

Soluços começaram a preencher o ar entre os formandos e, talvez influenciados por aquela atmosfera, fungadas também começaram a surgir entre os alunos dos anos inferiores.

— Yanami-chan, você está bem? (Amiga da Yanami)

— Aqui, pega um lenço. (Outra amiga da Yanami)

— E não vai comer, hein? (E outra….)

...Yanami estava chorando bastante.

— Ugh, acabei me deixando levar pelo clima.

Snif.

Yanami enxugou o nariz com o lenço de papel que as amigas lhe deram. De algum modo, vê-la de volta ao seu estado habitual me tranquilizava.

Enquanto prestava atenção aos nomes dos formandos que eram chamados, percebi que já estavam na segunda metade da turma E.

Os dois integrantes do terceiro ano do Clube de Literatura estavam na turma seguinte, a F. Portanto, os nomes que estavam sendo chamados naquele momento não tinham muito significado para mim...

Espera, quem era essa tal de "Paruru" que acabaram de chamar? Como será que se escrevia o nome dela? A voz dela também era bonitinha. Que pena eu não ter conseguido vê-la nem mesmo de costas...

Enquanto meus pensamentos vagavam até Paruru Yodobashi-san, da turma 3-E, começaram a chamar os alunos da turma F.

Uma inquietação surgiu dentro de mim quando ouvi um nome familiar.

Shintaro Tamaki.

Tamaki-senpai se levantou silenciosamente, respondeu com um grave "presente" e imediatamente voltou a se sentar.

Assim que se sentou, sua figura alta desapareceu em meio à multidão de alunos. Enquanto eu esticava o pescoço tentando encontrá-lo, os nomes continuaram a ser chamados.

Então ouvi outro nome familiar.

Koto Tsukinoki.

Uma aluna com os cabelos presos em dois coques se levantou energicamente e respondeu com um alegre "Presente!", com entusiasmo até um pouco excessivo. Depois que Tsukinoki-senpai se sentou, chamaram o nome do aluno seguinte.

...E aquilo marcou o fim.

É claro que a cerimônia de formatura continuou. Mas, para os dois, todos os eventos de sua vida no ensino médio já haviam chegado ao fim. Restava apenas assistir ao epílogo.

A cerimônia prosseguiu de uma maneira inesperadamente simples e, ao mesmo tempo, melancólica. Antes que eu percebesse, o discurso da representante dos alunos que permaneceriam na escola já havia começado.

A representante dos alunos era Hibari Hokobaru. Sua voz firme deixou mais tensa a atmosfera um tanto relaxada do ginásio. Lembrei-me da cerimônia de formatura do ensino fundamental II, um ano antes.

Os alunos choravam.

Naquela época, eu os observava com certo distanciamento. Mas agora conseguia entender um pouco aqueles sentimentos.

Era simplesmente solidão e a relutância em se despedir...

E Yanami ainda estava chorando bastante.

Escondi meus sentimentos sentimentais atrás de um sorriso sem graça enquanto, em silêncio, desejava o melhor aos veteranos.

*

Indiferente às minhas emoções, a cerimônia de formatura chegou tranquilamente ao fim.

Depois de sairmos do ginásio, voltamos para a sala de aula. Como não haveria aulas naquele dia, aquela seria nossa última reunião de classe. Até Amanatsu-sensei, normalmente tão animada, parecia abatida naquele dia enquanto olhava ao redor para nós.

— A cerimônia de formatura de hoje foi bonita. O discurso da presidente do conselho estudantil e a resposta da presidente anterior devem ter sido forçados... quer dizer, bem preparados, e não apenas uma encenação. ...Foi realmente, vocês sabem... aquilo.

Bom esforço, vocabulário. O discurso desajeitado de Amanatsu-sensei continuou.

— Na verdade, alguns garotos me pediram minhas informações de contato hoje. Cinco deles. Isso significa que, se eu realmente quisesse, arranjar um namorado seria moleza. Será que o Takasaka está bem!?

Amanatsu-sensei se perdeu em devaneios sobre suas glórias passadas, mas sua expressão escureceu de repente.

— Espera. Todos aqueles caras também convidaram Konuki-chan para sair. Não me digam que eu era só uma isca para chegar até ela?

Esmagada pela verdade que havia escapado dela durante tantos anos, Amanatsu-sensei desabou sobre a mesa.

— Então era por isso que nenhum deles respondia quando eu sugeria sairmos só nós dois...

A turma 1-C mergulhou em silêncio.

