Todas Essas Heroínas Perdedoras!Volume 6 – Capítulo 3 – Capítulo 3: Estação das Despedidas
Capítulo 69NUMA TARDE ENSOLARADA de sábado, Yanami e eu estávamos em um estádio de atletismo perto da minha casa, em Toyohashi.
A corrida de 100 metros entre Yakishio e eu, que decidiria quem deixaria o clube, estava marcada para o último fim de semana de março. Tínhamos ido até ali para um treinamento especial.
Yanami apertou o botão do cronômetro no instante em que meu corpo cruzou a linha de chegada, depois de eu correr os 100 metros com todas as forças.
— Q-Quantos... quantos segundos deu?
Perguntei a Yanami enquanto me apoiava nos joelhos trêmulos. Eu devia ter conseguido um tempo bem razoável daquela vez. Talvez até pudesse almejar a meta na casa dos 14 segundos.
— Hã... 16,5.
O quê!? Não era possível.
Mas, quando pedi que ela me mostrasse o cronômetro, o visor marcava mesmo 16,5 segundos. Tinha sido ainda mais lento do que eu imaginava. Yanami suspirou, incrédula.
— Nukumizu-kun, tem certeza de que vai ficar tudo bem? Você só tem três semanas, não é?
— Mas vou ter uma vantagem. Só preciso chegar perto do tempo médio.
O sistema de vantagem era bem simples. A diferença entre o tempo médio dos garotos do primeiro ano do Colégio Tsuwabuki e o melhor tempo da Yakishio seria a minha vantagem.
— Então, como vai funcionar a corrida no dia?
— Bem, eu largo 2,5 segundos antes da Yakishio. Quem cruzar a linha de chegada primeiro vence.
Yanami pareceu entender e assentiu.
— E qual é o seu tempo-alvo?
— Hã... como é a média dos alunos do primeiro ano do Colégio Tsuwabuki... 14,5 segundos.
Yanami ergueu uma sobrancelha.
— E quanto você fez agora?
— 16,5 segundos.
............
Aham. Tentei disfarçar limpando a garganta.
— Mas a meta está clara. Preciso tirar dois segundos do meu tempo. A Yakishio precisa superar o recorde pessoal dela. Quem chegar mais perto da própria meta vence, certo?
Yanami deu de ombros e colocou as mãos na cintura.
— Sabe, por que você concordou com essa corrida? Nukumizu-kun, você não costuma ser do tipo que se deixa levar pelo calor do momento, né?
— Não tive escolha, considerando como as coisas aconteceram. Se eu não dissesse nada, ela ia sair do Clube de Literatura.
— Mesmo assim, o seu tempo não está lento demais? Se a Lemon-chan superar o recorde dela, melhorar só dois segundos não vai ser suficiente para você.
— Para alguém tão rápida quanto a Yakishio, melhorar até um centésimo de segundo é difícil. Eu, por outro lado, só tenho espaço para melhorar. Então ainda tenho uma chance.
— Ohô, então vamos ver essa melhora. Volte para a linha de largada. Vou cronometrar outra tentativa.
Será que correr os 100 metros repetidas vezes realmente me deixaria mais rápido? Embora eu tivesse minhas dúvidas, não havia ninguém ali capaz de respondê-las.
Quando Yanami já tinha errado a cronometragem da terceira tentativa e de todas as seguintes, Komari chegou à pista carregando uma bolsa grande. Ela olhou cuidadosamente ao redor.
— Ei, Komari-chan! Aqui! Ei, acena para ela, Nukumizu-kun.
— Estou cansado demais pra... ah, tá bom, entendi.
Depois de nos encontrar, Komari veio trotando até nós.
— Komari-chan, trouxe o que eu pedi?
— S-Sim, trouxe.
O que ela tinha pedido? Komari abriu a bolsa, revelando várias garrafas de água lá dentro.
— H-Hã, eu preparei umas b-bebidas. Elas têm v-vinagre de maçã, sal e açúcar.
Ohh, bebidas caseiras.
Enquanto eu admirava as bebidas, Yanami ergueu orgulhosamente uma das garrafas por algum motivo.
— Nukumizu-kun, você deveria agradecer pelo nosso gesto atencioso.
— Mas você não fez nada, fez?
— As garrafas são minhas. Comprei um monte para fazer dieta, mas estavam só largadas lá em casa.
Entendi. Então Yanami era do tipo que começava uma dieta comprando os acessórios. Bem a cara dela.
— Uma delas tem uma cor diferente. Tem alguma coisa diferente nessa?
— T-Tem kinako.
— Kinako?
— S-Sim. É rico em p-proteína. Você bebe d-depois do treino.
Ohh, que atenciosa. Komari inclinou a cabeça, curiosa, quando estendi a mão para pegar a garrafa.
— O-O treino já acabou?
— Estou meio cansado, e meu cadarço desamarrou, então acho que já está na hora de encerrar.
Komari arrancou a bebida com kinako da minha mão.
— C-Corra até morrer. Pensando bem, é melhor só m-morrer logo.
— Hã? Mas eu já estou bem cansado.
Afinal, havia três amadores ali. Um treinamento inadequado poderia acabar fazendo mal ao meu corpo. Yanami bloqueou meu caminho quando tentei sair da pista para fazer uma pausa.
— Você não pode fugir, Nukumizu-kun. Entende que o Clube de Literatura está em crise?
— Eu só vou descansar um pouco. Você já ouviu falar de supercompensação, não ouviu?
Quando tentei escapar da situação com algumas explicações vagas, Komari agarrou a parte de trás da minha camiseta.
— E-Eu quero que você tente o "Método Yakishio" q-que ela ensinou antes.
Tente você mesma, garota. A única teoria daquela menina era correr para a frente com força total.
— Está bem, mas vou para casa depois de correr mais um pouco. Tenho um encontro com alguém.
Yanami e Komari me lançaram olhares desconfiados.
— Uma garota?
— U-Uma mulher, é?
— É segredo. Até eu tenho meus segredos.
Yanami e Komari me encararam por um instante. Então trocaram olhares e abriram sorrisos maliciosos.
— Já entendemos. Você só está tentando bancar o misterioso.
— Q-Que exibido, N-Nukumizu.
Como elas sabiam?
No fim, fui obrigado a correr até minhas pernas quase cederem, e meu melhor tempo não melhorou em relação à primeira tentativa.
*
Depois de finalmente ser libertado do treinamento, caminhei cambaleando como uma gazela-de-thomson recém-nascida. Do estádio até a Taisho, uma tradicional loja de doces japoneses, foram cerca de quinze minutos a pé.
Embora a fachada da loja revelasse sua longa história, o lugar transmitia uma agradável sensação de limpeza. O mitarashi dango era a especialidade da casa, e, na frente da loja, uma máquina de grelhar dango girava continuamente.
A máquina mergulhava os dango no molho duas vezes a cada volta completa, dando a eles um aroma irresistível e um sabor delicioso. Era difícil descrever em palavras o quanto aquilo era gostoso.
Enquanto eu observava a máquina através do vidro, um rapaz alto saiu da loja. Mitsuki Ayano, aluno do primeiro ano do Colégio Tsuwabuki. Ele era a pessoa com quem eu tinha marcado aquele encontro secreto.
— Chegou bem na hora. O que foi? Por que quis conversar comigo assim, do nada?
Ayano me ofereceu um espeto de mitarashi dango.
— Ah, valeu. Quanto foi?
— Hoje é por minha conta. Você paga na próxima.
Comemos os dango enquanto observávamos a máquina. Agora, como eu deveria começar...?
— A Lemon fez alguma coisa?
— Hã? Como você soube?
— Imaginei que fosse algo relacionado a ela quando você disse que queria conversar sem chamar a Chihaya.
Ele acertou em cheio. Já que tinha ficado tão óbvio, não adiantava tentar esconder. Contei tudo o que tinha acontecido recentemente. Ayano ouviu em silêncio e, depois, falou com tranquilidade.
— A Lemon me trouxe a esta loja várias vezes quando estávamos no ensino fundamental.
Então eu era como um substituto para uma loja de doces? Ah, mas...
— Vocês dois estudavam na Aoki, não é? Esta área não ficava fora do distrito escolar de vocês?
— Sim. A gente atravessava os limites do distrito.
Ayano riu.
Em Toyohashi, a área dentro da qual os alunos do ensino fundamental podiam circular sozinhos era chamada de distrito escolar, e as crianças eram proibidas de sair dela sem a companhia de um adulto.
Quebrar essa regra era conhecido como "atravessar os limites do distrito". Se alguém fosse pego fazendo isso, acabava sendo repreendido nas reuniões depois da aula, na frente da escola inteira.
Assustador.
— Acho que foi quando estávamos no terceiro ano. Um dia, depois da aula, ela simplesmente mandou que eu a seguisse. Ela era uma líder bem mandona, então eu tinha um pouco de medo dela naquela época.
Eu conseguia imaginar. No ensino fundamental, Yakishio devia ser como um husky sem coleira.
— Ela só me chamava quando brigava com algum amigo ou levava bronca dos pais. Enquanto comia dango e ficava olhando para esta máquina, ela me contava todo tipo de coisa que eu não conseguia entender.
Dei uma mordida no dango enquanto ouvia. A textura macia e o molho agridoce e levemente salgado se espalharam pela minha boca.
Ayano e Yakishio. Quando ainda eram crianças, os dois provavelmente também tinham se sentado lado a lado, saboreando aquele mesmo gosto e conversando daquela forma.
— Conforme fomos ficando mais velhos, ela parou de me chamar. Mas, no ensino fundamental II, ela me trouxe aqui mais uma vez.
— O que aconteceu?
