Todas Essas Heroínas Perdedoras! — Capítulo 83: Volume 7 – Capítulo 3 – Capítulo 3: Deixe Isso para os Especialistas

Todas Essas Heroínas Perdedoras!
Cap. 83
0%
Todas Essas Heroínas Perdedoras!

Volume 7 – Capítulo 3 – Capítulo 3: Deixe Isso para os Especialistas

Capítulo 83

16.971 palavras~74 min de leitura

NO DIA SEGUINTE A TERMOS CONCORDADO, ainda que a contragosto, em ajudar com toda aquela confusão, chegou a hora do almoço. Na escadaria de emergência do prédio antigo da escola, apoiei-me no corrimão do patamar e enfiei o canudo em uma caixinha de leite.

— Desculpem chamar vocês dois assim, do nada.

Sentados nos degraus à minha frente estavam Mitsuki Ayano e Hiroto Sakurai. Ayano desembrulhava o bentô.

— Nukumizu, você disse que tinha algo importante para conversar, não foi? O que aconteceu?

Ayano perguntou enquanto colocava na boca um ovo de codorna enrolado em bacon. Os pais dele adoravam cozinhar, então o bentô dele era sempre colorido e variado.

— Estou pronto. Pode contar o que for.

Sakurai-kun disse isso com um sorriso sereno enquanto pegava com os hashis um pouco de fuki cozido.

(N/SLAG: Um vegetal levemente amargo, tradicionalmente usado também para fins medicinais)

Recentemente, ele começara a preparar o próprio bentô e até fazia um para a presidente do conselho estudantil todos os dias.

Casem logo de uma vez.

— Obrigado. Na verdade, preciso conversar com vocês sobre uma caloura de quem estamos cuidando no Clube de Literatura.

...Bom, a essa altura, não adiantava esconder nada. Respirei fundo e comecei a explicar, passo a passo, tudo o que tinha acontecido. Depois de ouvir a história inteira, Ayano abaixou os hashis e inclinou a cabeça.

— Tem certeza de que pode contar tudo isso para a gente?

— Não é algo para sair espalhando por aí, mas pedi a permissão dela.

Eu não tinha confirmado exatamente até onde ia aquela permissão, mas devia estar tudo bem. Provavelmente.

— Eu tinha ouvido alguma coisa, mas não conhecia a história toda.

Sakurai-kun disse isso com aquele sorriso levemente cansado de sempre, encarando a bardana enrolada em carne presa entre seus hashis.

— Ela disse que queria colocar os próprios sentimentos em ordem, mas a pessoa envolvida é o cunhado dela. Não é como se ela pudesse simplesmente se declarar, levar um fora e encerrar o assunto. Não sabemos o que ela pode acabar fazendo.

Ayano assentiu e voltou a pegar os hashis.

— Ela já teve problemas com a polícia. Se acontecer algo assim de novo, uma suspensão não vai ser suficiente.

Ao receber o olhar de Ayano, Sakurai-kun ergueu os olhos para o céu, pensativo.

— Não sou professor, então não tenho certeza, mas... nunca ouvi falar de alguém ser suspenso duas vezes em um intervalo tão curto.

Se ninguém nunca ouviu falar, basicamente significava que isso não acontecia.

Terminei meu leite e me virei para os dois.

— Por isso preciso da opinião de vocês. Acabei concordando em ajudá-la, mas queria evitar qualquer coisa ilegal. Só que eu sou homem, então não entendo muito bem os sentimentos das garotas. Esperava que vocês dois pudessem me ajudar a pensar em algum plano com o qual ela ficasse satisfeita.

Silêncio. Os dois trocaram olhares confusos antes de responderem, hesitantes.

— Nukumizu, nós também somos homens, sabia?

— É. Não seria melhor perguntar para as garotas do Clube de Literatura?

Eu sabia que eles diriam isso. Olhei seriamente para os dois.

— Escutem. Eu percebi uma coisa ao longo deste último ano: as garotas do Clube de Literatura não contam como garotas.

Os dois fizeram uma expressão de quem tinha algo a dizer, mas acabaram fechando a boca de novo.

— Na verdade, vocês dois provavelmente têm mais bom senso sobre isso e podem ser mais úteis.

Depois de pensar por alguns instantes, Ayano assentiu com uma expressão complicada.

— Posso perguntar discretamente para algumas conhecidas, mas não espere muita coisa.

— Eu também posso sondar algumas opiniões, mas não diria que tenho confiança em entender os sentimentos das garotas.

Isso já era mais do que suficiente. Ficar no Clube de Literatura realmente acabava com a noção do que era normal ou não.

— Você também devia se apressar e comer, Nukumizu-kun. O sinal já vai tocar.

Sakurai-kun disse isso enquanto guardava a caixa de bentô, já vazia. Ah, já estava tão tarde assim? Melhor comer logo. Se eu deixasse meu almoço para o próximo intervalo, Yanami podia acabar devorando tudo...

Enquanto ouvia a conversa dos dois, que já tinham terminado de comer, abri o pacote do pão de curry. Pensando bem, as garotas que eles conheciam eram… Um rosto familiar surgiu na minha cabeça.

Empurrei aquele pensamento à força para o fundo da mente e dei uma mordida no pão de curry.

*

Depois das aulas, a sala do clube estava tomada por uma atmosfera tensa. Yanami e Komari encaravam em silêncio os envelopes que a Riko Shiratama havia colocado sobre a mesa.

Eram três envelopes grandes, espaçosos o bastante para guardar cadernos ou folhas A4. Em cada um deles havia uma palavra escrita em letras grandes: Pinheiro, Bambu e Ameixeira.

— Pensei em três planos ontem à noite, Presidente escolha o que preferir.

Ela me incentivou do outro lado da mesa.

Esquece essa história de qual plano eu prefiro. Eu nem sou o tipo de pessoa que gosta de escolher...

— Vamos, Presidente. Escolha logo.

— A-Ande logo e e-escolha um, Presidente.

Yanami e Komari começaram a me pressionar pelos dois lados. Essas garotas só me chamavam de Presidente em momentos como aquele. Depois de hesitar bastante, peguei o envelope marcado como Bambu.

Uma escolha tipicamente japonesa: valorizar o meio-termo.

— Hã? Panfletos de imóveis...?

Dentro do envelope havia o anúncio de uma casa para alugar na cidade. A propriedade ficava nas montanhas ao norte da Estação Futagawa. Uma casa completamente isolada.

— Encontrei um imóvel maravilhoso em Futagawa. Não tem nenhuma casa por perto e ainda ganha pontos extras por ter um porão—

Antes que ela terminasse de explicar, enfiei o panfleto de volta no envelope.

— Posso ver os outros?

— Presidente, não quer que eu explique o plano?

Não. Num misto de pressa e desespero, peguei o envelope marcado como Pinheiro. Dessa vez era um folheto de viagem. Na capa havia uma enorme foto de um elegante bangalô sobre a água.

— Hã... o que é isso?

— Onee-chan e o Tanaka-sensei vão para o Taiti na lua de mel. Eles vivem tão ocupados que queriam aproveitar para relaxar um pouco.

Antes que a Shiratama-san terminasse de falar, Yanami arrancou o folheto das minhas mãos.

— Uau, isso parece incrível! Uma noite romântica sob as estrelas—

Com os olhos sonhadores, Yanami contemplou o folheto. Mas seu olhar rapidamente perdeu o brilho.

— Entendi. Depois do casamento vem a lua de mel, né? Entendi...

Meu Deus, lá vai ela de novo. Fiz um sinal para Komari, que colocou um doce Hoshiume na boca de Yanami.

(N/SLAG: Ameixa seca adoçada com açúcar mascavo)

Com um olhar sem vida, Yanami mastigou lentamente o doce enquanto eu retirava delicadamente o folheto de suas mãos.

— Então, qual é o plano?

— Onee-chan e eu somos praticamente idênticas vistas de costas. Se eu alugar o chalé ao lado do deles, posso entrar escondida durante a noite e trocar de lugar com ela—

Enfiei o folheto de volta no envelope imediatamente. Só restava o envelope marcado como Ameixeira. Fiz uma prece antes de abri-lo. Dentro havia alguns documentos e catálogos.

— Isso é o catálogo do local do casamento?

— Sim. São os materiais do casamento da onee-chan. Copiei tudo: catálogos, orçamentos, o mapa das mesas do dia da cerimônia e por aí vai.

As mãos de Shiratama-san pararam sobre a grossa pilha de papéis. Havia ali a foto de um vestido de noiva completamente branco, marcado por uma longa cauda.

— Quero vestir isso e tirar fotos na capela.

Ela balançou a cabeça de leve e virou a fotografia.

— Onee-chan sempre fez tudo primeiro. Então eu queria ter alguma coisa... só uma coisa que eu fizesse primeiro. Talvez assim eu conseguisse chamar o Tanaka-sensei de onii-chan.

Permaneci em silêncio, sem conseguir encontrar as palavras certas, enquanto Shiratama-san começava a organizar os documentos do casamento.

— É impossível, não é? Então vamos de Plano Pinheiro ou Bambu—

Bam! Inclinei-me para a frente e bati a mão sobre os papéis.

— Vamos com esse!

— Espera aí, Nukumizu-kun!?

Yanami entrou em pânico. Pensa bem. As outras opções são Pinheiro e Bambu, sabia? Shiratama-san piscou algumas vezes e ergueu os olhos para mim, arregalados.

— O vestido só vai chegar pouco antes do casamento, então vai ser difícil tirar fotos com ele, não acha?

— Sim, tirar fotos com exatamente esse vestido pode ser complicado, mas... e se usássemos outro vestido no lugar?

— Na capela?

— Na capela.

— Mais uma coisa.

O quê? Hã... isso não era suficiente? Enquanto eu hesitava, Shiratama-san se inclinou para mais perto.

— Por exemplo, e se eu tirasse uma foto a dois com Tanaka-sensei?

— Na capela?

— Na capela.

Shiratama-san assentiu com entusiasmo. Isso era impossível. Tirar uma foto a dois com ele na capela sem que percebesse era praticamente implorar para dar problema. Mesmo tendo sido ela quem sugerira aquilo, Shiratama-san também devia ter percebido que era quase impossível.

Os olhos dela se desviaram para os outros dois envelopes—

— Vamos fazer isso.

Os olhos de Shiratama-san brilharam ao ouvir minhas palavras.

— Então vamos começar—

Antes que ela terminasse a frase, Yanami e Komari me agarraram pelos braços e me arrastaram para o canto da sala.

— Hã? O que vocês duas estão fazendo?

— Você está falando sério que vai ajudar ela!? Eu não vou ser cúmplice de um crime!

— S-Se você quer m-morrer, morra s-sozinho!

Ora, ora. As duas estavam exagerando. Nós só estávamos falando de tirar uma foto. Invadir o local do casamento no dia da cerimônia, enganar o noivo para fazê-lo tirar uma foto—

— Espera. Isso é ilegal?

Yanami e Komari assentiram vigorosamente. Yanami suspirou, soltou meu braço e se virou para Shiratama.

— Shiratama-chan, eu entendo como você se sente, mas isso não vai ser fácil. Só alugar um vestido já custa uma fortuna, e ainda precisaríamos de um fotógrafo profissional. Vai sair caríssimo.

— Sim. É por isso que preparei isto.

Shiratama-san colocou um cartão sobre a mesa. Era um cartão bancário do Banco Toyohashi Shinkin, conhecido localmente como Toyoshin.

— Guardei todo o dinheiro que recebi em comemorações e de presente de Ano-Novo durante estes últimos quinze anos. Tenho um milhão de ienes.

— O quê!? — nós três exclamamos ao mesmo tempo.

Shiratama-san empurrou o cartão em nossa direção enquanto permanecíamos paralisados.

— Confio isso a vocês. Podem usar à vontade para este plano.

Não tinha como aceitarmos uma quantia tão grande de dinheiro. Sob a pressão dos olhares de Yanami e Komari, dei um passo à frente.

— Você tem razão. Vamos precisar de dinheiro para o plano. Mas, em vez de entregar o cartão para a gente, é melhor você mesma pagar o que for necessário conforme formos precisando.

— É isso mesmo, Shiratama-chan. Transporte, comida, despesas do dia a dia... tudo isso vai se acumulando.

Sim, é verdade, mas dá para parar de acariciar o cartão bancário desse jeito?

— Mas isso é o mínimo que posso fazer depois de envolver todos vocês nisso...

Shiratama-san disse isso em voz baixa, abaixando a cabeça. Se era assim que ela se sentia, então definitivamente não podíamos aceitar. Balancei a cabeça.

— Somos seus veteranos, Shiratama-san. Isso já é motivo suficiente para ajudarmos.

Komari assentiu vigorosamente.

— Muito obrigada, pessoal.

Shiratama-san enxugou as lágrimas que tinham se acumulado em seus olhos. Cocei a bochecha, um pouco sem jeito.

— Dito isso, vai ser complicado passar a perna na sua irmã e conseguir uma foto de vocês dois juntos.

Precisávamos analisar todo aquele material com cuidado e elaborar um plano detalhado—

...Espera aí. Nós vamos mesmo levar isso adiante? Komari parece estar começando a entrar na ideia, e a Yanami provavelmente só está interessada na grana.

— Da última vez, os seguranças me encontraram rápido porque eu não conhecia bem a planta do prédio. Primeiro vamos ter que fazer um reconhecimento completo do interior—

Os olhos de Shiratama-san brilharam enquanto ela começava a expor o plano.

— Hã, Shiratama-san. Posso falar com você um instante?

— Sim, Presidente?

Ela me encarou com os olhos cintilantes. Bom... como é que eu digo isso? Em vez de rejeitar a ideia dela diretamente, eu devia reconhecer a proposta, apontar os problemas com delicadeza e encontrar alguma forma de fazê-la desistir sem—

Enquanto eu pensava nisso, vozes e passos ecoaram pelo corredor. Então, com um estrondo, a porta da sala do clube se abriu de uma vez.

— Com licença!

Quem surgiu de repente foi Hibari Hokobaru, a presidente do conselho estudantil. Depois de fazer uma reverência educada para nós, ela marchou diretamente até Shiratama-san.

— Você é a Riko Shiratama-kun, correto?

— Ah, sim... você é a presidente do conselho estudantil...?

Shiratama-san ficou imóvel na cadeira. Com a expressão de sempre, a Presidente jogou dramaticamente os cabelos para trás.