Enquanto Amanatsu-sensei experimentava a amarga transformação de suas doces lembranças, a conversa que vinha da sala ao lado indicava que a reunião de classe deles provavelmente já havia terminado.

Ainda com o rosto abaixado, Amanatsu-sensei ergueu a mão direita e a balançou sem energia.

— Certo, é só isso por hoje. Se vocês tiverem amigos se formando, vão se despedir deles. E nem pensem em criar lembranças românticas!

Mesmo em um dia como aquele, Amanatsu-sensei continuava sendo a mesma de sempre. A turma, já acostumada ao jeito dela, rapidamente se levantou para ir embora.

Procurei a Yakishio ao redor e só consegui vislumbrá-la saindo apressadamente da sala. Nem sequer tive coragem de ir atrás dela e apenas hesitei no mesmo lugar. Yanami, que já havia recuperado completamente as energias, aproximou-se de mim.

— Vou cumprimentar alguns conhecidos perto do portão leste. Depois vou para a sala do clube, está bem?

— Certo, entendi.

O caminho ladeado por tulipeiras a partir do portão leste era um lugar tradicional para os formandos tirarem fotos...

Tamaki-senpai e os outros provavelmente estavam lá naquele momento. Talvez eu devesse ir dar uma olhada...

Depois de me despedir de Yanami e das amigas dela, levantei-me para sair. Enquanto avançava pela multidão no corredor, acabei caminhando ao lado de um aluno. Sosuke Hakamada, amigo de infância de Yanami e namorado de Karen Himemiya.

— Vai para o caminho das tulipeiras, Nukumizu?

— Pensei em dar uma olhada. Talvez eu encontre alguma inspiração para uma história.

— Típico membro do Clube de Literatura. A Anna tem escrito alguma coisa ultimamente?

— Ela tem escrito bastante. Você nunca leu nada, Hakamada?

Hakamada deu de ombros com um sorriso refrescante.

— Ela não quer que as coisas cheguem à família dela através de mim.

Interessante. Acho que era assim mesmo. Realmente, ler o que alguém da sua família escrevia nem sempre devia ser agradável, principalmente se fosse o romance da sua irmã mais nova.

Enquanto caminhávamos e conversávamos, um grupo de garotas passou correndo por nós, fazendo tesouras estalarem nas mãos.

— O que foi isso? Está prestes a começar algum tipo de batalha?

— É para pegar o segundo botão do uniforme de um formando. Essa tradição existe há muito tempo.

— Tipo um duelo em que a vencedora fica com o botão...?

Eu não fazia ideia de que uma tradição tão digna de light novel existia na Tsuwabuki. Hakamada riu e acenou a mão em negação.

— Os botões dos nossos uniformes são costurados no paletó, então, quando alguém quer entregar o seu, precisa usar uma tesoura para cortá-lo.

Entendi. Eu sempre tinha me perguntado como tiravam o botão. Seria bem constrangedor se os próprios formandos precisassem ficar andando por aí com uma tesoura só para aquilo.

— Você sabia? Parece que os casais que estão se formando trocam o segundo botão e a segunda fita.

— Espera, o que é a segunda fita?

— A segunda fita é a segunda fita. Contando de cima para baixo. Tenho que garantir que vou conseguir trocar com a Karen daqui a dois anos.

Hakamada respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Segunda fita era um conceito conhecido por todo mundo? Será que eu estava tão por fora assim? Quando as garotas armadas com tesouras desapareceram de vista, Hakamada baixou a voz e perguntou:

— Ei, Nukumizu, aconteceu alguma coisa ultimamente entre você e a Yakishio-san? A Anna parece preocupada.

— Ah, isso...

Ela estava tão preocupada que nos seguira durante um encontro e até organizara um julgamento de mentira em um restaurante familiar. Aquilo devia ser o que chamavam de amizade peculiar entre garotas esportistas e garotas do tipo Yanami.

— Ser conhecido por todo mundo também traz seus próprios problemas, não é? Como namorado da Himemiya-san, você deve entender isso, certo?

Desviei do assunto com uma piada e olhei pela janela do corredor para o caminho ladeado por tulipeiras. A multidão de formandos e alunos dos outros anos misturados dificultava encontrar qualquer pessoa conhecida.

Enquanto procurava pelos veteranos, meu olhar encontrou uma garota escondida atrás do tronco de uma árvore.

Os cabelos curtos e a figura esguia eram inconfundíveis.

Yakishio...?

Assim que parei para olhar, uma aluna se aproximou dela por trás.

