Todas Essas Heroínas Perdedoras! — Capítulo 84: Volume 7 – Capítulo 4 – Capítulo 4: A Grande Vingança

Todas Essas Heroínas Perdedoras!
Cap. 84
0%
Todas Essas Heroínas Perdedoras!

Volume 7 – Capítulo 4 – Capítulo 4: A Grande Vingança

Capítulo 84

12.175 palavras~53 min de leitura

O LONGO FERIADO DA GOLDEN WEEK havia terminado, e nós quatro — Yanami, a Presidente, Shiratama-san e eu — estávamos reunidos na sala do clube depois das aulas.

A testa de Asagumo-san brilhava de determinação enquanto ela se dirigia a nós.

— O plano da Operação Grande Vingança da Riko Shiratama finalmente está completo. A operação será dividida em duas grandes fases. Primeiro—

Ela escreveu "Fase 1" em letras grandes no quadro branco.

— O objetivo da Fase 1 é fazer nossa Shiratama falsa, Yanami-san, se infiltrar no local.

Yanami fez sinal de positivo com o polegar enquanto mastigava uma banana. A dieta dela está indo bem, e parece completamente motivada.

— Entretanto, a verdadeira Riko-san já é conhecida pelos funcionários do local do casamento. Seria difícil outra pessoa, mesmo disfarçada, se passar por ela e entrar sem levantar suspeitas.

Asagumo-san escreveu "8h30" no quadro.

— Por isso, primeiro a verdadeira Riko-san entrará no local usando o uniforme da escola e deixará clara sua presença para os funcionários. Depois disso, ela trocará de lugar com Yanami-san disfarçada. Riko-san, você entendeu os passos, certo?

Shiratama-san assentiu com um olhar distante enquanto chupava um tubo de pasta doce de feijão vermelho. Será que ela realmente entendeu?

O plano para ganhar peso não está indo tão bem. Yanami conseguiria engordar dois quilos num piscar de olhos, mas, para Shiratama-san, é outra história.

Não podemos forçar demais.

— O mais importante nesta operação é impedir que alguém perceba que a Riko-san está usando o vestido de noiva. Se fixarmos na cabeça de todos que ela está no local usando o uniforme, mesmo que alguém a veja de vestido, não vai suspeitar que seja ela. Afinal, todos acreditarão que Yanami-san, disfarçada de Riko-san, ainda está circulando por lá.

Depois de se certificar de que todos tinham entendido, Asagumo-san voltou a escrever no quadro.

— Assim que a troca for concluída com sucesso, passaremos para a Fase 2.

Ela circulou "Fase 2" em vermelho.

— Hokobaru-senpai, disfarçada de fotógrafa, e Nukumizu-san entrarão no local. A função de vocês será chamar o máximo de atenção possível. Enquanto fazem isso, Yanami-san, como a falsa Shiratama, ajudará a verdadeira Riko-san, que a essa altura já estará usando o vestido de noiva, a entrar escondida na capela.

Yanami assentiu solenemente, ainda encarando a casca da banana que acabara de terminar. Quanto a Shiratama-san, o rosto dela parece um pouco pálido...

— Assim que a Riko-san conseguir entrar na capela, Yanami-san dará o sinal. Nesse momento, Hokobaru-senpai e Nukumizu-san levarão Tanaka-sensei até a capela sob o pretexto de fazer um teste de câmera.

Asagumo-san fechou a tampa do marcador com um estalo e abriu um sorriso radiante.

— Agora vem a parte mais crítica: a sessão de fotos. Nukumizu-san, é fundamental garantir que Riko-san permaneça fora do campo de visão do Tanaka-sensei. Você será responsável por orientar os dois.

— Hã... e como exatamente eu devo fazer isso?

— Bom, como estamos lidando com pessoas reais, você terá que improvisar, se adaptar e superar a situação.

— Improvisar e me adaptar—

Eu estava prestes a protestar quando Asagumo-san deixou cair sobre a mesa uma pilha grossa de papéis.

— Você ficará bem desde que siga este manual. A parte da flexibilidade também se baseia nisso.

Ela abriu a capa do manual.

— A Fase 2, em especial, precisa ser executada dentro de uma janela bastante apertada, entre nove e meia e dez da manhã. Só teremos uma chance. Não haverá segunda tentativa.

Dentro do manual, o cronograma detalhado do dia estava descrito minuciosamente. Tanaka-sensei chegaria ao local às nove da manhã. A Presidente e eu, fingindo ser fotógrafos, nos infiltraríamos às nove e meia e precisaríamos concluir a sessão de fotos e sair antes das dez, quando o verdadeiro fotógrafo chegaria.

— Se alguém tiver alguma pergunta, este é o momento. Vamos resolver todas as dúvidas agora.

Os discípulos de Asagumo-san trocaram olhares.

Tem muita coisa para perguntar, mas... Certo, vamos começar pelo básico.

— No cronograma diz que os familiares só precisam se reunir às dez e meia. Shiratama-san deve entrar às oito e meia. Vão mesmo deixar ela entrar?

— É comum que a mãe ou as irmãs da noiva a acompanhem até o local, então isso não será um problema. A noiva chegará às sete e meia para se trocar, fazer a maquiagem e arrumar o cabelo, portanto estará ocupada demais para procurar Shiratama-san nesse período.

Asagumo-san folheou o manual.

— A decoração da capela deverá estar concluída por volta das nove. Depois disso, quase ninguém deverá entrar ou sair de lá.

Por algum motivo, Asagumo-san parecia extremamente confiante. A Presidente, porém, demonstrou desconfiança.

— Uma pergunta simples: como você sabe de tudo isso?

— Observei cinco casamentos durante o feriado. Komari-san também reuniu discretamente muitas informações.

...Komari? Mas ela parece a pessoa menos indicada possível para uma missão de reconhecimento. Yanami aparentemente teve a mesma dúvida e fez uma expressão confusa.

— Como Komari-chan conseguiu fazer isso? Os seguranças não foram falar com ela?

Asagumo-san tirou um caderno de desenho com capa preta e laranja.

— Ela ficou no estacionamento perto do local desenhando paisagens enquanto registrava a movimentação de entrada e saída.

O caderno passou de mão em mão, revelando desenhos lindamente detalhados dos arredores do local. Enquanto folheava as páginas, percebi pequenas anotações escritas cuidadosamente nos cantos, registrando horários e as pessoas que entravam e saíam da área.

— Ontem ela ficou observando a capela a partir do telhado da Escola Kirinoki. Agora temos uma boa noção da movimentação dos funcionários.

— Isso ajuda muito, mas por que ela não contou para a gente? Podia pelo menos ter mencionado.

A Presidente pegou o caderno das minhas mãos e o examinou atentamente.

— Provavelmente quis se preparar para o caso de algo dar errado. Seria um desastre se o plano fracassasse e todos nós acabássemos suspensos.

...É, faz sentido. Ela deve estar preocupada vendo a gente seguir em frente com esse plano insano. Então resolveu reunir informações por conta própria, sem dizer nada—

— Komari-san me pediu para manter segredo, então não contem para ninguém, certo?

Asagumo-san acrescentou com um sorriso brincalhão, colocando o dedo diante dos lábios. Palavras como "confidencialidade" não significam absolutamente nada para essa pessoa. Yanami, que folheava o manual em silêncio, se manifestou.

— Ei, a Shiratama-chan vai vestir o vestido de noiva lá no local? Não seria ainda mais suspeito ela sair escondida e ficar indo e voltando até a Kirinoki?

— Considerando o histórico da Shiratama-san, aparecer carregando uma bolsa grande certamente levantaria suspeitas. Além disso, existe a possibilidade de algum parente chegar mais cedo, então levar o vestido para dentro é arriscado demais. É claro que ele ficará escondido sob um casaco durante o transporte.

— Foi por isso que escolhemos um vestido fácil de vestir e que não ocupa muito espaço.

Shiratama-san acrescentou antes de tomar mais um pouco da pasta doce de feijão vermelho.

Quando finalmente ficamos sem perguntas, Asagumo-san colocou sobre a mesa duas pequenas peças de metal preto, mais ou menos do tamanho de uma moeda de dez ienes. Uma delas tinha um botão.

