Todas Essas Heroínas Perdedoras! — Capítulo 71: Volume 6 – Capítulo 4 – Capítulo 4: A Garota Chamada Lemon Yakishio

Todas Essas Heroínas Perdedoras!
Cap. 71
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Todas Essas Heroínas Perdedoras!

Volume 6 – Capítulo 4 – Capítulo 4: A Garota Chamada Lemon Yakishio

Capítulo 71

14.550 palavras~63 min de leitura

CINCO DIAS DEPOIS DA YANAMI ter declarado hostilidade, chegara o último dia do terceiro trimestre.

Em dias especiais como esse, as emoções e o tempo pareciam flutuar como se tudo não passasse de um sonho. A realidade ainda não tinha caído sobre mim, mesmo depois da cerimônia de encerramento e de recebermos nossos boletins na sala de aula.

Minhas notas vinham caindo desde o segundo trimestre. Fechei o boletim e olhei ao redor da sala.

A sala barulhenta foi ficando em silêncio aos poucos, mesmo sem a professora precisar dizer uma palavra.

Quando todos finalmente se acalmaram e se sentaram, Amanatsu-sensei começou a falar.

— Então, as férias de primavera começam amanhã. Quando vocês voltarem, todos já serão alunos do segundo ano.

A expressão incomumente séria de Amanatsu-sensei e a atmosfera diferente fizeram com que eu endireitasse as costas sem perceber.

— No segundo ano, vocês terão que escolher entre a área de humanas ou de exatas, e também haverá uma reorganização das turmas. Esta é a última reunião de classe que vocês terão com os atuais colegas e comigo.

Do púlpito, a sensei passou os olhos lentamente por todos nós, como se quisesse gravar aquela cena na memória.

— Mas as turmas se desfazem todos os anos, e novas são formadas a cada abril. Talvez vocês se sintam ansiosos, mas, quando tudo começar, de algum jeito vocês vão conseguir. Lembrem-se: se vocês estão ansiosos, todos os outros também estão. Se demonstrarem consideração pelos outros, certamente receberão o mesmo em troca.

Muita coisa aconteceu este ano. No primeiro trimestre, eu mal falava com alguém, mas, antes que percebesse, já havia pessoas ao meu redor. Tive muitos problemas, mas também me diverti bastante.

— Eu sempre vou me lembrar da Turma 1-C, então vocês podem esquecê-la já amanhã. Assim, todos poderão seguir para a próxima etapa sem nenhuma preocupação.

Até aquela professora, que no começo sequer conseguia se lembrar do meu rosto, agora dizia meu nome sem hesitar. E não fazia muito tempo desde que ela tinha arranjado uma orientadora para supervisionar nosso Clube de Literatura.

Embora o envolvimento da Konuki-sensei tivesse seus prós e contras, no fim das contas, o saldo era ligeiramente positivo.

Depois de aparentemente terminar seu discurso emocionado, Amanatsu-sensei relaxou os ombros.

— Esta é a quinta vez que me despeço de alunos assim, mas sempre fico um pouquinho triste... Ugh...

Amanatsu-sensei fungou e enxugou os olhos com um lenço.

Ela estava chorando...?

Embora a sensei não fosse exatamente uma pessoa séria em circunstâncias normais, parecia que realmente se importava bastante com nossa turma.

Ao vermos inesperadamente as lágrimas de nossa professora, uma atmosfera solene envolveu a sala.

— Espera, esta não deveria ser a minha sexta vez? Ou a quarta? O terceiro ano foi quando deixei os boletins em casa e levei uma bronca enorme do coordenador...

Os murmúrios de Amanatsu-sensei dissiparam o clima melancólico. No fim das contas, a Amanatsu-chan continuava sendo a Amanatsu-chan.

— Bem, alguns de vocês estarão na mesma turma no próximo ano, e ainda vamos nos encontrar durante as aulas, então conto com vocês no ano que vem também!

Com sua energia habitual, a Amanatsu-sensei bateu o livro de chamada sobre a mesa do professor.

— Certo, é isso! Terminamos nossa última reunião de classe! Turma 1-C, estão dispensados!

*

Eram apenas onze da manhã quando a reunião terminou.

Como haveria uma confraternização da turma, meus colegas deixaram a sala sem ficar enrolando para trocar despedidas.

A propósito, eu tinha sido convidado. Só tinha recusado. Era sério. Sozinho na sala silenciosa, contemplei o quadro-negro vazio.

— Parece que percorri um longo caminho.

Deixei aquelas palavras escaparem sem querer.

De algum modo, aquele garoto que antes não tinha amigos agora estava prestes a disputar uma corrida de cem metros, com vantagem, contra a estrela da equipe feminina de atletismo.

Amada e popular, alguém como ela jamais deveria ter problemas com amizades ou namorados. Então por que tinha confiado a mim uma decisão tão importante?

Era uma pergunta sobre a qual eu já tinha refletido dezenas... não, centenas de vezes.

Não importava quanto pensasse, eu não encontrava resposta. E nem sequer sabia se encontraria uma ao final daqueles cem metros.

Por enquanto, tudo o que eu podia fazer era aquilo que estava ao meu alcance...

— Como sempre, hein, Nukumizu-kun?

Assim que ouvi aquela voz despreocupada, senti o cansaço invadir meu corpo. Quem entrou na sala foi Anna Yanami. Ela olhou ao redor e então se sentou ao meu lado.

— Você não ia faltar à confraternização da turma porque tinha outra coisa para fazer, Nukumizu-kun?

— Sim. Tenho uma reunião com a presidente depois daqui.

— Hmph. Vocês dois parecem bem próximos.

O humor de Yanami sempre piorava um pouco quando o assunto era a presidente. Bem, a presidente era inteligente e bonita, além de ser admirada por seus muitos talentos. Provavelmente era ciúme.

— Você não vai à confraternização, Yanami-san?

— Claro que vou. Ainda falta um pouco para começar.

Então ela tinha vindo se despedir da sala de aula. Yanami também tinha seus momentos sentimentais. Ela se recostou na cadeira e se espreguiçou.

— Este ano passou num piscar de olhos, não passou?

— É. Passou mesmo.

Parecera longo enquanto acontecia, mas, olhando para trás, tinha passado num instante. Yanami ergueu as pernas dianteiras da cadeira antes de falar em voz baixa.

— Eu sonhava que tudo mudaria quando me tornasse aluna do ensino médio no Colégio Tsuwabuki. Que viveria uma juventude igual àquelas dos filmes e dramas.

A cadeira rangeu.

— Mas as coisas nem sempre saem como planejamos, não é?

Ela disse aquilo com um sorriso que parecia misturar autodepreciação e resignação. Fiquei imaginando que tipo de cenas Yanami tinha idealizado para sua vida no ensino médio. Provavelmente Hakamada estaria ao lado dela, estudando, saindo em encontros e, às vezes, brigando.

— Sosuke e Karen-chan estavam na mesma turma que eu e, no começo, foi difícil. Mas todos os meus amigos foram gentis comigo. E quanto a você, Nukumizu-kun...

— Hã? Eu?

Ao ouvir meu nome surgir inesperadamente, não consegui evitar perguntar de novo. Em vez de responder, Yanami continuou:

— Bem, no fim das contas, você não é tão ruim assim.

No fim das contas, eu não era tão ruim assim.

Yanami tentou encerrar seu primeiro ano do ensino médio com aquelas palavras e lágrimas nos olhos. Era um assunto que dizia respeito a outra pessoa, mas não pude deixar de me sentir um pouco aliviado.

Talvez as lágrimas que a Yanami havia derramado não tivessem sido completamente em vão. Enquanto eu pensava nisso, Yanami arrastou a cadeira para mais perto, fazendo um barulho seco.

— Falando nisso, você ouviu o boato sobre a troca de turmas?

Boato? Balancei a cabeça sinceramente, e a Yanami continuou com uma expressão de quem sabia de alguma coisa.

— Dizem que os casais acabam ficando em turmas diferentes.

— Ah, é mesmo?

Yanami não percebeu pela minha resposta que eu não estava nem um pouco interessado e continuou falando.

— Então, isso significa que Sosuke e a Karen-chan podem acabar em turmas diferentes. Os dois, que sempre estiveram juntos, podem ser separados, e existe a possibilidade de eu acabar na mesma turma que Sosuke. O que você acha que isso significa?

— Você não está planejando roubar o Hakamada dela, está?

Pare com isso. Era imprudência demais. Sem se importar com minha preocupação, Yanami balançou a mão despreocupadamente.

— Claro que não. Nem eu faria uma coisa dessas. Os dois são meus melhores amigos, sabia?

— Você realmente pensa assim? Mesmo?

Quanto mais eu ouvia sobre essa história de "melhores amigos", mais suspeita ela parecia...

— Escute com atenção, Nukumizu-kun. Ouvi dizer que 70% dos casais do ensino médio terminam o namoro nos primeiros seis meses.

— Hã? É mesmo?

Yanami assentiu com seriedade.

— Acho que aqueles dois combinam e espero que dê tudo certo entre eles. Mas, sabe... os números não mentem, certo? Setenta por cento terminam.

— Aham.

— Sosuke, com o coração partido depois de terminar com sua amada... Nesse momento, caberia a mim, sua amiga de infância, apoiá-lo, não é? E, a partir daí, não seria impossível que um novo amor florescesse.

Parecia que ela estava de olho nele justamente porque seria um alvo fácil quando estivesse vulnerável. Yanami realmente parecia do tipo que escolhia os alvos mais fáceis, mas naquele momento apenas contemplava o teto com uma expressão sonhadora.

— Mas aqueles dois já estão juntos há mais de meio ano. O relacionamento deles não deveria estar estável a essa altura?

— É. Acho melhor que os dois continuem exatamente como estão agora.

Então provavelmente uma mudança de turma não seria suficiente para abalar o relacionamento deles. Mas quem sabia? Mesmo que os dois acabassem em turmas diferentes, isso não significava necessariamente que a Yanami ficaria na mesma turma que o Hakamada.

— É verdade. Eu também vou trocar de turma.

— Hã? Você só percebeu isso agora?

— Não, eu sabia, mas... ultimamente fiquei tão preocupado com o desafio da semana que vem.

Aquilo jamais terminaria se eu simplesmente continuasse fingindo que não enxergava o problema. Mesmo assim, todos os outros continuavam avançando, sem se preocupar nem um pouco com aquilo. Até as preocupações da Yakishio acabariam engolidas pela passagem do tempo se fossem deixadas de lado.

— Como está indo o treinamento da Yakishio?

— Muito bem, é claro. Lemon-chan está em ótima forma.

Yanami abriu um sorriso orgulhoso, como se aquela fosse uma conquista dela própria.

— Dois segundos e meio de vantagem. Se eu conseguisse terminar com o tempo médio dos garotos do primeiro ano, a Yakishio só venceria se superasse seu recorde pessoal.

O sorriso de Yanami demonstrava que ela tinha certeza de que Yakishio estabeleceria um novo recorde.

— Como membro da Equipe Lemon-chan, não tenho a menor intenção de perder.

Yanami estendeu o punho em minha direção. Com um sorriso irônico, encostei de leve meu punho no dela.

— Certo. Então pegue leve comigo.

*

O prédio pré-fabricado ao lado do campo esportivo tinha um conjunto completo de equipamentos de treinamento antigos.

Normalmente, as equipes esportivas se revezavam para usá-lo, mas aparentemente ninguém pretendia treinar depois da cerimônia de encerramento. Por isso, a presidente tinha me chamado até ali.

— Certo, mais cinco. Não dobre os joelhos.

— Não consigo mais levantar as pernas.

— É justamente nessas horas que entra a força de vontade. E suas costas estão começando a levantar. Mais três.

— Eeeh...

Deitei-me de costas no banco e ergui as pernas, mantendo-as esticadas.

Era um exercício simples, mas bastante difícil porque a presidente aumentava a resistência pressionando minhas coxas para baixo.

Depois de finalmente completar a quantidade estipulada, completamente exausto, a presidente deu leves tapinhas na minha barriga.

— Certo, descanse por cinco minutos. Depois vamos aumentar a intensidade com os aparelhos.

Treinar a sério daquele jeito era muito mais difícil do que fazer abdominais preguiçosamente em casa...