— Ora, esqueci de me apresentar. Sou Hokobaru, presidente do conselho estudantil. Fiquei sabendo de tudo, Riko-kun!

— Hã!? De tudo o quê?

Sakurai-kun entrou na sala logo depois, sem fôlego.

— Eu... falei... para você esperar, Hiba-nee...

Depois de recuperar o fôlego, Sakurai-kun se aproximou da Presidente.

— Não saia gritando e assustando todo mundo desse jeito. Vamos, é melhor irmos embora. Estamos atrapalhando aqui.

— Espere, Hiroto. Ainda não terminamos.

A Presidente ignorou a tentativa de Sakurai-kun de detê-la e colocou as mãos sobre os ombros de Shiratama-san.

— Hã? Ah...

— Um amor secreto que desafia as normas da sociedade! A determinação de contra-atacar mesmo enquanto esconde sentimentos tão profundos! Como mulher, estou profundamente comovida. Gostaria de oferecer minha ajuda!

A voz da Presidente ecoou por toda a sala. Sakurai-kun ergueu os olhos para o teto, exasperado. Shiratama-san, que permanecera congelada, abriu a boca timidamente.

— Hã... Presidente, onde você ficou sabendo disso...?

— Ah, ouvi tudo daquele Hiroto ali. Não precisa se preocupar. Ele é praticamente da família para mim.

Sakurai-kun juntou as mãos e fez uma reverência profunda. ...Eu tinha a impressão de que isso acabaria acontecendo.

— Então, só para confirmar. Aquilo que eu contei para o Presidente acabou chegando até você, Presidente?

— Exatamente.

...Creeec.

Ao ouvir isso, Shiratama-san virou lentamente o rosto sério em minha direção. Nossa, eu não sabia que Shiratama-san conseguia fazer uma expressão dessas. Entendi… Enquanto enxugava o suor frio com um lenço, Yanami deu um passo à frente, mastigando um doce Hoshiume.

— Presidente-senpai, o que você quis dizer com oferecer ajuda?

— Quanto mais pessoas estiverem envolvidas, maiores serão as chances de causarmos uma impressão inesquecível.

A Presidente pegou o folheto do local do casamento e começou a folheá-lo.

— Hmm. Então é uma missão de vingança?

— Hã? Vingança?

A Presidente assentiu enquanto examinava o material.

— Vocês pretendem se infiltrar novamente no local do casamento e roubar o vestido da noiva, correto?

— Hã, não. Já desistimos de roubar o vestido da noiva. Em vez disso, estamos planejando tirar escondidos algumas fotos de casamento da Shiratama-san com o Tanaka-sensei.

— ? Isso não vai ser difícil?

— Sim, mas tem um pouco mais de—

— Presidente, você está aqui!?

Uma voz me interrompeu. Era Tiara-san. Depois de uma rápida reverência, ela entrou na sala do clube a passos largos.

— Sensei está esperando. Hoje é a reunião sobre as eleições do conselho estudantil.

— Certo. Eu preciso mesmo estar lá?

— É claro! Shikiya-senpai está ganhando tempo por você, então venha logo!

— Entendido. Shiratama-kun, posso pegar este material emprestado por um tempo?

— Ah, sim. Posso explicar os detalhes depois.

Tiara-san arrastou a Presidente para fora da sala. Assim que soltei um suspiro de alívio, Tiara-san voltou sozinha e lançou um olhar penetrante para mim.

— Hã? O que foi?

— Nukumizu-san. Você não está tentando fazer a Presidente se envolver em alguma coisa errada, está?

— Nem ferrando…

— Por que você respondeu desse jeito?

Tiara-san estreitou os olhos e ficou encarando meu rosto. Eu não estou mentindo. É a Presidente que está insistindo em participar.

— Não vou perdoá-lo se você fizer qualquer coisa que manche a reputação da Presidente, Nukumizu-san.

Depois desse aviso severo, ela foi embora. ...Finalmente, a tempestade tinha passado. Sakurai-kun, que permanecera ali sem saber o que fazer, virou-se para nós com o rosto pálido.

— Hã... eu nem sei como pedir desculpas por isso...

Yanami balançou a cabeça e lhe ofereceu um doce Hoshiume.

— Não se preocupe, Sakurai-kun. A culpa disso tudo é do Nukumizu-kun, que não consegue manter a boca fechada, não é?

— Hã? A culpa é minha?

Yanami e Komari assentiram ao mesmo tempo. É. Eu fiz besteira. E a Shiratama-san está fazendo uma expressão que eu nunca vi antes...

*

Enquanto seguia em direção ao bicicletário da escola, li uma mensagem da Presidente.

Atualmente, eu vou à escola de bicicleta. Meus pais descobriram, durante o terceiro trimestre do meu primeiro ano, que eu estava usando o trajeto até a escola como parte do meu treinamento e, por isso, decidiram não renovar meu passe de trem.

— Amanhã tem escola de novo...

Apesar de o dia seguinte ser feriado, a Presidente havia convocado o Clube de Literatura para se reunir na sala do clube. A propósito, eu sou o presidente do Clube de Literatura. Se o clube acabar sendo dissolvido, talvez sobreviver como subordinado do conselho estudantil não seja uma opção tão ruim...

Ao chegar ao bicicletário, percebi uma figura pequenina e adorável sentada no bagageiro traseiro da minha querida bicicleta.

Era a Shiratama-san. Parei a certa distância dela.

— Você ainda não foi embora?

— Não. Esqueci uma coisa.

O sorriso perfeito de sempre. Hã... ela deve estar brava comigo por ter deixado o conselho estudantil descobrir tudo, não é?

— O que foi? Você não vai para casa?

— Ah, sim. Estou indo.

Abaixei a cabeça e passei por Shiratama-san—

— Sua bicicleta está aqui, Presidente.

— Ah, verdade. Ando tão esquecido ultimamente.

...Ela me pegou tentando passar direto.

Mesmo depois de eu destrancar a bicicleta, Shiratama-san não saiu de sua adorável posição no bagageiro.

— Hã, Shiratama-san...?

— Sim? O que foi, Presidente?

Sorriso, sorriso, sorriso.

Tudo o que consegui fazer foi responder com um sorriso forçado. ...Droga. Minha dignidade como veterano está indo pelo ralo. Eu só contei aquilo porque ela tinha dito que não havia problema em compartilhar com as pessoas que fossem colaborar conosco. Não saí por aí revelando o segredo dela irresponsavelmente.

É. Eu não fiz nada pelo que precise me desculpar.

— Presidente, estou um pouco brava.

— Quero pedir desculpas.

Dito isso, às vezes era importante se desculpar sinceramente. Quando fiz uma reverência profunda, a voz de Shiratama-san veio de cima.

— Eu confiei em você porque você é o presidente, sabia?

— Hã... você disse que eu podia falar sobre isso...

— Claro que não tem problema contar para as pessoas que vão acabar envolvidas. Mas quem imaginaria que o conselho estudantil ficaria sabendo?

Sim, ela tinha razão. Sem conseguir responder nada, mantive a cabeça abaixada. Shiratama-san não conseguiu mais se conter e começou a rir baixinho.

— Pode levantar a cabeça. Eu não estou realmente brava.

— Mas é verdade que eu acabei contando para o conselho estudantil...

— Eu só fiquei um pouquinho emburrada porque achei que fosse um segredo só nosso.

Shiratama-san desceu do bagageiro e fechou as mãos em punhos diante do peito.

— Todo mundo está fazendo tanto por mim. Então eu me decidi.

— Hã!? Mas, se você fizer alguma loucura—

Quando recuei por instinto, Shiratama-san rapidamente encurtou a distância entre nós. Um aroma adocicado, parecido com leite, chegou até mim.

— Foi você quem acendeu esse fogo, Presidente.

Os longos cílios emolduravam seus olhos úmidos. Um sussurro escapou de seus pequenos lábios rosados.

— Agora você precisa assumir a responsabilidade.

*

Na manhã seguinte, esfreguei os olhos ainda sonolentos enquanto me sentava a uma mesa na sala do Clube de Literatura. Apesar de ser feriado, Yanami, Shiratama-san e eu atendemos à convocação da Presidente.

De pé ao lado da mesa, com os braços cruzados, a Presidente passou os olhos por nós.

— São todos? Ontem tinha mais uma pessoa aqui.

— Komari espiou a sala pela janela agora há pouco, mas saiu correndo. Pode começar.

A Presidente assentiu e prendeu uma grande folha de papel no quadro branco que trouxera. Nela, escrito em caligrafia, estava: Quartel-General do Plano de Vingança da Riko Shiratama

Shiratama-san levantou a mão timidamente.

— Hã, o que é esse "Plano de Vingança" escrito aí?

— Ahh, pedi para minha avó escrever para mim hoje de manhã. Ela tem certificação de mestre em caligrafia.

Entendi. Por isso estava tão bem-feito. E provavelmente não era essa a resposta que a Shiratama-san queria ouvir. A Presidente abriu uma cadeira dobrável e se sentou pesadamente.

— Vamos discutir o plano. Quais são os objetivos atuais? Até onde avançaram os preparativos?

— Hã...

Ao perceber que a Shiratama-san estava um pouco intimidada, intervim.

— Nós acabamos de definir o objetivo. Fora isso, ainda não decidimos nada.

A Presidente assentiu e colocou uma folha de papel sobre a mesa.

— Então, o que acham de pedir ajuda a uma especialista? Encontrei isto por acaso ontem.

Era um panfleto artesanal que dizia: "Para suas necessidades de investigação sigilosa, entre em contato com a Consultoria de Investigações Tsuwabuki!"

— Uau... o que é isso, Presidente-senpai?

Yanami se inclinou para a frente enquanto comia seu segundo onigiri do café da manhã.

O panfleto estava cheio de expressões como "sigilo absoluto", "totalmente dentro da lei", "sem taxa básica" e "patente pendente", todas escritas em fontes alegres.

Era o tipo de anúncio independente suspeito que às vezes aparecia colado em postes.

— Ei, Presidente. Isso não parece meio suspeito?

— Não precisa se preocupar. É apenas um aluno do Colégio Tsuwabuki realizando uma pesquisa independente. É alguém confiável.

Tem alguém na nossa escola fazendo esse tipo de coisa...? Uma pessoa me veio à cabeça. Não. Não podia ser. Enquanto eu começava a ficar inquieto, a Presidente olhou para o relógio na parede.

— Já está quase na hora. Marquei uma consulta.

— Hã?

Como se tivesse sido combinado, alguém bateu à porta. Ela se abriu lentamente, revelando uma garota conhecida. Ela fez uma reverência, com a testa reluzindo.

— Sou Chihaya Asagumo, da Consultoria de Investigações Tsuwabuki, e esta é—

De trás dela surgiu outra garota que eu conhecia muito bem.

— Sou Kaju Nukumizu, assistente dela. Faremos o nosso melhor.

As garotas do Clube de Literatura fixaram os olhos em mim. Não, isso não é culpa minha, certo...?

É. Provavelmente não.

*

Asagumo-san, da Consultoria de Investigações Tsuwabuki, escreveu em letras grandes no quadro branco as palavras "Informação" e "Preparação", circulando as duas.

— O primeiro passo é reunir informações e nos prepararmos com antecedência. E—

Ela escreveu "Objetivo" em letras ainda maiores.

— É fundamental que todos da equipe compartilhem o mesmo objetivo. Riko-san, quando será o casamento?

— Ah, sim. No próximo sábado.

O casamento aconteceria dali a nove dias, no primeiro fim de semana depois do feriado da Golden Week.

Asagumo-san assentiu e começou a escrever no quadro branco, em sequência, todas as datas daquele dia até a data do casamento.

— Temos um prazo fixo, então, em vez de controlar o progresso por marcos, vamos trabalhar com tarefas. Primeiro compartilharemos todas as informações e identificaremos as tarefas necessárias. O feriado da Golden Week começa depois de amanhã, então vamos usá-lo para concluir os preparativos.

Então vamos passar a Golden Week deste ano nos preparando para cometer um crime.

Legal...

Depois de terminar o calendário no quadro branco, Asagumo-san se virou para nós.

— O objetivo está claro: precisamos tirar fotos de casamento do Tanaka-sensei e da Riko-san no dia da cerimônia sem sermos descobertos.

...O problema era justamente essa condição. O caminho até o sucesso era estreito, com obstáculos demais pelo percurso. Ao ver todos em silêncio, levantei a mão discretamente.

— Hã... talvez precisemos ser flexíveis com o objetivo dependendo da situação.

— Mesmo que seja necessário ajustar o objetivo, ainda precisamos reunir informações. Primeiro, vamos analisar a situação atual.

Ao sinal de Asagumo-san, Kaju ligou o projetor que havia preparado. Na parede branca apareceu uma imagem aérea do mapa da cidade. O local do casamento se destacava em uma área próxima ao centro. Ficava perto do Parque Mukaiyama Oikecho e ao lado do Colégio Provincial Kirinoki.

— O local é bem isolado do lado de fora, então só conseguimos ver o interior pelas fotos disponíveis no site. Riko-san, você conhece a disposição interna?

Shiratama-san balançou a cabeça em silêncio.

— Entender a planta interna é nossa maior prioridade. Para essa parte, vou passar a palavra para minha assistente.

Quando Asagumo-san saiu para o lado, Kaju assumiu a apresentação.

— Fiz uma inspeção no local hoje de manhã.

— Hã? Quando? Como eu não fiquei sabendo?

Afinal, Kaju tinha preparado meu café da manhã e separado minhas roupas. Ela piscou para mim e continuou.

— O gerente estava na entrada, então tive a oportunidade de conversar com ele. O local realiza apenas dois casamentos por dia e oferece cerimônias privativas no jardim.

Kaju mexeu no smartphone e projetou algumas fotos na tela.

— Para garantir a privacidade, todo o local é cercado por muros, e a entrada principal é o único acesso. No dia do evento, apenas pessoas ligadas à família da Riko-san conseguirão entrar.

...Entendi. Isso não ia ser fácil. Como era um evento privado, não poderíamos fingir que éramos convidados de outra cerimônia.

— Mas, Kaju, eles não acharam suspeito você ficar fazendo perguntas sobre o local?

— Não. O gerente era um cavalheiro. Ele até me deu o cartão de visitas dele.

Cavalheiro. Então era um homem, hã? Bom, o gênero dele não faz diferença.

— Deixa eu ver esse cartão. Kaju, você não deu suas informações de contato para ele, deu?

Quando tentei me levantar, Yanami me puxou de volta para a cadeira.