— E, Yanami-san, por favor, fique com este clicker. É o que tem o botão.

— Um clicker? Dá para comer—

— Não é comestível. Este outro receptor vibrará quando você apertar o botão.

Asagumo-san explicou enquanto demonstrava. Ao pressionar o botão, a outra peça vibrou suavemente.

— Um clique significa "avançar", dois significam "recuar", e três, "manter posição". Mais do que isso significa "saia daí imediatamente". Shiratama-san ficará com o receptor vibratório e seguirá as instruções.

Entendi. Isso é muito mais intuitivo do que usar smartphone ou sinais com as mãos. Basta apertar um botão e provocar uma vibração.

A leve empolgação que senti com aquilo era puramente porque minha cabeça estava indo para lugares onde não devia.

— Assim que a sessão de fotos terminar, vocês dois, como os fotógrafos falsos, precisam garantir que Tanaka-sensei seja levado de volta ao andar de cima. Durante esse período, Yanami-san conduzirá Shiratama-san para fora do local. Consultem os detalhes menores no manual.

Olhando de novo… Esse manual é realmente grosso. Enquanto eu hesitava, notei que havia um quadrado na capa com as palavras "Carimbo de Aprovação".

— Hã, para que serve esse "Carimbo de Aprovação"?

— Muito bem, Líder do Projeto, por favor, dê sua aprovação oficial para a operação!

Asagumo-san declarou isso enquanto me encarava diretamente. ...Eu sou o Líder do Projeto? Recuei um pouco, mas Asagumo-san se inclinou ainda mais na minha direção.

— Vamos, apenas carimbe a capa! Com firmeza e determinação!

— Hã... bom, eu não tenho nenhum carimbo nem nada assim...

Shiratama-san então me entregou um.

— Foi por isso que mandei fazer um para você. Também já preparei a almofada de tinta. Por favor, pode usar.

...Ela mandou fazer um carimbo para mim. Que atenciosa, hehe. Depois de todos insistirem, pressionei o carimbo na tinta e o bati com firmeza no centro do manual. Era a primeira vez que eu via um carimbo tão bonito com o nome "Kazuhiko Nukumizu" gravado nele.

*

Na véspera da operação.

Todos concordamos em descansar naquele dia para nos prepararmos para o seguinte. Caminhei tranquilamente pelo terreno da escola em direção ao bicicletário.

...Cruzei tantas linhas neste último meio mês.

Se estivéssemos num campo de batalha, provavelmente meu peito já estaria coberto de medalhas. Infelizmente, isso aqui é apenas uma escola comum em tempos de paz. A sociedade não costuma ser muito gentil com quem mergulha voluntariamente em problemas.

Enquanto o sol começava a se pôr, os clubes esportivos no campo passaram a guardar seus equipamentos. Eu procurava um rosto conhecido entre os membros da equipe de atletismo quando—

Pá!

Uma pancada forte atingiu minhas costas.

— Ai!

Virei-me com lágrimas nos olhos e encontrei exatamente quem esperava. Yakishio. Vestindo as roupas de treino, ela deu outro tapa nas minhas costas, desta vez mais leve, e passou a caminhar ao meu lado.

— Isso doeu. Você não devia estar treinando?

— O treino acabou agora, e estou fazendo o desaquecimento. Já estou indo para casa.

— Entendi. Eu só estava dando uma caminhada até o bicicletário.

Sem dizer mais nada, começamos a andar juntos. Yakishio olhou ao redor, certificando-se de que ninguém estava perto o bastante para ouvir, e então abaixou a voz.

— Ouvi da Yana-chan. Vocês estão aprontando alguma coisa maluca, não estão?

— Não é maluca... Bom, talvez só um pouquinho.

Admiti com um sorriso amargo, e os olhos de Yakishio brilharam de curiosidade.

— Precisa de ajuda? Se for alguma coisa física, pode contar comigo.

— Não. As coisas estão indo bem no atletismo, não estão?

Yakishio abriu um sorriso largo, exibindo os dentes brancos.

— Sim, está tudo ótimo. Se eu vencer as classificatórias da província este mês, vou para as classificatórias regionais de Tokai no mês que vem. E, se eu vencer lá—

— Nacional?

Ela assentiu com entusiasmo, claramente empolgada com a possibilidade.

— E como você está fisicamente?

— Perfeitamente ajustada! Quer ver meu abdômen?

— Espera—não! E também não mostra para outros garotos!

Ela caiu na gargalhada com minha reação desesperada. Nossa conversa era leve e natural, muito diferente da atmosfera um pouco estranha que existira entre nós desde aquela pequena corrida algum tempo atrás.

Eu não entendia muito bem por que as coisas tinham ficado estranhas entre nós. Também não sabia o que tinha feito tudo voltar ao normal.

— Ei, você e o pessoal do Clube de Literatura deviam assistir à minha competição. Vou mostrar uma coisa incrível para vocês.

— Eu com certeza vou às classificatórias de Tokai. Quero ver você conseguir chegar ao Nacional.

— O quê? Você não vai assistir à competição da província?

Yakishio fez beicinho e cutucou minhas costas de brincadeira. Desviei para o lado com um sorriso amargo.

— Porque você vai vencer de qualquer jeito.

— É. Eu vou vencer.

Trocamos sorrisos. Tudo voltou ao normal. Mas alguma coisa parece um pouco diferente. Talvez algo tenha passado por nós, como a mudança das estações, deixando para trás uma alteração sutil.

Talvez sejamos jovens demais para entender completamente o que é essa coisa. Mas tenho a sensação de que, quando formos mais velhos, olhar para trás e lembrar desses dias talvez nos faça sorrir.

*

Finalmente, chegou o dia do casamento. Sete da manhã. A clara luz da manhã entrava pela sala do Clube de Teatro da Escola Kirinoki.

Reunidos ali estavam eu, Asagumo-san, a Presidente. E duas Shiratama-san.

Isso mesmo. Yanami, disfarçada de Shiratama-san, estava em pé ao lado da verdadeira.

Com perucas, maquiagem, uniformes, sapatos e acessórios combinando, as duas estavam surpreendentemente parecidas.

...Isso está realmente funcionando.

Claro, existem algumas diferenças de volume, e a coisa toda tem um certo ar de "antes e depois". Mas talvez consigamos fazer isso funcionar, desde que as duas nunca apareçam juntas. O busto de Yanami sempre foi uma fonte de preocupação, mas havia sido cuidadosamente ajustado para se aproximar das proporções mais modestas da Shiratama-san.

Até as linhas das pernas pareciam bastante naturais, apesar das diferenças evidentes entre os corpos das duas.

Enquanto eu admirava o quão convincente o disfarce estava, a testa de Asagumo-san brilhou com sua confiança habitual.

— Muito bem, pessoal. Exatamente como eu previ, Nukumizu-san reagiu da maneira esperada.

— Hã? Do que você está falando?

Todas as garotas se viraram para me encarar.

— Quando um garoto vê uma garota de uniforme escolar, normalmente olha primeiro para o rosto, depois para o peito e então para as pernas. Por isso, se alinharmos esses pontos principais, fica mais difícil perceber a troca.

— Asagumo-san, que diabos você está dizendo?

Ei, espera aí. Não me olhem desse jeito, garotas. Ignorando meu desconforto, Asagumo-san continuou a explicação.

— Em contraste, garotas tendem a prestar mais atenção na maquiagem, nos acessórios e nos detalhes das roupas. Como o uniforme é o mesmo, igualamos o penteado e a maquiagem e adicionamos detalhes em azul para unificar a impressão geral.

De fato, as canetas nos bolsos do peito, os relógios de pulso e até o esmalte eram todos em tons de azul. Depois de comparar as duas Shiratama-san, a Presidente se manifestou.

— Mas não será fácil disfarçar a voz. Yanami-kun simplesmente vai evitar falar?

— Isso já foi resolvido. Yanami-san, por favor.

Yanami assentiu e colocou uma máscara azul. A voz que saiu dela foi—

— Sou Riko Shiratama. Conto com vocês hoje!