Segundo a presidente, aquela rotina supostamente era voltada para pessoas de meia-idade que não se exercitavam o suficiente.

Sentei-me no banco e abanei o rosto com as mãos.

— Continua tão difícil quanto quando comecei, mas será que ganhei um pouco de força muscular?

— Nós aumentamos a carga de acordo com o seu progresso. Não se preocupe. O objetivo é condicionar seu corpo para mantê-lo em boa forma.

A presidente disse aquilo enquanto mexia no smartphone. Ela registrava em um aplicativo os exercícios que eu completava. Meus dados também eram enviados para o mesmo aplicativo, então ela certamente saberia se eu estivesse matando treino.

...Eu não desgostava daquela sensação de estar sendo monitorado.

— Obrigado por organizar todo esse treinamento para mim, presidente.

— Não precisa agradecer. Estou fazendo isso porque gosto.

A presidente guardou o celular e se sentou ao meu lado.

Ela estava fazendo aquilo porque gostava. Ela não estava a fim de mim, certo? Então só restava uma possibilidade.

— Você ainda está preocupada com a Yakishio, mesmo sendo presidente do conselho estudantil?

A presidente soltou uma risadinha diante da minha pergunta direta.

— Não vou negar. Mas não entenda errado.

— Não, ela é bem conhecida na escola. Seria um desperdício se ela abandonasse o atletismo desse jeito.

Após um breve silêncio, a presidente se virou para mim e começou a falar.

— Você já ouviu que eu praticava atletismo no ensino fundamental, certo?

— Ah, sim. A Basori-san me contou.

— Eu competi contra a Yakishio-kun em um torneio municipal quando estava no segundo ano. Ela ainda era aluna do primeiro ano.

— Ah, e então...?

— Se está perguntando sobre o resultado, nem preciso dizer. Eu não fui páreo para ela.

A presidente disse aquilo com um sorriso amargo e cruzou as pernas.

— Naquele torneio, ela participou de umas cinco modalidades diferentes. E ficou no lugar mais alto do pódio em todas elas.

...Primeiro lugar em todas. Aquilo me fez lembrar do que eu tinha ouvido do Ayano. A presidente continuou, como se vasculhasse suas lembranças.

— Lembro que, especialmente nos 1.500 metros, ela causou uma grande comoção.

— Comoção?

— O tempo que ela registrou superou o recorde vigente da província. Era um tempo bom o bastante para competir em nível nacional, e isso vindo de uma aluna do primeiro ano sem nenhum histórico no atletismo. No fim, consideraram que tinha ocorrido um erro de medição, e o tempo foi registrado apenas como referência.

Então a Yakishio já tinha chegado àquele nível no ensino fundamental.

— Mas a Yakishio disse que nunca competiu no nacional. Aconteceu alguma coisa?

— Ela desistiu de todas as modalidades, exceto os cem metros, no torneio da província.

A presidente se levantou e caminhou até um aparelho próximo à parede.

— Embora tenha conseguido uma boa colocação nos cem metros, ela não chegou ao pódio, e aquilo foi o fim. Desde então, nunca mais ouvi falar que ela tivesse avançado para uma competição nacional.

Enquanto ajustava os pesos do aparelho, ela fez um gesto para que eu me aproximasse.

— Eu me lembro muito bem dela. Fiquei preocupada, pensando que talvez tivesse sofrido alguma lesão, mas não parece ter sido o caso.

— Bem, ela corre sempre que tem algum tempo livre.

— O fato de ela ter escolhido você, alguém do Clube de Literatura em vez de uma pessoa do Clube de Atletismo, torna toda essa situação bastante intrigante.

Ajudei a ajustar o aparelho e me posicionei nele.

— Certo, agora vamos fazer flexão de pernas.

A flexão de pernas consistia em deitar de barriga para baixo e dobrar as pernas a partir dos joelhos, trabalhando principalmente os músculos posteriores das coxas. Era difícil e, sinceramente, eu preferia não fazer aquilo.

— Foi muito difícil da última vez que fizemos isso.

— Sim, mas é justamente por ser difícil que você sente que o exercício está funcionando, não é?

Eu não compartilhava daquele sentimento.

Ainda assim, não era insensível a ponto de não entender o apelo de ser forçado a fazer exercícios extenuantes por uma veterana incrivelmente bonita.

Enquanto destruía meus bíceps femorais, organizei mentalmente o que tinha ouvido da presidente.

Kurata, a capitã da equipe feminina de atletismo. Mitsuki Ayano. E a presidente Hokobaru.

As histórias daqueles três se conectavam, e provavelmente era ali que se encontrava a origem dos problemas da Yakishio. Mas encará-los era algo que apenas ela poderia fazer...

— Certo, dez repetições. Acha que consegue continuar?

Aparentemente, eu já tinha atingido a quantidade estipulada sem perceber. Deixei meu corpo desabar exausto sobre o aparelho.

— Não. Minhas pernas estão prestes a ter cãibras.

— Então descanse, e depois faremos outra série. Enquanto isso, vamos aproveitar o intervalo para fazer alguns abdominais.

Que tipo de intervalo era aquele? Soltei um gemido enquanto me sentava. A presidente então começou a massagear meus tornozelos com as duas mãos.

— Ainda não perguntei hoje. Como está a dor no tornozelo?

— Hã...

Agora que ela tinha mencionado aquilo, percebi que o incômodo no tornozelo tinha desaparecido. Se no primeiro dia a dor era dez, então agora...

— Zero.

Satisfeita com minha resposta, a presidente sorriu.

— Ótimo. Amanhã de manhã, às sete, vamos nos encontrar no campo.

*

Não era apenas a presidente que estava lá, envolta em um casaco comprido de banco. Tiara-san e o tesoureiro do conselho estudantil, Sakurai-kun, também estavam presentes. E...

— Onii-sama! Por favor, olhe para cá!

De algum modo, até Kaju tinha ficado sabendo.

Com um leque em cada mão, ela pulava de um lado para o outro. Isso por si só já seria uma coisa, mas as frases escritas nos leques — "Por favor, olhe para cá" e "Você faz meu coração disparar" — eram outra história.

— Nukumizu-san, poderia se mover um pouco para o lado? Esteticamente, parece mais natural você ficar à esquerda, ao lado da presidente.

Enquanto isso, Tiara-san, que assumira o papel de fotógrafa, apontava para nós uma câmera DSLR equipada com uma lente quase do tamanho de um bastão. De onde ela tinha tirado aquilo?

— Essa lente toda é realmente necessária? Parece que dá até para fotografar nossos poros.

— Não. A presidente é tão linda que nem sequer tem poros.

Tiara-san declarou aquilo como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. Não respondi. Ela ficava assustadora quando alguém a retrucava.

A presidente terminou de conversar com o Sakurai-kun, que estava encarregado do cronômetro, e fez sinal para que eu me aproximasse.

— Nukumizu-kun, vamos começar se já terminou o aquecimento. Pode começar quando estiver pronto.

— Ah, sim.

Meu pé não doía, e meu corpo parecia mais leve em comparação com duas semanas antes. Mesmo assim, eu me perguntava quanto meu tempo teria melhorado depois de me concentrar tanto no treinamento de força...

Caminhei até o ponto de partida e olhei para trás, na direção do grupo do conselho estudantil mais uma intrusa. Kaju, balançando os leques, e Tiara-san, com aquela lente gigantesca, chamavam atenção demais.

...Certo, ela tinha dito que eu poderia começar quando quisesse.

Respirei fundo, agachei-me e disparei para a frente. Sentindo os olhares de todos sobre mim, corri até atravessar a linha de chegada e então me ajoelhei, tentando recuperar o fôlego.

— Q-Qual foi o tempo...?

Perguntei entre arfadas, e Sakurai-kun me mostrou o cronômetro com um sorriso.

— Quinze vírgula dois segundos.

...Aquilo era uma melhora enorme em relação ao meu recorde pessoal de dezesseis vírgula cinco segundos!

Quando me inclinei para enxergar melhor o cronômetro… Kaju subitamente se jogou sobre mim, cheia de entusiasmo.

— Onii-sama, isso foi incrível! Kaju vai enxugar seu suor! Está com sede? Kaju fará uma massagem de corpo inteiro e, quando chegarmos em casa, Kaju entrará no banho com você e cantará uma canção de ninar...

— Kaju, vamos nos acalmar e respirar fundo. Certo? Inspire, expire...

— Certo, inspire, expire...

Depois de me certificar de que ela tinha se acalmado com os exercícios de respiração, voltei-me para a presidente, que nos observava satisfeita, de braços cruzados.

— Ah, por que meu tempo melhorou se eu quase não tenho corrido?

— É óbvio. Na medição de meio mês atrás, sua resistência acabou no meio do percurso. No final, você praticamente estava andando.

Hã, sério? Na minha cabeça, eu tinha a impressão de que estava correndo de um jeito bem legal.

— Hoje foi a primeira vez que você realmente correu os cem metros inteiros. Você é como um cervo recém-nascido. Daqui para a frente, vai ficar mais rápido, querendo ou não.

Ficar mais rápido… As palavras da presidente fortaleceram minha determinação. De um homem que não conseguia nem correr cem metros, eu tinha evoluído para um cervo recém-nascido sem pontos cegos.

— Então vamos cronometrar outra corrida agora mesmo?

— Não. Esta foi a última vez que vamos cronometrar você.

...O quê?

Fiquei paralisado de surpresa, e a presidente colocou a mão sobre meu ombro de maneira tranquilizadora.

— Nosso objetivo é fazer com que você esteja na melhor condição possível no dia da competição. Ficar obcecado demais com os números durante o processo pode acabar provocando uma queda inesperada no desempenho.

— Mas tudo bem não sabermos o quanto eu melhorei?

— Sim. Eu tenho um plano.

A presidente lentamente abriu o zíper do casaco e, com um único movimento, lançou-o para o lado.

Um grito de empolgação quase estridente da Tiara-san e o som frenético do obturador da câmera preencheram o ar.

— Presidente, essa roupa é...

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De fato, por baixo do casaco, a presidente vestia um uniforme de atletismo diferente.

— Desta vez, eu vou correr com você. Tente alcançar um tempo de quatorze vírgula cinco segundos.

Sua barriga branca deixava à mostra músculos abdominais levemente definidos. Por um instante, fiquei hipnotizado e desviei o olhar.

— A Yakishio-kun certamente vai superar o próprio recorde, então, se quiser vencer, você terá que ser mais rápido do que eu.

— Ah, hã...

Intimidado pela quantidade de pele à mostra, recuei um passo, mas a presidente avançou dois e fechou a distância entre nós.

Então, tocou meu peito com a ponta do dedo e disse:

— Este será o verdadeiro teste para saber se o cervo recém-nascido consegue correr mais rápido que a chita.

*

Cinco dias haviam se passado desde o início do meu treinamento sério.

Depois de terminar o treino da manhã, fui parar a poucos minutos a pé da Estação de Toyohashi, em uma padaria chamada Bon Senga.

O lugar era conhecido por seu espaço de café retrô, que aparentemente permanecia inalterado desde a época em que meus pais eram crianças.

Sentado diante de um pão com creme de manteiga e um cream soda, refleti sobre o intenso treinamento daquele dia.

No primeiro dia, a presidente tinha me deixado muito para trás, mas, depois de analisarmos vídeos e fotos para corrigir minha postura, finalmente consegui chegar perto de acompanhá-la.

A tarde seria reservada para o treino individual. Eu deveria repassar a rotina de musculação e, depois, talvez fazer uma corrida leve.

Enquanto tomava o sorvete do cream soda e planejava minha tarde, a Tsukinoki-senpai entrou na loja. Ela usava roupas simples: um suéter de tricô e uma jaqueta leve. Sentou-se à minha frente e cruzou as pernas cobertas por uma calça justa.

— Desculpe chamar você assim de repente. Já tinha alguma coisa planejada?

— Tudo bem. Eu só estava voltando da escola para casa. Você não disse que o Tamaki-senpai viria também?

— Ele esqueceu de buscar a notificação de mudança de endereço e saiu correndo para a prefeitura. Deve chegar logo.

A Tsukinoki-senpai pediu café e castella a uma garçonete de aparência gentil e então tirou um cartão do bolso.