Era Tsukinoki-senpai.

*

...Durante três anos, ela havia percorrido aquele caminho ladeado por tulipeiras.

Koto Tsukinoki, que fizera parte da turma F em seu terceiro ano no Colégio Tsuwabuki, ergueu os olhos por trás dos óculos para os galhos das tulipeiras.

Os galhos, completamente despidos de folhas, já mostravam sinais das novas vidas que logo brotariam.

Quando aqueles brotos finalmente se abrissem por completo, ela já teria deixado Toyohashi.

Embora ainda não conseguisse imaginar direito como seria sua nova vida, tinha certeza de que Shintaro estaria ao lado dela.

Um leve toque soou quando um tubo contendo um diploma bateu suavemente na cabeça de Koto, que estava perdida em pensamentos.

— Ei, parabéns por entrar na universidade.

Momo Terai, ex-capitã da equipe feminina de atletismo, cumprimentou Koto com uma voz alegre. Com traços marcantes e bem definidos, ela abriu um sorriso amigável.

— Obrigada. Nunca imaginei que seria a primeira a garantir uma vaga. E você, Momo? Está um pouco pálida, como se estivesse à beira da morte.

— Já tenho minha garantia, então minha ida para Tóquio está assegurada.

Momo parou ao lado de Koto, e as duas ergueram os olhos para os galhos das tulipeiras.

— Tenho muito a agradecer por você ter cuidado da nossa princesa.

— Ainda é cedo demais para agradecer. Ela tem faltado aos treinos de atletismo ultimamente, não tem?

Momo se apoiou no ombro de Koto enquanto soltava um suspiro.

— Muita coisa aconteceu. Os sentimentos dela não vão mudar, não importa o que a gente diga, principalmente porque nós——

— Vamos embora hoje.

Koto completou a frase e, por cima dos cabelos bronzeados de sol de Momo, contemplou o familiar prédio da escola.

Algum dia, aquela paisagem talvez se transformasse em uma lembrança nostálgica. Mas, até atravessarem os portões da escola pela última vez, aquele ainda era o lugar delas.

Surpresa com o próprio sentimentalismo, Koto percebeu um rosto de pele cor de trigo espiando por trás de uma tulipeira.

— Momo, você ainda vai ficar por aqui?

— Sim, vou tirar uma foto com a equipe de atletismo daqui a pouco. Por quê?

— Só pensei que deveria acrescentar mais uma coisa aos meus agradecimentos.

Deixando uma Momo intrigada para trás, Koto se aproximou da tulipeira. A pessoa parecia estar concentrada demais em observar as costas de Momo.

Por isso não havia percebido a aproximação de Koto. Ao notar aquilo, Koto falou por trás dela.

— Yakishio-chan, você não vai até lá?

— Tsukinoki-senpai!? Ah, parabéns pela formatura. Eu...

Koto se encostou na árvore ao lado de Yakishio.

— Que tal conversarmos um pouco, já que você não vai até lá?

— Ah, mas...

Koto bateu de leve na cabeça de Yakishio com o tubo do diploma.

— Não tivemos muitas oportunidades de conversar só nós duas. Vamos aproveitar para bater um papo.

— É verdade, eu não aparecia muito na sala do clube.

Parecendo convencida, Yakishio se encostou na árvore, imitando Koto.

— Você não veio ver a Momo? As garotas do atletismo estão reunidas ali.

— É que... fico meio sem jeito de aparecer depois de faltar aos treinos. E é a mesma coisa com o Clube de Literatura.

Yakishio abaixou o olhar, constrangida.

— Ah, bem. Escolher o Nukumizu-kun... você tem bom gosto.

— Não é bem assim entre a gente... Ah, as coisas devem estar tão estranhas agora...

— E qual é o problema? Ele não pertence a ninguém.

Koto deu de ombros de maneira brincalhona, pegando Yakishio de surpresa.

— Quer dizer, eu não sou a melhor pessoa para falar. Eu mesma abandonei o conselho estudantil. Não tenho muito direito de julgar os outros.

— O motivo de você ter saído do conselho estudantil foi...

— Falando de maneira simples... problemas de relacionamento.

— Uau, acertou em cheio, hein?

As duas riram juntas.

— No meu caso, não foi por nada tão legal assim.

— Quando o problema é seu, não acho que exista isso de ser legal ou não.

Koto tirou o celular, passou casualmente um braço pelos ombros de Yakishio e tirou uma selfie.