...Era a voz da Shiratama-san. Mesmo de máscara, Yanami conseguiu me lançar um olhar presunçoso, claramente orgulhosa de si mesma. Asagumo-san apontou para a máscara que Yanami usava.

— Instalamos um alto-falante fino de filme piezoelétrico dentro da máscara. Durante a operação, Yanami-san usará falas pré-gravadas com a voz da Shiratama-san. A qualidade é alta o bastante para ser difícil distinguir a diferença a ouvido nu.

— Foi bem caro, sabia?

Shiratama-san acrescentou com um aceno sério.

— A peruca da Yanami-san também foi feita com cabelo de uma mulher asiática da mesma idade. Levamos a um salão para reproduzir perfeitamente o penteado da Shiratama-san.

— Foi bem caro, sabia?

Shiratama-san repetiu, assentindo de novo. Pelo visto, Asagumo-san não tem o menor problema em gastar o dinheiro dos outros. Yanami então tirou um gravador digital do bolso e começou a apertar os botões.

— Desculpe, estou me trocando.

— Não estou me sentindo muito bem.

— Pode fazer uma porção grande?

— Poderia embrulhar o arroz que sobrou em onigiris para mim?

Embora o conteúdo das falas estivesse claramente contaminado pela personalidade da Yanami, a voz era inconfundivelmente a da Shiratama-san.

Enquanto eu permanecia impressionado, Asagumo-san assentiu seriamente, avaliando o sucesso do disfarce.

— Os preparativos da Fase 1 estão impecáveis. Agora vamos passar para—

Por algum motivo, todas as garotas se viraram para mim ao mesmo tempo. O que está acontecendo...?

— Hã... acho que a Presidente e eu também precisamos nos disfarçar, não é? Asagumo-san, você disse que cuidaria das roupas...

— Sim. Como vocês dois terão contato direto com o Tanaka-sensei, preparamos disfarces especialmente rigorosos.

Ao sinal de Asagumo-san, Yanami revelou em silêncio o que escondia atrás das costas, sorrindo. Era uma elegante saia preta.

— Com licença?

Não, espera. Isso é mesmo o que eu estou pensando? Elas estão falando sério que esperam que eu me vista de mulher para me infiltrar no local? O rosto da Yanami se abriu num sorriso malicioso enquanto ela mal conseguia conter o riso.

— É uma das minhas melhores roupas. Estou emprestando para você, então aceite com gratidão, certo?

— Espera, espera, espera. Vamos pensar melhor nisso. Vai ficar óbvio demais. Essa é uma péssima ideia.

Tentei recuar, mas Asagumo-san rapidamente bloqueou meu caminho.

— Ora, Nukumizu-san, você mesmo já demonstrou que até familiares próximos podem cair no chamado "viés de normalidade", aquela crença de que "não tem como isso estar acontecendo". Ninguém vai suspeitar.

— Mas espera. Isso significa que a Presidente também vai ter que se vestir de homem, não é? Você não vai querer fazer isso, vai, Presidente?

Virei-me para ela em busca de apoio. Em vez disso, fui recebido por um sorriso radiante enquanto ela passava casualmente a mão pelos cabelos.

— Não me importo nem um pouco. Na verdade, estou bastante ansiosa.

...A Presidente está totalmente dentro. Meu destino está selado. Ao me ver em desespero, Asagumo-san abriu um sorriso tranquilizador.

— Não se preocupe. Chamamos uma especialista para cuidar da sua maquiagem.

— Hã? Pensei que você mesma faria a maquiagem, Asagumo-san.

— Transformar um homem em uma mulher convincente exige um nível elevado de habilidade. Além disso, Yanami-san e eu precisamos nos concentrar nos preparativos da Fase 1—

De repente, um arrepio percorreu minha espinha quando o corredor do lado de fora da janela pareceu escurecer. A porta entreaberta rangeu lentamente, revelando um par de olhos claros nos encarando fixamente.

— Shikiya-senpai!?

— Ouvi dizer... que tem uma chance de... brincar com Nukumizu-kun...

Shikiya-san deslizou silenciosamente para dentro da sala e se aproximou de mim—

*

...Não tem a menor possibilidade de eu deixar a Kaju me ver desse jeito.

Relutante, vesti por cima da camiseta uma blusa branca que a Yanami havia me emprestado. Meus ombros largos me deixavam inseguro, mas, segundo Yanami, era "uma peça oversized feita para usar em camadas", então consegui abotoá-la sem muita dificuldade.

A gola cheia de babados era desconfortável, mas eu tinha superado o primeiro obstáculo. Agora vinha o próximo—

...Engoli em seco.

Diante de mim estava uma saia preta sem pregas, outro item pessoal da Yanami. Ela se abria levemente em direção à barra, lembrando o formato de uma tulipa.

Vestir uma blusa feminina era uma coisa. Bom, não é exatamente aceitável, mas ainda dá para tolerar. Agora colocar uma saia parece cruzar uma linha que eu nem sei se consigo atravessar.

— Hã... talvez eu devesse simplesmente—

— Não consegue... sozinho...?

Shikiya-san começou a entrar, e eu rapidamente a empurrei de volta.

— Não, não! Eu consigo sozinho! Por favor, não entre!

Ahh, droga. Agora não tenho escolha. Vesti a saia por cima da calça. ...Certo, essa é a frente.

Prende o gancho, fecha o zíper. Pronto. Respirei fundo e me examinei no espelho de corpo inteiro.

Esquece o disfarce. O que estou vendo é simplesmente um garoto do ensino médio usando roupa de menina.

Isso é muito mais difícil do que eu imaginava… Relutante, peguei a peruca de cabelo comprido que tinham deixado para mim e coloquei. Isso só deixou o cross-dressing ainda mais evidente.

— Nukumizu-kun, você não vai tirar a calça?

— Vou! Mas para de espiar, Yanami-san!

Ora, ora. Agora não tenho escolha senão ir até o fim. Tirei a calça e, tentando não pensar demais, saí de trás da cortina.

— Certo, eu vesti, mas...

— Ooooh! — exclamaram as quatro em coro.

As vozes das garotas foram seguidas por uma salva de palmas. Por que vocês estão aplaudindo?

— Viu? Está totalmente estranho, não está? Não tem como esse disfarce funcionar.

Yanami, se divertindo muito mais do que deveria, tirou um pequeno elástico do bolso.

— A saia não ficou muito boa, ficou? Trouxe uma faixa de ajuste para você—

— Hã? Não, ela serve perfeitamente.

Enfiei um dedo entre a saia e minha cintura.

— Na verdade, está até um pouco folgada. Dá mesmo para ajustar com esse elástico?

............

— Hã? Ei, o elástico...

Por que você está me olhando como se quisesse me matar...? Ela parecia prestes a me estrangular com aquela faixa, mas, quando comecei a ficar preocupado, Asagumo-san colocou uma mão tranquilizadora em seu ombro.

— Até aqui está ótimo. Temos modeladores corporais e perucas de qualidade cênica, então vamos usá-los para terminar o visual. Shikiya-senpai, deixo o resto com você.

Asagumo-san conduziu a Presidente e a Shiratama-san para a área de troca de roupa. Então a Presidente vai se disfarçar de homem?

Acho que vai combinar muito com ela… Enquanto eu me perdia nesse pensamento, percebi de repente Shikiya-san me encarando fixamente.

— Hã... então você vai fazer minha maquiagem, certo?

— Só isso... não é suficiente...

Shikiya-san se aproximou cambaleando.

— Precisamos... esconder suas mãos e pés... e seu pescoço...

— Meu pescoço?

Seus dedos finos tocaram de leve meu pescoço.

— Homens têm... pomo de Adão...

Ela fez uma pausa, mantendo a mão sobre minha garganta, e inclinou a cabeça com curiosidade.

— Por que o seu é... tão... pequeno...?

Hã? É a primeira vez que alguém me diz isso. Yanami se aproximou para examinar meu pescoço também.

— Até o Nukumizu... Uau, é mesmo bem pequeno.

— É... minúsculo...

— De fato, o seu é muito menor que o do Sosuke.