— Aqui, este é o meu novo endereço. Venha nos visitar quando quiser.

— Obrigado pelo trabalho. Mas você poderia simplesmente ter mandado por e-mail.

— Eu queria contar pessoalmente para todo mundo do Clube de Literatura.

Aparentemente envergonhada com as próprias palavras, ela tirou os óculos de propósito e começou a limpá-los.

— Pensei em passar na sala do clube, mas é surpreendentemente difícil entrar no colégio depois que você se forma.

— É mesmo?

— Porque, se eu fosse com roupas casuais, chamaria atenção, e, se usasse o uniforme depois de me formar, seria praticamente cosplay, não é? Nem eu teria coragem de fazer cosplay e voltar para o meu antigo colégio.

— É, bem, talvez voltar de vez em quando para o colégio usando uniforme não seja tão raro assim?

— Em que circunstância alguém voltaria para o próprio colégio fazendo cosplay, a menos que estivesse gravando algum vídeo suspeito?

Eu concordava, mas tinha tido meus motivos durante todo aquele incidente na Escola de Ensino Fundamental Momozono.

— Você já entrou em contato com os outros alunos do primeiro ano do Clube de Literatura?

— Você é o último, Nukumizu-kun. Também encontrei a Yakishio-chan outro dia.

Ela colocou os óculos de volta e me lançou um olhar provocador.

— Ficou curioso?

— Bem, sim. Considerando a competição que está chegando.

A disputa contra a Yakishio seria no dia seguinte, sábado. Segundo a Yanami, ela estava em sua melhor forma.

— Vou passar a noite anterior na casa da presidente. Nem eu entendo muito bem por quê.

— Na casa da Hokobaru? Ela mora em Ikobe, não é? Por que ir tão longe?

— Ela quer fazer os ajustes finais enquanto monitora minha condição. Parece que o Sakurai-kun, do conselho estudantil, também vai dormir lá.

— A competição é no sábado, certo? Shintaro e eu vamos deixar Toyohashi no dia seguinte.

A conversa parou por um momento enquanto a garçonete trazia o café e o castella. Inclinei a cabeça em agradecimento enquanto a Tsukinoki-senpai pegava os doces.

— Desculpe. As coisas ficaram tão corridas que nem consegui comemorar direito esse novo começo de vocês.

— Está tudo bem. Na verdade, eu me sinto aliviada. Afinal, vou embora de qualquer jeito...

Ela disse aquilo enquanto despejava leite no café e o mexia silenciosamente com a colher.

— Dá um pouco de tranquilidade ver a geração de vocês se esforçando em lugares que eu já não consigo alcançar.

A Tsukinoki-senpai exibiu por um instante um sorriso melancólico.

— Nukumizu-kun, você começou como membro fantasma, não foi? E agora assumiu o cargo de presidente do clube. Você tem apoiado Komari-chan e, agora, talvez também esteja apoiando a Yakishio-chan?

— Não sei. Talvez eu só seja a pessoa certa porque não tenho nenhuma ligação com o Clube de Atletismo.

Tsukinoki-senpai abriu um sorriso travesso enquanto eu lutava contra meu cream soda, que derretia rapidamente.

— Será que é só isso? Talvez exista uma chance, sabia?

— Nem pensar. Estamos falando da Yakishio e de mim.

— Não, não. Casais inesperados acontecem. Por que ela convidaria você para um encontro se não tivesse nenhum interesse? Às vezes, as próprias pessoas nem percebem o que estão sentindo.

Típico dela. Continuava exatamente igual. Tomei um gole pelo canudo e ri baixinho.

A ideia da Yakishio, alguém que ocupava o topo da hierarquia social da escola, ter sentimentos românticos por mim parecia distante demais da realidade. O Tamaki-senpai também tinha falado sobre eu estar entrando em uma fase de popularidade, mas ele era péssimo quando o assunto era romance.

...Espera.

Embora fosse completamente podre por dentro, a Tsukinoki-senpai era, de fato, do mesmo sexo que a Yakishio. Talvez enxergasse as coisas pela perspectiva de uma garota, diferente de mim ou do Tamaki-senpai.

— Você está falando sério? Quer dizer que a Yakishio sente... aquilo por mim?

— Ah, hã...

Tsukinoki-senpai, que tinha mergulhado em seus pensamentos, juntou as mãos e abaixou a cabeça com seriedade.

— Não, desculpe. Eu só estava falando sem pensar. A Yakishio-chan também é meio difícil de entender para mim.

— Ah. Entendi.

Certo. Decidi me concentrar em meu cream soda em silêncio.

Os veteranos deixariam Toyohashi e começariam uma nova vida naquele fim de semana. Embora Nagoya ficasse na mesma província, não era uma distância que permitisse simplesmente aparecer para uma visita casual.

Eu definitivamente sentiria falta deles. Mas, ao mesmo tempo, percebia o quanto o futuro que existia além daquela despedida começava a crescer dentro de mim.

A escolha da Yakishio, o futuro do Clube de Literatura e eu mesmo como aluno do segundo ano...

Por que eu estava indo tão longe para desafiar a Yakishio?

Ou, pensando bem, por que tinha pedido um cream soda, algo que nem combinava comigo?

Vários pensamentos rodopiavam em minha cabeça, e continuei encarando as pequenas bolhas do refrigerante, sentindo-me um tanto inquieto.

*

Na tarde de sexta-feira, com a competição marcada para o dia seguinte, fui parar no terreno de uma escola de ensino fundamental com a qual não tinha nenhuma ligação.

A antiga escola da presidente Hokobaru, a Escola Municipal de Ensino Fundamental Sasayuri, era cercada por plantações de repolho. O cheiro do mar misturado ao vento deixava evidente que eu estava em um ambiente diferente.

Ultimamente, eu parecia estar criando conexões demais com escolas de ensino fundamental.

Uma jovem de agasalho esportivo conversava com a presidente. Devia ser uma das professoras da escola. Sakurai-kun ficou ao meu lado enquanto eu fazia a segunda sequência dos exercícios de rádio.

— Desculpe fazer você vir até tão longe hoje. Quando Hiba-nee coloca alguma coisa na cabeça, não escuta ninguém.

— Tudo bem. Já estou acostumado com isso por causa do Clube de Literatura.

Trocamos sorrisos amargos, e a presidente veio em nossa direção enquanto tirava o casaco.

— Certo, chega de falar mal de mim. Hoje vamos apenas conferir nossos movimentos, sem exagerar.

— Bem, se é assim, tem uma coisa que eu gostaria de tentar.

— Oh? Pode falar.

A presidente ouviu minha sugestão em silêncio e assentiu com firmeza.

— Então vamos tentar. Hiroto, por favor, grave o movimento perto da linha de chegada.

— Entendido. Boa sorte, Nukumizu-kun.

Dizendo aquilo, Sakurai-kun correu em direção à área da chegada. Ele era um cara legal. Talvez fosse a única pessoa normal ao meu redor. ...Sério, por que eu só acabava cercado de gente esquisita?

Agora que o Tamaki-senpai, que era relativamente normal, tinha se formado, parecia que só os estranhos tinham sobrado.

— O que foi? Está encarando meu rosto.

— Ah, nada. Vamos começar a correr.

...É. Comparativamente falando, suponho que a presidente pudesse ser considerada do "lado normal".

*

Depois de duas horas de "ajustes leves", fomos para a casa da presidente. Fiquei surpreso com o pouco cansaço que sentia.

A casa da presidente era uma construção térrea grande e antiga, em estilo tradicional japonês, com vários depósitos espalhados pelo espaçoso quintal.

Atravessei o terreno seguindo a presidente enquanto olhava ao redor com curiosidade.

— Com o que sua família trabalha?

— Administramos algumas pequenas plantações e também trabalhamos com a cooperativa. Meus pais estão trabalhando agora, então peço desculpas por não podermos recebê-lo adequadamente.

Quando a presidente abriu a porta de entrada de correr, vi vários pares de sapatos alinhados no amplo genkan. Eu sabia que ela morava com os pais, mas comecei a me perguntar se talvez houvesse outra jovem morando ali também.

— Bem-vinda de volta, presidente!

Tiara-san apareceu apressada do fundo da casa usando um avental, com os chinelos batendo contra os pés enquanto caminhava.

— Hã? Por que você está aqui?

Minha pergunta sincera escapou sem querer. Mas, em vez de me repreender, Tiara-san estufou o peito com orgulho.

— Como vice-presidente, é perfeitamente natural que eu dê apoio à presidente. Vamos, entrem todos.

— Não precisam ficar acanhados. Entrem. Hiroto, pode mostrar a casa para Nukumizu-kun?

— Claro. Nukumizu-kun, por aqui.

Sakurai-kun me conduziu até um cômodo em estilo japonês de aproximadamente dez tatames. O quarto se conectava a uma varanda junto à janela e, embora fosse antigo, mantinha uma atmosfera limpa e tranquila.

— Tem certeza de que podemos usar um quarto tão grande?

— Meus avós se mudaram para o centro da cidade, então agora temos alguns quartos sobrando.

— Agora que pensei nisso, você e a presidente são primos, não são?

Sakurai-kun assentiu enquanto colocava seus pertences no chão.

— Mas os outros quartos estão cheios de coisas, então este é o único que está arrumado.

Entendi. Sakurai-kun também dormiria naquele quarto. Eu tinha dificuldade para dormir com outras pessoas por perto...

Bem, não podia ser exigente demais.

Coloquei minha bolsa no chão e saí para a varanda. Da janela, era possível ver um jardim com um caquizeiro. Eu sempre tinha sonhado em passar a aposentadoria sentado numa varanda, tomando sol e bebendo chá...

Perdido em pensamentos, dei um passo à frente e, de repente, senti sob meu pé algo macio e elástico, parecido com carne crua.

— Shikiya-san!?

De fato, aquilo em que eu tinha pisado não era carne crua, mas Shikiya-san. Shikiya-san, que estava deitada na varanda, esfregou os olhos e se sentou.

— Desculpe! Eu não esperava que tivesse alguém aqui.

— Tudo bem. ...Varanda... quentinha.

Shikiya-san me encarou com curiosidade enquanto se levantava lentamente.

— Nukumizu-kun...? Por que... está aqui?

— Vim para um acampamento de treinamento em preparação para a competição de amanhã. Mas o que você e a Basori-san estão fazendo aqui?

— Um acampamento... parece divertido... não é?

É. A conversa continuava um pouco fora de sintonia.

Enquanto eu me perguntava como deveria responder...

— Hiba-nee adora quando muita gente se reúne. Ela fica muito animada durante o Obon ou em qualquer ocasião parecida.

Sakurai-kun veio em meu socorro e explicou a situação. Em resumo, a presidente gostava de ter muita gente por perto e acabara chamando todos os membros do conselho estudantil.

Shikiya-san, ainda balançando levemente de um lado para o outro, segurou a barra do meu agasalho.

— Cozinhar... juntos?

Hã, comida? Ah, é mesmo...

— Eu vi a Basori-san de avental mais cedo. Ela não está cozinhando?

— A comida dela... não é muito gostosa...

Era mesmo? Bem, eu já desconfiava.

— Mas a presidente também está com ela, não está? A comida dela———

Crash!

Um estrondo veio dos fundos da casa. Ao ouvir o grito da Tiara-san, Sakurai-kun saiu silenciosamente do cômodo.

...Pensando bem, a presidente não era um pouco desastrada nas tarefas do dia a dia? Aquilo não deveria ser um acampamento de treinamento e descanso em preparação para o dia seguinte...?

Suspirei e fui atrás de Sakurai-kun, ainda com Shikiya-san agarrada à barra do meu agasalho.

*

O jantar tinha terminado por volta das seis da tarde.

Naquele momento, eu lavava a louça. Ao meu lado, Tiara-san secava os pratos que eu lavava. Estranhamente quieta, Tiara-san hesitou por um momento antes de iniciar uma conversa.

— Nukumizu-san, você cozinha muito bem, não é?

— Nem tanto. Mas cozinho um pouco porque meus pais trabalham.

O plano inicial era fazer um nabe, mas a presidente tinha acabado derrubando tudo, então tivemos que começar do zero.