— Você é livre para fazer o que quiser. É você quem decide o que fazer e assume a responsabilidade pelas próprias escolhas.

Na tela do celular apareciam uma Koto sorridente e uma Yakishio surpresa.

— Primeiro, vá mostrar seu rosto para a pessoa que você quer ver.

— Mas eu já tentei fugir de tudo. Até tentei arrastar o Nukkun para fora do Clube de Literatura...

— Ninguém tem o direito de culpar você por isso. Além do mais...

Koto segurou Yakishio pelos ombros, virou-a na direção oposta e lhe deu um leve empurrão.

— Sua querida onee-san é surpreendentemente madura. Vá lá e tente.

— Sim!

Yakishio começou a correr, parou por um instante para se curvar na direção de Koto e então continuou sem olhar para trás. Aquilo era tudo o que Koto podia fazer. Depois que Yakishio começava a correr, ninguém conseguia detê-la.

— O Nukumizu-kun provavelmente vai conseguir lidar direito com isso.

Koto murmurou para si mesma, desejando o melhor para seus adoráveis calouros.

*

Assim que saí do prédio, encontrei o caminho ladeado por tulipeiras tomado pelos formandos.

Havia grupos bronzeados de sol tirando fotos, alguns inexplicavelmente cantando o hino da escola — com certeza eram extrovertidos — e garotas se abraçando em lágrimas, também indiscutivelmente extrovertidas.

Alguns até trocavam informações de contato àquela altura.

Já tinham deixado de ser apenas "extrovertidos" e passado para a categoria "por que vocês não explodem de uma vez?".

Procurei casualmente por Tsukinoki-senpai e Yakishio no meio da multidão.

— Ei, esse aí não é o Nukumizu? Veio se despedir de mim?

Uma voz familiar chegou até mim de fora do meu campo de visão. Era Tamaki-senpai.

— Só estou dando uma olhada por aí, tipo um curioso vendo um acidente.

Tamaki-senpai ergueu levemente o tubo do diploma e se aproximou. Já fazia algum tempo desde a última vez que eu o vira. Ele parecia bastante acabado, com olheiras profundas sob os olhos.

— Chegou na hora certa. Vamos juntos para a sala do clube.

— Já terminou tudo por aqui?

— Já tirei fotos com meus colegas de turma. A próxima vez que nos encontrarmos provavelmente vai ser na reunião da turma.

Hã, já estavam planejando uma reunião?

— Não me diga que vai ser hoje, no próprio dia da formatura.

— A maioria ainda está esperando o resultado das provas de admissão. Não é exatamente hora para isso.

Tamaki-senpai abriu um sorriso cansado. A vida de um estudante esperando o resultado do vestibular devia ser difícil.

— Ah, esquece isso. Senpai, não está faltando um botão no seu uniforme!?

De fato, o segundo botão do blazer de Tamaki-senpai havia desaparecido.

— Uma garota do primeiro ano que eu nem conheço insistiu que queria ficar com ele.

Tamaki-senpai coçou a ponta do nariz.

— Será que foi... uma confissão?

— Nada disso. Ela sabe que eu tenho namorada. Acho que só queria o botão como lembrança. Bem, eu também não entendi muito bem...

Uwah, ele parecia bem satisfeito com aquilo.

— Tsukinoki-senpai não vai se importar? Afinal, os casais costumam trocar fitas e botões.

— Ah.

O rosto de Tamaki-senpai congelou. Na empolgação, ele havia se esquecido completamente da própria namorada.

— Ah... isso é ruim, não é? Será que vendem botões em algum lugar?

— A lojinha da escola não vai abrir hoje. A essa altura, acho melhor aceitar a bronca. Sim, é o melhor a fazer.

Ele havia dado o botão para uma caloura mesmo tendo namorada. Uma bronca talvez fizesse bem para ele.

Sugeri aquilo friamente, movido inteiramente por ressentimentos pessoais, mas Tamaki-senpai juntou as mãos como se estivesse rezando.

— Nukumizu, por favor! Me dê seu segundo botão!

Hã!? Não me diga que Tamaki-senpai realmente tinha sentimentos por mim!? Não, isso era absurdo.

Ele provavelmente só queria usar meu botão como substituto no próprio uniforme.

— Por mim tudo bem, mas você tem uma tesoura?

— Não, mas você tem um kit de costura, não tem? Eu vi você consertando o botão da blusa da Yanami-san na sala do clube uma vez.

...Então ele tinha visto aquilo.