Ayano pareceu recordar aquela época. Escolheu cuidadosamente as palavras antes de começar a falar devagar.
— A velocidade da Lemon ficou famosa durante nosso primeiro ano no ensino fundamental II. Houve uma época em que, seguindo o conselho do treinador, ela praticamente participava de todas as modalidades.
— Isso era possível? Quero dizer, existe essa questão de aptidão para cada prova, não existe?
— Claro. Mas estudávamos numa escola pública bem comum. E os alunos de lá também eram bastante comuns. A Lemon era a melhor do Clube de Atletismo em todas as provas. Ela simplesmente se divertia correndo por aí, colecionando prêmios e medalhas... até que uma veterana que era muito amiga dela acabou deixando o clube porque não conseguia se destacar em prova nenhuma.
Ayano terminou o último pedaço de seu dango.
— Desde então, a Lemon passou a correr apenas os 100 metros.
...Então tinha acontecido algo assim.
É claro que eu não sabia se aquilo estava diretamente relacionado à situação atual.
Mas se parecia demais com o que Yakishio estava enfrentando naquele momento para que eu pudesse dizer que não havia relação alguma.
— Nukumizu, agora eu quero perguntar uma coisa. Por que você decidiu competir com a Lemon?
— Nem eu sei. Sério, não faço ideia.
Ayano pareceu querer dizer alguma coisa, mas, depois de uma longa pausa, apenas murmurou:
— Bem, estamos falando da Lemon, afinal.
Ele realmente a conhecia bem. Fitei o espeto vazio de dango e expressei a dúvida que estava me incomodando.
— Correr pode decidir um vencedor entre mim e a Yakishio, mas isso não vai resolver o problema, vai? Estou tentando entender com que mentalidade eu deveria encarar essa corrida.
— Mas pode ser um ponto de partida, não pode?
Ayano falou com convicção e colocou a mão sobre meu ombro.
— Não sei se estou em posição de falar sobre a Lemon, mas talvez ela esteja procurando uma forma de se decidir... ou esperando que essa competição dê o empurrão de que precisa.
— Entendi. É uma responsabilidade e tanto. Estamos falando da vida dela.
Ayano riu ao ouvir aquilo.
— Você fala como se isso não tivesse nada a ver com você. Não fique tão tenso. Para a Lemon, é importante que você divida esse peso com ela.
— E por que eu, em vez de você?
Ayano abriu um sorriso e me cutucou com o cotovelo.
— Quem sabe? Também queria saber. Estou até com um pouco de ciúme.
— Vou contar esse comentário para a Asagumo-san, viu...?
Até ele já tinha namorada. Balancei a cabeça, incrédulo, enquanto Ayano tirava o celular.
— Falando na Chihaya, ela perguntou se você quer tomar um chá com a gente. Ela está aqui perto.
Ah, é mesmo? Mas eu não queria atrapalhar, então era melhor eu ir embo—
Espera. Ela estava aqui perto?
— Você contou para a Asagumo-san que vinha para cá?
— Não. Só falei que ia me encontrar com você.
Ayano digitou alegremente uma resposta no smartphone. Então como ela sabia que estávamos ali...? Por quê...?
— Esse tipo de coisa acontece com frequência?
Perguntei em voz baixa.
— Que tipo de coisa?
— Tipo... sei lá, você encontra a Yakishio ou alguma outra garota no caminho para a escola ou na sala de aula. Aí, enquanto está conversando com ela, a Asagumo-san manda uma mensagem no momento perfeito, como se estivesse ouvindo a conversa ali mesmo...?
Ayano parou de digitar.
— Agora que você falou... isso acontece bastante. Por que será?
Entendi. Então Asagumo-san...
— Ayano, não me entenda mal, mas acho que a Asagumo-san colocou uma escu———
Ayano me interrompeu com um tapinha no ombro e abriu um sorriso radiante.
— É, a Chihaya e eu realmente somos——
— Feitos um para o outro.
Uma voz surgiu repentinamente atrás de nós. Virei-me e dei de cara com uma testa reluzente e um sorriso radiante.
Era Chihaya Asagumo.
Retribuí o sorriso e, depois de uma breve saudação, tratei de dar o fora dali.
*
Na tarde de segunda-feira seguinte àquele fim de semana, Yanami e eu observávamos o treino do Clube de Atletismo. Depois do aquecimento, os integrantes se dividiram de acordo com suas respectivas modalidades e começaram os treinos individuais.
Como esperado, a Yakishio não estava em lugar nenhum.
— Ei, o treino de corrida de velocidade está acontecendo ali? Parece que eles estão fazendo treinamento de força.
Yanami estreitou os olhos enquanto observava o grupo no extremo oposto do campo.
— É. Parece bem diferente do estilo da Yakishio. Então é assim que um treinamento de verdade funciona.
É claro que eu não estava fugindo dos treinos. Coletar informações era parte fundamental de qualquer competição. Definitivamente não era porque minhas pernas estavam tão doloridas que eu mal conseguia ficar em pé.
Definitivamente não.
— Será que eu deveria pedir umas dicas para minha amiga do Clube de Atletismo?
Yanami disse aquilo enquanto desembrulhava algo comprido e fino que segurava nas mãos.
— Ela pratica salto em altura. Talvez você consiga saltar uns trinta metros do chão, Nukumizu-kun.
— Eu não vou...
...Não consegui prestar a menor atenção no que Yanami estava dizendo. Porque aquilo que ela estava desembrulhando era uma barra inteira de yokan.
Ela estava descascando o negócio como se fosse uma banana. Não me diga que ela pretendia comer aquilo inteiro daquele jeito...?
— Nukumizu-kun, você é leve, então acho que combinaria com você.
Nhac. Ela realmente mordeu.
— Sério...!?
— O quê? É tão surpreendente assim saber que tenho amigas no Clube de Atletismo?
— Não. O que me surpreende é você estar comendo uma barra inteira de yokan.
— Tem aquela loja de doces na rua que vende gofuku, não tem? Ganhei este yokan de lá.
Nhac.
Ela deu outra mordida. Eu não tinha perguntado onde ela tinha conseguido aquilo...
— Você não começou uma dieta de novo recentemente? Tem certeza de que pode comer uma barra inteira?
Tentei discretamente impedir o comportamento peculiar de Yanami, mas ela rebateu com um sorriso triunfante.
— Eu acompanhei seu treinamento no fim de semana passado, não acompanhei? Então foi praticamente como se eu também tivesse treinado. Isso significa que minha dieta está perfeitamente bem.
Então funcionava como num jogo em que, quando alguém do grupo derrotava um inimigo, todos recebiam pontos de experiência.
Nesse caso, as calorias do yokan da Yanami também seriam divididas comigo? Talvez eu tivesse que expulsá-la do grupo.
Continuamos observando o treino do Clube de Atletismo, tendo o som de Yanami mastigando yokan como música de fundo.
Parecia que havia muito mais naquilo do que simplesmente correr 100 metros feito um louco. Eles conferiam a postura, variavam o ritmo durante corridas de curta distância e seguiam uma variedade de exercícios muito maior do que eu imaginava.
Depois de algum tempo observando, fechei o caderno no qual vinha anotando os detalhes do treinamento.
— Isso foi bem informativo... Hã? O que foi, Yanami-san?
Yanami estava pálida. Ela tinha ficado completamente imóvel.
— Você está bem? Seu rosto está meio acabado.
— Não está acabado. Na verdade, você deveria dizer que meu rosto está parecendo um arco-íris.
Isso, por si só, já parecia motivo suficiente para ir ao hospital. Yanami cobriu a boca e me entregou o restante do yokan.
— Vou dar isto para você, Nukumizu-kun.
Hã? Eu não queria aquilo. Estava cheio de marcas de mordida. Além disso, a situação devia estar realmente séria se Yanami não conseguia terminar a própria comida.
— Quer ir para a enfermaria? Quer que eu chame uma ambulância?
Diante da minha preocupação, Yanami balançou a cabeça vigorosamente.
— Vou ficar bem. Só preciso de um pouco de chá... tipo oolong preto.
Oolong preto não fazia milagres.
— Entendi. Vou comprar um chá. Espere aqui.
— Espere, Nukumizu-kun!
Yanami me chamou bruscamente quando comecei a correr.
— O que foi? Se vai vomitar, use aquela garrafa PET ali...
— Na verdade, guarde o resto do yokan. Vou comer depois.
Parecia que ela estava melhor do que eu imaginava. Assenti e fui em direção à máquina de bebidas.
*
Yanami tinha passado mal depois de comer uma barra inteira de yokan. Essa era uma "descoberta" importante daquele dia. Puxei a carteira diante da máquina de bebidas e examinei as opções.
— Hã... oolong preto é caro. Chá-verde serve...
Clanc. Peguei o chá-verde que caiu da máquina e então...
— Ora, você está aqui, Nukumizu-kun.
Ouvi uma voz familiar atrás de mim. Quando me virei, deparei-me com uma garota de rabo de cavalo e sorriso radiante. Era a capitã Kurata, do Clube Feminino de Atletismo.
— Ah, olá.
— Ouvi dizer que vai disputar uma corrida com a Lemon. Posso dar uma mãozinha.
— Como ficou sabendo?
A capitã Kurata abriu um sorriso.
— Não posso revelar minhas fontes. Afinal, essa informação valeu dois yokans.
A informante estava identificada. O yokan que Yanami tinha comido devia ser o segundo. Não era de admirar que tivesse passado mal.
— Por favor, não conte para mais ninguém. Enfim, estou com pressa. Até mais.
Quando tentei ir embora com o chá, a capitã Kurata agarrou meu braço.