Felizmente, havia bastante repolho, então preparei alguns picles rápidos e usei a carne moída que estava no congelador para fazer rolinhos de repolho "desmontados".

— Só um pouco, é? Você até fez kinpira com as cascas das cenouras enquanto preparava os pratos principais.

— Eu tinha tempo enquanto esperava as coisas cozinharem.

Kaju teria preparado pelo menos mais dois pratos principais no mesmo tempo e ainda teria feito uma sobremesa para depois da refeição.

Eu ainda tinha muito o que aprender.

— A sopa de missô que Basori-san fez também estava... bem, gostosa.

— Normalmente, consigo deixá-la um pouco mais gostosa.

— Bem, tirando o fato de você ter esquecido de preparar o caldo dashi, ficou muito boa, não ficou?

— Normalmente, eu faço direito.

É, eu devia parar de jogar sal na ferida. Tiara-san pegou em silêncio os pratos que eu lhe entregava. Depois que terminamos de lavar a louça e limpar a pia, a presidente entrou na cozinha.

— Certo, vamos tomar banho antes que meus pais voltem. Como você é nosso convidado hoje, pode ir primeiro.

— Tem certeza de que tudo bem eu ir primeiro?

— Você é nosso convidado mais importante hoje, mas poderia entrar com o Hiroto? Desculpe, temos muita gente aqui hoje.

— Hã!?

Por algum motivo, quem gritou de surpresa foi Tiara-san. Tremendo, ela se aproximou pouco a pouco da presidente.

— I-Isso não vai um pouco contra a moral pública!?

— Por quê?

O rosto de Tiara-san ficou vermelho vivo diante da pergunta simples da presidente.

— M-Mas tem certeza de que está tudo bem? Os dois, completamente nus, num espaço fechado!

— Isso é absurdo. É claro que eles vão ficar nus. Eles vão tomar banho, não vão?

Aquilo encerrou completamente a discussão. Resolvi me intrometer de maneira constrangida.

— Bem, eu não me importo muito...

— Nukumizu-san!? Não, mas...

Tiara-san, que tremia de olhos arregalados, pareceu tomar uma decisão e assentiu.

— Então eu também vou entrar!

...O que exatamente ela estava dizendo?

Até eu fiquei pasmo com o absurdo daquilo, e parecia que os outros tinham ouvido toda a confusão. Sakurai-kun, que tinha aparecido sem que eu percebesse, colocou uma mão no ombro de Tiara-san.

— Calma, Basori-chan. Você não pode entrar com a gente, sabia?

— M-Mas eu quero ver... Quer dizer, alguma coisa séria pode acontecer se eu não supervisionar, certo?

Ei, que tal amarrarmos essa mulher e jogá-la dentro de um armário?

Sakurai-kun, a própria personificação da paciência, continuou sem alterar a expressão.

— Está tudo bem, Basori-chan. Você pode entrar com a Hiba-nee. Tudo bem para você, Hiba-nee?

— Eek!? T-Tomar banho com... a presidente!?

Os olhos de Tiara-san se arregalaram ainda mais, e a presidente passou um braço ao redor dela.

— Então você queria tomar banho comigo, é? Certo, Basori-kun, vamos juntas.

— O quê!? O-O quê...?

Enquanto Tiara-san começava a tremer novamente, Sakurai-kun sussurrou baixinho para mim.

— Agora é a nossa chance. Vamos rápido.

— Hã? Ah, sim...

Então era assim que se lidava com Tiara-san. Sakurai-kun era impressionante. Enquanto admirava sua habilidade, aproveitei para escapar daquela situação.

*

Uma gota d'água caiu do teto e atingiu meu ombro, fazendo-me estremecer involuntariamente.

O banheiro da família Hokobaru era tradicional, todo revestido de azulejos. A banheira era grande o bastante para duas pessoas esticarem as pernas.

Lavei-me primeiro e depois troquei de lugar com Sakurai-kun para entrar na banheira.

...Eu estava cansado além do necessário.

Afundei até os ombros na água quente.

Observei casualmente Sakurai-kun enquanto ele se lavava. Seu corpo parecia estranhamente delicado.

Eu costumava ser chamado de magro — principalmente por Yanami —, mas a constituição de Sakurai-kun era simplesmente... diferente da de um garoto comum.

Não havia chance de ele ser, na verdade, uma garota de peito reto, certo...?

Enquanto eu me lembrava de várias light novels que tinha lido, Sakurai-kun olhou por cima do ombro.

— Nukumizu-kun, você é o presidente do Clube de Literatura, certo? Parece que você passa por bastante coisa.

— Será? Acho que cuidar dos membros do conselho estudantil deve ser mais difícil.

Minha resposta sincera fez Sakurai-kun sorrir amargamente, refletido no espelho.

— Todo mundo é gente boa. Só precisa de um pouco de apoio.

Eu me perguntava se aquele apoio realmente podia ser chamado de "um pouco", especialmente no caso da presidente. Parecia ultrapassar bastante o nível de mero apoio. Pelo que eu sabia, os dois tinham estudado na mesma escola de ensino fundamental. Fiquei me perguntando como ela tinha se virado no ano anterior, antes de Sakurai-kun entrar no Colégio Tsuwabuki.

— A presidente praticava atletismo até o ensino fundamental, certo? Posso perguntar por que ela parou?

— Sim. Não foi por lesão nem nada assim. Ela simplesmente tinha completado três anos no atletismo e decidiu se dedicar ao conselho estudantil no ensino médio. Só isso.

Sakurai-kun derramou sobre si a água de uma bacia.

— É claro que havia várias coisas acontecendo com ela pessoalmente. Em algum momento, todo mundo precisa traçar uma linha, e, para Hiba-nee, esse momento foi a entrada no ensino médio.

Depois de enxaguar a espuma, Sakurai-kun também se acomodou ao meu lado na espaçosa banheira.

— Você tem interesse na Hiba-nee?

— Não é só questão de ter interesse. É que eu não entendo por que ela se esforça tanto, embora eu saiba que presta bastante atenção na Yakishio.

— Antigamente, eu ouvia Hiba-nee falar bastante sobre Yakishio-san.

Sakurai-kun disse aquilo enquanto se espreguiçava e entrelaçava os dedos.

— Pensando agora, talvez a Yakishio-san tenha sido um daqueles pontos de virada para Hiba-nee. É claro que não foi culpa dela.

— Um ponto de virada, é...?

As atividades do clube tinham uma importância enorme para uma pessoa, mas chegava um momento em que era preciso se aposentar. Para muitos, a formatura era esse momento. Mas algumas pessoas tinham um futuro que se estendia para além dali.

Eu não sabia até onde a Yakishio chegaria como atleta, mas, pelo que todos diziam, talvez ela fosse uma dessas pessoas que ainda tinham um futuro pela frente...

Perdido em pensamentos, observei Sakurai-kun afastar para trás o cabelo grudado na testa.

— Sou realmente grato a você, Nukumizu-kun. Hiba-nee parece mais feliz ultimamente. Quase como se tivesse voltado aos tempos de clube.

— Saber disso me deixa um pouco mais tranquilo. Eu estava preocupado se todo mundo dormir aqui hoje não seria um incômodo.

Sakurai-kun sorriu gentilmente.

— Apesar da aparência, ela está bem animada com isso, sabia? Hiba-nee normalmente nem cozinha.

Entendi. Então não era comum ela virar panelas todos os dias. Suspirei de alívio.

— Ouvindo você falar, parece que realmente se importa com a presidente.

— Somos primos e sempre fomos próximos. Mas, se for por esse lado, você também se importa muito com o Clube de Literatura, Nukumizu-kun. Eu não conseguiria fazer tanto pelos membros do meu clube se estivesse no seu lugar.

— Tentar administrar o conselho estudantil enquanto cuida de três pessoas parece ainda pior.

A expressão de Sakurai-kun ficou divertida diante da minha observação casual.

— Quer trocar de função alguma vez?

— Hã? Quer dizer que eu cuidaria do conselho estudantil e você...

— Seria o presidente do Clube de Literatura. Vamos ver, tem mais três alunos do primeiro ano, certo?

...Hmm. Eu como membro do conselho estudantil. Vamos ver... administrar as maluquices da Tiara-san, lidar com as excentricidades de Shikiya-san e ainda cuidar da presidente...

Depois de imaginar aquilo por um tempo, olhamos um para o outro e dissemos em uníssono:

— Melhor não.

*

A reunião estratégica para o grande evento do dia seguinte começou.

A atmosfera no quarto de dez tatames onde nos reunimos estava carregada de tensão e do aroma fresco de quem tinha acabado de sair do banho. A presidente Hokobaru usava pijama, com o cabelo preso para trás, e suas bochechas estavam levemente coradas.

É... ela realmente era uma beleza impressionante...

Percebendo que seria rude ficar encarando, desviei o olhar, apenas para encontrar a Tiara-san deitada de costas, completamente estirada.

— Ah, o que aconteceu com a Tiara-san?

— Parece que ela ficou um pouco superaquecida no banho. Está bem, Tiara-kun?

— Por favor, não me chame pelo meu primeiro nome...

Tiara-san respondeu fracamente.

Considerando o lenço de papel enfiado no nariz, parecia que nem a medicina chinesa tinha sido páreo para o banho que ela tomara com a presidente.

Tiara-san e Sakurai-kun também estavam de pijama, o que fazia aquilo parecer quase uma festa do pijama.

Arrependi-me de não ter trocado meu agasalho por um pijama… Enquanto eu lamentava aquilo, percebi que a porta de correr estava ligeiramente aberta. Ao olhar naquela direção, vi um par de olhos brancos piscando na fresta.

— Eu... também queria entrar no banho...

Sem fazer barulho, Shikiya-san entrou pela porta de correr usando roupa de dormir. O que ela vestia parecia uma camisola rendada com um decote profundo...

Não, aquilo podia ser roupa íntima!? Parecia uma negligée, mas era um pouco diferente. Segundo o que eu tinha aprendido recentemente num jogo de gacha, aquilo se chamava babydoll, um tipo de lingerie...

— Senpai, que roupa é essa!?

Tiara-san se levantou de repente e tentou cobrir o peito da Shikiya-san. Mas tinha escolhido a adversária errada. Shikiya-san desviou com habilidade e então abraçou a Tiara-san com força.

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— Tiara-chan, tão... ousada...

— Ei, ei, está encostando no meu rosto! Está encostando de verdade!

...Ah, aquilo definitivamente não era uma cena que eu deveria estar vendo.

Afinal, eu era F2P.

Enquanto Sakurai-kun e eu desviávamos o olhar, a presidente trouxe um projetor.

— Agora, vamos revisar tudo o que vimos até hoje. Hiroto, pode apagar as luzes?

Nós realmente íamos começar naquela situação?

Bem, se a presidente dizia que estava tudo bem, então devia estar. Tanto faz… Quando Sakurai apagou as luzes, um vídeo meu correndo foi projetado sobre a porta de correr branca.

— Esta é a sua corrida de ontem. A mudança para uma largada em pé permitiu que você acelerasse de maneira mais suave, e a estabilidade da parte superior do seu corpo melhorou em comparação com o início. Porém...

A presidente colocou o vídeo em câmera lenta pelo smartphone. Minha imagem se debatendo enquanto corria em direção à linha de chegada estava longe de ser elegante.

— A parte final continua sendo um problema. Você está pensando demais no sprint final e acaba perdendo a postura. Sua resistência também é insuficiente.

— Sim. Então hoje o que eu tentei foi...

— Prender a respiração durante o sprint final, certo? De fato, isso estabilizou sua corrida e melhorou um pouco seu tempo.

— Sim. Então eu estava pensando em tentar isso na corrida de verdade.

Enquanto eu falava com certo entusiasmo, a presidente parecia pensativa e preocupada.

— Eu já prendi a respiração na largada antes, mas sempre sob orientação adequada e respeitando as condições do meu corpo. Fazer isso de qualquer jeito, sem entender os limites do próprio corpo, pode causar lesões.

— Ah, então é melhor eu não fazer isso, certo?

Certo, então eu desistiria da ideia. Apesar da minha aparência, eu tendia a ceder facilmente à autoridade.

— Não. Das cinco corridas de hoje, em duas nas quais você prendeu a respiração, conseguiu ficar no mesmo nível que eu. Na competição de verdade, será apenas uma corrida. Vale a pena tentar.