— Senta aí, Nukumizu-kun. Imouto-chan, deixando a investigação de lado, qual foi a sua impressão do lugar?

— Sim, o lugar tem uma atmosfera maravilhosa! A Kaju adoraria realizar o próprio casamento lá algum dia!

Kaju juntou as mãos diante do peito, com os olhos brilhando, enquanto olhava diretamente para mim. A Presidente, que escutava tudo em silêncio, cruzou as pernas e assumiu uma expressão pensativa.

— Hmm, então primeiro precisamos investigar o local. Kaju-kun, você deve ter alguma ideia, não é?

Kaju assentiu com um sorriso.

— Sim. Vai ter uma visita guiada neste sábado. Uma vaga ficou disponível por causa de um cancelamento, então já fiz a nossa inscrição.

Nossa, ela está mesmo preparada. Inscrever a gente numa visita a um local de casamento—

— Espera aí, não é estranho participar disso sem ter casamento marcado? Além disso, somos estudantes do ensino médio.

Asagumo-san sorriu como se aquilo não fosse problema algum.

— Ora, basta realizarmos nosso casamento lá no futuro. Agora, vamos decidir quem participará da visita.

Asagumo-san passou lentamente os olhos por todos nós.

— Yanami-san, por que você está se levantando?

— Hã? Bom, precisa ser alguém que pareça adulto, não é?

— Sim, é verdade. É justamente por isso que você deve se sentar.

Enquanto fazia Yanami voltar para a cadeira, comecei a pensar. Um estudante do ensino médio que conseguisse passar por adulto tanto na aparência quanto no comportamento seria difícil de encontrar—

— Hmm? O que foi, pessoal?

Todos os olhares se voltaram para a Presidente. Asagumo-san se aproximou dela.

— E você, Presidente? Poderia participar da visita?

— Eu adoraria ajudar, mas tenho uma cerimônia memorial no sábado. É o quinquagésimo aniversário de falecimento do meu bisavô. Não posso simplesmente faltar.

Os olhos da Presidente brilharam. Ela parece exatamente o tipo de pessoa que gosta de participar de cerimônias memoriais...

— Então não tem jeito. Yanami-san, que tal se sentar?

Isso era um problema. Se a Presidente não podia ir, quem poderíamos chamar? Percebendo nosso impasse, ela se pronunciou.

— Vamos pedir à Shikiya. Podemos confiar que ela manterá tudo em segredo.

Shikiya-san, hã...? Ela realmente parece adulta, mas será que dá para confiar nela? Ignorando minhas preocupações, Kaju escreveu o nome de Shikiya-san no quadro branco.

Asagumo-san inclinou a cabeça de maneira adorável enquanto colocava um dedo no queixo.

— E quem deveria ser o par dela? Alguém tem alguma pessoa em mente?

Hmm... alguém que consiga ficar ao lado de Shikiya-san sem parecer deslocado—

Ah!

— E o Ayano? Ele parece mais velho e, se vestir um terno—

— Não.

Asagumo-san me interrompeu com firmeza.

— Hã? Mas ele—

— Não. Ele não serve.

Ela sorriu docemente para mim. Os olhos dela, porém, não estavam sorrindo.

— Ele tem um compromisso inevitável nesse dia. Nukumizu-san, se você quiser, posso inventar uma cerimônia memorial para você também—

— Certo, então esquece o Ayano! Presidente, você conhece alguém que sirva?

Mudei rapidamente de assunto, e a Presidente deu de ombros, impotente.

— Não quero envolver gente demais de fora. O ideal seria manter tudo restrito ao Clube de Literatura ou ao conselho estudantil.

Tamaka-senpai—

Não. A namorada dele não consegue ficar de boca fechada, e seria um desastre se alguma coisa desse errado. Enquanto eu quebrava a cabeça, Yanami murmurou com uma expressão contrariada:

— Então por que você mesmo não faz isso, Nukumizu-kun?

— Hã?

— Se você tem tantas objeções, significa que consegue fazer perfeitamente, não é?

Yanami me lançou um olhar atravessado enquanto abria seu terceiro sanduíche de café da manhã em quinze minutos.

— Espera aí. Não tem como eu conseguir fingir que sou adulto.

— Não, acho que não é uma ideia ruim.

— Hã?

A Presidente se levantou e deu um tapinha no meu ombro.

— Você é razoavelmente alto. Com a roupa certa e um pouco de maquiagem, acho que pode funcionar. O que os outros acham?

A primeira a levantar a mão foi Kaju.

— Eu adoraria ver o onii-sama de terno! Eu mesma poderia ser o par dele, e poderíamos aproveitar para nos casar ali mesmo—

Não. Isso é absurdo. Levantei-me e conduzi delicadamente a empolgada Kaju até uma cadeira no canto da sala.

— Kaju, você já tem compromisso com suas amigas nesse dia, não tem? Lembra? Vocês vão ao parque de diversões em Hamamatsu.

— Não vou.

Kaju desviou o olhar. Peguei meu celular.

— Nós compartilhamos um calendário. Você não consegue esconder essas coisas de mim.

— Ugh... mas a Kaju queria tanto se casar com o onii-sama...

Para começo de conversa, ninguém vai se casar.

— Então está decidido. Nukumizu-san será o participante.

Sem me dar qualquer oportunidade de reclamar, Asagumo-san escreveu meu nome no quadro branco e fez um círculo em volta dele. Observando o quadro agora preenchido, Asagumo-san assentiu satisfeita.

— Muito bem. Vamos começar os preparativos para a visita de sábado. Eu fornecerei os equipamentos necessários para a investigação, mas vocês conseguem providenciar as roupas para o dia?

...Roupas? Acho que um terno deve servir. Eu podia pegar um emprestado do meu pai, mas ainda sou apenas um estudante do ensino médio...

— Hã... vocês têm certeza de que eu—

Antes que conseguisse terminar, a Presidente bateu palmas.

— Muito bem, temos bastante coisa para fazer! Riko-kun, já resolveu a questão do vestido de noiva?

— Ah, sim. Encontrei um bom de segunda mão——

Shiratama-san interrompeu a própria frase e, de repente, ficou de pé.

— Presidente!

— O que foi, Riko-kun?

— Por que... você está fazendo tudo isso por mim?

Por um instante, a Presidente ficou sem saber o que responder quando Shiratama-san se aproximou dela.

— Presidente, suas provas estão chegando, e você ainda é responsável pelo conselho estudantil. Você não devia estar fazendo uma coisa dessas! Diferente da gente, você tem muita coisa a perder!

Diante de nós, que aparentemente não tínhamos nada a perder, a Presidente se levantou com um sorriso autodepreciativo.

— Eu já disse. Fiquei comovida como mulher. Até eu já tive meu coração queimado por um amor não correspondido.

— Mas, se formos pegos, vamos estar encrencados, não vamos?

— Então basta não sermos pegos. Estou ansiosa para ver você vestida de noiva.

A Presidente falou com confiança enquanto passava delicadamente os dedos pelos cabelos de Shiratama-san.

*

Depois das aulas no dia seguinte, segui em direção à enfermaria para prestar contas a Konuki-sensei.

Não é que eu queira ir, mas, se continuar ignorando isso por muito tempo, ela pode acabar aparecendo na sala do clube...

Ao me aproximar do prédio central, onde ficava a enfermaria, vi Komari saindo da biblioteca. Pensando bem, ontem ela saiu correndo assim que viu a Presidente.

Comecei a caminhar na direção dela, disposto a lhe dar uma bronca, quando um garoto que saía da biblioteca chamou por Komari.

Aquele é definitivamente um aluno do terceiro ano responsável pela biblioteca. Ele entregou um livro para Komari, que parecia um guaxinim assustado. Soltei um pequeno suspiro.

Ela mal consegue conversar com garotas, então manter uma conversa com um garoto deve ser praticamente impossível.

Ainda mais com um veterano.

...Bom, não tem jeito.

Vou ter que servir de intérprete. Acelerei o passo, mas então vi Komari receber o livro das mãos do veterano e agradecer.

Hã? Então ela consegue conversar com garotos… Antigamente, Komari simplesmente congelava e ficava esperando alguém "descongelá-la".

Sentindo-me levemente desnecessário, fiquei parado observando enquanto Komari vinha em minha direção com a cabeça baixa. Ela quase passou direto por mim antes de perceber minha presença e parar.

— Ueh...? O-O que você está f-fazendo aqui?

— Ah, só estou indo para a enfermaria.

Olhei por cima da cabeça de Komari, na direção da porta da biblioteca. O veterano já tinha voltado para dentro.

— Sobre o que você estava falando com o responsável pela biblioteca?

— O-Os materiais que eu encomendei c-chegaram.

Hmm, entendi. Aquele livro grosso que Komari estava segurando devia ser um deles. ...Opa, preciso me apressar. Konuki-sensei pode acabar saindo da enfermaria para me procurar.

Depois de uma breve despedida, comecei a andar de novo, mas Komari passou a caminhar ao meu lado.

— Espera aí, você também vai por este caminho?

— N-Não faz diferença por onde eu vá. N-No fim, vamos chegar ao m-mesmo lugar.

Não parece muito que seja assim, mas, se ela está dizendo...

— Aliás, Komari, sobre ontem—

— O-O que você está p-planejando fazer?

Komari me interrompeu e ergueu os olhos para mim com um olhar penetrante.

— Como assim? Foi você quem fugiu da reunião em que devíamos decidir justamente isso.

— É-É por isso que eu e-estou perguntando se isso é m-mesmo uma coisa que podemos fazer.

...Não. Se formos pegos, estamos ferrados. Os olhos que espiavam por entre a franja dela estavam cheios de preocupação.

— Vai ficar tudo bem. Temos a Presidente com a gente.

Forcei um sorriso e afaguei a cabeça de Komari.

— Uná!?

Ela soltou um grunhido estranho e saltou para trás. Droga! Fiz isso por hábito porque ela tem praticamente a mesma altura da Kaju.

— Desculpa! É que sua altura estava perfeita para isso.

Com o rosto vermelho e o corpo tremendo, Komari começou a recuar lentamente.

— Hã... Komari?

— I-Idiota.

Komari murmurou aquilo e saiu correndo. ...Pronto. Agora fiz besteira. Ela provavelmente vai me olhar como se eu fosse lixo por algum tempo.

Enquanto me lembrava da sensação de ter afagado a cabeça dela, um pensamento surgiu.

Komari, você devia cuidar melhor do seu cabelo.

*

Depois de finalmente ser libertado por Konuki-sensei, respirei fundo no pátio iluminado pela luz do entardecer.

...Estou muito cansado.

Nem me perguntem os detalhes. Estou extremamente cansado. Mais uma vez, fiquei impressionado com a paciência da Amanatsu-sensei e da irmã da Shiratama-san por continuarem amigas daquela mulher.

Enquanto permanecia ali, sentindo o vento—

Piu, piu, piu...

Ouvi o canto de um pássaro vindo de algum lugar. Não era um som particularmente bonito, mas havia algo reconfortante nele. Embora eu não conseguisse vê-lo, o canto parecia vir dos arbustos do pátio.

Por um instante, pensei em procurar o pássaro, mas logo desisti. Só ouvir seu canto era mais tranquilizante. Aquela distância parecia perfeita. No pátio silencioso depois das aulas, fechei os olhos, cercado pelo canto dos pássaros e pelo farfalhar das folhas.

É como se meu coração, sujo por tudo o que aconteceu na enfermaria, estivesse sendo purificado.

Ah... será que é um chapim-de-penacho? Enquanto prestava atenção ao canto, tive a impressão de estar em pé no meio de um campo no outono. Quase conseguia sentir o agradável cheiro de feno trazido pela brisa.

Abri lentamente os olhos. Quando olhei ao redor, vi um homem de terno parado em silêncio a cerca de dois metros de distância. Era Tanaka-sensei, o noivo da irmã de Shiratama-san.

...Ele não está me observando, está?

Não.

Ele apenas permanecia ali, perdido em pensamentos enquanto o vento passava. Era a primeira vez que eu o via fora da sala de aula desde aquele fim de semana no shopping. Enquanto hesitava entre ir embora ou continuar ali, Tanaka-sensei pareceu notar minha presença.

Ele demonstrou uma leve surpresa.

— Ah, Nukumizu-kun. O que você está fazendo aqui?

— Só pensando em algumas coisas. E você, sensei?

— Ouvi um pássaro cantando e acabei parando. Talvez tenha um rouxinol japonês nos arbustos.

Espera. Aquilo é um rouxinol japonês? Percebendo meu interesse, Tanaka-sensei explicou um pouco mais.

— Normalmente, nesta época do ano, eles já estão nas montanhas. Então talvez esse seja particularmente preguiçoso.

— Isso até faz ele parecer mais simpático.

— E o fato de não se mostrar também tem certa elegância, não acha?

— Sim, entendo.

Ficamos ali escutando o canto do pássaro. Depois de algum tempo, Tanaka-sensei hesitou antes de falar.

— Sobre aquele dia...

— Ah, sim.

Fiquei tenso e esperei. Depois de hesitar bastante, Tanaka-sensei finalmente continuou.

— Desculpe ter interrompido vocês.

Era uma frase tão banal que acabei ficando um pouco desapontado.

— Não, está tudo bem. Aliás, como a onee-san ficou depois daquilo?

— Está falando da Minori-san? Ela ficou bastante surpresa. Eu também.

Ele tentou rir da situação, mas acabou tossindo.

— Quer que eu pegue água?

— Não, agora estou bem...

Nós dois demos sorrisos constrangidos em meio àquela atmosfera desconfortável.

— Seu casamento é na semana que vem, não é? Você deve estar ocupado.

— É. Estou só andando por aí porque não consigo me acalmar.

Ele observou minha reação por um instante antes de voltar a falar, como se tivesse se resignado.

— Nukumizu-kun, quanto a Riko-chan já contou para você?

— Eu sei sobre a suspensão e sobre a irmã dela.

Tanaka-sensei assentiu e permaneceu perto de mim.

— Ultimamente, a Riko-chan ficou bem distante. Parece que ela não aprova meu casamento com a irmã dela.

Sem responder, continuei ouvindo enquanto Tanaka-sensei falava quase para si mesmo.

— Nós sempre fomos como irmãos, e agora eu vou me casar com a irmã que ela tanto ama. É natural que ela tenha sentimentos conflitantes.

— É, isso deve ser complicado mesmo. Ainda mais na adolescência.

Tentei tratar o assunto de forma leve, mas alguma coisa naquilo ficou presa na minha cabeça e me levou a continuar.