Naquele dia, Yanami não parava de pular de um lado para o outro, até que o botão finalmente desistira da vida e saltara para longe.

— Bem, minha irmãzinha me obrigou a carregar um kit de costura na mochila.

— Então conto com você. Aqui chama atenção demais, então vou esperar no pátio.

Tamaki-senpai deixou o local às pressas. Não tinha jeito. Eu precisaria voltar à sala de aula para buscar o kit de costura.

Virei-me.

Por algum motivo, Tiara-san estava parada ali, pressionando um lenço contra o nariz.

— Ei, Basori-san, precisa de alguma coisa?

— Ah, eu estava procurando Tsukinoki-san para me despedir...

— Ah, ela talvez ainda esteja perto da fileira de árvores.

Apesar da minha resposta, Tiara-san continuou imóvel, encarando-me.

— Ah, tem mais alguma coisa?

— E-Eu sei guardar segredo! Pode confiar em mim!

Dizendo aquilo, ela girou nos calcanhares e saiu correndo. ...Como sempre, ela era um mistério.

Soltei um pequeno suspiro e segui em direção à sala de aula.

*

Acabei me encontrando diligentemente ocupado com costura em um banco no pátio.

Embora o blazer de Tamaki-senpai fosse um pouco maior do que o meu, havia algo estranhamente familiar nele, já que o modelo era o mesmo.

— Desculpa fazer você passar por isso logo depois de nos encontrarmos de novo depois de tanto tempo.

Tamaki-senpai se sentou ao meu lado no banco, segurando duas latas de café.

— Realmente fazia um tempo. Então, o resultado da sua prova sai na semana que vem, senpai?

— Sim. Se não der certo, logo depois tenho as últimas provas. Estou rezando para que todo esse estudo intensivo não tenha sido em vão.

Ele mostrou um sorriso exausto.

— Também preciso tirar minhas coisas da sala do clube. Será que consigo levar tudo de uma vez?

— Tsukinoki-senpai também vai estar na sala do clube. Tem certeza de que não tem problema?

— Ah, vou entrar escondido outro dia para buscar minhas coisas.

Sim, todo homem tinha seus segredos. Segredos que nem mesmo a própria namorada podia ver. Principalmente alguns segredos finos, cerca de cinco a dez deles.

Enquanto conversávamos sobre quais livros finos deveriam ser deixados na sala do clube para a posteridade, Tamaki-senpai subitamente ficou sério.

— O que foi?

— Dá uma sensação nostálgica conversar neste banco. Lembra do que aconteceu antes do Festival Tsuwabuki?

— Foi quando você queria que Komari se tornasse presidente?

Tamaki-senpai assentiu enquanto abria a lata de café.

— Eu disse isso na época, mas queria que você apoiasse Komari-chan. Foi por isso que pedi para você ser o vice-presidente.

— Só que no fim fui eu quem acabou virando presidente.

— O resultado é o que importa. Acho que você está fazendo um bom trabalho, cuidando da Komari-chan e de todo o resto.

Sentindo que havia algo implícito nas palavras dele, olhei em sua direção. Ele devolveu meu olhar com uma expressão preocupada.

— Todo o resto?

— Fiquei sabendo da Yakishio-san. Ela está pensando em sair do clube?

...Então ele já sabia. Bem, se as garotas estavam sabendo, era apenas questão de tempo até a notícia chegar aos outros.

— Ela ainda não decidiu. Não entregou nenhum pedido para sair e, considerando que até veio falar comigo, talvez ainda esteja indecisa.

— Ela veio falar com você?

Repeti a explicação que havia dado a Yanami, e Tamaki-senpai cruzou os braços com uma expressão confusa.

— Então, entrar para o clube de ir direto para casa significa passar todos os dias depois da aula juntos?

— Não acho que a Yakishio tenha pensado tão longe. Provavelmente só não queria ficar sozinha e, por isso, me chamou...

Senti um incômodo nas minhas próprias palavras. Ela me arrastara para aquilo porque não queria ficar sozinha. Eu havia ignorado esse detalhe, pensando que era algo que a Yakishio faria, mas havia um motivo para termos saído juntos.

Eu não conseguia imaginar que ela gostasse de mim. Não se tratava de autodepreciação nem de falsa modéstia. O olhar apaixonado que ela dirigia a Ayano havia desaparecido no fim do verão.

Eu não conseguia acreditar que ela simplesmente mudaria seus sentimentos com tanta facilidade. Será que a Yakishio queria meu apoio? Queria conselhos? Ou… Será que queria que eu a impedisse?