— Hã? Não, espere aí. Eu não acabei de dizer que ia ajudar você?
...Verdade. Ela realmente tinha dito isso. Meu cérebro provavelmente tinha ignorado essa parte por considerá-la inconveniente.
— Disse, sim. Hã... mas o que exatamente quis dizer?
— Você precisa vencer a Lemon nos 100 metros, certo? Tenho experiência com provas de velocidade, então pensei que poderia treinar você.
Hã? Ela estava se oferecendo para me ensinar a correr? Eu queria agradecer, mas hesitei.
— Hã, agradeço a preocupação, mas, por favor, deixe que a gente resolva isso por conta própria.
— Deixe comigo. Eu com certeza vou————Hã!? Você está recusando!?
Que clássica preparação para uma piada. Essa pessoa era meio cansativa...
Respondi enquanto coçava a cabeça, sem jeito.
— Se eu receber ajuda sua, senpai, o Clube de Atletismo não vai acabar se tornando inimigo da Yakishio? Isso só faria com que ela tivesse ainda menos vontade de voltar, não acha?
— Entendi. A Lemon... realmente se importaria com isso.
Parecia que ela tinha entendido.
— Por isso, espero que possa apoiá-la quando ela voltar, senpai. Conto com você.
A capitã Kurata assentiu. Ela ainda estava agarrada ao meu braço.
— Você é... hã, como é mesmo a palavra? Ah, é. Aquilo.
— Hã? Aquilo?
Eu tinha a impressão de que todo mundo andava me dizendo algo parecido ultimamente. A capitã Kurata deu alguns tapinhas no meu ombro.
— Entendido. A nossa Lemon também é bem "aquilo", então cuide bem dela.
Depois de deixar essas palavras, ela foi embora.
Hã? Então Yakishio também era "aquilo"?
— E o que exatamente é "aquilo"...?
Abri a garrafa e tomei um grande gole. O chá-verde gelado pareceu lavar as dúvidas que turvavam minha mente enquanto refrescava minha garganta.
...Eu tinha a sensação de estar esquecendo alguma coisa. O que era mesmo?
— Ah, Nukumizu-kun, aí está você.
Eu tinha esquecido dela. A garota esquecida agora parecia tão animada como se nada tivesse acontecido. Sem nem pedir, Yanami arrancou meu chá-verde das minhas mãos e bebeu metade de uma vez só.
— Ufa! Para nós, japoneses, nada supera um bom chá-verde.
— Hã? Então você já está se sentindo melhor?
— Sim, muito melhor. Sério, até eu fiquei numa situação complicada dessa vez.
Yanami riu alegremente.
— Você limpou tudo direitinho, não é? Sabe, algumas pessoas podem passar mal só de ver.
— Eu já limpei o banheiro————Não, espera! Eu não vomitei!
Está bem. Se ela dizia que não, eu não investigaria mais. Yanami tomou outro gole do chá e olhou na direção em que a capitã Kurata tinha ido.
— Ei, aquela garota era do Clube Feminino de Atletismo?
— Sim, era a capitã Kurata. Ela se ofereceu para me treinar, mas...
Quando deixei a frase morrer, Yanami inclinou levemente a cabeça.
— Você recusou?
— Hã? Como soube?
Perguntei, surpreso, e Yanami me lançou um sorriso satisfeito.
— Porque isso é a sua cara, Nukumizu-kun. Você quer vencer com as próprias forças, não é?
Não. Não era nada disso. Nem sequer tinha chegado perto. Mas seria crueldade esperar tanto da Yanami.
— Só achei que envolver o Clube de Atletismo talvez não fosse uma boa ideia dessa vez. Só isso.
A Yakishio não tinha desabafado com alguma amiga do Clube de Atletismo nem com a Yanami.
Ela tinha desabafado comigo. O motivo de eu ter sido escolhido provavelmente era tão incompreensível para a Yakishio quanto para qualquer outra pessoa.
Por mero acaso, eu tinha acabado estando na ponta dos sentimentos confusos que ela tentava alcançar às cegas.
Yanami ficou encarando meu rosto atentamente.
— O quê? Por que está me encarando?
— Sabe… — Yanami murmurou com um sorriso maduro. — Ainda sobrou um pouco daquele yokan?
Entreguei silenciosamente a embalagem do yokan. Yanami a recebeu com um sorriso radiante.
*
No dia seguinte, choveu desde a manhã. Durante a terceira aula, de Literatura Moderna, eu ouvia distraidamente o som da chuva. A chuva fina e constante parecia absorver os sons ao redor, criando a ilusão de que não havia ninguém do lado de fora da sala.
O professor de Literatura Moderna era um jovem de temperamento tranquilo. Quando o sensei interrompeu a leitura do livro didático, o som de páginas sendo viradas preencheu a sala.
O tema daquele dia era Kokoro, de Natsume Soseki.
O trecho presente no livro era uma carta de suicídio escrita pelo personagem chamado "Sensei", na qual ele detalhava sua complicada relação com o amigo K.
Virei a página seguinte um pouco mais devagar do que meus colegas e imediatamente retirei um bilhete adesivo onde estava escrito, numa letra arredondada e inclinada para cima: "Preste atenção, essa é a dica!" Típico da Tsukinoki-senpai, enfiando coisas no meu livro sem pedir permissão.
Segundo ela...
"BL, NTR, WSS. Kokoro contém todos os fetiches de que precisamos."
Eu preferia que ela não me incluísse nesse "nós". A propósito, WSS era a abreviação de "Eu gostava dele primeiro", o que basicamente resumia a maior parte das reclamações de Yanami.
Quando tentei jogar o bilhete adesivo fora, segurando-o entre os dedos, hesitei por um instante ao me lembrar de que a Tsukinoki-senpai já não estava mais aqui. Com uma sensação um tanto estranha, dobrei o bilhete.
— Por hoje é só.
O sinal tocou assim que o sensei anunciou calmamente o fim da aula. Eu gostava bastante daquele professor, já que ele sempre terminava a aula no horário.
Agora, o intervalo era precioso.
A chuva afetava o gosto da água da torneira no dia seguinte. Eu precisava verificar vários pontos naquele dia...
Quando eu estava prestes a sair da sala, o sensei me chamou.
— Nukumizu-kun, você faz parte do Clube de Literatura, certo?
— Hã? Ah, sim.
Ao perceber meu susto, o sensei fez uma expressão de desculpas.
— Desculpe chamar você assim, de repente. Estava com pressa?
— Não. Só fiquei surpreso por saber que o senhor me conhece.
O professor riu, como se tivesse achado que meu comentário era uma piada.
— Não existe professor que não reconheça os alunos para quem dá aula.
Existe, sim. E ela estava bem perto dali.
— Hã... precisava de alguma coisa?
— Quero lhe entregar algumas informações sobre eventos literários para estudantes. Pensei que talvez fossem úteis para as atividades do clube.
Aceitei o panfleto e passei os olhos pelo conteúdo. Havia um concurso literário para estudantes do ensino médio, uma sessão de leitura e uma bibliobatalha.
Eram eventos bastante sérios.
...Será que nosso clube realmente combinava com eventos tão voltados ao público? Principalmente considerando as coisas que Komari escrevia...
— Espera. O que está fazendo aqui, Komari?
Como se tivesse sido invocada pelo meu monólogo interno, Komari estava parada na entrada da sala. Ela correu até mim e agarrou a barra do meu uniforme.
— N-Nuku...!
— Ei, o que foi, Komari?
— Ué... ah... N-Nuku...!
Ping. Ping.
Lágrimas grandes e pesadas começaram a escorrer dos olhos de Komari.
— Ei!? Hã? Espere, por que você começou a...!?
Yanami correu até nós, empurrou-me para o lado e abraçou Komari com força.
— Você está bem, Komari-chan!? Ei, Nukumizu-kun, o que você fez?
— Eu não fiz nada... Hã, eu não fiz, certo?
Eu estava começando a perder a confiança. Incapaz de suportar aquele clima, fugi dali e segui as duas garotas.
*
Komari fungava enquanto bebia o chocolate quente que eu tinha comprado para ela no banco ao lado das máquinas de bebidas.
— Já se acalmou um pouco?
— S-Sim, hã...
Quando Komari começou a falar, Yanami me lançou um olhar penetrante.
— Nukumizu-kun, você fez alguma coisa com ela? Tipo trocar as maria-chiquinhas dela de um lado para o outro?
O que era isso? Parecia até divertido.
— Eu não fiz nada, está bem? Komari, você foi até a nossa sala procurando a gente, certo?
Komari assentiu e respirou fundo.
— T-Tamaki-senpai... p-passou na universidade!
Hã? Ah, é verdade. Aquele era o dia em que saíam os resultados.
— Ah, é mesmo. O Tamaki-senpai acabou de mandar mensagem para a gente, Nukumizu-kun.
Verifiquei meu celular e encontrei uma mensagem no grupo do Clube de Literatura no LINE anunciando que ele tinha sido aprovado na universidade.
Sério?
Aquilo era uma ótima notícia, mas...
— Então, Komari... você estava chorando por causa disso? Lágrimas de felicidade?
Ela assentiu novamente. Então, basicamente, ao saber que Tamaki-senpai tinha sido aprovado, ela correu até a sala 1-C, me encontrou por perto e começou a chorar.
Ela guardava algum rancor de mim?
— E-Eu estou tão feliz...
Komari sorriu enquanto segurava a lata de chocolate quente com as duas mãos. ...Ao ver aquele sorriso, só consegui responder da mesma forma. Enquanto isso, Yanami bateu palmas.
— Então, que tal comprarmos alguma coisa depois da aula para comemorar com os senpais?
— S-Sim, eu adoraria.