Cercado pelas duas e ouvindo repetidamente a palavra "pequeno", minha autoestima começou a sofrer. Que situação é essa? Quando recuei instintivamente, Shikiya-san começou a me tocar de maneira mais insistente.

— Suas pernas... são tão lisas...

— Não, bom... fuah!?

Sem aviso, a mão de Shikiya-san deslizou para baixo da minha saia. Mas Yanami rapidamente agarrou o braço dela e a afastou de mim.

— Espera aí, senpai! O que você pensa que está fazendo!? Nada de tocar nas pessoas no Clube de Literatura!

Yanami arrastou Shikiya-san até o canto da sala.

— Mas... as pernas dele... são tão lisas...

— Mesmo assim, ele ainda é um garoto. Às vezes até fica me olhando de um jeito indecente.

Yanami murmurou enquanto me lançava um olhar de lado. Sério, mulher? É assim que você me enxerga?

— Mas... o corpo do Nukumizu-kun é meio... de garota...

— Hã? Sério?

Não. Sou cem por cento homem, de corpo e alma. Sentindo os olhares intensos das duas, puxei instintivamente a barra da saia para baixo. Nesse momento, a cortina da área de troca se abriu silenciosamente, e a Presidente saiu completamente vestida.

Ela caminhou até o centro da sala com passos confiantes. A Presidente usava sapatos marrons de couro e calças xadrez presas por suspensórios. Uma gola alta preta estava por baixo de um paletó marrom-claro, e todo o cabelo ficava cuidadosamente escondido sob um boné de aba curta.

O conjunto transmitia a impressão de um repórter de jornal da Era Taisho: marcante, imponente e totalmente adequado à presença dela.

— Hmm, não acho que pareça estranho. Embora seja difícil julgar a mim mesma.

— Combina bastante. Tem alguma coisa... que faz parecer muito convincente.

Nem eu tinha certeza daquele elogio. Asagumo-san assentiu em concordância e ficou ao lado dela.

— A gola alta esconde as diferenças entre pescoços masculinos e femininos. O cabelo fica preso sob o chapéu, então o resultado parece natural.

Asagumo-san explicou enquanto dava leves tapinhas nos ombros da Presidente.

— Em seguida, vamos ajustar o formato do corpo. Podemos alterar o volume usando modeladores, roupas em camadas e toalhas enroladas como sarashi. Shikiya-senpai ficará responsável pela maquiagem.

Asagumo-san olhou para o relógio na parede.

— Sete e meia da manhã.

Era o horário em que a noiva, Minori Shiratama, entraria no local.

— Vamos iniciar a Fase 1. Depois que a Shiratama-san entrar no local, faremos a troca com Yanami-san. Agora, Líder do Projeto, dê a ordem!

Verdade. Eu sou o Líder do Projeto. Tinha esquecido. Ugh, eu realmente não quero fazer isso...

Mas agora já não havia como voltar atrás. Endireitei a postura e observei os rostos de todos, que esperavam por mim.

— Certo, então... vamos começar a Grande Vingança da Riko Shiratama... ou algo assim.

Minha ordem completamente sem entusiasmo marcou o início do plano.

*

Yanami e as outras já tinham partido. Era hora de nos prepararmos para a Fase 2. O toque suave do pincel no meu rosto. Os dedos frios de Shikiya-san pressionando minha bochecha. O farfalhar das roupas. Sua respiração baixa… E o cheiro do perfume dela misturado ao aroma dos cosméticos.

Quando fechamos os olhos, os outros sentidos ficam mais aguçados.

Enquanto eu permanecia imóvel, com o coração disparado—

— Abra... os olhos, por favor...?

Ouvi a voz rouca de Shikiya-san bem perto de mim. Abri lentamente os olhos. Shikiya-san segurava um espelho de mão diante do meu rosto.

Isso é... eu?

Parecia completamente diferente de alguns minutos atrás… A pessoa no espelho aparentava ter cerca de vinte anos.

Era a imagem de uma garota simples, nada chamativa, mas que tinha se arrumado da maneira mais fofa que conseguia para parecer um pouco mais madura. Provavelmente alguém que gostava de ler e sonhava com um encontro maravilhoso.

Não era apenas a maquiagem. O formato do meu corpo tinha sido ajustado enrolando uma toalha como sarashi, e meu pescoço estava escondido por um lenço.

A jaqueta havia sido escolhida para disfarçar meus ombros largos, e minhas pernas, saindo da saia, estavam cobertas por meia-calça cor da pele.

— É... você ficou bem... fofo. Dá vontade de abraçar...

Shikiya-san murmurou para si mesma, num tom sinceramente emocionado. Nesse momento, a porta da sala se abriu de repente. Asagumo-san e Shiratama-san entraram correndo.

— A troca com a Yanami-san foi um sucesso! A Fase 1 está concluída! Não temos muito tempo. Vamos colocar você no vestido de noiva!

— Sim, entendido!

Asagumo-san rapidamente desapareceu atrás da cortina da área de troca, seguida por Shiratama-san, que já soltava a fita do uniforme enquanto caminhava.

— Eu vou... ajudar você... a se trocar...

Com o olhar perdido, Shikiya-san cambaleou para trás da cortina. Tenho uma vaga sensação de que isso pode dar problema. Mas, como não consigo identificar exatamente o motivo, decidi ignorar.

A Presidente encaixou os suspensórios no lugar e vestiu a jaqueta.

— Muito bem. Agora começa a Fase 2. Precisamos levar Shiratama-kun até a capela com a ajuda da Yanami-kun, depois tirar Tanaka-sensei de lá e fazer a foto... Confesso que estou começando a ficar nervosa.

De certa forma, esse era o verdadeiro teste. Todo o plano desmoronaria se a infiltração dos falsos fotógrafos fracassasse.

— Aliás, onde está a câmera, Presidente?

— Ahh, já pedi ajuda a Basori-kun. Deve estar na sala do conselho estudantil—

A Presidente e eu congelamos enquanto nos encaramos.

— Espera, você quer dizer que está no Colégio Tsuwabuki!?

— Talvez Hiroto tenha colocado junto com os outros equipamentos. Espere aqui um instante.

A Presidente passou pela cortina e entrou na área de troca. Espera. Não dá para fingir que somos fotógrafos sem uma câmera. Enquanto eu lidava mentalmente com aquela crise gigantesca, alguém bateu à porta e, em seguida, ela se abriu.

— Com licença. Sou aluna do Colégio Tsuwabuki. Meu nome é Basori...

Tiara-san!? Virei imediatamente de costas para ela.

— Desculpem incomodar, mas por acaso a Hokobaru esteve aqui?

— Hã!? Ah! Sim! Ela estava aqui, mas acabou de sair por um momento!

Tiara-san murmurou "eu sabia" e começou a caminhar rapidamente na minha direção.

— Vim entregar uma coisa que ela esqueceu. Onde posso encontrá-la?

— E-Ela talvez demore um pouco para voltar, então pode simplesmente deixar ali!

Minha voz saiu mais aguda que o normal, e Tiara-san parou abruptamente.

— Eu preferia entregar diretamente a ela. Tudo bem se eu esperar?

— Ah, sim, claro.

...Ela não percebeu, certo? Permaneci de costas para Tiara-san, prendendo a respiração e tentando parecer o mais discreto possível. É isso. Sou uma fada da Escola Kirinoki. Pessoas com o cérebro derretido não conseguem me enxergar—

— Hã... posso perguntar uma coisa?

Ela consegue me enxergar perfeitamente. Assenti em silêncio, tentando manter a calma. Depois de hesitar por alguns instantes, Tiara-san falou:

— O que exatamente a Hokobaru está fazendo aqui?

Espera. Será que ela descobriu nosso plano...?

— O quê? Hã... ela está aqui para... fazer uma matéria sobre o Clube de Teatro. Uma entrevista.

— Mas ela veio com o Clube de Literatura, não veio? Por que está fazendo uma entrevista com o pessoal do Clube de Literatura para o Clube de Teatro?

— Q-Quem sabe? Eu só vim ajudar.

Gulp. Engoli em seco. Houve uma pausa. Depois de alguns instantes de silêncio, Tiara-san murmurou baixinho:

— Nukumizu-san é tão sem graça.