Será que eu havia deixado passar alguma coisa no nosso primeiro encontro porque estava empolgado demais?

— Não pense demais nisso, Nukumizu.

— Certo.

Terminei de costurar o botão e ergui o blazer com as duas mãos.

— Pronto. Sim, ficou perfeito.

— Oh, já terminou? Bom trabalho.

Entreguei o blazer e recebi uma lata de café em troca. Pensando bem, eu não precisava necessariamente ter tirado o segundo botão do meu uniforme, precisava...?

— Vamos, então? Vai ser minha última visita à sala do clube como aluno do Colégio Tsuwabuki.

— Sim. Será que Tsukinoki-senpai já chegou lá?

Levantei-me com uma lata de café em uma das mãos e conferi a tela do smartphone. Entre as mensagens de Komari me apressando para ir até a sala do clube, havia outra.

Dizia apenas: "Quero ouvir a sua resposta."

A remetente era...

Yakishio.

*

A escada de emergência do prédio antigo do Colégio Tsuwabuki. Aquele havia sido o local escolhido para meu encontro com a Yakishio, longe de olhares curiosos.

Subi do primeiro andar até o topo, mas não havia sinal dela. Do patamar da escada, contemplei o campo ao longe. Aquelas poucas figuras espalhadas por lá sem dúvida estavam aproveitando plenamente a juventude.

"Quero ouvir a sua resposta."

A "resposta", obviamente, devia ser sobre entrarmos juntos para o clube de ir direto para casa. Eu já havia decidido qual seria minha resposta. Mas ainda não tinha decidido o que deveria ou não dizer a Yakishio.

Respirei fundo. Passos suaves se aproximaram por baixo.

— Desculpa fazer você esperar, Nukkun.

— Ah, tudo bem. Eu também acabei de chegar.

Enquanto mexia desajeitadamente no cabelo, Yakishio parou ao meu lado. A brisa suave que vinha do campo fez sua franja balançar levemente.

Seus olhos castanhos, emoldurados por longos cílios abaixados, pareciam úmidos de melancolia...

— Faz um tempo desde que viemos aqui, não é?

Foi a voz de Yakishio, tentando soar alegre, que rompeu o silêncio hesitante. Eu não sabia o que dizer. Ela me ofereceu um sorriso.

— Ei, lembra da primeira reunião de presidentes, quando você fez bullying com a Komari-chan? Acho que aquela foi a última vez que todo mundo se reuniu assim.

— Aquilo não foi bullying, tá?

Depois de soltar uma risadinha, Yakishio mostrou um sorriso constrangido.

— Desculpa fazer isso justo no dia da formatura. Você tinha outras pessoas que queria encontrar, não tinha?

— Não me importo. Mas você está bem com isso?

Yakishio assentiu suavemente.

— Sim. Consegui agradecer direito. Foi graças à Tsukinoki-senpai.

— Tsukinoki-senpai?

Yakishio assentiu como uma criança.

— Foi como se ela tivesse me dado um empurrãozinho nas costas. Eu sempre penso demais e acabo hesitando. Percebi que precisava colocar meus sentimentos em palavras de verdade.

— Hã... aquela pessoa deu um empurrãozinho em você...

Fiquei preocupado por um instante, mas, pensando melhor, decidi confiar nela uma última vez.

Esperei o momento certo para iniciar a conversa.

— Por que você quer sair do clube?

Depois de hesitar por um momento, Yakishio começou a explicar.

— Você sabe que o pessoal do atletismo espera muito de mim, não sabe?

— Sim. Você é a principal velocista da equipe desde o ensino fundamental II.

Yakishio assentiu e continuou.

— Acho que, no segundo ano, consigo tentar uma vaga no campeonato nacional dos 100 metros rasos.

— Uau, isso é incrível.

Minha reação idiota fez com que ela abrisse um sorriso sem graça.

— Não é que eu seja incrível. Mas comecei a me perguntar o que viria depois disso.

O que viria depois...? Tipo avançar para competições mundiais depois do nacional?

Enquanto eu permanecia ali com uma expressão confusa, Yakishio continuou seu monólogo.

— No ensino fundamental II, as coisas não deram muito certo e eu não consegui chegar ao nacional. Então pensei que seria legal conseguir no ensino médio. Mas, mesmo que eu fique feliz correndo no nacional ou frustrada quando perder... no fim, tudo gira em torno de mim, não é?

— Bem, talvez. Afinal, atletismo é um esporte individual.