— Acho que ela só quer que deixem ela em paz por um tempo.

Enquanto falava, senti meus pensamentos começarem a tomar forma.

— Nós ainda estamos no ensino médio. Quando a relação com nossos pais ou irmãos muda, parece que o mundo inteiro está se movendo debaixo dos nossos pés. É uma coisa enorme.

Para ser sincero, eu não consigo simpatizar completamente com as atitudes da Shiratama-san. Não entendo nem um pouco.

— Para Riko-san, a irmã é a pessoa que sempre olha para ela em primeiro lugar. E você sempre foi como um irmão mais velho gentil da vizinhança, praticamente da família. Agora essas duas relações estão mudando ao mesmo tempo. É natural que ela fique instável — eu disse.

— Mas acho que consigo sentir o que está levando ela a agir assim.

Sorri para Tanaka-sensei com uma expressão falsa, parecida com o sorriso habitual da Shiratama-san.

— Então, sensei, você só precisa continuar firme e tranquilo como irmão dela.

Tanaka-sensei assentiu profundamente enquanto me escutava.

— É. Se eu mesmo não conseguir manter a calma, só vou deixar a Riko-chan ainda mais ansiosa.

Ele assentiu mais uma vez e me olhou com certa surpresa.

— Obrigado. Você é bem maduro para a sua idade.

— Ah, não. Eu só estou sendo intrometido. Desculpe.

— De jeito nenhum. Riko-chan tem sorte de ter alguém como você como namorado.

Tanaka-sensei pareceu murmurar aquilo mais para si mesmo do que para mim. Ele ficou olhando para o pátio, perdido em pensamentos. Enquanto ouvia o canto dos pássaros, lembrei-me do sorriso da Shiratama-san, aquele que escondia seus verdadeiros sentimentos.

...Ela nunca teve chance desde o começo.

É claro que não teve. Ela é quinze anos mais nova, uma garota que ele conhece desde criança e, além de tudo, a irmã da noiva. Não existe a menor possibilidade de ele enxergá-la como interesse romântico.

Isso nem sequer é uma questão de ganhar ou perder. Tanaka-sensei é sincero e tem bom coração. Ele se importa com a Riko Shiratama como se ela fosse sua irmã de verdade.

E, ainda assim, sinto um leve incômodo.

Aquele homem não tinha culpa de nada. Só era um pouco insensível. Ele nunca percebeu os sentimentos que sempre estiveram ali.

Mas, naquele momento, decidi ficar do lado da Shiratama-san. Não havia um motivo específico.

Se eu tivesse que dar algum, seria simplesmente porque eu também estou passando pela adolescência.

*

Primeiro dia da Golden Week. O feriado de cinco dias começou sob um céu sem nuvens e um clima perfeito. Fiquei parado diante do local do casamento, ajustando nervosamente a gravata.

Eu tinha vindo participar da visita usando um terno que pegara emprestado do armário dos meus pais.

...Será que eu realmente consigo fazer isso?

Interpretar pela primeira vez um adulto trabalhador, noivo e prestes a se casar parece uma missão impossível. O gel que passei no cabelo estava frio e desconfortável, o que só aumentava minha inquietação.

Enquanto eu permanecia ali, paralisado pelo nervosismo, uma mão branca se estendeu e apertou minha gravata.

— Sua... gravata. Arrume... direito...

Era Shikiya-san. Ela interpretaria minha noiva. Usava um elegante vestido preto, e os longos cabelos estavam presos de um lado com um acessório floral.

— Desculpa. Estou um pouco nervoso.

Espiei por cima do ombro da Shikiya-san para dar uma olhada no local.

Era uma construção cercada por muros, com uma fachada luxuosa revestida de azulejos. A entrada, decorada em tons de branco e marrom, tinha um design sofisticado que não revelava quase nada sobre o interior.

Enquanto olhava discretamente ao redor, notei duas figuras se mexendo no mato alto na extremidade do grande estacionamento compartilhado.

Eram Asagumo-san, segurando um notebook e usando um fone no ouvido, e Yanami, empunhando uma antena que parecia um taco.

Vários estabelecimentos compartilhavam aquele estacionamento, então não era estranho haver gente por ali. Mas aquelas duas estavam chamando atenção demais.

— Shikiya-senpai, será que elas vão ficar bem?

— Vão... ficar bem. Tenha... fé... nelas...

— Ah, espera—

Antes que eu pudesse protestar, Shikiya-san segurou meu braço e me conduziu pela entrada. O saguão era espaçoso, e o teto alto dava uma sensação de amplitude muito maior do que eu esperava vendo o prédio por fora.

Mais à frente havia um balcão, onde uma funcionária simpática nos recebeu com um sorriso acolhedor. Controlei-me e abaixei deliberadamente o tom de voz.

— Com licença. Sou Shimbashi. Tenho uma reserva.

A funcionária, vestida de uniforme, conferiu o tablet que segurava.

— Kazuhiko Shimbashi-san e Yumeko Yoshida-san, correto? Por favor, subam por aquela escada.

Isso mesmo. Hoje eu sou Kazuhiko Shimbashi, de dezoito anos, recém-ingressado no mercado de trabalho e prestes a me casar.

E a pessoa balançando suavemente ao meu lado é Yumeko Yoshida. Ela trabalha em uma floricultura e é minha noiva de vinte anos. Yumeko, que olhava distraidamente ao redor, de repente apoiou a cabeça no meu ombro.

Ela cheira tão bem. Queria que o tempo parasse aqui mesmo.

— Onde nós... entregamos... os presentes de casamento...?

— Não. Hoje é só uma visita. Não vai ter cerimônia.

...Essa garota não ouviu absolutamente nada da nossa explicação. Saímos da recepção e seguimos em direção às escadas dos fundos antes que ela dissesse mais alguma coisa.

— O que a Presidente contou para você, senpai?

— Linguagem... formal... não pode...

Ah, verdade. Seria estranho usar linguagem formal se somos noivos.

— Yume...ko, o que você ouviu da Hokobaru-san?

— Algo como... eu vou fazer... um casamento. Foi essa... impressão que tive...

A impressão dela está completamente errada. Enquanto eu refletia sobre como era difícil nos comunicarmos corretamente, Shikiya-san ficou encarando intensamente o lado do meu rosto.

— O-O que foi? Por que está me encarando?

— Falar com você... de forma casual... parece novo...

Shikiya-san começou a brincar com meu cabelo, aparentemente se divertindo.

— Ei, para com isso... Quer dizer, para.

— Você está... com vergonha...?

Hã? Shikiya-san sempre foi assim? Enquanto eu pensava nisso, uma voz irritada chegou aos meus ouvidos.

"Alô!? A gente consegue ouvir tudo daqui, sabia!?"

A voz de Yanami atravessou o fone. Elas deviam estar nos orientando, mas parece mais provável que acabem só atrapalhando.

— Se não quer ouvir... Ei, Yumeko, já chega.

"Ei!? O que vocês dois estão—"

Desliguei o fone e entrei na grande sala onde aconteceria a sessão de apresentação.

...A propósito, deixamos Shiratama-san para trás.

Afinal, ela já tinha antecedentes no lugar.

*

Agora vamos voltar um pouco no tempo. Duas horas antes, na sala do Clube de Literatura.

Ao me ver de terno, Yanami e Asagumo-san trocaram olhares e assentiram com expressões complicadas. Se vocês duas têm alguma coisa para dizer, falem logo.

Shiratama-san me examinou da cabeça aos pés e depois juntou as mãos diante do corpo com um sorriso.

— Você está ótimo, Presidente. É verdade mesmo que homens ficam trinta por cento mais bonitos de terno.

Obrigado, mas eu sei que você está mentindo. Acho que ultimamente comecei a entender Shiratama-san um pouco melhor. Ao meu lado, Shikiya-san parecia muito mais adulta usando aquele vestido, e um perfume agradável vinha dela.

Asagumo-san, que, por algum motivo, estava com uma compressa refrescante na testa, colocou algo sobre a mesa. Era um único fone de ouvido sem fio.

— Por favor, coloque este fone, Nukumizu-san. Eu vou passar as instruções.

— Isso vai transmitir a sua voz?

— Sim. Ele também tem um microfone embutido, então nós conseguiremos ouvir vocês.

Diante da Shikiya-san havia um acessório de cabelo com motivo floral. Ela o pegou, curiosa.

— O que é... isso...?

— Há uma câmera omnidirecional embutida nele. Senpai, por favor, use esse enfeite no cabelo.

Então eu seria os ouvidos, e Shikiya-san, os olhos. Shiratama-san, que olhava inquieta para todos os lados, levantou levemente a mão.

— Hã... e eu?

— Riko-san, é melhor você não aparecer no local até o dia da cerimônia. Desculpe, mas fique de prontidão.

A sessão de apresentação começaria às dez da manhã. Depois da explicação geral, haveria um período para consultas individuais. ...E esse é o ponto crítico. É impossível nós, estudantes do ensino médio, fingirmos convincentemente que somos adultos.

Para tornar o impossível possível, uma preparação minuciosa era indispensável. Asagumo-san escreveu no quadro branco, em tópicos, toda a nossa história de cobertura.

A versão oficial era que Shikiya-san e eu, por circunstâncias inevitáveis, precisávamos realizar rapidamente um casamento mesmo tendo acabado de entrar no mercado de trabalho.

Endereços, números de telefone, locais de trabalho, perfis dos pais, orçamento, planos para a cerimônia… Depois de terminar de detalhar tudo, Asagumo-san pigarreou.

— Não temos muito tempo nos dias úteis, então este feriado prolongado será crucial.

— Espera aí, mas você não tinha planos, Asagumo-san? Tipo um encontro com o Ayano?

— Ele está em um acampamento de estudos do cursinho durante todo o feriado.

A luz na testa de Asagumo-san parece estar desaparecendo.

— Ele disse que vai ficar de propósito sem falar nada e tentar me vencer na próxima prova. Eu realmente não preciso desse tipo de surpresa. Realmente não preciso.

Denso como sempre, Ayano. Quando olhei para o lado, vi Shikiya-san encarando fixamente o acessório de cabelo.

— Hã, Shikiya-senpai. Quanto você sabe sobre a situação atual?

— Acho que... ouvi tudo... da Hokobaru.

Não confio totalmente nisso, mas, se ela diz que está tudo bem, então provavelmente está tudo bem. Na verdade, eu nem seria digno de ser presidente do Clube de Literatura se ficasse me preocupando com coisas assim.

*

A visita daquele dia, que havia começado daquela forma, corria relativamente bem. Conseguimos passar pelas consultas individuais sem grandes problemas. Agora caminhávamos pelo corredor, misturados aos outros participantes, carregando conosco o "plano recomendado" que haviam preparado.

— Eu gostaria de fogos de artifício tanto no começo quanto no final, mas será que o orçamento permite? Yumeko, alguma opção chamou sua atenção?

— Eu... quero quebrar... um barril de saquê…

(N/SLAG: Trata-se do kagami-biraki, uma cerimônia em que se abre um barril de saquê em ocasiões de celebração, desejando saúde e prosperidade)

— Parece bom. Conversamos sobre isso depois.

Graças às explicações detalhadas da nossa coordenadora, começamos a entrar de verdade no clima. O único problema era que nem o casamento nem o casal realmente existiam. Enquanto discutia os detalhes da cerimônia com Shikiya-san—

"Tudo o que eu estou ouvindo é conversa que não tem nada a ver com a missão! O que aconteceu com a investigação!? Vocês são canários que esqueceram como cantar!?"

...Sempre tem alguém para estragar o clima. Cobri discretamente a boca com a mão e respondi àquela pessoa.

— A visita pelo local vai começar agora. Yanami-san, preste atenção nas imagens e dê instruções direito.

"Com licença, aqui é a Asagumo. A imagem está tremendo bastante. Poderia ajustar um pouco?"

Agora é a Asagumo-san. Sabe, nós não somos profissionais. É difícil—

— Tem... algum problema...?

Shikiya-san inclinou a cabeça, confusa. ...Ah, verdade. A câmera está presa no enfeite de cabelo de Shikiya-san.

— Aguente assim mesmo. É uma característica do equipamento.

Encerrei a comunicação e segui a guia para fora do prédio. Saímos em uma espaçosa área de casamento ao ar livre. O chão era coberto de grama, com conjuntos de sofás espalhados pelo espaço. O jardim estava cercado por muros mais altos do que eu, impedindo qualquer visão do lado de fora.

E ali estava a capela. No dia da cerimônia, Shiratama-san e os outros se infiltrariam ali e tirariam fotos com Tanaka-sensei.

Enquanto eu encarava o prédio, a coordenadora que havia nos atendido mais cedo se aproximou.

— Gostariam de conhecer a capela?

— Hã? Podemos mesmo?

— Claro. Por favor, venham comigo.

Seguimos a guia e atravessamos a ponte sobre o canal de água. Shikiya-san, que até então observava a grama, acelerou o passo e veio até mim.

— Nós vamos... brincar de noiva... e noivo aqui...?

O quê? Isso parece muito divertido, mas não agora.

— Nós só vamos dar uma olhada na capela. Yumeko, você consegue... ficar um pouco mais ereta?

— Então eu vou... me apoiar em você...

— Eek!

Shikiya-san envolveu meu braço com a mão. O agradável perfume dela e aquela maciez impossível de descrever pressionaram meu braço—

"Aham! Aham!"

O pigarro exagerado de Yanami ecoou pelo fone.

Cala a boca…

Seguindo a guia, entramos na capela. Lá dentro, um corredor reto se estendia até o fundo, com bancos dispostos dos dois lados. Na parede ao fundo da capela, do outro lado de uma grande janela, uma pequena cachoeira descia como uma cortina de água.

Grandes janelas nas paredes laterais permitiam que uma luz suave entrasse no ambiente, criando uma atmosfera quase fantástica. No teto, pouco iluminado por luz indireta, um ventilador girava lentamente, acrescentando um movimento suave ao espaço solene e tranquilo.

Até que é bem relaxante. De braços dados com Shikiya-san, caminhei pelo corredor—

Espera. Esse não deveria ser o papel do pai da noiva?

No fim do caminho estaria o noivo que se casaria com Yumeko Yoshida, a florista de vinte anos.

Imperdoável. Alimentado por aquela justa indignação, cheguei ao fundo da capela e percebi um fato crucial.

Não há lugar nenhum para se esconder.