— Hã? Tem certeza?

A presidente Hokobaru assentiu com firmeza.

— Porém, prenda a respiração apenas nos últimos cinco metros. Corra até atravessar a linha de chegada, mesmo que isso resulte numa torção ou num ataque cardíaco.

Isso tinha escalado rápido demais de uma torção para um ataque cardíaco.

Depois disso, passamos algum tempo revendo o vídeo e fazendo treinamento mental. Enquanto tomava o chá que Sakurai-kun tinha preparado, olhei para o lado e percebi que a Tiara-san já tinha desistido de resistir.

Ela estava exausta nos braços de Shikiya-san.

— Fizemos tudo o que podíamos. Amanhã, simplesmente dê tudo de si.

A presidente Hokobaru sorriu despreocupadamente enquanto tomava seu chá. Retribuí o sorriso de maneira constrangida e tomei um gole do meu.

— Mas, no fim, ainda não consegui superar você, presidente. É frustrante não ter conseguido atingir o tempo que estabelecemos como meta.

— O quê? Você não percebeu? Eu aumentava meu ritmo sempre que você estava prestes a me alcançar.

O quê? Eu não tinha percebido aquilo nem um pouco.

— Espere um pouco. Então isso significa que eu...

— Sim, você já superou o tempo que estabelecemos como meta. Agora, o resto depende de até onde a Yakishio-kun conseguirá levar o próprio desempenho.

A presidente virou todo o chá de uma só vez.

— Certo, amanhã teremos que acordar cedo. Vamos dormir para estarmos preparados. Podem usar os futons que estão no armário.

— Certo. Então eu vou pegar os futons...

Olhei para o relógio na parede. Tinha acabado de passar das oito da noite.

...Era cedo demais. Mas não disse nada. Afinal, eu tinha uma fraqueza por figuras de autoridade.

*

Um teto desconhecido surgiu diante dos meus olhos na escuridão.

Apesar de termos ido para a cama pouco depois das oito da noite, eu tinha adormecido imediatamente.

...Só para acordar pouco depois das duas da manhã.

Ao meu lado, Sakurai-kun respirava tranquilamente em seu futon. Tinha ocorrido uma pequena confusão — envolvendo a Tiara-san — por causa de nós dois dividirmos o mesmo quarto, mas tinha sido tão trabalhoso que eu preferia esquecer.

Além das portas de correr, eu conseguia ouvir o zumbido baixo dos insetos.

Queria me deixar levar pela sonolência, mas o descanso que tinha tido antes me deixara completamente desperto.

Pensar na competição do dia seguinte me deixava inquieto. Desistindo de dormir, usei a luz do celular para seguir até o banheiro.

"Na nossa casa, nós não trancamos as portas. Nunca."

Aquela declaração misteriosamente orgulhosa da presidente tinha sido seguida pelo sorriso amargo de Sakurai-kun.

Naquele momento, eu não tinha entendido o que ela queria dizer, mas aparentemente significava que até a porta da frente ficava destrancada...

Depois de pensar por alguns instantes, calcei os sapatos e abri lentamente a porta da frente.

*

Um passeio no meio da madrugada.

Ainda mais em um lugar que eu visitava pela primeira vez, era compreensível ficar um pouco empolgado.

Como resultado, acabei parado em uma praia de areia.

O extremo sul de Toyohashi ficava de frente para o Oceano Pacífico e fazia parte de uma faixa de areia absurdamente longa, que se estendia desde Hamamatsu, na província vizinha, até a ponta da Península de Mihama. Aquela região, a apenas quinze minutos a pé da residência dos Hokobaru, era conhecida como Praia de Omotehama.

Enquanto caminhava pela praia deserta, lembrei-me da faixa de areia pela qual tinha corrido no verão anterior, arrastado pela a Yakishio. Acima de mim, um céu noturno repleto de estrelas se estendia até o horizonte.

O caminho até a praia tinha sido uma descida íngreme, e eu tinha pensado em voltar umas cinco vezes, mas estava feliz por não ter desistido...

Aproximei-me de um objeto branco no fundo da praia.

Era uma estrutura branca semelhante a uma parede, com mais de três metros de altura. Parecia uma fatia de pão estilosa colocada de pé sobre o chão. O que mais chamava atenção eram os buracos em formato de nuvens, semelhantes aos balões de fala dos mangás, que permitiam espiar o outro lado.

Quando me aproximei, a estrutura pareceu maior do que eu esperava.

As aberturas em formato de nuvem ficavam um pouco acima da altura dos olhos, fazendo com que meu olhar naturalmente se voltasse para cima.

Através dos recortes em forma de nuvem, as estrelas pareciam se dissolver no céu noturno.

...Parecia um pouco desperdiçado contemplar aquele céu sozinho.

Um pensamento incomum passou pela minha cabeça, mas uma noite solitária como aquela combinava perfeitamente comigo...

Enquanto eu me entregava àquela solidão tranquila...

Tap.

Uma mão branca surgiu do outro lado da estrutura e agarrou a borda de uma das aberturas.

— Hã!?

Tap.

Outra mão branca agarrou a borda. Paralisado de medo, observei enquanto as mãos perdiam as forças e escorregavam de volta para o outro lado.

— Muito... alto. Não consigo...

Aquela voz fraca era inconfundível. Quando contornei a estrutura e cheguei ao outro lado, encontrei uma garota sentada junto à parede, abraçando os joelhos.

Cabelos longos e ondulados. Pele pálida destacando-se na escuridão...

Era a Shikiya-san.

— O que você está fazendo aqui?

— Não consegui... subir...

Aquilo definitivamente seria impossível para ela. Mas, mais importante, o que ela estava fazendo ali àquela hora? Enquanto eu me perguntava aquilo, Shikiya-san deu alguns tapinhas no chão ao lado dela.

— Não fique só... em pé. Sente... comigo...

— Hã? Ah, sim.

Sentei-me a aproximadamente um metro de distância, e então Shikiya-san bateu novamente no chão ao lado dela. Hesitei por um instante antes de me aproximar e me sentar ao seu lado.

— Então, por que você está aqui, senpai?

— Eu estava... pensando... aonde você iria...

Então… Ela tinha me seguido até ali.

— Desculpe. Por acaso eu acordei você?

— Tudo... bem. Eu tenho... bastante energia... à noite...

Estranhamente convincente. Shikiya-san ergueu lentamente o rosto para o céu estrelado. Em seu rosto normalmente inexpressivo, seus lábios se entreabriram levemente de surpresa.

— Incrível, não é...? Você veio até aqui... para ver isso?

— Eu acordei e simplesmente comecei a andar por aí...

Acompanhei o olhar de Shikiya-san e contemplei o céu noturno.

— De algum jeito, parece que já ganhei alguma coisa só por estar sentado aqui.

— É. Eu... também...

Continuamos sentados sem conversar muito.

Eu não entendia nada de constelações, mas estar cercado por um céu noturno tão diferente daquele que eu costumava ver… era como sair da vida cotidiana e imaginar que tinha viajado para alguma cidade desconhecida.

Olhei de relance para o perfil da Shikiya-san. Seus longos cílios tremulavam com a brisa do mar, e seus olhos, diferentes do habitual, transmitiam uma impressão completamente nova.

Demorei um pouco para perceber o motivo.

Ela não estava usando suas lentes de contato brancas de sempre. Estava escuro, mas seus olhos de pigmentação clara brilhavam com a luz das estrelas e o reflexo das ondas. Ela devia ter percebido que eu a encarava. Quando dei por mim, conseguia ver meu próprio reflexo em seus olhos.

— O que foi...?

— Ah, nada. Só percebi que você não está usando lentes hoje, senpai.

— Eu estava... prestes a... dormir...

Shikiya-san cobriu os olhos com a franja.

— É constrangedor... quando você fica me encarando... desse jeito...

— Ah, desculpe!

Eu tinha estragado tudo. Ficar encarando uma garota sem maquiagem era praticamente assédio sexual. Enquanto abaixava a cabeça, tomado pela culpa, uma voz semelhante a um sussurro chegou aos meus ouvidos.

— Nukumizu-kun, posso perguntar... uma coisa...?

— Ah, sim! Qualquer coisa!

— Por que você está... se esforçando tanto...?

...Hã? Parecia que ela não estava falando sobre a minha mancada. Ah...

— Está falando da competição contra a Yakishio?

Ela assentiu levemente.

— Você... gosta da Yakishio-san...?

— Hã!? Não, não é nada disso.

Limpei a garganta, preparado para desfazer qualquer mal-entendido, e comecei a explicar.

— Bem, é comum as pessoas entenderem errado as relações entre garotos e garotas, mas a Yakishio e eu somos apenas amigos, nada além disso. A competição serve para ajudá-la a tomar uma decisão sobre continuar ou não no clube, e não porque eu queira começar um relacionamento com ela ou ficar mais próximo...

Parei para recuperar o fôlego.

— Eu sou amigo dela e presidente do Clube de Literatura.

Shikiya-san encarou minha expressão confiante com um olhar intrigado.

— Você é tão gentil... com todo mundo.

Gentil? Ah, aquilo era um elogio...?

— Ah, bem, nem tanto assim.

— Naquela vez... você também... se esforçou muito... por mim...

Shikiya-san pareceu prestes a dizer alguma coisa, mas então ficou em silêncio.

— Hmm? O que foi, senpai?

— Eu... vou voltar...

Shikiya-san se levantou cambaleando.

— Ah, então eu vou com você.

— Tudo... bem. Consigo... voltar sozinha...

Ela disse aquilo enquanto se afastava cambaleando. Será que eu tinha dito alguma coisa errada? Corri atrás dela e a encontrei olhando distraidamente para a estrada que levava para fora da praia.

De fato, o caminho até ali tinha sido uma descida bastante íngreme. O que significava que, na volta, se transformaria em uma subida igualmente íngreme.

— Ah... acha que consegue subir?

Depois de alguns instantes de silêncio, Shikiya-san de repente se virou para mim e disse:

— Me carregue.

Ela estendeu os braços em minha direção.

— Hã!? Ah, carregar você no colo talvez seja um pouco difícil. Quer dizer, em termos de força nos braços, o máximo que consigo carregar é, tipo, minha irmãzinha...

Enquanto eu tropeçava nas palavras, Shikiya-san soltou um pequeno som e estendeu os braços novamente.

— Ah, que tal eu carregar você nas costas?

Minha maior concessão pareceu fazê-la pensar por alguns instantes, mas, no fim, ela aparentemente concordou.

Embora emanasse uma clara aura de insatisfação, assentiu bruscamente.

...Nem era preciso dizer que aquele evento inesperado de treinamento de força garantiu que eu dormisse profundamente até de manhã.

*

27 de março, sábado. Oito da manhã. Campo esportivo do Colégio Tsuwabuki.

Depois de aproximadamente vinte dias, finalmente tinha chegado a hora do confronto decisivo. Diante de mim estavam as três integrantes da Equipe Yakishio.

Por algum motivo, Yanami, que estava no meio das três, me lançava um olhar desafiador.

— Nukumizu-kun, você veio sozinho? A presidente não está com você?

— Esta é uma disputa exclusivamente entre a Yakishio e eu. Sou o único que vai competir. Yakishio, hoje vamos———

Yanami me interrompeu justamente quando eu estava prestes a falar com Yakishio.

— Ah, para alguém que fala desse jeito, você estava bem íntimo da presidente, não estava? O que foi aquilo? Provando que o "Nu" de Nukumizu significa "na surdina passa na frente", é? Se o presidente do Clube de Literatura é assim, nós realmente não podemos entrar tranquilas no segundo ano...

As palavras de Yanami simplesmente não paravam. Será que dava para parar de ser irritante...? Enquanto eu pensava se deveria responder com alguma provocação, Komari puxou Yanami para trás à força.

— Y-Yanami, você está a-atrapalhando.

— Espera, Komari-chan. Eu ainda não terminei de falar para o Nukumizu-kun...

— C-Certo, vão para a l-linha de largada. Y-Yanami, você é responsável pelo s-sinal de largada, não é?

— Tá, tá, já entendi, Komari-chan.

Komari arrastou Yanami para longe. Komari, você estava ficando mais forte.