Os olhos de Komari brilharam enquanto ela assentia animadamente.
— Então está decidido. Tudo bem para você, Nukumizu-kun?
— Hã... posso deixar isso por conta de vocês duas?
Yanami inclinou levemente a cabeça.
— Você vai treinar mesmo com essa chuva?
— Sim. Pensei em fazer o que desse. Não se preocupe, depois pago a minha parte...
Yanami balançou as mãos, dispensando a ideia.
— Não se preocupe com isso. Ultimamente, já estava começando a me cansar um pouco de acompanhar seus treinos.
Essa mulher era sempre tão direta. Bem, o intervalo já estava quase acabando. Enquanto voltávamos para nossas respectivas salas, Komari olhou para o celular e murmurou baixinho.
— A-A Yakishio... ainda não olhou o c-celular.
Yakishio? Ao conferir a conversa no LINE, vi que quatro pessoas tinham lido a mensagem de parabéns que eu enviara antes.
Então eram os dois senpais, Komari e Yanami...
— É normal não olhar o celular durante o intervalo. Talvez ela esteja conversando com as amigas.
Tentei sorrir, mas só consegui esboçar uma expressão pouco convincente antes de acelerar o passo.
*
Depois da aula, na sala do clube.
Troquei de roupa, vesti o uniforme de educação física e comecei a seguir o plano de treino que tinha elaborado na noite anterior.
Primeiro, eu faria cinquenta elevações de joelho... mas, como era o primeiro dia, decidi ficar em quinze.
Em seguida viriam os agachamentos, porém resolvi pulá-los naquele dia para não forçar a lombar.
No lugar deles, planejei fazer cinquenta flexões para fortalecer a parte superior do corpo, mas desisti depois de cinco.
Deitado de costas no chão, fiquei encarando as lâmpadas fluorescentes.
— Isso dói mais do que eu imaginava…
Murmurei para ninguém em particular. No fim de semana, eu tinha corrido conforme as instruções de Yanami, mas só acabara com o corpo inteiro dolorido. Acrescentar musculação àquilo só tinha piorado as coisas.
— Talvez eu devesse mesmo ter pedido conselhos à Kurata-senpai...
Quando comecei a me arrepender da decisão...
— Com licença, tem alguém aqui?
A porta da sala do clube se abriu. Era Tiara-san, do conselho estudantil. Nossos olhares se encontraram enquanto eu continuava deitado no chão.
— Ara, Nukumizu-san. O que está fazendo no chão...? Ah!?
Tiara-san segurou a saia às pressas.
— Ei! Para onde está olhando!?
Não, não. Foi você quem entrou na sala do clube sem avisar. Essa acusação era um pouco injusta.
Por causa do ângulo, meu campo de visão simplesmente tinha acabado ficando na altura debaixo da saia dela.
— Tudo bem. Só consegui ver até os seus joelhos. Enfim, o que precisa?
— Hã? Ah, sim. Vim lembrar que vocês ainda não entregaram o plano de atividades para o próximo ano letivo... Você está olhando de novo, não está!?
Eu não era cego, sabia? Suspirei e me levantei. Tiara-san me encarou com curiosidade.
— Por que está usando roupa de educação física, Nukumizu-san?
— Hã, é porque...
Bem, o Clube de Atletismo já sabia. Então não faria mal dar uma explicação simples àquela altura.
— Estou surpresa.
Os olhos de Tiara-san se arregalaram.
— Imagino. Você provavelmente não consegue me imaginar correndo.
— Não é isso. É que você sempre parece tão nervoso quando falo com você, Nukumizu-san. Então fiquei surpresa por estar me contando isso.
Era mesmo? Desculpe por surpreendê-la. Mas eu também gostaria que ela parasse de me assustar.
Depois de uma breve pausa, Tiara-san assentiu com seriedade.
— Nesse caso, acho que posso ajudar.
— Hã? Você tem experiência com atletismo ou algo assim?
— Claro que não.
Ela fez um gesto despreocupado com a mão.
— Quero dizer que você precisa de alguém que não seja do Clube de Atletismo para ensinar você a correr, certo?
— Tem alguém em mente?
— Deixe comigo. Posso não parecer, mas conheço muita gente.
Tiara-san me mostrou um sorriso gentil enquanto eu ainda sentia um pouco de medo.
*
Na manhã seguinte, eu estava na pista do Colégio Tsuwabuki, vestindo meu agasalho esportivo.
Olhei para o relógio. Eram seis e meia da manhã. Enquanto tentava conter um bocejo, uma aluna se aproximou de mim cheia de energia.
— Ouvi tudo pela Basori-san. Eu posso ajudar você!
Diante de mim estava Hibari Hokobaru, presidente do conselho estudantil do Colégio Tsuwabuki. De certa forma, eu já esperava por aquilo. Tiara-san e Sakurai-kun também estavam presentes como acompanhantes.
— Hã... conto com você.
Depois que me curvei desajeitadamente, a presidente colocou uma mão sobre meu ombro.
— Para começar, quero saber qual é o seu nível atual. Faça o aquecimento e depois corra uma volta.
— Sim, entendido.
Depois de vários dias treinando, eu devia estar um pouco mais rápido. Após me alongar, corri com todas as forças.
— Q-Quanto deu...?
Sakurai-kun segurava o cronômetro e leu o resultado com uma expressão apologética.
— 16,7 segundos.
...Como eu tinha conseguido ficar mais lento?
A presidente inclinou a cabeça e cruzou os braços.
— Hmm. Antes de começar a treinar, não tinha feito 16,5 segundos?
— Foi culpa de uma treinadora ruim...
— Certo. Fique parado e mantenha a postura.
A presidente se aproximou de mim e, de repente, começou a tocar meu corpo.
— Ei, espere!?
— Não fique tenso. Relaxe.
Com uma expressão séria, a presidente apalpou meus músculos abdominais e das costas.
— Uwah, espera, isso faz cócegas... Ei, não mexa na parte interna da minha coxa, hya!?
— Aguente. Você é homem, não é?
Era justamente porque eu era homem!
Cerrei os dentes e suportei aquilo enquanto Tiara-san nos observava com uma expressão extremamente séria.
A seriedade dela era assustadora. E o fato de estar se aproximando aos poucos também era assustador.
Quando a presidente finalmente terminou a inspeção, eu já estava recitando mentalmente o Sutra do Coração.
— Hmm. Acho que agora consegui ter uma boa noção do seu corpo.
...Ela tinha conseguido ter uma boa noção do meu corpo.
— Sua constituição é delicada e você tem pouca massa muscular.
Por algum motivo, Tiara-san engoliu em seco, nervosa.
— Hã... então isso significa que preciso praticar corrida de uma maneira adequada ao meu corpo?
A presidente balançou a cabeça.
— Não. Para começo de conversa, você nem sequer tem força muscular suficiente para treinar.
Hã? O quê? Então eu nem tinha permissão para treinar?
— Mas preciso fazer alguma coisa para me preparar para a corrida no fim do mês.
— É por isso que, nos primeiros dez dias, vamos focar no fortalecimento geral e na melhora do condicionamento físico. O treino de corrida ficará apenas para a última semana.
— Isso vai ser suficiente?
— Não sei. Não posso garantir. Mas é o que eu faria.
Ela declarou aquilo com firmeza enquanto me encarava diretamente nos olhos.
...Embora Tiara-san tivesse sido quem mexera os pauzinhos, aquela pessoa não ganharia absolutamente nada treinando comigo.
Mesmo assim, tinha vindo me ajudar. Sustentei seu olhar e fiz uma reverência profunda.
— Sim. Conto com você.
— Afinal, foi um pedido da Basori-san. Deixe comigo.
Tiara-san nos encarava de perto, o que me deixava um pouco inquieto.
— Além disso, sua postura ao correr estava bem estranha. Machucou o pé direito?
— Meu tornozelo direito está meio esquisito. Talvez seja dor muscular?
— Se é no tornozelo, pode ser uma entorse leve. Vou avisar a Konuki-sensei.
Certo. Eu não queria ir para a enfermaria, mas aparentemente não tinha escolha. Eu realmente não queria, porém. A presidente se sentou no chão, esticou as pernas e deu alguns tapinhas no espaço ao lado dela.
— Hoje vou ensinar alguns exercícios de musculação que não vão forçar suas articulações. Venha se sentar aqui.
— Ah, sim.
Enquanto eu obedecia às instruções dela, Tiara-san parecia nos filmar com o smartphone enquanto caminhava ao nosso redor. Aquela expressão séria constante dela era meio assustadora...
A aula da presidente terminou pouco depois das sete e meia.
— A propósito, quanto seu pé está doendo?
— Se eu não correr, fica tranquilo. Só dói um pouco quando caminho.
— Hmm. Então vamos trocar contato.
A presidente tirou o celular.
— Considere a dor que está sentindo agora como nível dez e me atualize todos os dias.
— Podemos usar o LINE para isso?
Enquanto eu e a presidente trocávamos nossos contatos no LINE, Tiara-san se aproximou e limpou a garganta.
— Nukumizu-san, você usa LINE?
— Eek!?
Já era a terceira vez. Se Tiara-san não tinha sofrido algum tipo de pane grave, então só podia ser aquilo.
— Nesse caso, Basori-san, quer trocar LINE comigo?
— Hã? Ah, sim!
...No fim das contas, eu realmente não entendia aquela garota. Mostrei meu código QR, e a Tiara-san apontou a câmera do celular para ele.
— A propósito, você parece estar bem hoje.
— Normalmente eu pareço tão fraca assim?
— Hã, é que ultimamente você tem tido sangramentos nasais com frequência——
Antes que eu terminasse a frase, Tiara-san estufou o peito com elegância.