Os bancos dos convidados tinham encostos abertos, dando uma sensação de amplitude, e as paredes eram lisas, sem qualquer saliência que bloqueasse a visão. Mesmo que conseguíssemos trazer Tanaka-sensei até ali, como Shiratama-san conseguiria se aproximar dele?

"Nukumizu-san, há algum móvel ou espaço onde alguém possa se esconder?"

A voz séria de Asagumo-san chegou pelo fone. Ela provavelmente também havia percebido o problema.

— Mesmo que você diga isso...

Não havia equipamentos de som nem estantes na capela. Provavelmente, para preservar a atmosfera, todas as máquinas pouco atraentes ficavam escondidas da vista. Não havia lugar nenhum para se esconder naquela sala—

Não. Havia um. Na parte da frente da capela havia uma espécie de pedestal. Acho que aquilo se chama púlpito...

Levei a câmera móvel, vulgo Shikiya-san, até o púlpito. Era uma estrutura simples de madeira, aberta na parte de trás. Não era grande, mas talvez fosse suficiente para alguém ficar escondido da vista de quem estivesse à frente.

Usando a palma da mão, medi discretamente o tamanho e depois me afastei para não levantar suspeitas. Em seguida, conferi as dimensões ao redor contando meus passos.

— Certo, Yumeko, vamos?

Shikiya-san inclinou a cabeça, confusa com minhas palavras.

— Nós não vamos... brincar de noiva e noivo...?

— Não, estamos em público—

Quando olhei de relance para o lado, vi a coordenadora parada junto à entrada, sorrindo silenciosamente enquanto saía.

Espera aí. Que tipo de consideração é essa?

Enquanto eu ficava sem saber o que fazer, Shikiya-san segurou minha mão e ficou de frente para mim diante do púlpito.

— O que fazemos... agora...?

— Hã... o padre ficaria ali, depois trocaríamos as alianças e juraríamos amor eterno ou algo assim—

— E depois... disso...?

Hã? Depois disso? Quando terminam a troca de alianças e os votos, o próximo passo é… Engoli em seco.

— Depois seria o beijo dos noivos ou algo do tipo—

"O que vocês dois estão fazendo!? Eu consigo ouvir tudo, sabia!?"

A voz alta de Yanami explodiu no meu ouvido. Eu tinha me esquecido completamente dessa mulher.

— Bom, sabe como é. Precisamos sentir como seria de verdade. Simulação é importante.

"Beijo não faz parte do plano, está me ouvindo!?"

É, não faz. Por algum motivo, percebo que fiquei um pouco aliviado com a interrupção da Yanami. Mesmo sendo só encenação, ficar frente a frente com Shikiya-san daquele jeito me deixava nervoso.

Quando tentei recuar, a mão pálida de Shikiya-san se estendeu e retirou o fone do meu ouvido.

— Se a gente se beijar... isso quer dizer que eu vou... virar sua noiva...?

— Hã!?

Shikiya-san colocou meu fone dentro do decote e se aproximou de mim. O reflexo do meu rosto em seus olhos claros foi ficando cada vez maior.

NUKKUN.jpg

— P-Para virar noiva, primeiro você precisa se casar comigo!

Minha voz falhou no meio da frase, e Shikiya-san parou de se aproximar.

— Registrar o casamento é mais... essencial para se tornar uma noiva do que um beijo, não acha?

— Registro... de casamento… — depois de ficar parada por alguns instantes, Shikiya-san assentiu lentamente. — Não dá para vencer... o governo...

Com uma expressão de misteriosa compreensão, Shikiya-san começou a caminhar aos tropeços em direção às portas da capela. Apressei-me para alcançá-la e caminhar ao seu lado, e ela devolveu o fone para mim.

Opa. É melhor continuar em contato, ou Yanami vai ficar insuportável. Coloquei o fone de volta no ouvido.

Pensando bem, isso estava dentro do decote de Shikiya-san agora há pouco…

Um pouco perturbado com esse pensamento, abri as pesadas portas da capela e encontrei a coordenadora esperando do lado de fora com um sorriso radiante.

— Ah, desculpe fazê-la esperar.

— Agora vou conduzi-los até o salão da recepção. Hoje vocês também terão uma degustação do menu completo.

A coordenadora explicou, mas a voz de Yanami imediatamente atravessou meu ouvido.

"Como assim eu não sabia disso!?"

Porque eu não contei. E fala mais baixo.

Contendo um suspiro, ignorei as reclamações da Yanami e segui a coordenadora até o salão da recepção. Eu não conseguia imaginar Yanami mantendo a compostura diante de uma refeição luxuosa.

Desde o começo, ela nunca serviria para interpretar o papel de noiva—

"Ei, vocês aí. O que estão fazendo?"

De repente, a voz de um senhor idoso chegou pelo fone. ...Parece que a segurança pegou elas. Enquanto ouvia a Yanami e a Asagumo-san tentarem se explicar às pressas, finalmente soltei um longo suspiro.

— Kazuhiko, aconteceu... alguma coisa...?

— Não foi nada. Não se preocupe, Yumeko.

Com outro suspiro, tirei o fone do ouvido e o enfiei no bolso.

*

Naquela noite, eu estava sentado à escrivaninha do meu quarto, falando ao telefone.

— Sinto muito. A Hiba-nee deve estar exagerando de novo, não é?

Do outro lado da linha estava Sakurai-kun. Ele se sentia culpado pela maneira como a Presidente havia praticamente se enfiado à força no nosso plano e ligava quase todas as noites para saber como as coisas estavam.

Balancei a cabeça, mesmo sabendo que ele não conseguia me ver.

— Está tudo bem, de verdade. Vamos dar um jeito.

— Até agora não aconteceu nenhum problema. Ela está ajudando bastante, então somos muito gratos — acrescentei.

— Mas a Hiba-nee parece um pouco empolgada demais desta vez. Tenho medo de ela acabar causando problemas.

Comparada com a Tiara-san, acho o entusiasmo da Presidente até simpático. Conversar com a outra é como atravessar um campo minado.

Embrulhei meus verdadeiros sentimentos em várias camadas de diplomacia, e Sakurai-kun finalmente pareceu ficar mais tranquilo. Desejamos boa noite um ao outro e encerramos a ligação.

...Mas isso não quer dizer que todos os problemas acabaram. Olhei para o calendário na parede. Hoje é o primeiro dia do feriado de cinco dias da Golden Week.

O casamento — a data para a execução dos nossos planos — está marcada para o fim de semana seguinte ao feriado.

— Já tomei banho primeiro, onii-sama.

Kaju disse isso enquanto entrava no quarto usando um pijama azul. Os cabelos úmidos se espalhavam pelas costas quando ela tirou a toalha da cabeça.

— Seca o cabelo agora, Kaju. Senão vai acabar pegando um resfriado.

— Então você seca para a Kaju, onii-sama?

Kaju se jogou na cama. Ora, ora. Lá vai ela de novo, toda manhosa. Fui para trás dela, preparei o secador e aproveitei para tocar em um assunto que estava me incomodando.

— Kaju, você é mesmo tão próxima da Asagumo-san?

— Sim. Ultimamente ela tem sido muito gentil com a Kaju.

Entendi. Ela tem sido muito gentil. Isso é preocupante…

Asagumo-san não é uma pessoa ruim, mas está bem alto na lista de pessoas que eu não quero que minha irmã use como exemplo. Aliás, Tsukinoki-senpai ocupa atualmente o primeiro lugar.

Justo quando eu ia ligar o secador, Kaju virou o rosto para olhar para mim.

— Onii-sama, a Kaju também quer ver você de terno. Que tal, no próximo local, irmos só nós dois———

— Certo, olha para a frente para eu secar seu cabelo!

Interrompi a frase dela ligando o secador. Separei os longos cabelos da Kaju com os dedos, deixando o ar quente passar entre os fios.

Calor é inimigo do cabelo.

Era essencial conferir a temperatura com as costas da mão e procurar qualquer umidade restante com os dedos, secando tudo com cuidado, mas sem demorar demais.

Cerca de dez minutos depois, desliguei o secador e assenti, satisfeito.

...Perfeito.

A textura e o brilho estão impecáveis. Enquanto fazia uma última checagem com os dedos, notei alguma coisa.

— Ei, Kaju, esse pijama não é meu?

— É da Kaju, sabia? Nós compramos pijamas combinando, lembra?

Ah, pijamas combinando. Então por que você escolheu exatamente a mesma cor...?

Enquanto eu pensava nisso, Kaju colocou uma escova na minha mão. Era a escova de cerdas de javali que eu havia dado de presente a ela, indispensável para manter o cabelo bem cuidado. Enquanto passava lentamente a escova pelos cabelos de Kaju, comecei a falar.

image.png

— Como está a escola agora que você está no terceiro ano?

— Como estamos no último ano e nos preparando para as provas, os professores estão se dedicando bastante à orientação de carreira. Mas ainda não sentimos muita pressão.

Depois de hesitar por um instante, Kaju falou:

— Onii-sama, a Kaju decidiu prestar o exame para o Colégio Tsuwabuki.

Eu sabia que Kaju estava de olho no Colégio Tsuwabuki, mas ela nunca tinha declarado aquilo tão claramente antes. Sem parar de escovar seu cabelo, perguntei em voz baixa:

— Já se decidiu mesmo?

— Sim. Já comecei a me preparar com meu professor. Na próxima primavera, a Kaju vai estudar com você.

Sua voz soava firme e confiante.

— Onii-sama, nesta época do ano passado, você não tinha nenhum amigo. A Kaju esperava poder estar ao seu lado caso conseguisse entrar no Colégio Tsuwabuki.

Exatamente um ano atrás. Eu quase nunca falava com ninguém além do necessário, e até a Amanatsu-sensei, minha professora responsável pela turma, mal se lembrava do meu rosto.

Aquilo não era particularmente incômodo para mim, mas Kaju devia ter ficado muito preocupada. Sem perceber, minha mão parou de se mover, e a Kaju colocou a dela sobre a minha.

— Mas agora é diferente. Eu quero ir para o Colégio Tsuwabuki para aprender com os veteranos que admiro.

— Isso é ótimo. Se houver qualquer coisa que eu possa fazer para ajudar, é só me falar.

— Sim, onii-sama!

Depois de declarar suas intenções, Kaju pareceu mais leve. Ela começou a balançar as pernas enquanto cantarolava. Voltei a escovar seus cabelos, passando a escova com delicadeza, quase como se estivesse acariciando sua cabeça.

*

Segundo dia do feriado de cinco dias da Golden Week.

Reunidos na sala do clube estavam os futuros criminosos: a Presidente, Yanami, Shiratama-san e eu. Enquanto isso, Asagumo-san, a veterana experiente no mundo do crime, falava conosco com entusiasmo.

— Ontem tivemos alguns altos e baixos, mas a visita ao local foi um grande sucesso!

Ao ouvir aquilo, Yanami lançou um olhar ressentido na minha direção.

— É, muita coisa aconteceu. Pelo visto, alguém aqui teve a oportunidade de comer uma deliciosa culinária francesa e passar um dia maravilhoso.

Ontem, Shikiya-san e eu fomos embora sem esperar Yanami e as outras, que tinham perdido contato conosco. A comida estava deliciosa, e Shikiya-san cheirava muito bem. Foi um dia extremamente proveitoso.

— Nós também tivemos nossos próprios problemas. Então, Asagumo-san, pode continuar?

— Sim. Vamos organizar as informações de ontem.

Asagumo-san começou a desenhar a planta do prédio no quadro branco.

— Logo ao lado da recepção fica o vestiário dos familiares. Passando por ele, chegamos a um espaço aberto que também funciona como sala de espera dos convidados. Há um balcão de bar aqui, então é uma área que chama bastante atenção.

Trocando para um marcador vermelho, ela desenhou algumas setas sobre a planta não muito bem-feita.

— Atravessando a sala de espera dos convidados, saímos para o jardim. A capela fica aqui, mas, como é uma área aberta e visível a partir do salão da recepção, será difícil se movimentar sem ser visto.

Ela traçou uma linha das escadas que levavam ao segundo andar até a capela.

— Felizmente, o caminho da suíte dos noivos, no segundo andar, até a capela é curto. Se conseguirmos tirar Tanaka-sensei de lá, chegar à capela deve ser fácil.

A Presidente, que pensava com uma das mãos sobre a boca, se pronunciou.

— Mas atravessar a sala de espera dos convidados representa um risco. Tanaka-sensei pode encontrar alguém que conheça.

— Sim, concordo. Por isso, olhem agora para o cronograma.

Com um baque, Asagumo-san prendeu uma folha impressa no quadro branco.

— A noiva chega às sete e meia da manhã, e o noivo, às nove. Depois de se trocarem, a partir das dez haverá uma reunião para tratar da sessão de fotos e da cerimônia.

Ela colocou outra folha ao lado.

— Às dez e meia chega o ônibus com os familiares, e a recepção dos convidados começa às onze. A cerimônia começa ao meio-dia, mas, a essa altura, haverá gente demais para o plano funcionar.

Asagumo-san desenhou um grande X vermelho sobre a segunda folha.

— Mas Tanaka-sensei chega às nove e encontra o fotógrafo de verdade uma hora depois, não é? Quase não teremos tempo para tirar as nossas fotos.

Yanami falou com evidente preocupação. Asagumo-san assentiu seriamente.

— Exatamente. A operação precisa acontecer entre nove e dez horas, mais especificamente no curto período depois que Tanaka-sensei terminar de se trocar.

A Presidente abriu um largo sorriso, claramente empolgada.

— Uma corrida contra o tempo. Interessante, não acham?

Observando nossas reações, Asagumo-san começou a fazer anotações no cronograma com o marcador.

— Meu plano preliminar é o seguinte: às nove e meia, o fotógrafo falso chamará o noivo, Tanaka-sensei, sob o pretexto de realizar um teste de câmera.

Asagumo-san prendeu no quadro branco uma foto do interior da capela.

— Então Riko-san, que estará escondida dentro da capela, aparecerá nas fotos durante o teste.

Com um clique, Asagumo-san colocou a tampa no marcador. ...Considerando todas as informações que temos, essa parece ser nossa única opção. No silêncio que se seguiu, Yanami tirou um pão da bolsa.

— Parece que não temos escolha. Então precisamos montar um plano detalhado.

Enquanto murmurava aquilo, Yanami deu uma mordida em uma baguete inteira. Eu já estava tão acostumado com o comportamento dela que nem reparei, mas as outras três ficaram encarando Yanami.