Enquanto pensava nisso, voltei a encarar Yakishio diretamente. Ela vestia o uniforme da equipe de atletismo. Vapor parecia emanar de seu corpo, e dava para perceber que já tinha terminado o aquecimento.

— Não vou perder hoje, Nukkun.

— Nem eu. Não se arrependa de ter me dado uma vantagem tão grande.

Yanami acenou para nós no ponto de partida. Yakishio e eu seguimos em sua direção.

— Nunca imaginei que você fosse levar isso tão a sério.

— É claro. Não tenho a menor intenção de deixar você sair do Clube de Literatura.

— Oh, quanta confiança.

Enquanto caminhávamos lado a lado, Yakishio bateu o ombro contra o meu.

— Eu estava pensando que talvez tivesse sido precipitado demais aceitar seu desafio daquele jeito, mas, agora que chegamos até aqui, não vou pegar leve — eu disse.

Yakishio pareceu querer me provocar novamente, mas, de repente, desviou o olhar e perguntou:

— Nukkun, você dormiu em outro lugar ontem à noite?

— Hã!? Ah, hã... por que está perguntando isso?

Perturbado, encarei o olhar penetrante de Yakishio.

— Eu vi você esta manhã descendo da Linha Atsumi pelo lado de Toyohashi. Normalmente, você vem da direção oposta.

Ela tinha me visto pegando o trem depois de sair da casa da presidente? Mas não havia nada suspeito naquilo.

Era verdade que eu tinha carregado a Shikiya-san nas costas no meio da madrugada, mas aquilo tinha sido mais parecido com cuidar de alguém, e a maciez que eu tinha sentido contra minhas costas era um assunto completamente diferente.

— Não significa nada de importante e... também não aconteceu nada estranho.

— Hmph...

Yakishio bateu o ombro contra o meu com um pouco mais de força e acelerou o passo.

— Se eu ganhar, você vai me contar tudo.

De repente, as consequências de perder tinham aumentado. Quando chegamos ao ponto de partida, Yanami nos mostrou a tela do celular.

— Vamos usar um aplicativo para dar o sinal de largada. Quando o aplicativo disser "On your marks", vocês se preparam... Hã? O que significa "set"? Quando é que vocês começam a correr?

Yanami ficou confusa, quase como se houvesse um ponto de interrogação flutuando sobre sua cabeça, até Yakishio interrompê-la.

— Yanami-chan, "on your marks" significa algo como "aos seus lugares", "set" é "preparar", e o som da pistola significa "já", entendeu?

— Exatamente.

Por algum motivo, Yanami me lançou um olhar convencido.

— O primeiro disparo será o sinal para Nukumizu-kun começar. Quando o segundo disparo soar, dois segundos e meio depois, Lemon-chan parte. Quem chegar primeiro à linha de chegada vence.

Yanami apontou para a linha de chegada, onde Komari aguardava com o smartphone preparado.

— Certo, está tudo pronto? Então vocês dois, por favor, vão para a linha de largada.

Havia um bloco de partida para velocistas aos pés da Yakishio, deixando clara a seriedade com que ela encarava aquilo.

— Certo, estou pronta a qualquer momento.

Yakishio relaxou os braços e as pernas. Yanami olhou para o celular e então falou:

— Ei, Lemon-chan, tem certeza de que não quer trapacear? A gente poderia mudar as configurações escondido, e Nukumizu-kun nem perceberia.

— Yanami-san, dá para não falar isso na minha frente?

Ufa, essa tinha sido por pouco.

Aquilo também devia ser algum tipo de tática fora da pista. Um comportamento estranho para desgastar a concentração do adversário e inclinar a disputa a seu favor.

Era a especialidade de Yanami. Por isso, o fato da Yanami tirar sardinhas secas do bolso de vez em quando para comer também fazia parte de sua estratégia. Provavelmente.

— Hmm, quer um pouco, Nukumizu-kun?

...Era uma tática fora da pista. Balancei a cabeça e fiz alguns agachamentos.

— Estou pronto. Pode começar quando———

— On your marks.

Hã!? Uma voz feminina com pronúncia de nativa saiu do smartphone de Yanami. Que tipo de timing era aquele?

— Opa, acho que apertei sem querer. Preparem-se, vocês dois!

Yakishio e eu rapidamente assumimos nossas posições.

— Set.

A voz nativa veio logo em seguida. Agachei-me e respirei fundo. Então o som do disparo ecoou.

Não houve tempo para pensar. Simplesmente chutei o chão e parti sem hesitar.

Estranhamente, toda a tensão desnecessária tinha desaparecido do meu corpo, e eu conseguia sentir que acelerava de maneira suave. Talvez nem fosse exagero dizer que aquela era a melhor condição em que eu já estivera.

Eu conseguia...

Então o segundo disparo soou.

Havia dezenas de metros entre mim e Yakishio, que acabara de partir. Eu ainda não deveria ser capaz de sentir sua presença.

Afastei da mente a pressão que parecia vir de minhas costas e impulsionei o corpo para a frente exatamente como tinha treinado. Quando passei pela marca dos cinquenta metros, aquilo já não era apenas impressão minha.

Eu definitivamente sentia uma pressão vindo de trás.

...Espera, ela não estava rápida demais?

Ela era algum tipo de animal? O som dos passos se aproximava de maneira inconfundível. Suor escorria por todo o meu corpo.

Quanto de vantagem eu ainda tinha? Conseguiria manter aquele ritmo até o fim?

Enquanto pensava nisso, cheguei aos vinte metros finais. Os passos estavam logo atrás de mim. Eu conseguia até ouvir a respiração de Yakishio.

"Prenda a respiração nos últimos cinco metros."

As palavras da presidente atravessaram minha mente. No instante em que vi a marca dos dez metros, prendi a respiração e coloquei toda a força que me restava nas pernas.

Cerrei os dentes e continuei forçando as pernas para a frente. As sensações do meu corpo começavam a desaparecer.

Pelo canto do olho, vi a sombra de Yakishio passar como um lampejo. Ela estava emparelhando comigo. A linha de chegada já estava à vista, mas parecia absurdamente distante. No instante em que minha visão começou a embranquecer...

A linha de chegada desapareceu do meu campo de visão.

Quase ao mesmo tempo, Yakishio passou por mim em alta velocidade e, um instante depois, uma rajada de vento atingiu meu corpo…

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…………

...Quem tinha vencido?

Minhas pernas cederam, e desabei ali mesmo.

Com a visão embaçada, olhei ao redor e vi Yakishio respirando com dificuldade enquanto espiava a tela do smartphone de Komari.

Yakishio bagunçou o próprio cabelo com força e depois respirou fundo usando uma lata de oxigênio.

— Q... Q... Quem... venceu...?

Eu mal conseguia respirar, e minha voz falhava. Tentei me levantar, mas minhas pernas não obedeceram. Yakishio olhou para mim com uma expressão chocada.

— Você está muito pálido, Nukkun!? Aqui, toma um pouco de oxigênio!

Yakishio jogou a lata de oxigênio na minha direção sem muito cuidado. A lata passou direto pela minha mão estendida… E acertou em cheio a minha testa. Então minha visão ficou completamente branca.

*

Um quarto pouco iluminado. As manchas familiares no teto.

Demorei um pouco para entender minha situação. Aquilo era a enfermaria do Colégio Tsuwabuki. Eu estava deitado numa cama, encarando o teto. Não me lembrava de nada depois da corrida contra a Yakishio. A última coisa de que me recordava era o golpe final da lata de oxigênio que ela tinha jogado...

— Nukkun, você acordou?

Uma voz cheia de preocupação. Assim que tentei me sentar por reflexo——

— Ai!?

Soltei um grito involuntário por causa da dor espalhada por todo o corpo.

Então a Yakishio, que estava sentada em um banquinho redondo ao lado da cama, colocou a mão nas minhas costas.

— Você está bem? Sua cabeça dói?

— Minha cabeça está bem. Só minha testa que dói, e meu corpo inteiro está dolorido por causa...

Comecei a falar enquanto me virava novamente para a Yakishio. Ela já tinha voltado a vestir o uniforme e sorria aliviada, com uma mão sobre o peito.

— Que bom. Eu teria ficado muito triste se você tivesse morrido por causa da lata de oxigênio que eu joguei.

Certo, ainda bem que eu não tinha morrido e feito Yakishio se sentir culpada.

— Ah, mais importante... como terminou a corrida?

Perguntei cautelosamente, e a Yakishio fez um biquinho como se estivesse reclamando.

— Foi uma bagunça. Por sorte, Konuki-sensei estava lá para assistir à corrida, mas todo mundo acabou tendo que carregar você até a enfermaria.

— Hã? Quer dizer que Konuki-sensei está aqui? Onde?

Enquanto eu olhava ao redor nervosamente, Yakishio deu um peteleco na minha testa.

Doeu.

— Calma. Ela saiu por um instante.

Yakishio cruzou as pernas esguias e me lançou um olhar severo.

— Depois, trate de agradecer a Komari-chan e a Yana-chan, está bem? Komari-chan ficou tão desesperada que jogou o celular longe, e Yana-chan ficou tão confusa que tentou enfiar sardinhas secas na sua boca. Foi difícil impedir as duas.

Parecia que muita coisa tinha acontecido enquanto eu estava inconsciente. E graças a Deus ela tinha impedido a Yanami.

— Onde estão as duas agora?

— Quem sabe? Saíram para algum lugar. Talvez tenham deixado a gente sozinho de propósito?

Lá estava ela me provocando de novo. Eu estava prestes a protestar quando percebi a seriedade no olhar de Yakishio.

— Então, quem venceu?

Eu me lembrava de cruzar a linha de chegada embolado com ela no fim dos cem metros. Yakishio apoiou o rosto na mão com uma expressão cansada.

— Para falar a verdade, achei que terminaria numa bagunça ainda maior. Quase esperava uma vitória minha por desistência sua.

Ela murmurou, mantendo uma fachada de irritação.

— Perdi a chance de entrar para o Clube de Ir Direto para Casa.

— Então isso quer dizer que...

Yakishio abandonou a falsa irritação e abriu um sorriso travesso.

— Nukkun, você vai ter que assumir a responsabilidade, sabia?

Aquilo significava que Yakishio continuaria tanto no Clube de Atletismo quanto no Clube de Literatura e se esforçaria ainda mais do que antes.

Era o que eu tinha desejado, mas o peso que a Yakishio carregaria não seria pequeno. Por isso, agora que a competição tinha terminado, eu podia fazer uma pergunta que só fazia sentido naquele momento.

— Você realmente teria saído do clube se eu tivesse perdido?

— Eu estava falando sério.

Yakishio respondeu de forma leve, deixando o olhar vagar para algum ponto distante.

— Pensei em sair do clube e viver meus dias de ensino médio como em um drama ou mangá. Sair com os amigos depois da aula, falar sobre romance e estudar para as provas em um restaurante familiar...

Ela murmurou como se falasse consigo mesma, de olhos fechados.

— E encontrar alguém que eu amasse algum dia, mesmo que não fosse logo.

Um silêncio calmo caiu entre nós, como uma breve pausa no vento.

Em um mundo no qual a Yakishio tivesse feito uma escolha diferente, ela se preocuparia com notas de prova em vez de tempos de corrida e conversaria sobre garotos com as amigas.

E, reunindo coragem, estenderia a mão para segurar a de outra pessoa, alguém que eu não conhecia.

Uma adolescência comum e, ao mesmo tempo, extraordinária, como em um drama.

Yakishio abriu os olhos lentamente.

— Além disso, se eu saísse do clube, não conseguiria uma recomendação para a universidade. Então teria que entrar num cursinho ou alguma coisa assim. Talvez eu fosse para o mesmo que a Chiha e o Mitsuki frequentam.

...Por que você faria isso? Essa garota devia ter algum gosto masoquista.

— Aqueles dois estão namorando, não estão? Não seria estranho você entrar no mesmo cursinho?

— Claro que seria. Por isso eu precisaria de você lá também, Nukkun.

— Hã? Eu também teria que fazer cursinho?

Yakishio deu de ombros como se fosse óbvio.

— É claro. Era isso que teria acontecido se eu tivesse vencido. Nós dois entraríamos juntos para o Clube de Ir Direto para Casa.