— Hã, eu?

— Hã!?

Droga. Cobri rapidamente a boca com a mão, mas era tarde demais.

— Por favor, deixe eu ver seu rosto!

Tiara-san agarrou meu ombro e me virou à força. Ela me encarou em choque, com os olhos arregalados.

— Nukumizu-san!? Por que você está vestido desse jeito!?

— H-Hã... bom, isso é porque...

Enquanto eu me esforçava para pensar numa explicação, a cortina se abriu de repente, e a Presidente saiu.

— Ah, essa voz? É você, Basori-kun? Como descobriu que estávamos aqui?

— Estava escrito na agenda da sala do conselho estudantil! O que está acontec—grk!?

Ela soou como uma galinha sendo estrangulada. A Presidente pegou tranquilamente a bolsa da câmera das mãos da Tiara-san, que havia congelado no lugar.

— Veio trazer a câmera que esquecemos? Muito obrigada. Agradeço bastante.

— Pre... Nu... Hã... isso...

A boca de Tiara-san abria e fechava enquanto ela alternava o olhar entre a Presidente e eu.

— A Presidente virou homem, e Nukumizu-san virou mulher. Isso significa... que vocês dois são desse tipo!?

Não. Por algum motivo, a Presidente assentiu como se tivesse acabado de chegar a uma conclusão.

— Hmm, não entendi muito bem, mas acho que somos.

— Cala a boca, Presidente!

Tiara-san soltou outro som de galinha estrangulada. Então, com um fio de sangue escorrendo do nariz, desabou no chão.

*

Nove e meia da manhã.

A operação entrou na Fase 2. Ajustei o peso da bolsa pendurada no ombro e ergui os olhos para a entrada do local. Era minha segunda visita. Da última vez, eu tinha vindo como visitante.

Agora sou um invasor.

— Será que a Tiara-san vai ficar bem?

Tentando disfarçar o nervosismo, murmurei para mim mesmo. A Presidente deu um tapinha tranquilizador no meu ombro.

— Shikiya está com ela. Deve ficar tudo bem.

É justamente por isso que estou preocupado. Acho que nem preciso explicar o motivo. Olhando de relance para o lado, vi duas figuras no espaço entre os prédios.

Eram Asagumo-san e Shiratama-san. Esta última usava um casaco por cima do vestido de noiva.

Depois que entrássemos, ela se infiltraria na capela com a ajuda da Yanami. A Presidente deu outro tapinha firme no meu ombro antes de empurrar as grandes portas da entrada.

O local estava tão elegante quanto antes, com o teto alto e tons sofisticadamente discretos. Mas, diferente da nossa última visita, os funcionários corriam de um lado para o outro, claramente ocupados com os preparativos.

Sem hesitar, a Presidente se aproximou do balcão da recepção e entregou um cartão de visitas.

— Perdoem a intromissão. Sou Toratani, do Studio Damonde. Viemos hoje para a sessão de fotos de Tanaka-sama e Shiratama-sama.

A funcionária que preenchia alguns documentos ergueu os olhos para ela com uma expressão confusa.

— Obrigada pelo trabalho. Eu havia sido informada de que a reunião estava marcada para às dez horas...

— É minha primeira vez neste local, então gostaria de fazer uma rápida inspeção dos pontos de fotografia. Se possível, também gostaria de cumprimentar o noivo, Tanaka-sama.

A Presidente abriu um sorriso encantador enquanto estava vestida de homem. A funcionária pareceu prender a respiração por um instante antes de assentir, como se estivesse sonhando.

— Ah, claro. Nesse caso, vou verificar com o noivo.

— Muito obrigado. Nós a acompanharemos.

Sedutora de mulheres como sempre, Presidente. Mantendo a cabeça baixa para não chamar atenção, segui atrás delas.

...Ah, ali está Yanami, a falsa Shiratama, rondando perto do banheiro.

Yanami, que vagava sem rumo, percebeu nossa presença e fez discretamente um sinal de positivo com o polegar. Para com isso.

— Acho um trabalho maravilhoso, proporcionar sonhos para as pessoas. Tenha orgulho do que faz.

— Obrigada. Acho que me sinto um pouco mais tranquila agora.

— Se algum dia quiser conversar, estarei sempre disponível para ouvir. Pode visitar o estúdio quando quiser.

Espera. O quê? A Presidente está ouvindo a história de vida da funcionária agora? Quanto tempo eu fiquei distraído com o joinha da Yanami...? Continuei seguindo as duas enquanto subíamos para o segundo andar.

À esquerda, no topo da escada, ficava a sala de reuniões onde havia acontecido a explicação anterior. À direita estavam os camarins dos noivos. O noivo e a noiva tinham salas separadas e, como o local realizava dois casamentos por dia, havia quatro camarins alinhados ao todo.

Mais adiante, depois das salas, uma escada levava de volta ao salão da recepção. A funcionária bateu à porta da penúltima sala, onde havia uma placa escrita: Família Tanaka — Camarim do Noivo

— Tanaka-sama, os fotógrafos chegaram.

A porta se abriu quase imediatamente. Tanaka-sensei, vestindo um smoking, nos olhou com surpresa.

— Ah, vocês chegaram um pouco cedo.

— Sim. Como é nossa primeira vez neste local, gostaríamos de fazer um teste de câmera. Espero que não estejamos atrapalhando.

Ao receber o cartão de visitas que a Presidente lhe entregou, Tanaka-sensei pareceu satisfeito.

— De jeito nenhum. Nós, homens, terminamos de nos arrumar rápido, então eu só estava esperando.

A Presidente abriu um sorriso para a funcionária, que ainda a encarava meio hipnotizada.

— Obrigado, Natsumi-san. Pode voltar às suas tarefas.

— Sim, claro. Se precisarem de qualquer coisa, é só me chamar.

Natsumi-san lançou um olhar significativo para a Presidente antes de se afastar. Hã. Então esse é o nome dela. ...Espero que a infiltração da Shiratama-san na capela tenha dado certo.

Enquanto a Presidente conversava casualmente com Tanaka-sensei, olhei discretamente para meu smartwatch. Como se tivesse sido combinado, uma mensagem apareceu na tela.

"O ARROZ ESTÁ PRONTO"

Esse é o sinal da Yanami. Riko Shiratama conseguiu se infiltrar na capela. Dei um leve toque nas costas da Presidente enquanto ela continuava conversando com Tanaka-sensei.

— Toratani-san, o sol está ficando mais alto.

A Presidente ergueu a câmera ao lado do rosto e abriu um sorriso encantador que parecia transcender gênero.

— Muito bem, Tanaka-san. Se puder nos acompanhar... vamos tirar as melhores fotos possíveis.

*

A capela estava preenchida por uma luz cintilante. A luz da manhã entrava pelas três janelas, iluminando o ambiente como se fosse elevada pelo ventilador de teto que girava acima.

A atmosfera era solene e tranquila. Enquanto eu permanecia ali absorvendo tudo, a Presidente se virou para mim.

— Prepare tudo, Kazuko-kun.

Kazuko. Essa sou eu, certo? Rapidamente, tirei da bolsa um rebatedor dobrável. Um rebatedor era uma placa usada para refletir luz e, aparentemente, ajudava a tirar fotos mais bonitas.

O que estávamos usando podia se abrir até ultrapassar um metro de diâmetro. Tanaka-sensei se aproximou, curioso, e ergui o rebatedor para esconder meu rosto.

— Esse equipamento parece bem profissional. Vocês também vão usar isso durante a cerimônia de verdade?

— Estamos testando a iluminação e simulando a luz natural no horário da cerimônia. Poderia dar quatro passos para a direita?

— Ah, claro. Aqui?

A Presidente ajustou a câmera.

— Sim, perfeito. Agora vire trinta graus para a direita. Incline o rosto em direção à parede... Ah, exatamente assim. Mantenha essa posição.

Clac, clac, clac. O obturador disparou repetidamente. A Presidente afastou o rosto do visor da câmera e fez um gesto para mim.

— Kazuko-kun, poderia refletir a luz de um pouco mais atrás?