— Pode ficar tranquilo. Recentemente comecei a tomar Orengedokuto.
— Orengedoku...? O que é isso?
— É um tipo de medicamento tradicional chinês. Superei completamente meus sangramentos nasais graças ao poder da medicina chinesa!
Entendi. A medicina chinesa era mesmo impressionante. Esperava que também conseguisse eliminar o veneno que havia na cabeça dela.
*
Depois de me separar do trio do conselho estudantil, passei pelo treino matinal do time de beisebol e segui em direção a um canto do terreno da escola. Estava na hora de me trocar e voltar para a sala.
Pensei nisso enquanto caminhava completamente exausto, quando então——
— Você está mesmo se esforçando bastante. Foi bem lá.
Yanami se aproximou pela frente enquanto mastigava uma banana.
— Você estava olhando? Podia ter dito alguma coisa.
— Eu pensei nisso, mas, bem...
Yanami apontou com a banana pela metade para uma árvore na extremidade do campo. Espiando por trás do tronco, Komari nos observava escondida.
— O que ela está fazendo?
— Acho que ficou tímida com tanta gente desconhecida.
Fazia sentido. O pessoal do conselho estudantil era um grupo bastante peculiar. Arrastei minhas pernas exaustas até a árvore onde Komari se escondia.
— O que foi, Komari?
Komari colocou metade do corpo para fora do esconderijo e fixou em mim um olhar firme.
— V-Você vai continuar sendo treinado p-por aquelas pessoas?
— Sim. Disseram que vão me acompanhar todos os dias como meus treinadores.
............
Ela ficou em silêncio novamente.
— Hã... aconteceu alguma coisa?
— Ah, olha só o Nukumizu-kun implicando com a Komari-chan de novo.
Yanami continuou falando besteira enquanto balançava a casca da banana.
— Yanami-san, você viu tudo, não viu? Eu não fiz nada.
Komari estendeu timidamente a mão. Ela segurava uma garrafa de bebida.
— H-Hã, eu fiz uma bebida.
— Valeu. Estou morrendo de sede.
Mas Komari me ignorou e entregou a garrafa para Yanami.
— Obrigada, Komari-chan.
— Hã? Não era para mim?
Komari ergueu os olhos para mim, nervosa, e murmurou:
— T-Traidor…
Depois de deixar aquelas palavras enigmáticas, ela saiu correndo. O que tinha sido aquilo?
— Esta bebida está deliciosa, e o vinagre de maçã faz milagres. É ótima para recuperação.
— Então isso era para mim, não era? Yanami-san, por que você está bebendo?
Yanami deu de ombros, ainda sugando pelo canudo.
— Mas, Nukumizu-kun, se eu pedisse, você me daria, não daria?
— Daria, mas...
— Foi o que pensei.
O que isso queria dizer, Yanami-san?
Yanami deu mais um grande gole e então me entregou a garrafa pela metade.
— Aqui, deixei metade para você.
Parecia um senhor feudal cobrando seus tributos.
Resignei-me à situação e peguei o canudo...
...Por que eu estava sentindo gosto de banana?
Limpei cuidadosamente o canudo com um lenço umedecido antes de beber. A bebida tinha uma combinação refrescante de salgado, doce e azedo que parecia se espalhar por cada célula do meu corpo.
Mas ainda restava um leve gosto de banana.
Eca...
*
Naquela noite, Kaju entrou no meu quarto com toda a naturalidade enquanto eu me alongava, seguindo a rotina que a presidente tinha me ensinado. Ela se sentou em silêncio diante de mim enquanto eu continuava os exercícios sem dizer nada.
— Onii-sama, você começou a praticar esportes recentemente?
— Sim. Ultimamente eu estava me sentindo meio fora de forma. O que foi?
— O White Day já é neste fim de semana. Kaju preparou algumas coisas para você com a ajuda das minhas amigas.
Já tinha chegado essa época?
No Dia dos Namorados, eu só tinha recebido um chocolate de obrigação da Asagumo-san, mas Yanami provavelmente reclamaria até não poder mais se eu não levasse nada. Aceitei a sacola de papel que Kaju me entregou e dei uma espiada dentro.
— Valeu. Hã... o que tem aqui?
— Ultimamente, Kaju tem se interessado por doces tradicionais europeus. Tem dragées, pignolata e streuselkuchen. Por favor, divida com todo mundo.
— Hã? O que são essas coisas?
Kaju me entregou outra caixa, mas eu continuei confuso.
— E isto é pitta 'nchiusa. Por favor, entregue para alguém especial.
...Pitta?
Era algum novo jogo de quebra-cabeça ou algo assim? Mas o momento era perfeito. Eu precisava dar alguma coisa individualmente para Asagumo-san, então entregaria aquilo a ela.
— Então vou aceitar de bom grado. Obrigado pela ajuda.
Já tinha se passado um mês desde o Dia dos Namorados. Muita coisa tinha acontecido.
A recepção dos novos membros do Clube de Literatura, a mudança dos senpais e várias outras complicações acabaram ficando ofuscadas pela competição com a Yakishio, e eu ainda achava estranho estar envolvido em tudo aquilo.
— Onii-sama, desculpe interromper seu treino. Quer que eu ajude?
— Então pode segurar meus pés enquanto faço abdominais?
— Claro, com prazer!
Kaju continuou falando alegremente comigo enquanto eu começava os abdominais.
— Se vocês dois quiserem continuar namorando, você precisa acompanhar os hobbies da outra garota, não é? Kaju apoia vocês!
— Isso não tem nada a ver com isso, tá? E seu rosto está perto demais.
— E, onii-sama, Kaju também começou a costurar recentemente. Kaju queria começar com alguma coisa pequena, tipo roupinhas de bebê, talvez?
— Bom, deixa isso para o seu próprio tempo.
Eram só abdominais, mas, por algum motivo, eu me sentia muito mais cansado do que o normal. E o rosto dela continuava perto demais.
Quando contei até trinta, desabei no chão e fiquei deitado de costas.
*
Um novo dia amanheceu.
Enquanto a luz do sol iluminava gradualmente a cidade, Lemon Yakishio apreciava aquele instante em que os últimos vestígios da noite desapareciam.
A margem do rio Toyokawa estava coberta por uma fina névoa, que se dissipava conforme Lemon corria, abrindo um caminho atrás dela.
Lemon adorava o instante em que os últimos resquícios da noite desapareciam por completo. Ela apenas corria, inspirava e expirava.
O ar da manhã penetrava em seu corpo, fazendo-a sentir como se estivesse se transformando numa nova versão de si mesma, diferente daquela do dia anterior.
Enquanto passava correndo sob os trilhos do Shinkansen e pensava até onde iria naquele dia, avistou uma figura na margem do rio. Uma figura pequena, que sempre parecia insegura e ansiosa, mas que, de alguma forma, também possuía certa força.
Sem dúvida, uma das amigas mais queridas de Lemon. Chika Komari. Ela estava ali, ereta, como se esperasse por Lemon.
A expressão profundamente preocupada no rosto de Komari provocou uma pontada no peito de Lemon. A culpa da qual vinha fugindo agora estava diante dela, impossível de evitar. Lemon diminuiu o ritmo e se aproximou aos poucos.
— Komari-chan, por que você está aqui...?
Suas palavras morreram no ar.
— V-V-Você tem me evitado ultimamente, n-não tem?
...Komari estava zangada.
É claro que estava. Para ela, o Clube de Literatura era o lugar mais importante de todos, e ela fazia de tudo para protegê-lo. Mesmo sabendo disso, Lemon estava tentando destruí-lo.
Por puro egoísmo e por sentimentos incertos que nem ela mesma compreendia. Lemon levou a mão ao peito, tentando controlar a respiração. Mas nenhuma palavra saiu, e ela permaneceu parada ali.
— V-Você vai competir contra o N-Nukumizu, não vai?
Foi Komari quem rompeu o silêncio. Ela abaixou o olhar, os dedos ficando brancos enquanto cerrava os punhos.
— Desculpa.
A culpa era algo que servia apenas para aliviar a própria consciência. Repreendendo a si mesma por procurar consolo, Lemon esperou pelas palavras de Komari.
Komari respirou fundo, tentando parecer calma, e então falou:
— E-E você também não tem ido ao Clube de Atletismo u-ultimamente, não é?
— É.
Komari ergueu o rosto.
— V-Você pretende fazer tudo s-sozinha?
— Não posso envolver mais ninguém nisso.
Komari suspirou justamente quando parecia prestes a dizer alguma coisa. Ela soltou o ar devagar antes de continuar, em voz baixa:
— Por que o N-Nukumizu? V-V-Você poderia ter pedido ajuda a outra pessoa...
Lemon balançou a cabeça.
— Eu... não sei por que tinha que ser o Nukkun. Mas eu...
Lemon cerrou os dentes, tentando conter as lágrimas.
Não. Aquilo estava errado. Ela estava chorando apesar de tudo ser culpa dela, e isso era absolutamente imperdoável. Precisava aceitar qualquer coisa que lhe dissessem. Era tudo o que podia fazer.
— Desculpa, mas essa competição...
— P-Para de brincadeira.
Tremendo, Komari conseguiu espremer as palavras para fora.
— D-Deixa eu ajudar.
— Hã?
Pega de surpresa por aquelas palavras inesperadas, Lemon recuou confusa e balançou a cabeça.
— Mas, Komari-chan, eu traí todo mundo do Clube de Literatura. Você não está com raiva?
— Eu estou com raiva! E-Eu estou muito brava! M-Mas...
Komari deu um passo em direção a Lemon.
— S-Se você traiu todo mundo por algo que deseja t-tanto assim, então eu vou ajudar! P-Porque somos amigas!