— Eu não sabia que existia uma regra dessas nesse clube...

Apesar do nome descontraído, o Clube de Ir Direto para Casa era bem intenso.

— Se você estivesse comigo, eu não ficaria simplesmente espremida entre os dois, certo? Não seria tão estranho.

— Eles não se importam se a gente estiver lá, sabia? Simplesmente ficam se agarrando.

Yakishio sorriu, mostrando os dentes brancos.

— Então nós dois poderíamos reclamar bastante disso juntos.

— Quer dizer que eu só teria que ficar ouvindo você reclamar?

— Eu também ouviria suas reclamações, Nukkun.

Por que nós dois teríamos que frequentar o mesmo cursinho que aqueles dois? Nós quatro juntos, sempre com os dois se agarrando. Yakishio e eu formaríamos uma espécie de clube das vítimas, reclamando um com o outro no caminho de volta para casa...

— Na verdade, isso parece até divertido.

Uma juventude comum, cotidiana. Os olhos de Yakishio se iluminaram, e ela se inclinou na minha direção ao ouvir meu comentário casual.

— Não é? Nós quatro juntos, e nós dois tendo que assistir àqueles dois exibirem o namoro.

— Uwah, isso ia doer.

— Teríamos tanta coisa para reclamar que nem conseguiríamos prestar atenção na aula.

— Por favor, preste atenção nas suas aulas.

Olhamos um para o outro e rimos. Tudo por causa daquela rotina que parecia perfeitamente possível e que, ainda assim, nunca se realizaria.

— Você quer ter uma juventude normal, se apaixonar e essas coisas, certo? Você não vai conseguir arranjar namorado se ficar sempre comigo, Yakishio.

— Hmm, não é como se eu estivesse com pressa para arranjar um namorado.

Yakishio pareceu escolher cuidadosamente as palavras. Seu olhar vagou para o lado.

— Mitsuki é especial para mim, e isso não mudou. Então, até eu encontrar alguém que consiga amar mais do que ele... acho que fico bem sem namorado.

— Mas isso não significa que você tenha que ficar grudada em mim.

— Mas, sabe, ainda temos mais dois anos de ensino médio.

De repente, Yakishio se levantou do banco e se sentou na beirada da cama. A cama rangeu alto sob o peso dela, e uma mistura suave de desodorante e perfume chegou ao meu nariz.

Enquanto brincava com uma mecha de cabelo perto da orelha, ela disse:

— Ainda tenho dois anos, certo? Talvez até lá meu cabelo já tenha crescido.

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Ela abaixou o olhar, envergonhada.

A cada respiração da Yakishio, a fita em seu peito tremulava, e a cama rangia.

— Hmm? A capitã da equipe de atletismo usa rabo de cavalo, então não deve ter problema você deixar o cabelo crescer, certo?

Meu comentário casual fez Yakishio congelar. Depois de alguns instantes imóvel, ela soltou um longo suspiro.

— É por isso que eu não gosto dessa parte de você, Nukkun.

Yakishio desceu da cama e esticou os braços, entrelaçando os dedos.

— O que você quer dizer...

— Pensar em estudar para as provas, talvez arranjar um namorado algum dia... Acho que esse tipo de futuro também teria sido possível. Era isso que eu queria dizer.

Yakishio caminhou com passos leves até a janela e abriu as cortinas de uma vez.

— Mas eu prometo uma coisa. Não vou sair nem do Clube de Atletismo nem do Clube de Literatura.

A clara luz da manhã iluminou o lado de seu rosto, fazendo-o brilhar. Então, virando-se para mim com um sorriso radiante e infantil, ela disse:

— Então, sabe... vou parar de correr provas de velocidade e mudar para as provas de meio-fundo.

— Mas você...

Yakishio balançou a cabeça quando tentei responder.

— Até agora, eu sempre agi levando os outros em consideração, mas, de agora em diante, vou ser completamente egoísta. Vou vencer do meu jeito, e ninguém vai ter do que reclamar. E, se reclamarem, eu vou esmagá-los.

Com um sorriso, Yakishio declarou sua determinação.

— Eu não preciso de nenhum outro tipo de juventude. Não quero.

Aquilo não era autodestruição nem rebeldia. A luz de incerteza que antes oscilava nos profundos olhos castanhos da Yakishio tinha desaparecido completamente.

— Então você está falando sério em chegar ao nacional agora?

— Não. Eu não disse que estava tentando chegar ao nacional.

Yakishio soltou uma risadinha pelo nariz.

— Hã? Então...

— Eu vou conquistar o nacional. Porque eu consigo.

Ela queria dizer que pretendia ser a número um do país? Chegar ao topo de todos?

Pego desprevenido pela ambição grandiosa dela, vi Yakishio apontar diretamente para mim.

— Por isso, Nukkun, não tire os olhos de mim, está bem?

*

Relatório do Clube de Literatura — Edição Especial

"Eu Escolho Você", por Anna Yanami

Eu estava diante da loja de conveniência de sempre. Mas não conseguia entrar. A placa tinha sido retirada, e as janelas estavam cobertas por lonas.

Alguém falou comigo enquanto eu encarava o prédio.

— Ei, Ako-san. Essa loja de conveniência fechou?

O intruso desinformado era XX-kun. Ora, ora. Ele não sabia de nada. Na tarde anterior, eu tinha visto funcionários levando novas prateleiras para dentro do prédio.

Isso significava que a loja de conveniência voltaria a abrir assim que a reforma terminasse. Depois de responder a ele de qualquer jeito, tirei da bolsa três tipos diferentes de frango desossado.

XX-kun arregalou os olhos. Ora, ora. Eu sabia que ele não entenderia. A grande placa à beira da rua também tinha sido retirada, então era possível que uma rede diferente ocupasse o lugar depois da reforma.

Por isso, acordei cedo e comprei frango desossado de três redes diferentes. Meu plano era compará-los e prever qual rede abriria ali em seguida.

Comecei pelo primeiro.

Assim que dei uma mordida, o aroma das especiarias tomou minha boca. Mas o sabor também não ficava atrás. Depois que a fragrância subiu pelo nariz, o gosto da carne se espalhou por toda a minha boca.

Sim, estava decidido. Era aquele. Embora a decisão já estivesse tomada, para ser justa, eu também precisava avaliar o segundo.

A crocância da primeira mordida foi revigorante. A carne suculenta elevou ainda mais meu humor, que já estava nas alturas.

Era aquele. Estava decidido. Mas, dito isso, eu não podia deixar a terceira opção esfriar.

Apesar da aparência crocante, a farinha de empanamento fina dançou sobre minha língua. A cada mastigada, a textura e o aroma mudavam. Para ser sincera, era encantador. Aquele também era uma escolha definitiva.

...Bem, parecia que eu tinha escolhido todos.

Como não havia alternativa, comecei a planejar uma segunda rodada de avaliação, mas XX-kun continuava me encarando. Talvez ele também quisesse um pouco? Que ganancioso. Ainda assim, como ele sempre dividia a comida comigo, talvez eu devesse ser gentil de vez em quando.

Quando disse que ele podia dar uma mordida, XX-kun balançou a cabeça.

— Não gosto de comer depois dos outros. Vou passar.

Qual era a desse cara? Que grosseria.

Irritada, empilhei os três pedaços de frango e dei uma mordida enorme. Ele continuava me observando enquanto eu saboreava aquele banquete digno de um rei.

— Ako-san, onde você vai tomar café da manhã quando este lugar fechar?

Eu comeria em casa.

Afinal, o único motivo pelo qual eu tinha começado a frequentar aquele lugar era para ir à escola com OO-kun. Mas agora que ele tinha começado a sair com Jko-chan, eu não tinha mais motivo para vir até ali.

Mesmo assim, quanto mais eu via a expressão inquieta de XX-kun, melhor me sentia.

Ignorei-o e enfiei o restante do frango na boca. Que ele ficasse ansioso. Ele entenderia tudo quando a nova loja abrisse.

*

O dia seguinte à corrida era o último domingo de março. Eu estava sozinho diante do portão sul do Colégio Tsuwabuki, observando as nuvens passarem.

O ar já parecia de primavera. Não havia mais nenhum vestígio do inverno. A estação avançava implacavelmente.

Eu tinha forçado meu corpo dolorido a ir até ali por um único motivo: Tamaki-senpai e Tsukinoki-senpai planejavam aparecer antes de deixarem Toyohashi.

— Ei, você chegou cedo, Nukumizu-kun.

Yanami parou ao meu lado mordiscando uma pequena tira de alga kombu, talvez entrando em mais uma fase de sua dieta com alga para mastigar...

— Isso não é kombu para fazer caldo? Você vai machucar os dentes, sabia?

— É frango frito.

...Hã? Olhei de novo, mas Yanami estava, sem dúvida alguma, mastigando kombu.

— Ah... você costuma ouvir vozes vindo das paredes à noite? Está tudo bem com você?

— Não ouço nada. Nukumizu-kun, uma pessoa pode se queimar com uma colher fria se acreditar com força suficiente que ela está quente. Kombu pode ser frango frito ou até carne seca se você acreditar bastante.

Seguindo essa lógica, você também poderia engordar comendo kombu só de acreditar com força suficiente, não?

Yanami me lançou um olhar afiado enquanto roía a alga.

— Sobre o que você conversou com Lemon-chan na enfermaria ontem?

— Eu não te contei pelo telefone ontem? Ela vai mudar para as provas de meio-fundo e pretende chegar longe.

— Eu ouvi essa parte, Nukumizu-kun. Mas não é isso que estou perguntando.

Parecia que não era daquela conversa que ela estava falando. Yanami arrancou um pedaço da alga com os dentes da frente.

— Lemon-chan pediu para deixarmos vocês dois sozinhos, e você está me dizendo que foi só isso que vocês conversaram?

— Nós só conversamos sobre coisas normais. Nada que valha a pena mencionar.

— Se não é nada, então pode me contar, certo? Nukumizu-kun, você não pode passar na minha frente escondido, entendeu?

...Por que ela estava sendo tão irritante?

Enquanto respondia Yanami de qualquer jeito, lembrei-me da conversa que tinha tido com a Yakishio na enfermaria. Ela estivera um pouco diferente do normal. Mas aquilo também fazia parte dela.

O que eu tinha tocado naquele dia era apenas uma pequena fração de quem ela era. Se eu tivesse estendido a mão só um pouco mais, o que teria visto? Eu ainda não sabia nada sobre a garota chamada Lemon Yakishio...

— Ei, alguma coisa aconteceu mesmo, não aconteceu?

Yanami encarava meu rosto enquanto eu estava perdido em pensamentos.

— Eu já disse, não aconteceu nada. Yakishio não deveria vir hoje também? Onde será que ela está?

— É exatamente isso que alguém que está escondendo alguma coisa diria!

Ignorei aquela garota problemática e vi uma pequena aluna do Colégio Tsuwabuki caminhando em nossa direção a partir do prédio da escola.

Era Komari.

— O-O que vocês dois estão f-fazendo tanto barulho?

— Me escuta, Komari-chan! Nukumizu-kun está definitivamente escondendo alguma coisa que aconteceu ontem!

Komari soltou um bufo de desdém para Yanami, que se agarrava a ela.

— R-Relaxa. N-Nukumizu não tem c-coragem pra isso.

— É verdade. Afinal, é o Nukumizu.

Yanami se convenceu tão rapidamente que aquilo me deixou estranhamente incomodado.

— Komari, você viu a Yakishio?

Tentando mudar de assunto, perguntei, e Komari assentiu.

— A Y-Yakishio está encadernando a revista. E-Ela vem quando t-terminar.

— Lemon-chan terminou o manuscrito!

Yanami juntou as mãos, aliviada. De fato, a Yakishio tinha concordado em contribuir com a revista do clube que estávamos preparando para os veteranos, e todos esperávamos que ela terminasse o manuscrito.

Parecia que conseguiria entregar bem em cima da hora.

— Ei, os veteranos chegaram!

Yanami acenou os braços energicamente. Seguindo seu olhar, vi uma minivan se aproximar e parar diante de nós.

— Obrigada por virem se despedir, pessoal!

Tsukinoki-senpai saiu animada do banco do motorista e nos cumprimentou. Ela usava jeans de corte reto e uma camisa simples de gola, com uma toalha pendurada no pescoço.