Esse era o sinal. Assenti e me aproximei cuidadosamente do púlpito, tomando cuidado para não fazer barulho. Contornei a estrutura por trás enquanto calculava minha posição em relação a Tanaka-sensei—

Ali. Agachada atrás do púlpito estava Shiratama-san, usando seu vestido branco. Nossos olhares se encontraram por um breve instante. Abaixei o rebatedor até o chão e observei Shiratama-san sair lentamente de trás do púlpito e se posicionar atrás dele.

— Acho que precisamos de um pouco mais de luz. Kazuko-kun, pode se aproximar um pouco? Na verdade, venha até ficar ao lado do noivo.

Assenti e avancei devagar, em passos deliberados, sem fazer silêncio demais a ponto de parecer suspeito. Eram apenas uns três metros.

Mas, neste momento, parecem uma eternidade.

— A gola do seu smoking está um pouco torta. Um pouco mais para cima... Isso, perfeito...! Vamos tirar outra. Vire um pouco o corpo em direção à parede. Mantenha o rosto exatamente assim. Não se mexa, por favor!

Clac.

Clac.

Clac.

Aproveitando o som do obturador, dei o último passo e movi o rebatedor para o lado.

E, naquele instante, tudo mudou. No lugar onde eu estivera até um segundo atrás, Shiratama-san surgiu vestida de noiva, segurando o buquê bem ao lado do noivo.

Foram apenas alguns segundos em tempo real, e a câmera captou uma fração ainda menor disso. A Presidente ergueu um dedo, sinalizando que a sessão havia terminado. Aproximei-me rapidamente e apoiei o rebatedor em pé no chão.

Assim que Shiratama-san se escondeu atrás dele, Tanaka-sensei se virou. Nossos olhos se encontraram de muito perto.

— Hã, desculpe. Acho que cheguei perto demais. E-Ehehehehe...

— Era você? Eu jurava que tinha sentido outra pessoa ao meu lado agora há pouco.

Tanaka-sensei começou a se aproximar, mas a Presidente entrou suavemente entre nós.

— Peço desculpas. Minha assistente chegou um pouco perto demais. O teste de câmera terminou.

— Ah, entendi... Fico feliz de ter ajudado.

Tanaka-sensei parecia um pouco desnorteado. A Presidente passou um braço pelos ombros dele e começou a conduzi-lo em direção à saída da capela.

— Vou me certificar de registrar os melhores momentos durante a cerimônia de verdade. O senhor já viu a noiva vestida?

— Sim, durante a prova do vestido.

— Que ótimo. Hoje, com a maquiagem pronta, ela ficará ainda mais deslumbrante.

Os dois continuaram conversando enquanto saíam da capela. Fiquei ali olhando para a porta fechada até perceber, de repente, Shiratama-san ao meu lado.

— Você está bem? Deu tudo certo.

— Ah, sim...

Shiratama-san parecia atordoada, parada no lugar como se estivesse perdida em pensamentos. Percebendo sua inquietação, falei de novo.

— Volte a se esconder até Yanami-san vir buscar você. Vou conferir se Tanaka-sensei voltou para o camarim.

Ela assentiu de leve. Dobrei o rebatedor e saí da capela.

Estamos tão perto de concluir a missão. Agora só falta escapar, e tudo acaba.

Enquanto enviava uma mensagem para Yanami avisando que a missão tinha sido concluída, segui a Presidente pelas escadas até o segundo andar. Todos os preparativos que fizemos durante a última semana pareciam ter passado em um instante.

Finalmente senti o peso sair dos meus ombros. Ainda bem que não vou precisar usar meu plano de emergência————

Mas a mensagem que recebi de Yanami me trouxe de volta à realidade de uma vez.

*

Shiratama-san havia desaparecido. A Presidente, Yanami e eu nos reunimos na capela, onde ela havia sido vista pela última vez.

— Ela não saiu depois que eu dei o sinal. Fui conferir, mas não tinha ninguém lá.

Yanami falou enquanto agitava os braços de forma desordenada. A Presidente ergueu os olhos do celular e balançou a cabeça.

— Asagumo-kun também confirmou que não viu ela saindo do prédio.

Isso significa… Riko Shiratama ainda está escondida em algum lugar. Se desapareceu sem deixar rastros, deve estar planejando alguma coisa. Ajeitei a franja da peruca, tentando voltar a me concentrar.

— Não adianta ficarmos parados aqui. Vamos nos separar e procurar.

— Concordo. Felizmente, os convidados ainda não começaram a chegar.

— Ei, depois eu posso ficar com o buquê da Shiratama-chan? Dizem que quem pega é a próxima a se casar, não é?

A primeira garota que recebeu aquilo nem sequer teve a chance de levar um fora, muito menos de se casar. Mas faça o que quiser, eu acho.

Saímos da capela e entramos no prédio principal. Se Shiratama-san estivesse escondida em algum lugar, poderia ser nos vestiários dos familiares. Ou talvez no banheiro, em algum depósito...

Enquanto caminhava em direção à entrada, considerando as possibilidades, notei dois homens conversando junto ao balcão da recepção. Bolsas de câmera pendiam dos ombros deles.

— Os fotógrafos de verdade chegaram.

— Kazuko-kun, vamos recuar.

A Presidente agarrou meu braço e me puxou de volta pelo caminho de onde tínhamos vindo. Yanami nos seguiu, confusa.

— Espera, o que a gente faz agora? O que eu faço?

— Yanami-san, é melhor você não ficar com a gente. Vamos nos separar aqui.

A Presidente e eu deixamos Yanami para trás, saímos do prédio e voltamos para a frente da capela.

— Primeiro precisamos nos esconder, Presidente.

— Tem algum lugar bom?

— Por aqui.

Conduzi a Presidente até os arbustos entre a capela e o muro. Embora as laterais e a frente da capela tivessem grandes janelas, havia um canto que ficava fora de vista. Assim que tivemos certeza de que ninguém conseguia nos enxergar, soltamos um suspiro de alívio.

— Isso não é bom. Se encontrarmos os fotógrafos de verdade, não teremos desculpa nenhuma.

— Não temos escolha. Devíamos fugir enquanto ainda podemos.

— Passar pela entrada principal é arriscado demais. Talvez estejam procurando por nós.

A Presidente segurou a aba do boné e olhou para o muro alto.

— Podemos simplesmente escalar. Eu faço apoio para você, então suba primeiro.

O objetivo já havia sido alcançado. Era óbvio que decidir fugir era a escolha mais sensata. Mas ainda havia Shiratama-san. Ela podia aceitar seus sentimentos e voltar à vida de sempre. Ou decidir fazer alguma coisa drástica e abandonar tudo.

— Eu vou ficar.

Continuei ao ver a expressão surpresa da Presidente.

— Não posso simplesmente deixar Shiratama-san assim. Preciso descobrir se ainda há alguma coisa que eu possa fazer.

— Então eu fico com você. Não posso deixar você aqui sozinho.

Balancei a cabeça.

— Tem uma bolsa esportiva preta e grande na sala do Clube de Teatro. Pode trazer até aqui e jogar por cima do muro?

A Presidente ficou imóvel por um instante e me encarou surpresa.

— Você previu isso desde o começo?

— Mais como... eu estava preparado para essa possibilidade.

Meu smartwatch marcava exatamente dez da manhã. O casamento começaria ao meio-dia. Nesse tempo, eu precisava encontrar Shiratama-san, convencê-la, fazê-la trocar de roupa e garantir que participasse da cerimônia.

...É só isso. Mostrei um joinha para a Presidente.

— Deixa comigo. Estou acostumado com situações assim.

Esse tipo de coisa acontece o tempo todo no Clube de Literatura. E, apesar das aparências, eu sou o presidente, sabia?

*

Pouco depois das onze da manhã, os convidados começaram a chegar à recepção. À medida que a sala de espera e o jardim se enchiam de gente, saí do meu esconderijo.

Não mais como Izumi Kazuko, assistente de fotografia. Mas como um simples estudante do ensino médio, Aluno A. A Presidente havia trazido a bolsa esportiva preta.