Depois de dizer tudo de uma vez, Komari cambaleou levemente ao tentar manter o equilíbrio. Lemon hesitou em estender a mão e depois a recolheu.
— Mas, Komari-chan. Até eu...
...Não.
Não adiantava. Mesmo tendo decidido que não choraria… A culpa que carregava e a solidão que tinha escolhido… Não era como se ela realmente estivesse bem com aquilo.
— N-Nua!? Não, Y-Yakishio, n-não me abraça!
Tudo era culpa dela. Ela não tinha conseguido contar a ninguém. Mas tinha passado todo aquele tempo ansiosa e sozinha. Sempre quis chorar.
— A-Ai, isso d-dói! V-V-Vai com calma!
E então aconteceu algo saído de um conto de fadas. Por isso, Lemon não conseguiu fazer nada além de abraçar com força sua querida amiga. Mesmo que chorasse, esperava ser perdoada.
………………………………
……………………
Quanto tempo tinha passado? Lemon deu uma risada sem jeito enquanto suas lágrimas eram enxugadas com um lenço.
— Hehe. Você me viu no meu pior estado.
— S-Só estamos nós duas aqui, d-de qualquer jeito.
Komari murmurou de forma brusca, talvez também envergonhada. Então, com uma expressão solitária, acrescentou em voz baixa:
— Y-Yakishio, v-você é boa demais para o N-Nukumizu, m-mas não tem jeito se você gosta dele.
— Hã?
Lemon voltou a ficar genuinamente confusa e piscou, surpresa.
— Espera, Komari-chan. Eu gosto do Nukkun como amigo, mas não tenho sentimentos românticos por ele.
— Ué...?
Komari franziu profundamente a testa por um momento, e então seus olhos se arregalaram ao perceber algo.
— V-Você não gosta!? H-Hã, você realmente n-não pensa nele d-desse jeito?
Lemon assentiu com um olhar límpido.
— Sim. Esse tipo de coisa pode causar mal-entendidos. O Nukkun não força nada, então acabo me sentindo segura perto dele e ficando um pouco mimada.
Lemon coçou a bochecha com um sorriso irônico e então inclinou a cabeça, como se tivesse se lembrado de alguma coisa.
— Mas, Komari-chan, você gosta do Nukkun, não gosta?
— Una!?
Komari deu um salto dramático para trás.
— N-Não, eu não gosto!
— Sério? Mas você presta bastante atenção nele.
Komari balançou a cabeça furiosamente.
— Q-Quando era o Tamaki-senpai, m-meu coração disparava e m-meu peito ficava apertado, mas com o N-N-Nukumizu é d-diferente. E-Ele só me irrita, e eu fico c-com raiva porque parece que ele não liga p-para nada. É só que... ele me incomoda u-um pouquinho, s-s-só isso!
Lemon continuou com a cabeça inclinada, confusa.
— Isso não é gostar de alguém?
— N-Não é! É d-diferente de como era com o T-Tamaki-senpai!
Komari afirmou aquilo com todas as forças. Ao ouvir isso, Lemon decidiu abraçá-la mais uma vez.
— Ah, você é tão fofa, Komari-chan!
— E-Eu falei para ir com calma c-comigo!
*
Era o último dia útil antes do White Day. Na sala do clube, depois da aula, sentei-me diante da Yanami e coloquei três pacotes embrulhados sobre a mesa.
Yanami assentiu com seriedade e abriu o primeiro.
— Isto é... bala, não é? Uau, que bonitas! Parecem compradas em loja!
O primeiro doce feito pela a Kaju era uma guloseima oval, com amêndoas envoltas em açúcar. Yanami pegou cuidadosamente uma das balas coloridas e a examinou de perto.
— São bonitas demais para comer. Tem certeza de que não misturaram unhas de acrílico aqui?
— Não tem nada disso. A Kaju nem usa maquiagem nem essas coisas...
Yanami ignorou minha explicação apaixonada e colocou a bala na boca.
— Delicioso! Isso aqui definitivamente tem qualidade de restaurante!
— Yanami-san, você não pode comer tudo, viu?
Arranquei o pacote das mãos dela enquanto continuava mastigando.
Num gesto teatral, Yanami lambeu as pontas dos dedos e então encarou atentamente um pedaço de papel onde estavam escritos os nomes dos três tipos de doces.
— Certo, entendi. Essa bala se chama... streuselkuchen, não é?
— Não. Isso se chama dragée. É um doce francês.
— Então errei o palpite, hein? Que pena.
Nem um pouco. Abri outro pacote.
— E esse tal de streu-sei-lá-o-quê é...
— Espera. Desta vez deixa eu adivinhar.
Yanami espiou dentro do segundo pacote e cheirou o conteúdo com uma expressão presunçosa.
— Certo, já entendi. Essa coisa que parece karaage é o tal streu-sei-lá-o-quê, não é?
— Isso é pignolata, um doce italiano. E isto aqui é streuselkuchen.
— Essa coisa que parece a superfície da pele vista por um microscópio eletrônico?
Por favor, descreva de um jeito que pareça apetitoso.
Yanami pegou, desconfiada, uma fatia fina do bolo quadrado e deu uma mordida.
— Delicioso! Este também parece comprado em loja. Pelo visto, já podemos abrir uma segunda filial.
Yanami mastigava os doces alegremente, aparentemente satisfeita com os presentes de retribuição do White Day.
— A propósito, eu também trouxe uma coisa. Afinal, um cara como você sozinho não seria capaz de sustentar o poder feminino do Clube de Literatura.
Eu não me importava, mas ela devia estar bem confiante para falar daquele jeito. Então Yanami colocou sobre a mesa uma lata redonda de biscoitos.
— Isso não é simplesmente daqueles biscoitos comuns vendidos em supermercado?
— No fim das contas, cheguei à conclusão de que doces comprados prontos são os melhores.
O que tinha acontecido com o tal poder feminino? Yanami abriu a lata e começou a comer.
— Não chegam aos pés dos da Imouto-chan, mas estes também são bons. São bem docinhos, sabia?
Claro que eram doces. Enquanto eu desistia de pensar demais naquilo e apenas observava Yanami comer com entusiasmo, a porta da sala do clube se abriu de repente com força. Por um instante, pensei que fosse a Yakishio, mas quem estava parada ali era Komari.
— Chegou na hora certa, Komari-chan. Temos doces de White Day.
Por algum motivo, Komari permaneceu na entrada, olhando feio para mim.
— N-Nukumizu. Você é... um i-inimigo.
O que ela tinha acabado de dizer? Hã... pelo visto, eu tinha me tornado inimigo de Komari sem nem perceber.
— Ah, entendi. Então sou seu inimigo. A gente estava brincando de adivinhar os nomes dos doces. Quer participar, Komari?
— Ué...? Hã, bem, já que o N-Nukumizu é o inimigo, então eu...
Enquanto Komari gaguejava, Yanami assentiu em compreensão.
— Entendi, Komari-chan. O Nukumizu-kun é tipo um inimigo de todas as mulheres, né? Quer um dos meus biscoitos?
— S-Sim. Eu também fiz b-biscoitos...
Komari se sentou e tirou um pote plástico da bolsa. Nossa reunião de chá depois da aula ficou ainda mais animada com os biscoitos caseiros de Komari. Depois de esvaziar quase toda a lata de biscoitos e finalmente ficar um pouco satisfeita, Yanami tomou um gole de chá.
— A propósito, Nukumizu-kun, como estão indo os treinos com a presidente?
— Só estamos no terceiro dia, então ainda não tenho muito o que dizer. Mas ela me ensinou várias coisas, e sou grato por isso.
Respondi com uma expressão séria, mas era óbvio que treinar sob a orientação de uma senpai bonita aumentava minha motivação.
Embora o olhar da Tiara-san fosse intimidador, eu até gostaria que os treinamentos continuassem depois da corrida. E, por algum motivo, Yanami estava me lançando um olhar penetrante.
— Hã... o que foi?
— Bem, é claro que você gostaria que continuassem, já que fica todo encantado pela presidente durante os treinos.
— S-Se mata.
Aquilo era difamação.
— Vocês duas não acham que estão sendo desrespeitosas com a nossa presidente? É verdade que existe bastante contato físico, mas tudo faz parte do treinamento.
Apesar da minha explicação sincera, Yanami não parou de me encarar.
— É verdade. Foi mal. Mas não vai me dizer que você não sentiu absolutamente nada, vai, Nukumizu-kun?
— Hã... falando em termos gerais, é claro que, para um jovem saudável, ficar em contato próximo com uma senpai bonita é estimulante. E eu sou um cara normal, então seria mentira dizer que não fico nem um pouco consciente disso.
Limpei a garganta e continuei:
— Em outras palavras, isso alimenta minha motivação. Não vou negar. Mas, no fim das contas, meu objetivo é vencer a corrida e manter a Yakishio no clube.
Yanami ignorou completamente meu discurso apaixonado de quase sessenta segundos com apenas: "Isso foi longo demais!"
— Então vamos deixar por isso mesmo. Mas você acha que tem alguma chance de vencer?
— Bem, isso depende de como as coisas vão daqui para a frente.
A dor no meu tornozelo tinha diminuído consideravelmente. Depois de conversar com a presidente, eu tinha aumentado minha rotina de exercícios e começado a ir para a escola de bicicleta.
Faltavam duas semanas para a corrida. Eu não podia desperdiçar um único dia...
— Ah, esqueci de mandar a atualização de hoje.
Yanami me olhou com curiosidade quando tirei o smartphone.
— Atualização?
— Preciso informar à presidente como está meu tornozelo.
— Todo dia?