— Koto, agradeça a todo mundo direito. Obrigado por terem vindo, pessoal.

Tamaki-senpai saiu do banco do passageiro, revirando os olhos como se estivesse cansado. Era a própria imagem de um namorado sobrecarregado. Komari e Yanami abraçaram Tsukinoki-senpai enquanto eu trocava um rápido aperto de mão com Tamaki-senpai.

— Fiquei sabendo, Nukumizu. Você conseguiu vencer a Yakishio.

— Foi com vantagem. Aquilo foi mais misericórdia do que qualquer outra coisa.

Tamaki-senpai olhou na direção das garotas e se inclinou para mais perto de mim.

— Não vou perguntar o que aconteceu entre vocês dois...

— Não aconteceu nada, tá?

— Bem, se vocês dois estão satisfeitos, então tudo bem. Não vou perguntar o que aconteceu.

— Eu disse que não aconteceu nada.

...Satisfeitos, é?

Eu não sabia o que a Yakishio tinha conquistado por meio daquela competição. Em um mundo onde vencer e perder importavam, era impossível evitar ferir alguém ou tirar alguma coisa de outra pessoa.

Às vezes, essa pessoa podia ser alguém de quem você gostava. Mesmo assim, ela tinha escolhido continuar.

— Nukumizu, cuide de todo mundo, está bem?

Tamaki-senpai disse aquilo enquanto dava um tapa nas minhas costas. O som foi alto, mas não doeu.

— Você também, senpai. Por favor, mantenha sua namorada sob controle.

— Não sei se consigo fazer isso.

Sorrimos um para o outro. Provavelmente eu continuaria encontrando os veteranos por aí. Mas o tempo que tínhamos passado juntos durante o ensino médio tinha acabado, e, dali em diante, nos encontraríamos novamente como indivíduos.

Reconstruir nossos relacionamentos a partir de uma posição diferente era um pouco inquietante, mas eu também estava ansioso por aquilo.

— A propósito, a Yakishio-san ainda não chegou?

— Ah, ela tinha uma coisa para resolver e acabou se atrasando um pouco...

Enquanto olhava ao redor, vi alguns pardais levantando voo do prédio.

No instante em que pensei que outro grupo de pássaros tinha alçado voo, Yakishio surgiu correndo de trás do prédio da escola. Ela chegou até nós rapidamente e apresentou um livreto grampeado.

— Desculpem a demora! Fiz esta revista do clube só para vocês dois!

O suor escorria por sua testa, mas seu sorriso radiante brilhava ainda mais.

— Vocês fizeram isso só para a gente?

Tsukinoki-senpai parecia não acreditar enquanto aceitava a revista com hesitação.

— Pegue uma também, Tamaki-senpai!

— Obrigado. Uau, isso significa bastante para mim.

Quando Tsukinoki-senpai abriu a revista, tirou os óculos e enxugou os olhos.

— Ah, droga. Eu estava tentando não chorar. Vocês me pegaram bem no final.

Tsukinoki-senpai folheou o conteúdo com os olhos úmidos e, então, sua expressão desapareceu imediatamente.

— Komari-chan, você não escreveu outro casal invertido do Dazai, escreveu?

— E-Ehehe, eu precisava e-escrever...

Komari corou com um sorriso tímido. Tsukinoki-senpai abriu um sorriso diabólico.

— Komari-chan, da próxima vez vamos ter uma conversa longa e agradável sobre essa sua história, está bem?

— C-Claro.

Komari respondeu com o mesmo sorriso maligno de Tsukinoki-senpai.

Tsukinoki-senpai olhou para o relógio e então voltou a atenção para mim.

— Bem, estou contando com você para cuidar do Clube de Literatura, presidente Nukumizu. Eu, por outro lado, estou prestes a começar meus dias tremendo de medo de repetir de ano em um lugar novo.

— Deixando de lado essa parte de repetir de ano, espero que esteja animada com sua nova vida.

Tsukinoki-senpai fez uma expressão levemente incomodada diante do meu comentário casual.

— Para falar a verdade, estou mais ansiosa do que animada. Afinal, só decidi sair de Toyohashi no outono.

— Hã, sério?

— Sim. Na verdade, eu amo muito minha cidade natal. Achei que seria bom continuar por aqui para sempre, entrando na sala do clube e ouvindo as pessoas dizerem "ah, lá está ela de novo"...

Tsukinoki-senpai passou lentamente os olhos por todos os nossos rostos.

— Depois de ver vocês, senti vontade de me esforçar pelos meus próprios objetivos. Queria dar um bom exemplo como veterana.

Tsukinoki-senpai tentou levar aquilo na brincadeira com uma risada, mas logo abaixou o olhar com uma expressão séria. Tamaki-senpai colocou uma mão em seu ombro.

— Está na hora de irmos, Koto. Vamos aproveitar a revista do clube depois. Pessoal, obrigado.

— É verdade, não temos muito tempo. Obrigada, gente. Vou ler tudo com calma depois que terminarmos a mudança e estivermos instalados.

Tsukinoki-senpai ergueu a cabeça, e seu rosto se abriu naquele sorriso astuto de sempre. Enquanto acenava e caminhava para entrar na minivan, virou-se novamente e apontou para nós com firmeza.

— Pessoal, a formatura chega num piscar de olhos! Então vivam sem arrependimentos e façam aquilo que amam!

Observamos a minivan partir apressadamente e permanecemos em silêncio, imóveis no mesmo lugar.

Eles tinham ficado ali por menos de dez minutos. Ainda assim, parecia que tudo tinha se encerrado perfeitamente com a partida dos dois.

— Certo, vou dar uma corrida rápida. Quer vir, Yana-chan?

Yakishio quebrou o silêncio com aquela sugestão repentina. Os olhos de Yanami quase saltaram das órbitas enquanto ela mastigava o segundo pedaço de kombu.

— Por que eu!?

— Você está comendo kombu, então deve estar de dieta, certo? Correr é a melhor maneira de emagrecer.

— Correr? Nem pensar. Meus joelhos têm doído ultimamente.

Yanami estava tão pesada que as rótulas tinham começado a ceder sob seu peso?

Enquanto as duas discutiam, afastei-me discretamente e percebi Komari, que já tinha se distanciado delas. Aproximei-me sem chamar atenção e lhe entreguei um presente embrulhado.

— O-O que é...?

— Amanhã é seu aniversário, certo? Afinal, você me deu alguma coisa no meu aniversário também.

— Ueh!? I-Isso...

Desviei o olhar para esconder meu constrangimento depois de praticamente empurrar o presente para as mãos dela.

— É só um chaveiro, mas tem areia de estrelas dentro. Não abra o frasco, está bem?

— O-Obrigada...

Komari murmurou baixinho e então ficou imóvel. Eu não conseguia ter certeza, mas esperava que ela tivesse gostado. Sentindo-me constrangido com aquele momento, virei-me para ir embora, mas Komari segurou a barra da minha jaqueta com os dedos.

— O que foi?

— E-E-Eu... ainda estou b-brava com você, sabia?

Talvez não tivesse sido uma ideia muito boa dar a ela, de aniversário, uma lembrança de um encontro com a Yakishio. Enquanto reconsiderava mentalmente a escolha do presente, Komari apertou ainda mais a barra da minha jaqueta e deixou a cabeça cair.

— F-Fazendo apostas estranhas sozinho, d-dizendo que sairia do clube se p-perdesse...

Ah, aquilo.

— Mas eu ganhei... certo, tá bom, desculpa.

Dessa vez, eu não tinha como discutir com ela por estar irritada. Pedi desculpas sinceramente, e Komari murmurou emburrada:

— F-Faça com que essa seja a única vez que você t-traia, tá?

Eu achava que tinha sido mais uma tentativa fracassada do que uma traição. Afinal, não tinha entrado para o Clube de Ir Direto para Casa.

Mas, em momentos assim, o silêncio valia ouro. Enquanto deixava Komari segurar minha jaqueta em silêncio, percebi um olhar penetrante cravado em nós.

— Sobre o que vocês dois estão cochichando? O que quer dizer com traição?

— Estamos falando do Clube de Literatura. Certo, Komari?

Passei a bola suavemente para Komari. Se ela simplesmente brigasse comigo como sempre, ninguém suspeitaria de nada...

— N-Não é uma coisa que eu p-possa contar para os outros...

Por algum motivo, Komari começou a mexer os dedos, envergonhada. Ei, por que você estava agindo de um jeito tão sugestivo? A expressão de Yanami mudou completamente, e a Yakishio a abraçou por trás.

— Nukkun traiu? Comigo? Então o que aconteceu ontem conta como traição!?

— Hã!? Do que você está falando, Yakishio!?

A bobagem de Yakishio deixou a expressão de Yanami ainda pior.

— Vocês fizeram alguma coisa na enfermaria, não fizeram!? Você traiu, Nukumizu-kun!

— Eu continuo dizendo que não aconteceu nada! Certo, Yakishio?

Percebi minha derrota no instante em que me virei para ela em busca de confirmação. Yakishio exibia uma expressão travessa por cima do ombro de Yanami.

— Bem, acho que não é uma coisa para contar aos outros. Que tal mantermos isso como nosso segredinho?

Yakishio abriu um sorriso malicioso. Ao ouvir aquilo, Komari apertou ainda mais a barra da minha jaqueta.

— S-Se mata.

O que essas garotas tinham contra mim?

Yanami empurrou um pedaço de kombu em direção ao meu rosto.

— Você ainda tem tempo de confessar seus erros, Nukumizu-kun.

— C-Confesse seus pecados e m-morra.

— Nukkun, vou levar nosso segredo para o túmulo. Pode ficar tranquilo.

Cercado por três garotas problemáticas, não consegui evitar erguer os olhos para o céu. As nuvens parecidas com algodão observavam tranquilamente a agitação lá embaixo.

Fiquei encarando as nuvens flutuantes e soltei um suspiro baixo.

...Eu realmente teria que cuidar dessas garotas sozinho dali em diante?

Talvez eu devesse ter perdido a corrida.

*

Relatório do Clube de Literatura — Edição Especial

"Corra, Corra, Corra", por Lemon Yakishio

Corra, corra, corra.

Eu corria rápido.

Mais rápido que meus amigos, mais rápido que o papai. Eu era a mais rápida. Quando olhava para trás, via a mamãe sorrindo muito. Eu ficava tão feliz que corria ainda mais rápido e me tornava ainda mais veloz.

Corra, corra, corra.

Para fazê-la sorrir ainda mais, corri com todo mundo da cidade. Havia muitas pessoas rápidas, mas eu era a mais rápida. Quando olhava para trás, todos estavam sorrindo, então eu ficava feliz e me esforçava ainda mais.

Corra, corra, corra.

Querendo fazer ainda mais pessoas sorrirem, fui correr numa cidade grande. Mas, na cidade grande, havia muitas pessoas que corriam mais rápido do que eu. Eu não queria perder, então corri muito, mas todos continuavam passando por mim.

Não importava o quanto eu me esforçasse, todos continuavam me ultrapassando. Fiquei com tanto medo que já não conseguia olhar para trás.

E se ninguém estivesse mais sorrindo?

Pensar nisso me assustava tanto que eu já não conseguia correr, e as lágrimas começavam a cair.

Enquanto eu chorava debaixo de uma árvore, uma tartaruga me desafiou para uma corrida. Muito mais lento do que eu, Tartaruga-san continuava me desafiando.

Perguntei se ele não tinha medo de perder, já que continuava me desafiando mesmo perdendo todas as vezes.

— É assustador, mas eu corro porque você está chorando — respondeu ele.

Depois de correr com Tartaruga-san várias e várias vezes, minhas lágrimas secaram completamente.

Quando percebi, eu já conseguia correr sozinha outra vez.

Parei de olhar para trás.

Não porque estivesse com medo, mas porque sabia, mesmo sem olhar...

Todos sempre tinham me empurrado para a frente.

Por isso, agora eu apenas corria em linha reta.

Corra, corra, corra.

📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag e revisado por Shisui

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Fim da leitura

Capítulo 71 concluído

Volume 6 – Capítulo 4 – Capítulo 4: A Garota Chamada Lemon Yakishio