Dentro dela havia um uniforme masculino da Escola Kirinoki emprestado pelo Clube de Teatro.

Estudantes normalmente participavam de casamentos usando uniforme, então era o disfarce perfeito e não chamaria atenção alguma.

— É, calça é muito mais confortável...

Ainda não estou acostumado com aquela sensação de vento entrando por baixo, embora talvez seja surpreendentemente agradável no verão...

Pensando nos verões quentes de Toyohashi, entrei na sala de espera interna. Cadeiras e mesas estavam dispostas ao longo das paredes, e de um dos lados havia portas de vidro que davam para o jardim.

As portas estavam totalmente abertas, deixando entrar uma agradável brisa de começo de verão. Examinei os convidados que conversavam em busca de qualquer sinal da Shiratama-san, mas ficou claro que ela não estava ali.

Quando cheguei ao balcão do bar, resolvi pegar um chá oolong e parar por um momento para me acalmar. Já fazia mais de uma hora desde que a Shiratama-san desaparecera. Ela provavelmente está escondida em algum lugar e não se mexeu desde então.

O primeiro andar está cheio demais. Acho que devo procurar no segundo agora… Duas mulheres se aproximaram de mim enquanto eu tomava o chá.

— Nossa, Noritama-chan ficou tão fofa. Ela é boa demais para Tanaka-sensei.

Hã!? Essa voz é—Amanatsu-sensei!?

Virei rapidamente o rosto para o outro lado e então ouvi a segunda mulher falar.

— Ora, aquela garota é perfeita para um homem mais velho. Ela é tão responsável. Precisa de alguém que permita que ela relaxe e seja mimada.

Konuki-sensei também. Comecei a me afastar lentamente, tentando passar despercebido.

— Eu também quero ser mimada, sabia...? Será que eu devia ter comprado aquele apartamento...?

— Konami, você já começou a beber?

— Se eu tivesse bebido, isto seria apenas um por cento do meu poder.

Ela é assim até na vida particular?

Escapei enquanto as professoras estavam distraídas com a própria conversa. Shiratama-san claramente não estava no meio da multidão.

Isso significa que provavelmente está escondida em algum lugar mais tranquilo… Evitando chamar atenção, segui por um corredor pouco iluminado que levava aos fundos.

Um pouco mais adiante, encontrei uma porta com a placa "Depósito". Olhei ao redor para confirmar que ninguém estava observando e girei a maçaneta. Não estava trancada.

Abri lentamente a porta.

— Shiratama-san, você está aí...?

O depósito estava completamente escuro. Enquanto eu tateava procurando o interruptor—Alguém agarrou minha mão com força de repente.

— Hya!?

— Onde você estava, Nukumizu-kun!?

Era a Yanami. Ela me puxou para dentro do depósito e fechou rapidamente a porta. A luz do celular de Yanami iluminou nossos rostos no escuro.

— Por que você está aqui, Yanami-san?

— Todos os parentes da Shiratama-chan chegaram logo depois que você foi embora! Eu estaria morta se os pais dela me encontrassem! Fiquei correndo feito louca para fugir deles!

Antes que eu conseguisse responder, Yanami se aproximou do meu rosto, sem me dar um segundo para falar.

— E tem mais! Um dos tios dela me pegou bem antes de eu entrar aqui! Ficava dizendo que era ótimo me ver depois de tanto tempo, mas eu nunca tinha visto aquele homem na vida! E ele me chamou de gorda cinco vezes! Cinco vezes, droga! Depois de eu perder três quilos inteiros, sabia!?

— Hã, bom... pelo menos você não foi descoberta. Mas precisamos nos concentrar em encontrar Shiratama-san.

Tentei acalmar a Yanami enquanto conferia a hora no celular. Já passava das onze e quinze.

O casamento estava marcado para o meio-dia. Estamos ficando sem tempo. Depois de descarregar toda a frustração, Yanami pareceu satisfeita e colocou a máscara azul.

— Certo, Nukumizu-kun, me ajuda. Ela não estava no banheiro, então o único lugar que resta é o segundo andar.

Então, no fim, chegamos a isso mesmo. Assenti em silêncio e abri a porta do depósito.

*

No segundo andar ficavam os camarins dos noivos. Embora os convidados aparentemente não subissem até ali, parentes e amigos costumavam aparecer para cumprimentá-los, então havia uma movimentação razoável.

Começamos pela área oposta aos camarins, seguindo para a esquerda depois de subir as escadas. No fim do corredor, verificamos uma sala de reuniões mais ou menos do tamanho de uma pequena sala de aula.

Era o lugar onde tínhamos recebido a primeira explicação durante a visita e, naquele dia, parecia estar sendo usado temporariamente como depósito. Cheguei até a verificar a sacada pela grande janela nos fundos, mas não havia sinal da Shiratama-san.

Quando saí da sala, Yanami, que conferira os outros cômodos, balançou a cabeça.

— Ela também não está aqui.

— Então só resta a área dos camarins dos noivos.

Yanami engoliu em seco.

— Você não acha que aconteceu alguma coisa drástica, acha? Eu não quero ser a primeira pessoa a ver alguém levando uma facada. Você vai na frente, Nukumizu-kun.

— Tem gente demais circulando para acontecer uma coisa dessas. É mais provável que ela esteja escondida no salão de banquetes logo adiante.

— O salão de banquetes...?

Yanami cruzou os braços, mergulhada em pensamentos.

— O que foi?

— Já sei. É o bolo...!

— Está com fome?

— Estou, mas não é isso. Sabe aquele bolo enorme de casamento, mais alto que uma pessoa? E se Shiratama-chan tiver comido até abrir espaço lá dentro e estiver escondida nele?

Espera. Ela está falando sério? É claro que está. Estamos falando de Yanami.

— Sabe... tirando a parte que eles cortam, normalmente aquele bolo é só cenográfico.

— Hã? O bolo é uma mentira? Você só pode estar brincando.

Anna Yanami, dezesseis anos, ficou paralisada diante daquela revelação. Eu entendo que ela esteja em choque, mas esse realmente não é o momento.

— Olha, tenho certeza de que dá para pedir um bolo inteiro de verdade como opção. Agora vamos.

— Será que durante a bolha imobiliária era tudo bolo de verdade...? Talvez naquela época fosse tudo bolo mesmo...

— É. Vamos torcer para a bolha voltar.

Falei aquilo enquanto apressava Yanami de volta em direção às escadas. Assim que chegamos à escadaria, uma mulher de meia-idade que subia parou diante de nós.

— Ora, você é a Riko-chan? Lembra de mim? Sou a tia Mitsue, de Kosai.

O quê!? Uma parente da Shiratama-san, justo aqui?

— Sou a Riko. Quanto tempo.

A Tia Mitsue sorriu calorosamente e agarrou a mão de Yanami.

— Nossa, quanto tempo mesmo! No ensino fundamental você era tão magrinha, mas agora ficou tão gorda... maravilhosamente!

— Sim. Eu adoro comer arroz.

Como Yanami respondeu usando a voz da Shiratama-san, agora estava presa àquela conversa e só podia continuar usando as falas gravadas. Visivelmente desesperada, Yanami me lançou um olhar de súplica.

Isso significa...

Deixa comigo. Pode seguir na frente.

Com certeza é isso que ela está dizendo. Tem que ser. Decidi interpretar dessa forma. Recuei lentamente, mostrei um joinha para Yanami e escapei da cena.

Durante todo o caminho, senti o olhar furioso dela queimando minhas costas.

*

Havia quatro portas ao longo do corredor que levava ao salão de banquetes. A última, no fim do corredor, era o camarim da noiva, e a seguinte era o do noivo. Depois de hesitar por um instante, decidi girar a maçaneta da porta imediatamente antes do camarim do noivo.

...Não está trancada.

Empurrei a porta devagar. Banhada pela luz suave que entrava pela janela, estava Riko Shiratama. Ela mantinha as costas retas e segurava o buquê com as duas mãos, parada em silêncio como se esperasse por alguém.

Quando percebeu minha presença, sua expressão oscilou levemente, como pequenas ondulações sobre a superfície de um lago imóvel.