— O treinador concentra toda a atenção dele em mim. As outras não devem ficar felizes com isso, mas não dizem nada. Na verdade, acho que eu até me sentiria aliviada se elas me odiassem ou fizessem algum comentário sarcástico.

Yakishio apoiou os cotovelos no corrimão do patamar, deixando o olhar vagar ao longe.

— O treinador quer que eu também dispute os 200 metros e as provas com barreiras. Mas existe um limite para quantas pessoas de cada escola podem participar das competições. Então, se eu competir, significa que outra pessoa não poderá.

Ela entrelaçou as mãos diante da testa e fechou os olhos como se estivesse rezando.

— Só para o meu próprio bem, só para satisfazer quem eu sou agora... ir esmagando aos poucos os sonhos e objetivos de todo mundo ao meu redor é muito difícil.

Eu não tinha nada a dizer. Ao tocar naquela parte dos problemas da Yakishio, uma coisa ficou clara para mim. Percebi que nenhuma das palavras que eu tinha seria capaz de aliviar as preocupações dela.

Mesmo assim, reuni todas as frases clichês e inúteis que consegui encontrar e falei:

— Talvez eu não entenda muito de atletismo, mas é um esporte individual, não é? Até certo ponto, isso não é inevitável? Já ouvi muitas vezes que é normal concentrar os esforços nos atletas com mais potencial.

— Mesmo sacrificando quem está ao seu redor, ainda assim isso não é suficiente no nacional. Ser eliminada nas preliminares já seria considerado um bom resultado.

— É assim mesmo?

— Sim. É assim.

Yakishio abriu os olhos e então esticou os dois braços para cima.

— A Keiko, por exemplo, está tendo dificuldades no salto em altura, mas acho que melhoraria se ajustasse o momento da impulsão. A Misuzu tem problemas com o posicionamento nas curvas, e a Nono-chan tem medo das barreiras. Se o treinador pudesse dar mais atenção a elas, acho que todas melhorariam.

Yakishio se virou para mim.

— Todo mundo se sairia melhor se eu não estivesse lá.

Ela disse aquilo sorrindo. O sorriso era estranhamente límpido, incrivelmente bonito e, ainda assim, parecia solitário.

— O que eu realmente amo é correr. Posso continuar correndo como hobby, até sozinha. Talvez eu esteja me prendendo demais às atividades do clube e aos resultados.

Yakishio continuou falando como se tentasse convencer a si mesma.

— Eu odeio fazer as coisas pela metade, então talvez devesse sair tanto do atletismo quanto do Clube de Literatura. Depois das aulas, poderia sair com minhas amigas ou ir para o cursinho... simplesmente ser uma garota normal do ensino médio.

As palavras de Yakishio cintilavam como grãos de areia escapando de uma garrafa, efêmeras e brilhantes. Eu me vi incapaz de me mover.

— Mas, sabe... tenho medo de fazer isso sozinha. De desistir de tudo, de trair tudo... e mesmo assim continuar sorrindo.

Yakishio olhou diretamente para mim, com uma expressão sincera.

— É por isso que quero que você venha comigo.

Por que eu? Foi essa a pergunta que finalmente me veio à cabeça. Mas, naquele momento, eu sabia que não era aquilo que deveria dizer.

— Você realmente está bem com isso, Yakishio?

As pálpebras dela estremeceram.

— Estou. Já penso nisso há muito tempo. Não é uma decisão impulsiva...

Balancei a cabeça.

— Vou apoiar você se for realmente isso que quer. Mas você hesitou esse tempo todo. Está hesitando até agora. Foi por isso que se deu ao trabalho de sair comigo———

— Mesmo assim!

Yakishio me interrompeu. Ela tentou continuar, mas parou. Baixou a cabeça como uma flor murcha.

— Eu disse, não disse? Que estou um pouco cansada.

Ela balançou lentamente a cabeça.

— Não tenho confiança para continuar. Não aguento tirar as oportunidades e os objetivos das minhas companheiras de equipe.

Não havia mentira nas palavras de Yakishio. Ela não era exatamente esperta para esse tipo de coisa e, apesar das aparências, era surpreendentemente frágil e sentimental.

— Eu sou contra. Quer dizer, pessoalmente, eu torço por você no atletismo. Então não quero ouvir você falando em desistir.

— Mas isso é só...

— Sim, é só egoísmo meu. Então você também deveria ser mais egoísta.

Dei um passo à frente e encarei Yakishio, que me olhava com dúvida.