— Sim, todo dia.
Por que ela estava dando tanta atenção a essa parte? Assim que mandei a mensagem, recebi uma resposta da presidente. Vejamos. Ela estava perguntando se eu podia ir até a sala dos clubes esportivos naquele momento. Pelo visto, havia alguns equipamentos disponíveis lá.
— A presidente me chamou, então vou indo. Podem terminar os doces à vontade.
Komari quase se engasgou com um pedaço de streuselkuchen, mas ainda conseguiu me impedir quando falei aquilo.
— E-Espera, Nukumizu. S-Sobre aquela história de inimigo...
...Ah, é verdade. Ela tinha falado algo assim quando entrou na sala do clube.
— Está falando sobre eu ser seu inimigo?
Depois de engolir o doce com a ajuda do chá, Komari assentiu vigorosamente.
— S-Sim. D-Desta vez, eu estou do lado da Y-Yakishio.
...Hã?
Bem, se ela estava apoiando a Yakishio enquanto eu competia contra ela...
— Espera um pouco, Komari. Você sabe o que acontece se eu perder, não sabe?
— V-Vocês dois vão ter que sair do C-Clube de Literatura, não vão?
Sim. Ela sabia.
— M-Mas eu não quero que ela perca.
O que Komari estava pensando?
Existia algum Clube de Literatura clandestino que eu desconhecia, e o nosso Clube de Literatura da superfície já tinha se tornado obsoleto?
Delicioso.
Enquanto eu permanecia confuso, Yanami ofereceu um pacote a Komari.
— Komari-chan, estes aqui têm amêndoas inteiras dentro.
Croc, croc, croc.
Yanami e Komari mastigaram alegremente os dragées franceses.
— Bem, pelo visto a Komari virou nossa inimiga. Você está bem com isso, Yanami-san?
Yanami me entregou o pacote de doces.
— Somos adversários na corrida, mas não estamos brigando uns com os outros, certo? E a Lemon-chan continua sendo nossa amiga. Isso não vai mudar.
Enquanto eu refletia sobre aquelas palavras, Komari se ocupava em reembalar alguns doces.
— A-Aqui. Leve estes doces para a Y-Yakishio. V-Você mora perto dela, não mora?
— Eu? Ir até a casa da Yakishio? Não, isso talvez seja meio...
— Não seria melhor você mesma entregar, Komari-chan?
Yanami, surpreendentemente, concordou comigo, mas Komari balançou a cabeça.
— N-Não. Apesar da aparência, a Y-Yakishio é do tipo que se sente sozinha s-se deixarmos ela abandonada.
Komari empurrou o pacote de doces contra mim.
— M-Mas você continua sendo nosso inimigo, N-Nukumizu. N-Não vá se empolgar, entendeu?
*
E então chegou o domingo, dia do White Day. Eu estava pelo meu bairro fazendo uma corrida bem leve.
Bem, na verdade, eu só estava caminhando, mas, como usava um agasalho esportivo, acho que dava para chamar aquilo de corrida leve.
...Quantas vezes eu já tinha passado diante daquela casa?
— É difícil dar o primeiro passo...
O nome "Yakishio" estava escrito na placa da casa pela qual eu acabara de passar. Eu simplesmente tinha recebido a missão de entregar alguns doces em nome do Clube de Literatura.
Era só isso. Mesmo assim, tocar a campainha da casa de uma garota parecia uma barreira absurdamente alta...
Mais uma vez, encontrei-me diante da casa de Yakishio.
Parei.
E então voltei a andar.
Certo.
Pela primeira vez, eu tinha conseguido concluir com sucesso a etapa de "parar diante da casa". Em seguida, começaria a imaginar a mim mesmo tocando a campainha, acostumando meu corpo gradualmente com a ideia sem me forçar demais...
— Ara, você é amigo da Lemon?
Aquela voz me fez parar. Quando ergui a cabeça, vi uma bela mulher diante de mim.
Era difícil determinar sua idade, mas ela parecia mais velha que Amanatsu-sensei. Tinha cabelos até os ombros, um corpo bem-proporcionado como o de uma modelo e traços faciais marcantes.
Acima de tudo, havia algo estranhamente familiar em sua presença.
— Hã, estudo na mesma escola que ela e faço parte do Clube de Literatura. ...Posso perguntar se a senhorita é a irmã mais velha da Lemon-san?
Deixei aquilo escapar sem pensar, mas nunca tinha ouvido a Yakishio dizer que tinha uma irmã mais velha. Então ela poderia ser… O sorriso da mulher floresceu imediatamente.
— Ara, ara! Por favor! Entre, entre!
— Não, obrigado. Só vim entregar uma coisa.
Ah, não. Eu devia ter ativado algum tipo de evento. A mulher agarrou minha mão e me puxou com firmeza. Aquela força e aquela maneira insistente de agir pertenciam, sem dúvida alguma, à família Yakishio.
Surpreso e pego desprevenido, acabei sendo arrastado para dentro da casa por pura insistência.
Ela voltou a sorrir.
— Bem-vindo! Sou a mãe da Lemon. Não a irmã. A mãe.
*
A mãe da Yakishio estava sentada diante de mim à mesa da sala de estar, com uma expressão alegre. Vapor subia da xícara de chá à minha frente, e ao lado dela havia uma fatia de bolo.
— Hã... eu só vim entregar uma coisa para a Lemon-san...
— Ela saiu para correr agora. Que tal esperar aqui e comer um pouco de bolo?
Eu queria ir embora, mas simplesmente sair depois de ser recebido de maneira tão calorosa parecia meio constrangedor...
Tomei um gole de chá enquanto observava Yakimama. Não pude deixar de notar como ela era bonita enquanto segurava a xícara com as duas mãos. Embora provavelmente estivesse na casa dos quarenta, poderia facilmente passar por alguém na casa dos trinta.
Pensando bem, era ela quem estava usando aquela roupa que a Yakishio tinha pegado emprestada para nosso passeio ao aquário, não era...?
Entendi… Enquanto lidava com vários pensamentos, coloquei a sacola de papel sobre a mesa.
— Poderia entregar isto para a Lemon-san e dizer que é do Clube de Literatura?
— Obrigada por trazer. Como a Lemon é no clube?
A Yakishio no Clube de Literatura?
Tudo o que me vinha à cabeça eram cenas dela trocando de roupa, mas aquilo não era exatamente algo apropriado para mencionar à mãe dela...
— Bem, ela está sempre cheia de energia e alegre... hã... e é muito animada...
Percebi que basicamente tinha repetido a mesma coisa. Apesar da minha descrição sem graça, Yakimama assentiu sorrindo.
— Aham. E o que mais? A Lemon escreve romances ou alguma coisa assim?
— Ela não escreve romances, mas, hã... sua filha é muito rápida e... animada.
Minha descrição da Yakishio parecia ficar cada vez pior.
— Fico feliz em saber. Ultimamente tenho ficado um pouco preocupada com ela.
Depois de dizer aquilo, ela tentou tomar um grande gole do chá, mas hesitou por estar quente demais. Por algum motivo, aquilo foi adorável. ...Ela era bem encantadora, apesar de ser a mãe de outra pessoa.
Achei que deveria ir embora antes que a Yakishio voltasse. Eu estava prestes a me levantar quando Yakimama me encarou atentamente e murmurou:
— Será que é por sua causa?
Hã? O que ela queria dizer? Enquanto eu tentava entender suas palavras, ouvi passos se aproximando da entrada.
— Ei, mamãe. Já terminou de lavar as roupas?
Lemon Yakishio abriu a porta da sala assim que terminou de falar. Vestindo uma regata e shorts, enquanto enxugava o pescoço com uma toalha, Yakishio congelou no instante em que me viu na sala.
— Hã!? Por que você está aqui, Nukkun!?
Nem eu sabia.
— Hã... trouxe alguns doces de White Day em nome do Clube de Literatura...
— Ah... entendi. Obrigada…
Yakishio coçou a bochecha, sem jeito, e desviou o olhar. O constrangimento era mútuo. Meu trabalho ali já tinha terminado. Estava realmente na hora de ir embora.
No momento em que eu estava prestes a anunciar minha partida, Yakimama se levantou.
— Então a tia vai sair para fazer umas comprinhas! Fique à vontade, Nukumizu-kun!
— Mamãe!?
— Não, eu também já estou indo.
Quando tentei me levantar, Yakimama se aproximou rapidamente e me empurrou de volta para o assento.
— Está tudo bem, está tudo bem. O bolo é da Matterhorn. É delicioso. Vamos, sente-se também, Lemon.
— Espera aí, mamãe!?
Depois de fazer a filha se sentar diante de mim, Yakimama anunciou:
— Então estou indo!
Antes que eu pudesse sequer protestar, Yakimama saiu correndo da sala. Aquela energia definitivamente pertencia à mãe de Yakishio. Eu ainda me sentia bastante constrangido por ter sido abandonado naquele clima, mas ir embora naquele momento provavelmente só pioraria as coisas...
Ao perceber minha hesitação, Yakishio deu um sorriso resignado.
— Come um pouco do bolo, Nukkun.
— Está bem. Vamos comer.
Enquanto cortava o Mont Blanc com o garfo, eu sentia o olhar de Yakishio sobre mim.
Intensamente.
— Hã... é meio desconfortável quando você fica me encarando desse jeito.
— Você está recebendo aulas de corrida da presidente do conselho estudantil, não está?
Minha mão parou antes de alcançar o bolo.
— Sim, mas eu não tive nenhuma ideia estranha sobre isso. É puramente treinamento, afinal.
— Ideias estranhas? Eu não estava falando disso.