— Hmm? Por que vocês estão me olhando desse jeito?

Ao ver o trio em silêncio, decidi falar em nome delas.

— Elas estão se perguntando por que você está comendo uma baguete inteira.

— Não é justo que só o Nukumizu-kun tenha comido uma deliciosa culinária francesa. Eu também queria!

Então isso conta como culinária francesa para Yanami. Bom, ela não está totalmente errada...

— Nem vai colocar nada?

— Coloquei geleia de ameixa e pasta doce de feijão vermelho dentro. Também trouxe kinako para usar como cobertura... Uwah, peguei o salgado. Que azar.

Ela continuou comendo, agora de mau humor. Por que colocar no pão uma coisa que você não gosta? E onde exatamente está o elemento francês nisso tudo? Há muitas perguntas possíveis, mas estamos falando da Yanami.

Reduzi ao mínimo a parte do meu cérebro dedicada a pensar nela e voltei a prestar atenção no quadro branco.

— Vamos voltar ao assunto. E quanto ao fotógrafo falso? Tanaka-sensei conhece nossos rostos, e os funcionários do local não vão perceber alguma coisa? Ontem, durante a apresentação, disseram que havia um fotógrafo responsável.

Como se já esperasse aquela pergunta, Asagumo-san tirou um cartão de visitas.

— Este é o cartão do fotógrafo contratado para o casamento da onee-san. Ele é do Studio Damonde, não do estúdio conveniado ao local.

Asagumo-san olhou para Shiratama-san, que deu continuidade à explicação.

— Uma amiga da onee-chan trabalha lá, então conseguimos uma autorização especial para usar esse fotógrafo. E também temos isto.

Shiratama-san colocou sobre a mesa outro cartão de aparência semelhante. O nome do estúdio era o mesmo, mas o nome do fotógrafo era diferente.

...Então esses são cartões falsificados. Estou literalmente testemunhando um crime sendo preparado. Depois de conferir os cartões, Asagumo-san os entregou à Presidente.

— Hokobaru-senpai, por favor, leve este com você no dia.

— Então eu vou interpretar a fotógrafa?

— Sim, senpai. E Nukumizu-san será seu assistente.

— Hã!? Eu também!?

Quando expressei minha surpresa, Asagumo-san assentiu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

— Precisamos de alguém para dar cobertura a Riko-san durante a sessão de fotos.

— Mas eu acabei de participar da visita ao local! Eles com certeza vão me reconhecer!

Asagumo-san deu uma risadinha diante da minha resistência desesperada.

— Nukumizu-san, alguém não pediu informações para você em frente ao portão da escola hoje mais cedo?

— Hã?

Agora que ela mencionou… Esta manhã, um garoto usando boné e máscara tinha me perguntado como chegar a um café de jogos de tabuleiro.

— Sim, mas o que isso tem a ver com qualquer coisa?

— Aquele garoto era a Kaju-san.

O quê!? Nem ferrando.

— Você está brincando, não é? A voz era claramente de um garoto.

— A primeira voz que você ouviu por trás era uma gravação. Gravamos a Kaju-san com antecedência e alteramos sua voz para parecer a de um garoto antes da puberdade.

— Mas o resto da conversa aconteceu normalmente. Eu falei diretamente com aquele garoto.

— Sim. Era a Kaju-san interpretando o papel. Entretanto, a primeira impressão causada pela voz é o mais importante. Desde que a conversa termine antes de alguma inconsistência ficar evidente, a impressão inicial permanece.

Hã...? Eu realmente confundi a voz da Kaju? Continuei resistindo.

— Aquele garoto estava de máscara, mas os olhos eram diferentes. A Kaju tem olhos mais marcantes.

— Usamos fita para pálpebras para fazer os olhos dela parecerem sem dobra e maquiagem para mudar o tom da pele. O cabelo ficou escondido sob o boné, e qualquer parte que pudesse aparecer também foi disfarçada.

Abri a boca para rebater, mas não encontrei argumento algum. Meus ombros caíram em derrota. Não acredito que não reconheci a Kaju disfarçada...

— Nukumizu-kun, você é um siscon e mesmo assim não reconheceu a própria irmã. Interessante.

Yanami abriu um sorriso malicioso, claramente se divertindo com meu desconforto.

— Eu achei que tinha alguma coisa estranha. Mas você não pode simplesmente abordar uma criança aleatória e perguntar se ela é sua irmã.

— É. Eu chamaria a polícia se visse uma coisa dessas.

Exatamente. Não é nada estranho eu não ter reconhecido ela. E, para deixar claro, eu não sou siscon.

Asagumo-san pigarreou e continuou a explicação.

— Tanaka-sensei nos conhece. Entretanto, mesmo que perceba alguma coisa estranha, sua primeira reação provavelmente será—

Asagumo-san olhou para todos nós.

— "Não existe a menor possibilidade de meus alunos estarem aqui fingindo ser outras pessoas."

Ela balançou o cartão de visitas falso.

— Isso é chamado de viés de normalidade, um fenômeno psicológico bastante comum. Qualquer leve sensação de estranheza será anulada por este cartão de visitas do "Studio Damonde — Tsuguo Toratani". Terminaremos tudo antes que esse desconforto se transforme em certeza.

Ouvi em silêncio. Depois de ter falhado completamente em enxergar o disfarce da Kaju, eu não tinha moral alguma para discutir. Ao perceber que ninguém tinha objeções, a testa de Asagumo-san voltou a brilhar.

— Muito bem! Agora que todos entenderam o plano, desta vez todos vocês usarão disfarces!

Hã!? Desculpa, essa parte eu não entendi. Representando o grupo confuso, levantei a mão com hesitação.

— Hã... então vamos usar ternos de novo, como na visita ao local?

— Não. Aqueles ternos eram completamente inaceitáveis.

Asagumo-san parecia genuinamente irritada. Agora eu também fiquei irritado.

— Durante a visita, vocês eram apenas visitantes, então qualquer estranheza podia passar despercebida. Desta vez, porém, estaremos diante do Tanaka-sensei e de outras pessoas que conhecemos. Qualquer suspeita pode resultar em denúncia imediata.

A Presidente ergueu uma sobrancelha enquanto guardava o cartão no bolso.

— Esta operação depende do tempo. Se alguém descobrir, não teremos uma segunda chance.

— Exatamente. Precisamos estar perfeitamente preparados. Eu cuidarei dos figurinos, mas vamos confirmar os papéis de cada um no dia.

Asagumo-san começou a escrever no espaço vazio do quadro branco.

Quartel-General da Operação: Chihaya Asagumo, Anna Yanami

Fotógrafa: Hibari Hokobaru

Assistente: Kazuhiko Nukumizu

Entendi. Então, no dia da operação, a Presidente e eu vamos nos infiltrar enquanto Asagumo-san e as outras dão suporte do lado de fora.

É parecido com a visita ao local...

Enquanto eu pensava nisso, algumas palavras inesperadas chamaram minha atenção.

Riko Shiratama: Riko Shiratama

— ? Shiratama-san vai interpretar ela mesma?

Não consegui evitar a interrupção. Asagumo-san se virou para mim com um sorriso.

— Sim, exatamente. Precisamos de alguém do lado de dentro para orientar os demais. No dia do casamento, só existe uma pessoa aqui que poderia circular pelo local sem parecer fora de lugar.

Todos os olhares se voltaram para a Shiratama-san, que arregalou os olhos úmidos.

— Essa pessoa... seria eu?

— Riko-san, você dará suporte à movimentação de todos dentro do local.

Entendi. Precisamos de alguém infiltrado para conduzir Shiratama-san, vestida de noiva, até a capela em segurança. Ela poderia circular pelo lugar sem despertar suspeitas.

— Mas espera aí. Só existe uma Shiratama-san.

— Então basta fazermos outra.

Asagumo-san acrescentou tranquilamente outro nome.

Riko Shiratama: Riko Shiratama, Kaju Nukumizu Hã? Kaju como Shiratama-san? O quê?

Fiquei confuso demais para falar, enquanto Asagumo-san batia palmas olhando para a porta da sala do clube.

— Pode entrar, Riko-san.

A porta se abriu, e uma garota baixinha vestindo o uniforme do Colégio Tsuwabuki entrou na sala. Kaju deu uma voltinha diante de mim.

— Ehehe. O que achou, onii-sama?

— Hã... ficou bonito em você, mas como exatamente você pretende fingir que é Shiratama-san?

Asagumo-san ficou ao lado da Kaju e colocou a palma da mão sobre a cabeça dela.

— Kaju-san é mais baixa que Shiratama-san, mas é mais fácil aumentar a altura do que reduzi-la. Vamos ajustar isso com sapatos e uma peruca. Como as duas têm corpos esguios, as alterações visuais devem ser relativamente simples.

— A Kaju vai dar o melhor de si!

Kaju fechou os punhos diante do corpo com determinação. Ela é fofa, admito. Mas...

— Esperem um pouco...

Levantei-me e olhei para todos na sala.

— A Kaju está fora desta operação.

Ignorando a expressão surpresa de Asagumo-san, continuei:

— Essa confusão toda é um problema do Clube de Literatura. Eu já me arrependo de ter envolvido a Presidente e a Asagumo-san, mas a Kaju nem sequer é aluna do Colégio Tsuwabuki. Ela não devia fazer parte disso.

Kaju me lançou um olhar irritado, mas encarei seus olhos sem recuar.

— Isso é um problema do Clube de Literatura. Você vai fazer o vestibular este ano. Não se envolva nisso.

— Mas—

Kaju começou a protestar, porém a Presidente interveio.

— Kaju-kun, seu irmão tem razão. Desta vez, por favor, deixe isso conosco.

Caminhei até Kaju e afaguei sua cabeça.

— No ano que vem, nós vamos estudar juntos, não vamos?

Kaju permaneceu em silêncio por alguns instantes antes de murmurar baixinho:

— Um encontro.

— Um encontro?

— Quando tudo isso acabar, por favor, saia em um encontro com a Kaju.

— Ahh... sim, claro. Um encontro, hã?

Assenti com toda a seriedade. Kaju ergueu o rosto e fez beicinho.

— O dia inteiro? Da manhã até a noite.

— Sim. Vou fazer do jeito que você quiser.

Ainda parecendo um pouco insatisfeita, Kaju finalmente cedeu. Ela fez uma reverência para todos na sala e saiu em silêncio.

Vou ter que compensar isso quando chegar em casa...

Enquanto eu soltava um pequeno suspiro, Asagumo-san me olhou com uma expressão de culpa.

— Nukumizu-san, desculpe. Eu deveria ter sido mais cuidadosa. Não devíamos ter envolvido uma estudante do ensino fundamental II como Kaju-san nesse plano.

— Não, eu é que deveria ter falado alguma coisa antes. Asagumo-san—

Eu estava prestes a dizer que a culpa não era dela, mas parei. Desculpa. Não consigo mentir para mim mesmo. Com um sorriso amargo, a Presidente colocou a mão sobre o ombro da Asagumo-san.

— Eu também tenho culpa por não ter percebido. Nukumizu-kun, você é um bom onii-sama.

— Não. A Kaju é que se ofereceu.

Yanami, que já tinha terminado a baguete, bateu as mãos para tirar as migalhas e inclinou a cabeça.

— Mas, agora que a Imouto-chan saiu, quem vai interpretar Shiratama-chan?

Exatamente. Sem Kaju, precisamos encontrar uma substituta para a falsa Shiratama-san. Foi então que Asagumo-san encarou Yanami atentamente.

— Yanami-san, tenho uma proposta. Yanami-san, você tem mais ou menos a mesma altura que Riko-san, não é? O comprimento das pernas e o tamanho do rosto também são parecidos, então talvez consiga substituí-la.

— Hã? Eu?

Yanami soltou uma voz confusa enquanto remexia a bolsa. Yanami como substituta de Shiratama-san...?

— Mas, veja bem, Yanami-san e a Shiratama-san têm pesos diferentes... quer dizer, os corpos... os formatos do corpo...

— O que exatamente você está tentando dizer, Nukumizu-kun?

O olhar penetrante da Yanami fez minha voz desaparecer. Ignorando por completo a atmosfera constrangedora, Asagumo-san ergueu alegremente o celular.

— Yanami-san, Riko-san, vocês duas poderiam ficar ali por um instante?

— Hã? Eu?

— Sim. As duas, por favor.

A falta de tato social da Asagumo-san é bastante útil em momentos como esse. Depois de tirar fotos das duas, Asagumo-san ligou o notebook e virou a tela em nossa direção.

— Por favor, olhem.

Na tela estavam fotos de corpo inteiro de Yanami e Shiratama-san. Embora a altura e as proporções fossem semelhantes, as silhuetas eram claramente diferentes—

Era como comparar produtos de categorias completamente distintas em uma loja de anime. Asagumo-san começou a digitar, editando a foto da Yanami para deixá-la mais magra e a de Shiratama-san para fazê-la parecer um pouco mais cheia.

— Editei as imagens para aproximar os tipos físicos. Com as roupas e as perucas adequadas, podemos disfarçar as duas.

— Mesmo que dê para editar as fotos, não dá para mudar a realidade... Quer dizer, sem querer ofender, Yanami-san.

Por que eu preciso tomar tanto cuidado com ela? Sem perceber meu sofrimento, Asagumo-san apontou para a tela com um sorriso radiante.

— Esta simulação mostra como ficariam se Riko-san ganhasse dois quilos e Yanami-san perdesse a mesma quantidade até o dia do casamento. Só precisamos fazer a realidade acompanhar a simulação.

Hã? Então isso quer dizer—

Yanami inclinou a cabeça enquanto sugava um pequeno sachê de geleia.

— Acho que isso significa que eu não deveria comer uma segunda baguete?

Trocamos olhares. Então todos assentimos ao mesmo tempo, com as expressões mais sérias que tínhamos feito naquele dia.

*

Terceiro dia do feriado de cinco dias.

Faltavam cinco dias para o casamento. Os quatro criminosos — Asagumo-san, Shiratama-san, a Presidente e eu — estavam sentados na sala do Clube de Literatura.

Asagumo-san apertou o botão do cronômetro e encarou os números com os olhos ligeiramente vesgos.

— Um minuto e quinze segundos. Será que conseguimos prolongar um pouco mais a conversa?

— Se esticarmos demais, vai parecer artificial. É melhor mudar rapidamente de assunto para manter o tempo.

A Presidente balançou a cabeça e colocou a planilha de tempos sobre a mesa. Hoje estávamos simulando os acontecimentos do grande dia. Para passar pela recepção e tirar Tanaka-sensei de lá, era impossível evitar conversas.