— Não pense nas outras pessoas nem se está incomodando alguém. Apenas corra por você mesma, do jeito que quiser. E, se um dia realmente passar a odiar correr, aí sim poderá desistir de verdade.

— Foi justamente por isso que eu disse que deveria sair do clube...

— Mas você não quer sair, quer?

Minha voz ficou mais alta sem que eu percebesse.

— Você adora se divertir correndo e adora ficar cada vez mais rápida. Ama as duas coisas, mas não consegue ignorar suas amigas e ainda fica se pressionando para conseguir resultados melhores. Agora está até abrindo mão das coisas que realmente quer fazer. Eu não entendo você, Yakishio. Não entendo mesmo. Por que diabos você vai sair do clube e abandonar todos os seus amigos só por causa de uma coisa dessas?

Quando corria no Clube de Atletismo, a Yakishio parecia genuinamente feliz e radiante… como se fosse tão deslumbrante que ninguém pudesse alcançá-la.

— É inevitável que existam reclamações ou que alguém acabe se machucando. Em todas as corridas até agora, você ultrapassou outras pessoas. Enquanto houver competição, vencer e perder são coisas naturais. Então, sabe...

Respirei fundo e coloquei tudo para fora.

— Apenas faça aquilo que você mais ama. Seja favoritismo ou qualquer outra coisa, foi a sua capacidade que trouxe você até aqui.

Eu sabia que o que dizia era egoísta. Eu não passava de um estranho, incentivando irresponsavelmente a pessoa que mais havia se esforçado a continuar se esforçando.

Yakishio, que me ouvira em silêncio, abriu a boca como se finalmente tivesse tomado uma decisão.

— Nukkun, se você vai tão longe assim, então vamos disputar uma corrida.

— Hã? Uma corrida?

— Sim. Uma única prova de 100 metros. Não importa se terminarmos chorando ou rindo, aquilo vai decidir tudo.

Cem metros… Ela queria dizer correr? Yakishio contra mim?

— Não, não, não. Nem pensar. Isso é impossível, não é!? Eu definitivamente não consigo vencer você.

— Não é como se eu também tivesse certeza absoluta de que consigo vencer.

Yakishio deu de ombros com seu corpo esguio e abriu um sorriso irônico.

— Quando participo de uma competição, existem pessoas mais rápidas do que eu. E, se eu chegar ao nacional, vou estar cercada de gente que eu jamais conseguiria vencer. Pessoas como nós correm sabendo que, em algum momento do caminho, vão perder.

Ela olhou diretamente para meu rosto com um sorriso encantador demais para ser chamado de provocação.

— Se você vencer, vou ouvir o que disser. Não importa quem reclame... ou melhor, não vou deixar ninguém reclamar. Vou dar tudo de mim, continuar no Clube de Literatura e também superar todo mundo no atletismo. Eu vou mostrar para você.

Yakishio estendeu a mão de repente e tocou de leve no meu peito.

— Mas, se eu vencer, Nukkun, você vai ter que entrar comigo para o clube de ir direto para casa.

— Mas vencer você é...

— Não se preocupe. Vou dar uma vantagem para você. Nukkun, qual é o seu tempo nos 100 metros?

Hã? Eu não cronometrava aquilo desde as aulas de educação física do primeiro semestre.

Acho que era...

— Uns dezesseis segundos, talvez...?

— Não é lento demais!?

— Foi na primavera, então deve ser mais ou menos isso. Talvez eu esteja um pouco mais rápido agora.

— As pessoas não ficam mais rápidas sozinhas, sabia? Hmm... isso complica as coisas.

Yakishio pensou por um momento.

— Então vou dar uma vantagem baseada na diferença entre o tempo médio dos garotos do primeiro ano e o meu recorde pessoal. Assim fica justo, não é?

— Justo...? Será? Não poderia usar o meu recorde pessoal?

— Não. Se você está pedindo pela minha juventude, preciso exigir pelo menos isso de você.

— Eu não pedi exatamente pela sua juventude...

Enquanto eu resmungava desculpas, Yakishio bateu com força nas minhas costas.

Doeu.

— Estou falando sério. Então você também precisa levar isso a sério.

E, com uma expressão como se todo o peso que carregava tivesse finalmente desaparecido, ela abriu um sorriso radiante.

📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag e revisado por Shisui

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Fim da leitura

Capítulo 67 concluído

Volume 6 – Capítulo 2 – Capítulo 2: Tão úmido quanto o número de lágrimas