...É verdade. Ela não estava. Eu tinha acabado de cavar minha própria cova. Yakishio entrelaçou as mãos atrás da cabeça e me lançou um olhar penetrante.
— Ah, então você vê a presidente desse jeito, Nukkun. Interessante.
Eu não via a presidente daquele jeito, mas tinha a sensação de que só pioraria ainda mais a situação se abrisse a boca novamente.
Continuei comendo o bolo em silêncio, mas então Yakishio jogou a toalha na minha cara.
Que falta de educação.
— Tsc. E eu estava pensando em ensinar uma coisa ou outra para você.
Tirei a toalha do rosto.
— Me ensinar? Você é minha adversária na corrida. Isso é permitido?
Yakishio apenas deu de ombros, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
— Nem vai dar para chamar aquilo de competição se eu não treinar você.
— Se deixasse tudo como está, sua vitória estaria garantida.
— Claro, seria mais fácil para mim se eu não fizesse nada. Mas ainda assim vou vencer. No dia da corrida, estarei em perfeita forma.
Ao dizer aquilo, Yakishio me lançou um olhar cheio de confiança na vitória.
...Essa era Lemon Yakishio. Confiante, determinada e sempre olhando para a frente. Mas ela também tinha seus momentos de fragilidade, ficando mal-humorada e sensível...
De repente, Yakishio se inclinou sobre a mesa com um estrondo.
— Yakishio?
Os lábios dela se curvaram em um leve sorriso enquanto se aproximava.
— Hã? Oi?
— Posso provar um pedaço?
...Ah, o bolo. Eu me atrapalhei com o garfo ao pegar um pedaço do bolo e o levei até os lábios dela. Yakishio abriu a boca numa lentidão exageradamente dramática antes de dar uma mordida.
Quando afastei o garfo, ela limpou dos lábios um pouco do creme de castanha.
— Você é tão desajeitado, Nukkun.
— Ah, foi mal.
Calma aí, eu. Embora os papéis estivessem invertidos, Yakishio e eu já tínhamos dividido comida assim antes. É claro que aquilo não era um café, mas a casa da Yakishio, e a mãe dela tinha saído para nos dar privacidade... Mas que situação era aquela?
Engoli em seco, nervoso, e então a Yakishio soltou uma risadinha.
— Isso é para o Dia dos Namorados, não é?
— Hã? Os doces do White Day estão ali.
— É por isso que eu não gosto desse seu lado.
Yakishio resmungou, descontente.
— Eu falei alguma coisa estranha?
— Talvez eu conte se você me der mais um pedaço.
Yakishio abriu a boca novamente, dessa vez fechando os olhos.
— Hã? Ei?
O que estava acontecendo? Aquilo era diferente da brincadeira de onee-chan dela, não era? Será que ela... estava tentando brincar de irmãzinha agora? É, então aquilo era definitivamente algo com que eu já estava acostumado.
Levei lentamente o garfo até os lábios de Yakishio enquanto inventava desculpas para mim mesmo———
— Nee-san, você está com visitas.
Quê!?
Assustados, Lemon e eu recuamos bruscamente.
Ao me virar na direção da voz, vi uma garota que parecia estar nos últimos anos do ensino fundamental. Ela usava óculos de lentes grossas, tinha os cabelos trançados e nos encarava com uma expressão fria.
— Nagi!? E...
— Yanami-san!?
De fato, atrás da garota, que parecia ser a irmã mais nova de Lemon, estava Yanami, de braços cruzados, olhando diretamente para nós.
— O que vocês dois estavam fazendo?
— Nada! — respondemos os dois ao mesmo tempo. Nossas vozes saíram em perfeita harmonia, fazendo Yanami erguer uma sobrancelha.
— Então, é isso que vocês chamam de Padrão A?
— Hã? O que é isso?
Perguntei, confuso com aquele termo desconhecido. Yanami então se largou no assento ao lado de Yakishio.
— Padrão A é aquela situação em que vocês dois já estão juntos antes mesmo de eu ficar sabendo. Vocês fazendo todo tipo de coisa debaixo das cobertas à noite enquanto relembram o passado e tudo mais.
Yakishio e eu balançamos a cabeça em uníssono, e Yanami levou as mãos à cabeça.
— Então é o Padrão B...
— E o que isso quer dizer?
— É quando o processo de vocês dois ficarem juntos é mostrado para mim em tempo real. Tipo, eu ainda sou assombrada por isso, sabia?
Ah, o caso de Hakamada e Himemiya. Não, também não era aquilo.
— Não, sério, não está acontecendo nada entre mim e a Yakishio.
— É! Absolutamente nada!
— Então por que vocês dois estavam com toda aquela coisa de dar comida na boca um do outro?
Yanami me lançou um olhar fulminante. Hã, aquilo era… Olhei para Yakishio em busca de ajuda. Ela assentiu com convicção.
— Veja bem, dividir comida é normal, não é? Foi só isso.
— Mesmo ele sendo um garoto?
Yakishio inclinou a cabeça, curiosa.
— Eu faço isso o tempo todo com o Mitsuki. Yana-chan, você já fez isso com Hakamada, não fez?
— Eu... nunca fiz, na verdade.
O silêncio caiu sobre a mesa de jantar da casa dos Yakishio. De repente, a irmãzinha da Yakishio deslizou para a cadeira ao meu lado, arrastando-a ruidosamente pelo chão.
Ela começou a beber seu leite como se nada estivesse acontecendo.
— Ei, ei, quantos anos tem a sua irmãzinha?
Yanami tentou mudar de assunto. A irmã da Yakishio a encarou por trás das lentes grossas dos óculos.
— Nagi. E estou no sexto ano.
— Ah, é? Então vai para o ginásio este ano, hein? Tem algum garoto de quem você gosta, Yakiimo-chan?
(N/SLAG: "Imo" vem de imouto, "irmã mais nova". O trocadilho forma "yakiimo" (焼き芋), que significa "batata-doce assada".)
A irmãzinha da Yakishio terminou o leite e bateu o copo sobre a mesa.
— Não tenho interesse nesse tipo de coisa. Nee-san, deixei as roupas secas em cima da sua cama. Não se esqueça de dobrá-las e guardá-las.
Depois de dizer isso, a irmã da Yakishio pegou o copo e saiu da sala, completamente alheia ao resto de nós.
— Essa que acabou de sair era mesmo a sua irmãzinha?
— Sim, ela é mais inteligente do que eu. Ela consegue até esperar chegar perto da parada dela antes de apertar o botão do bonde.
A questão era mais por que você não conseguia esperar.
— Hã, enfim, Yanami-san, por que exatamente você veio aqui?
— Ah, é verdade. Eu tinha uma coisa que queria contar para vocês dois.
Yanami se levantou e limpou a garganta.
— Eu decidi ficar do lado da Lemon-chan também! Então, de agora em diante, você e eu somos adversários, Nukumizu-kun!
O quê!? Assim, do nada? Yakishio pareceu tão surpresa quanto eu.
— Espere um pouco. Yanami-san, você entende o que essa competição significa?
— Entendo, mas a Komari-chan também está do lado da Lemon-chan, não está? Eu me sentiria sozinha ficando do outro lado… — ela me lançou um olhar severo. — Além disso, Nukumizu-kun, você anda todo encantado com a presidente do conselho estudantil, não é? Eu só ficaria sobrando de qualquer jeito.
Yakishio assentiu em concordância.
— É, isso mesmo. Nukkun, você anda bem caidinho por ela.
— Ei, isso é exatamente o que chamam de não saber separar a vida pessoal do trabalho.
Elas já estavam começando a se juntar contra mim. Mesmo assim, eu não tinha deixado transparecer minha afeição pela presidente. Pelo menos, não no rosto.
Yanami e Yakishio pareciam ter terminado aquela rodada de reclamações sobre mim. Yanami ajeitou o cabelo e tornou a se sentar.
— Então, é isso. Mas, voltando àquela história de dividir o bolo...
...Sério? A gente ia voltar àquilo?
— Eu já falei. Não tinha nenhum outro significado...
— É, verdade. Pensando bem, dividir comida entre amigos é bem normal.
Ainda bem que ela tinha entendido. Talvez tivesse rolado um clima um pouco brincalhão, mas certamente não tinha sido nada estranho. Aliviado, observei Yanami desviar o olhar enquanto tamborilava as pontas dos dedos sobre a mesa.
— Então, talvez eu também pudesse ganhar uma mordida...?
Toc, toc, toc. Seus dedos tamborilaram sobre a mesa. Hã...? Se ela queria um pouco, era só falar. Empurrei o prato com o bolo na direção da Yanami.
— Pode ficar com o resto. Eu nem estou com tanta fome assim.
Uma boa ação por dia. Eu acreditava que eram pequenos gestos de bondade como aquele que traziam sorte nos gachas. Enquanto me sentia secretamente satisfeito comigo mesmo, Yanami e a Yakishio me encaravam com olhares penetrantes.
— Hã? O quê? Tem alguma coisa errada?
Yakishio deu de ombros, parecendo exasperada.
— Sério. É por isso que eu não gosto desse seu lado, Nukkun.
Hã? Que lado?
Yanami também acrescentou, num tom igualmente frustrado, logo depois de Yakishio:
— É por isso que eu não gosto desse seu lado, Nukumizu-kun. Mas, Lemon-chan, eu não sou o que você está pensando, está bem?
— Não é?
— Não sou.
Por algum motivo, as duas se encararam sem demonstrar qualquer emoção. ...Então era esse lado, ou talvez não fosse nada disso. O mundo estava cheio de conversas complicadas.
Peguei minha xícara, percebi que estava vazia e a coloquei de volta sobre o pires.
📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag e revisado por Shisui
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