Precisávamos estar completamente preparados. Asagumo-san parou de escrever suas anotações.

— Uma preocupação é que os quartos do noivo e da noiva ficam lado a lado. Se sua irmã aparecer, isso pode comprometer o plano.

— Onee-chan ainda deve estar no meio da maquiagem nesse horário. Além disso, eles marcaram um first look na capela, então...

Shiratama-san disse isso em voz fraca enquanto dava uma mordida em um rocambole inteiro. Ela estava se esforçando para ganhar dois quilos enquanto Yanami fazia dieta.

— Não exagere. Não vale a pena colocar sua saúde em risco.

— Todo mundo está dando o melhor de si. Eu também quero fazer a minha parte.

Shiratama-san respondeu quase chorando antes de dar outra mordida. Mesmo assim, o rocambole parecia não diminuir de tamanho.

Yanami é realmente fora do normal...

Enquanto eu reavaliava minha opinião sobre Yanami, a porta da sala do clube se abriu com um rangido.

— E-Eu preciso descansar um pouco...

Yanami entrou usando um agasalho esportivo. Ela tinha saído para correr como parte da dieta. Assim que desabou em uma cadeira e tentou abrir uma garrafa, Asagumo-san arrancou-a imediatamente de suas mãos.

— Asagumo-chan?

— Isso tem açúcar demais. Preparei uma bebida de baixa caloria para você. Por favor, tome isto.

Asagumo-san lhe entregou uma garrafa térmica.

— O que tem aí dentro?

— Vai ajudar você a emagrecer.

— Não precisa dizer mais nada!

Yanami virou o conteúdo da garrafa térmica de uma vez. É realmente seguro beber uma coisa dessas tão rápido? Enquanto eu observava aquilo com preocupação, Asagumo-san me entregou o cronômetro.

— Certo. Vamos repetir a simulação da conversa e ajustar melhor o cronograma. Nukumizu-san, pode marcar o tempo para nós?

— Ahh, sim.

No dia, a Presidente Hokobaru cuidaria da maior parte das conversas. Entretanto, eu precisaria coordenar com a Shiratama-san, que estaria infiltrada na capela, então teria que prestar atenção nas duas tarefas ao mesmo tempo.

Depois de terminarmos uma simulação completa, desde a entrada até a saída, percebi Yanami encarando o vazio com os olhos sem vida.

— Você está bem? Não está desidratada, está?

— Ei... o que significa comer...?

Ela começou a dizer coisas estranhas, até para os padrões dela.

— Você não está bem. Quer que eu vá comprar uns onigiris ou alguma coisa?

Yanami balançou lentamente a cabeça.

— O que é o apetite...? Por que as pessoas morrem quando a vida delas é tirada...?

Então tomou mais um gole da bebida de Asagumo-san. Essa coisa não está avançada demais para a humanidade?

Ainda assim, às vezes sacrifícios são necessários pelo bem maior...

Enquanto eu justificava aquilo para mim mesmo, Yanami se levantou lentamente.

— Certo. Acho que vou correr mais um pouco.

— Por favor, descanse mais.

— Estou sentindo que consigo. Acho que consigo correr até os Estados Unidos.

Isso é definitivamente só impressão. Mas não devo destruir a motivação dela. Sorri e a vi partir.

— Asagumo-san, aquela bebida é mesmo segura? É legal, não é?

— Sim. É perfeitamente legal. Pesquisei toda a legislação relacionada.

Peguei minha caneca pela metade—

Não bebi. E coloquei de volta sobre a mesa. ...Assim que chegar em casa, vou apagar o contato da Asagumo-san do celular da Kaju. Fiz esse juramento a mim mesmo.

*

Depois de terminar a reunião na sala do clube, acabei no lado leste da Estação Toyohashi. Passei por ali no caminho de casa para visitar a livraria e a loja de anime do prédio da estação.

Enquanto observava um pôster de evento na parede, decidi mudar de caminho e seguir para a Praça Sul. Não sei explicar o motivo. Foi só um capricho. Se eu tivesse seguido meu plano original e ido à livraria, não teria encontrado Yanami colada ao vidro de uma loja de udon em pé, observando as pessoas lá dentro.

Ela olhava os clientes comerem enquanto mordia uma banana. ...Só falta mais um passo para parecer uma pessoa suspeita. Eu realmente não quero me envolver nisso, mas acho que preciso falar alguma coisa.

— Yanami-san, o que você está fazendo?

— Ah, Nukumizu-kun.

Yanami olhou rapidamente para mim e deu outra mordida na banana.

— Percebi que estava agindo meio estranha antes. Queria me acalmar um pouco.

Ótimo. Finalmente voltou ao normal. Não que o normal dela seja particularmente normal...

— Então está descansando aqui?

— Sim. Estou comendo udon imaginário.

...Hã? Talvez ela ainda não tenha voltado completamente ao normal. Yanami lançou um olhar afiado para mim.

— Se quiser emagrecer rápido, precisa controlar a alimentação, não é? Desde hoje de manhã, só comi uma banana.

— Então comer uma banana enquanto fica olhando as pessoas comerem udon é o seu "udon imaginário"...?

— Exatamente. Se eu comer uma banana enquanto vejo alguém comer udon, é como se eu também estivesse comendo udon, não acha? Alimenta o corpo e a alma.

— E alimentou sua alma?

— Não.

Então você só está agindo como uma esquisita. Mas, desta vez, Yanami estava realmente tentando emagrecer. Normalmente, as "dietas" dela envolviam comportamentos absurdos, mas agora ela estava levando a sério.

— Tem certeza de que é saudável cortar tanta comida de repente?

— Não se preocupe. Eu sempre como direito justamente para me preparar para momentos assim.

Entendi. Então ela já vinha preparando o corpo para isso.

— Bom, acho que preciso mostrar pelo menos um pouco das qualidades de uma veterana.

— Estou surpreso, Yanami-san. Você realmente está preocupada com a Shiratama-san.

— É claro. Quem sabe o que ela vai fazer se deixarmos ela sozinha? Se tudo o que ela quer é tirar uma foto, isso é o melhor que podemos fazer.

...Não dá para discutir com isso. Yanami terminou a banana e começou a balançar a casca na mão.

— Além disso, quando olho para ela, parece que estou olhando para mim mesma um ano atrás. Não consigo simplesmente ignorar.

— Falando em um ano atrás—

Tudo mudou quando Himemiya-san se transferiu para nossa turma. Yanami percebeu que já não era mais a heroína do Sosuke Hakamada. Era apenas a Amiga A.

— Talvez as coisas fossem diferentes se eu tivesse sido tão imprudente quanto ela.

Yanami relembrou aquela época. Um ano atrás, ela teria encarado a imprudência de Shiratama-san como algo desesperado. Ela não teria conseguido ir tão longe. Agora, porém, Yanami conseguia entender.

— Hoje eu entendo. Eu sabia que, se me declarasse para o Sosuke, seria rejeitada. Por isso não consegui dar esse passo. Só tentei manter tudo como estava.

O sorriso de Yanami carregava um leve traço de autodepreciação.

— Não entenda errado. Estou satisfeita com o que aconteceu e não tenho nenhum arrependimento.

— Sim. Eu entendo.

Talvez estivéssemos tendo uma conversa séria. Mas, vistos de fora, ainda parecíamos dois malucos observando desconhecidos comerem udon. Tirei uma sacola plástica da mochila e recolhi a casca de banana que Yanami havia terminado.

— Que tal irmos comer ramen quando tudo isso acabar? Eu pago.

— Pode ser. Mas, Nukumizu-kun, você está tentando me fazer engordar?

— Isso só significaria voltar ao seu estado normal, não é?

— Hmph. Então vou mostrar meu verdadeiro poder. Pode se preparar.

Ela abriu um sorriso malicioso. Eu sorri de forma constrangida, já arrependido da oferta. O verdadeiro poder de Yanami, hã? Talvez eu precise sacar parte das minhas economias.

*

Na tarde seguinte, quarto dia do feriado de cinco dias, eu estava encostado na parede do corredor do lado de fora da sala do clube, ao lado da Presidente.

Na porta diante de nós havia uma placa: "Trocando de roupa! Entrada proibida para meninos!"

Estávamos esperando Yanami e Shiratama-san terminarem. A Presidente me ofereceu um pequeno pacote de balas de goma de frutas.

— Nukumizu-kun, quer uma?

— Ah, sim. Obrigado.

Peguei uma bala do pacote e coloquei na boca, saboreando o gosto doce e azedinho de tangerina. ...Eu não esperava que ela andasse por aí carregando doces. Enquanto eu pensava nisso, a Presidente deu um sorriso amargo.

— Doces não combinam muito com a minha imagem, não é?

— Não, é só um pouco surpreendente. Sempre imaginei você como alguém mais séria e controlada.

— Na verdade, tenho dificuldade para ganhar peso, então não restrinjo os lanches.

A Presidente disse isso enquanto colocava uma bala de goma na boca. É verdade. Existem garotas assim, como Shiratama-san. Conviver com Yanami por tempo demais realmente destrói o senso comum.

Preciso tomar cuidado...

— Não, bom... o que eu acho mais surpreendente é toda essa situação.

— O que quer dizer?

— Nunca imaginei que a Presidente se envolveria numa coisa dessas.

— Eu já disse, não disse? Também conheço o sofrimento de um amor que não pode revelar — a Presidente me lançou um olhar penetrante. — Eu pareço uma pessoa sem interesse em romance?

— Hã? Não...

A Presidente soltou uma risadinha diante da minha reação nervosa.

— Sou uma garota como qualquer outra. Também sonho em me casar e usar um vestido de noiva. Você acha que não combinaria comigo?

— Não. Não acho isso de jeito nenhum.

A conversa parou por alguns instantes, enquanto nós dois encaramos a placa de "Entrada proibida para meninos" na porta.

Pensando bem...

Ela não deveria poder entrar?

No momento em que eu ia colocar esse pensamento em palavras, a porta da sala do clube se abriu lentamente. Yanami espiou pela fresta.

— Desculpem fazer vocês esperarem. Podem entrar.

Finalmente terminaram de se trocar. A Presidente e eu entramos na sala—

— Tcharam! Apresentando Shiratama-chan em seu vestido de noiva!

O anúncio alto da Yanami diminuiu um pouco o impacto. Mesmo assim, ali estava Shiratama-san, vestindo um belíssimo vestido de noiva branco.

O vestido tinha detalhes de renda ao redor dos ombros e do decote, enquanto a saia se abria de maneira elegante, embora fosse bem mais curta do que os modelos tradicionais. A barra da frente chegava ao meio das coxas, enquanto atrás descia até a metade das panturrilhas. Nos pés, ela usava sapatos brancos de salto baixo, provavelmente para facilitar os movimentos. Ela parecia uma fada delicada—

Parei antes de dizer aquilo em voz alta. Soaria nojento demais.

— Então... como eu estou?

Seu olhar hesitante e ansioso era incrivelmente fofo. Enquanto eu procurava mentalmente palavras menos constrangedoras, a Presidente falou com uma expressão impressionada.

— Ora, ora. Você está absolutamente encantadora. Dá até vontade de pegar você e fugir para algum lugar.

Se eu dissesse isso, provavelmente seria banido para outra dimensão. Mas quem tinha falado era ninguém menos que a Hibari Hokobaru. Shiratama-san ficou vermelha, e seu sorriso tímido se alargou.

Por algum motivo, Yanami estufou o peito com orgulho, exibindo uma expressão satisfeita.

— Eu fiz a maquiagem, e ficou ótima. A pele de Shiratama-chan é tão lisa e limpa. Foi muito divertido trabalhar nela. Ah... juventude...

Tenha mais confiança, Yanami. Você também não está exatamente sem juventude. Enquanto eu a encorajava mentalmente, a Presidente assentiu com uma expressão séria.

— Todos os preparativos estão concluídos. A versão final do plano está pronta?

— Sim. Asagumo-san vai trazer tudo para a sala do clube depois das aulas amanhã. Presidente, você consegue vir também? — eu perguntei.

— Claro. A esta altura, eu ficaria solitária se fosse deixada de fora.

...Finalmente chegamos até aqui. Passamos a Golden Week inteira nos preparando para isso. Felizmente, ainda restava um dia de feriado.

Amanhã vou relaxar em casa lendo algumas light novels. Enquanto eu gravava na memória a imagem adorável da Shiratama-san, Asagumo-san entrou na sala do clube.

— Ora, Riko-san, você está maravilhosa. Pessoal, posso tomar um pouco da atenção de vocês?

Depois de fazer um rápido elogio, Asagumo-san abriu um mapa sobre a mesa.

— Nosso plano era trocar de roupa na sala do Clube de Literatura e pegar um táxi até o local. Entretanto, considerando o trajeto de ida e volta, o cronograma fica bastante apertado.

Ela continuou sem esperar que nos aproximássemos.

— O ideal seria termos uma sala nas proximidades. Um hotel ou espaço alugado seria perfeito, mas não há nada adequado na região.

— Talvez eu tenha uma ideia.

Yanami falou enquanto batia com o dedo sobre o mapa. Era a Escola Kirinoki, bem ao lado do local.

— Tenho uma amiga no Clube de Teatro da Kirinoki. Posso perguntar se podemos usar a sala do clube deles. Talvez também consigamos pegar emprestados os figurinos que ainda estiverem faltando.

— Seria ótimo, mas será que pessoas de fora como nós podem ficar entrando e saindo desse jeito?

A Presidente sorriu de forma tranquilizadora.

— Podemos dizer que é uma pesquisa do Clube de Literatura. Conheço um professor da Kirinoki, então posso resolver essa parte.

Essas duas são rápidas para agir. Então esse é o poder das habilidades sociais… Enquanto eu observava as duas começarem a fazer ligações, senti alguém puxar minha manga. Era Shiratama-san.

— Ainda não ouvi o que você achou, Presidente.

É claro que ela estava absolutamente adorável. Mas dizer isso diretamente seria inadequado. Se eu a comparasse a uma fada, um anjo ou um gatinho, não seria assédio sexual, mas certamente seria estranho.

— Uh, a cor do vestido combina muito bem com você... Ela realça seu charme natural e transmite uma agradável sensação de alegria para quem olha.

Ótimo. Escolhi um elogio apropriado e completamente livre de qualquer traço de esquisitice. Shiratama-san inclinou a cabeça de um jeito adorável.

— Em uma palavra?

— Hã... acho que ficou bonito em você.

Shiratama-san soltou uma risadinha e tirou uma selfie com o celular. ...Fui completamente encurralado até dizer isso. Yanami terminou a ligação e me lançou um olhar afiado.

— Conseguimos usar a sala do Clube de Teatro. Agora é hora de trocar de roupa, então todos os garotos para fora!

— Ah, sim... Pensando bem, a Presidente não precisa sair da sala, não é?

Enquanto saía, cruzei o olhar com Yanami. Ela mexeu os lábios sem emitir som, mas consegui entender perfeitamente. O que ela disse foi...

"É... por... isso... que... eu... não... gosto... desse... seu... lado."

*

No dia seguinte, último dia da Golden Week.

Nosso grupo de cinco criminosos estava diante da Escola Kirinoki, a cerca de quinze minutos de bicicleta do Colégio Tsuwabuki.

Todos os alunos do primeiro ano daquela escola tinham aulas de comércio e, a partir do segundo, se especializavam em áreas como contabilidade ou tecnologia da informação.

TI parecia legal, mas, depois de clicar em um banner suspeito e destruir completamente o computador de casa, decidi deixar essas coisas para os especialistas.

Mesmo sendo feriado, ainda havia alunos participando das atividades dos clubes. Estou me sentindo meio deslocado aqui...

Enquanto eu me remexia inquieto, encarando a estátua de Hermes em frente ao prédio da escola, a Presidente deu um tapinha no meu ombro.

— Vou até a sala dos professores cumprimentá-los. Vocês podem seguir para a sala do Clube de Teatro.

Carregando uma sacola de papel cheia de biscoitos de arroz, a Presidente seguiu em direção ao prédio.

— Yanami-san, para onde vamos?

— Fica no primeiro andar do prédio de atividades, lá nos fundos. O Clube de Teatro usa uma sala vazia ali, e podemos ficar nela.

Yanami olhou ao redor enquanto conferia as direções no celular. Asagumo-san caminhou um pouco à frente e então acenou para nós.

— Sigam-me. É por aqui.

Mal conseguindo esconder a curiosidade, ela começou a andar rapidamente. Yanami e Shiratama-san seguiram lado a lado, e fui atrás delas.

— Você é próxima dessa sua amiga do Clube de Teatro?

— Sim. Ela é minha parceira de excursões gastronômicas. Troquei meu mapa artesanal de lojas de ramen pela permissão para usarmos a sala do clube.

Consegui ouvir a conversa delas de leve. ...Uma parceira de passeios gastronômicos da Yanami? Ela deve ser uma ótima pessoa.

Eu jamais conseguiria acompanhar esse ritmo. Enquanto pensava nisso, chegamos a um prédio antigo de três andares. Sem qualquer hesitação, Yanami e as outras entraram, e eu as segui com certa relutância.

No primeiro andar, pouco iluminado, encontramos uma sala com uma placa escrita: Clube de Teatro

— Certo, vou bater—

— Com licença!

Yanami abriu alegremente a porta sem esperar. Tenha um pouco de educação, pelo amor de Deus.

A primeira coisa que notei foi o cheiro de tinta e poeira vindo da sala. A grande sala de aula havia sido transformada em depósito do Clube de Teatro, com cenários de compensado encostados nas paredes e caixas de objetos de cena espalhadas por todos os lados.

Havia tantos figurinos pendurados em araras que provavelmente dariam para vestir uma pessoa pelo resto da vida. Nos fundos, uma garota sentada em um sofá bocejou e se levantou lentamente.

— Ah, Yanamin. Quanto tempo. Já comeu hoje?

— Quanto tempo, Nina! Estou de dieta agora.

Nina...? Apesar do nome de sonoridade estrangeira, ela parecia completamente japonesa. Tinha olhos sonolentos e uma aparência simples, discreta. Quando as duas terminaram de se cumprimentar, resolvi me apresentar.

— Hã, sou Nukumizu, do Clube de Literatura do Colégio Tsuwabuki. Muito obrigado por deixar a gente usar a sala—

— Nukumizu-san? Então você é o garoto, hein?

Ela parecia estar me encarando. Tipo, encarando mesmo.

— Ei...

— Ah, desculpe. Sou Niina, vice-presidente do Clube de Teatro. "Nii" de "novo" e "na" de "verdura".

(N/SLAG: Niina é escrito com os kanji 新, "novo/fresco", e 菜, "verdura".)

Nina—Niina-san, agora oficialmente identificada como vice-presidente do Clube de Teatro, estendeu a mão para mim.

...Hã, é normal apertar a mão de uma garota que acabei de conhecer? Olhei de relance para Yanami e apertei a mão da Niina-san. Então percebi algo duro em sua palma.

— Uma chave?

— É a chave desta sala. Normalmente ensaiamos no ginásio, então só usamos este lugar para trocar de roupa e guardar as coisas.

Niina-san olhou uma última vez de mim para Yanami—

— Bom, boa sorte, Yanamin.

Depois de dizer isso, saiu da sala. Como é que a Niina-san parece uma pessoa tão genuinamente legal mesmo sendo amiga da Yanami? Enquanto eu me surpreendia positivamente, Yanami cutucou meu braço com o cotovelo.

— Viu? Ela é uma garota legal, não é? Dá para perceber porque o nome dela tem o mesmo "na" que o meu.

Ela falou com orgulho, mas seus olhos estavam fixos no chão.

— O que foi, Yanami-san?

— Tem um doce que caiu no chão. Você acha que ainda dá para comer?

— Desiste. Você precisa perder dois quilos antes do casamento, lembra?

Peguei o doce no chão e procurei uma lixeira.

Apesar da aparência um tanto bagunçada, a sala estava claramente bem organizada, e o cronograma escrito no quadro-negro parecia recente. Era evidente que aquilo realmente era uma sala de Clube de Teatro em funcionamento.

Enquanto observava o ambiente, Asagumo-san, que mexia em um notebook no chão ao lado de Shiratama-san, murmurou de repente:

— Tudo certo. Os sinais ao redor estão limpos.

— Hã, Asagumo-san, o que você estava fazendo?

— Esta sala será nossa base de operações no dia. Preciso verificar algumas coisas.

Asagumo-san se levantou cheia de energia, com a testa brilhando de entusiasmo.

— Vamos, Riko-san. Precisamos encontrar os melhores pontos de sinal. Você deve se tornar uma só com o Bluetooth!

— Ah, certo! Não sei bem o que isso quer dizer, mas vou dar o meu melhor!

Asagumo-san disparou para fora da sala, seguida por Shiratama-san, que carregava uma antena. Eu realmente espero que ela não ensine coisas estranhas demais para a nossa novata...

E, Yanami, para de encarar a lixeira desse jeito.

*

Com o mapa no celular, caminhei pela parte de trás da sala do Clube de Teatro, explorando os arredores. Precisava me familiarizar com o terreno antes do grande dia.

Como Yanami tinha saído para correr, acabei ficando sozinho e um pouco inquieto. A sala do Clube de Teatro ficava no lado norte do prédio de atividades, próximo ao limite do terreno da Escola Kirinoki.

Do outro lado da cerca havia uma área residencial. Caminhando para oeste ao longo da cerca, encontrei no final uma cerca-viva alta bloqueando o caminho.

Do outro lado dela ficava praticamente a entrada do local do casamento, mas não parecia haver passagem—

— Hã...?

Quando tirei os olhos do mapa no celular, fiquei surpreso com o que vi. Havia um buraco grande o bastante para uma pessoa passar engatinhando, aberto na cerca-viva de mais de dois metros de altura. Isso é conveniente demais para ser coincidência...

— Nukumizu-san, você também está fazendo o reconhecimento?

Ao ouvir a voz, me virei e encontrei Asagumo-san e a Shiratama-san se aproximando. As duas tinham folhas presas no cabelo e nas roupas. Vocês duas...

— Asagumo-san, por acaso você não fez esse buraco na cerca-viva, fez?

— Buraco? Ora, tem um buraco aqui?

Asagumo-san demonstrou surpresa, como se estivesse vendo aquilo pela primeira vez.

— Então você está dizendo que isso foi só uma coincidência?

— Sim, é claro. Uma coincidência. Não é, Riko-san?

— Sim. Uma completa coincidência, Asagumo-senpai.

O sorriso da Shiratama-san era impecável, sem deixar qualquer margem para dúvida. O placar era dois contra um.

Está decidido. É coincidência. Sim. Com toda certeza é coincidência. Dito isso, quando essa operação acabar, estou seriamente pensando em proibir Asagumo-san de entrar no Clube de Literatura.

Enquanto fazia mentalmente a contagem dos crimes dela, ouvi passos se aproximando por trás.

Assustado, virei-me rapidamente. Era a Presidente. Por reflexo, desloquei o corpo para esconder o buraco na cerca-viva.

— Aí estão vocês três. Acabei ficando presa numa conversa com um professor que conheço.

A Presidente se aproximou e ergueu uma folha de papel diante de nós.

— Conseguimos autorização para entrar e sair sob o pretexto de um projeto de pesquisa. Agora podemos circular livremente.

Ao ouvir aquilo, Asagumo-san bateu palmas, encantada.

— Isso significa que nossas atividades agora são oficialmente legais!

— Conseguimos, Asagumo-senpai!

...Não. Isso continua sendo ilegal. Observando as duas comemorarem juntas, só consegui abrir um sorriso fraco.

*

Já passava das cinco da tarde, e o céu começava a escurecer. Depois de terminarmos o reconhecimento na Escola Kirinoki, passei novamente no Colégio Tsuwabuki.

Eu tinha vindo pegar emprestado o próximo volume de "Ela Talvez Seja Minha Namorada Imaginária". Era uma comédia romântica sobre uma garota que apenas o protagonista conseguia enxergar. Eu havia hesitado em ler aquele volume porque sua publicação tinha causado uma enorme polêmica, mas agora me sinto pronto para encarar.

Cheio de expectativa, abri a porta da sala do Clube de Literatura, esperando encontrá-la vazia. Para minha surpresa, porém, já havia alguém ali.

Era a Shiratama-san. Ela segurava várias pequenas flores brancas e as enrolava cuidadosamente com arame.

— Ah, você veio.

— Sim. Achei melhor terminar este buquê aqui. Afinal, não posso levar para casa.

Peguei o próximo volume na estante e, depois de hesitar por um instante, me sentei na cadeira diante dela. As pequenas flores eram artificiais. Shiratama-san as organizava meticulosamente para formar uma bela curva, enrolando cuidadosamente as hastes com fita.

Depois de algum tempo, pareceu satisfeita com o formato. Ela apertou algumas vezes a parte arredondada do buquê.

— Olha. Quando eu solto esta parte, as flores se abrem. Ele fica compacto para eu conseguir esconder por baixo da roupa.

— Uau, isso é impressionante.

Shiratama-san sorriu enquanto começava o acabamento final, adicionando uma fita decorativa.

— Não se preocupe.

Ela murmurou baixinho, mantendo os olhos concentrados no trabalho.

— Hã? Com o quê?

— Se chegar a esse ponto, eu assumo toda a responsabilidade e faço com que ninguém mais se meta em problemas. Então, por favor, não fique preocupado com isso.

Depois de dizer aquilo, ficou em silêncio. Observando-a curvada sobre o buquê enquanto trabalhava, não consegui evitar falar.

— Shiratama-san, outro dia você disse que não tinha nada a perder.

Provavelmente não era da minha conta. Ela não estava pedindo conselhos, e minhas palavras talvez nem ajudassem.

— Mas talvez você só ainda não tenha percebido. Pode ser que já exista alguma coisa importante para você.

As mãos dela pararam.

— Quando você perde, já é tarde demais. Então tente cuidar de si mesma e das coisas que tem, nem que seja só um pouco.

Shiratama-san ouviu em silêncio e, por fim, respondeu sem levantar os olhos.

— Aconteceu alguma coisa com você, Presidente?

— Nada que valha a pena comentar.

Desviei o olhar para a estante encostada na parede enquanto me lembrava do verão passado. Pouco antes de eu perceber que era amigo da Yanami. A lembrança de ter rejeitado e magoado Yanami voltou de uma vez.

Yanami estava parada diante daquela mesma estante, olhando para mim como se eu fosse um estranho. Mesmo depois de um ano, ainda lembro daquele dia com nitidez.

— Tudo acaba um dia. Mas a forma como termina e a maneira como você escolhe se lembrar disso... Shiratama-san, você ainda pode decidir essas coisas. Então, por favor, não se deixe levar pelo desespero.

Shiratama-san voltou ao trabalho, movendo as mãos com firmeza.

— Mas existem coisas que a gente simplesmente quer deixar para trás.

— Existem coisas que se tornam dolorosas demais para continuar segurando. Coisas que dá vontade de jogar fora. Até lembranças podem se tornar assim — ela acrescentou.

Deixar para trás. Abandonar tudo. Mas o que existe no fim desse caminho? Não sei que tipo de lugar é esse. Mas tenho a sensação de que a pessoa que chegar lá não estará sorrindo.

— Mesmo assim—

— Terminei!

Ela interrompeu minhas palavras e ergueu o buquê pronto diante do peito, com um brilho travesso nos olhos.

— Ehehe. Ficou fofo?

— Sim. Ficou muito bonito.

As palavras saíram naturalmente. A coragem fingida. As mentiras. E a solidão que ela não conseguia esconder por completo. Diante de tudo aquilo, só consegui responder com palavras simples e sinceras, como um idiota.

Shiratama-san pareceu surpresa com minha resposta. Então sorriu suavemente.

— Obrigada…

Mas aquele sorriso me lembrou demais a expressão da Yanami naquele dia. Meu peito apertou.

(N/SLAG: Volume 1, capítulo 4. É quando Nukumizu, preocupado com os rumores envolvendo os dois, encerra os almoços com a Yanami. Ela entende que ele não quer mais sua companhia e diz que não falará mais com ele. Depois, na sala do Clube de Literatura, ela aparece diante da estante para devolver um livro e o trata friamente, "como um estranho". Logo depois dessa crise, Nukumizu finalmente percebe que já considerava Yanami sua amiga)

📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag e revisado por Shisui

💬 Quer acompanhar os próximos lançamentos, dar sugestões e trocar ideia com a gente?

Entre no nosso servidor do Discord e faça parte da comunidade! 🚀

Fim da leitura

Capítulo 83 concluído

Volume 7 – Capítulo 3 – Capítulo 3: Deixe Isso para os Especialistas