— Você se trocou, Presidente. Essa roupa também combina com você.

Entrei na sala e fechei a porta atrás de mim.

— Mais importante, você precisa se trocar rápido. Desse jeito não vai chegar a tempo para a cerimônia.

— É. Se eu continuar aqui, realmente não vou chegar a tempo.

Havia alguma coisa no tom dela que me fez parar no meio do passo. Seus olhos, claros e transparentes como um espelho, encontraram os meus enquanto ela começava a falar baixinho.

— Eu nunca tinha percebido o quanto sou ruim em desistir.

Shiratama-san abaixou o olhar, como se quisesse evitar meus olhos, e a barra do vestido balançou de leve.

— Quando um desejo meu se realiza, começo a querer outro. E, se esse também se realizar, provavelmente vou querer mais alguma coisa depois.

Ela ergueu o rosto. O sorriso que apareceu não era de autodepreciação. Parecia mais um riso seco e doloroso, como se estivesse corroendo ela por dentro.

— Shiratama-san...

— Esse é o tipo de mulher que eu sou. Quero destruir tudo e fugir, mas sou covarde demais para fazer isso. Só estou aqui esperando o tempo acabar, como uma covarde. Então—

Ela forçou os cantos dos lábios para cima.

— Por favor, vá embora, Presidente.

Fiquei parado no lugar, com uma mistura de emoções girando dentro do peito.

Estou com raiva. Não só dela. Também de mim mesmo. Eu devia ter percebido esse lado dela.

Egoísta e teimosa. Desajeitada e sempre fazendo uma bagunça. Mas, no fim, ela sempre coloca a felicidade de outra pessoa antes da própria.

Existem garotas assim. E palavras bonitas e vazias nunca alcançariam alguém desse tipo. Encarei seus olhos com determinação.

— Você realmente está pronta para desistir do Tanaka-sensei?

Shiratama-san pareceu prestes a responder, mas congelou como se alguma coisa tivesse acabado de se encaixar em sua cabeça.

— Você está dizendo para eu tirar o onii-chan dela?

— Exatamente.

Sem esconder minha irritação, dei um passo na direção dela.

— Você se escondeu na sala ao lado da do Tanaka-sensei e nem trancou a porta. Não queria que alguém encontrasse você? Fosse por acaso ou não, queria que alguma pessoa querida ajudasse você a destruir tudo, não queria?

— Você! Eu só—

Continuei antes que ela pudesse falar.

— Mesmo que fizesse isso, você ainda não conseguiria desistir, conseguiria? Você esconde esses sentimentos há tanto tempo. Não tem como ser o tipo de pessoa que simplesmente desiste porque ele se casou com sua irmã ou porque você acabou destruindo tudo.

Shiratama-san, que me encarava desafiadoramente, finalmente deixou os ombros caírem como se tivesse sido derrotada.

— Eu não quero destruir a felicidade deles.

— Então e se eles deixarem de ser felizes?

— Isso...

Os olhos de Shiratama-san se arregalaram. Ela queria retrucar, mas acabou desistindo e balançou a cabeça.

— Eu não sabia que você conseguia ser tão cruel, Presidente

— Eu decepcionei você?

— Não. Foi só um pouco... emocionante.

Apesar das palavras corajosas, o buquê escapou de suas mãos e caiu suavemente no chão.

— Eu vou esperar.

Ela disse isso olhando para mim com aqueles olhos que pareciam enxergar diretamente o coração de um homem.

— Guardo esses sentimentos há mais de dez anos, desde que tive idade para entendê-los. Posso continuar escondendo por mais cinco, dez anos, se for preciso.

— Então o lugar onde você deveria estar agora não é aqui. Você precisa ir até eles, parabenizá-los direito e ficar ao lado dos dois.

— Sim, Presidente

Voltando ao tom habitual, Shiratama-san mostrou seu sorriso perfeito de sempre.

— Ainda dá tempo se você se apressar e trocar de—

— Ngh...!

Hã? O quê? Por que ela acabou de soltar um gemido desses? Shiratama-san se remexeu diante de mim, corando enquanto abaixava os olhos.

— Não, hã, não é o que você está pensando. Asagumo-san me deu aquele dispositivo vibratório antes e... eu não tinha outro lugar para colocar, então... prendi com fita na parte interna da coxa.

Ah. Então era isso.

— Hã, então por que está vibrando agora?

— Bom, Yanami-san está apertando o botão... já faz um tempo...

...Faz um tempo? Se lembro direito, um clique significa "avançar". Dois significam "recuar".

E quatro ou mais….

Corri até a porta e a tranquei. No segundo seguinte, a maçaneta começou a se mexer.

— Hã? Está trancado. Você está com a chave, Yamashita-san?

— Espera, acho que está aqui...

Ouvi vozes masculinas do lado de fora. Os funcionários do local estavam tentando entrar na sala. Não havia nem tempo para trocarmos olhares.

Com apenas uma porta de saída, a única alternativa era—

Sem pensar, abrimos de uma vez a janela que dava para a sacada e pulamos para fora, sem sequer conferir o que havia do outro lado. Assim que escapamos, a porta da sala que tínhamos acabado de abandonar se abriu com um rangido.

...Shiratama-san e eu nos agachamos, prendendo a respiração em um ponto onde não podíamos ser vistos pela janela. As vozes dos jovens funcionários que entraram na sala chegaram até nosso esconderijo.

— De quem são este casaco e este buquê?

— Talvez o grupo anterior tenha esquecido. Vamos guardar por enquanto.

Um casaco? Ah, verdade. Shiratama-san estava usando um casaco comprido por cima do vestido de noiva. Permanecemos o mais silenciosos possível enquanto o funcionário fechava a janela aberta.

Clique. Ele a trancou. Agora não temos como voltar para dentro da sala. Vamos mesmo ter que fugir usando um vestido de noiva...?

— Já chegamos até aqui, Presidente. Vamos dar um jeito.

Shiratama-san sussurrou no meu ouvido, como se tivesse lido meus pensamentos.

...Ela tem razão. Agora não dá mais para voltar atrás. O muro do lado do jardim da sacada tinha apenas a altura da cintura, com aberturas decorativas que nos deixavam parcialmente expostos.

Dependendo do ângulo, qualquer pessoa no jardim poderia nos enxergar facilmente. Não podíamos ficar ali por muito tempo. Mas o maior problema era o tempo.

Conferi meu smartwatch. Faltavam trinta minutos para o início da cerimônia.

*

Clac, clac, clac, clac, clac.

Avançamos sorrateiramente pela sacada até o outro lado do prédio e chegamos à grande sala de reuniões onde eu havia procurado mais cedo. Deslizei a janela para o lado, e entramos.

Atravessamos a sala em silêncio. Encostei o ouvido na porta. ...Nenhum sinal de ninguém do lado de fora. Abri devagar e conduzi Shiratama-san para o corredor.

O corredor fazia uma curva à esquerda no fim. Espiando pela quina, vi um corredor comprido, com uma escada descendo alguns metros adiante. Mais além, no fundo do corredor, estavam os camarins de onde tínhamos acabado de escapar. Se conseguirmos descer essa escada, estaremos praticamente na entrada.

Se aceitarmos o risco de sermos vistos, podemos simplesmente correr para fora. O problema era o grupo de mulheres de meia-idade reunido ao redor de Yanami em frente à escada. E agora tinha ainda mais gente.

— Riko-chan, como você cresceu!

— Você ficou tão forte, parece até outra pessoa. Sua tia está tão aliviada.

...Parece que ainda não descobriram a farsa. Nesse momento, Yanami e eu trocamos olhares.

O olhar dela estava carregado de reclamações silenciosas. Não me olha desse jeito. Balancei devagar a cabeça e apontei discretamente para trás de mim, indicando que ela deveria ficar onde estava.

Yanami, que parecia prestes a vir em nossa direção, parou de repente. Ela aparentemente entendeu a situação e inclinou a cabeça.

Apontei discretamente para a escada. Yanami congelou. Então, reunindo coragem, fechou os olhos, respirou fundo e os abriu cheia de determinação.

— Ei! Já que estamos aqui, por que não vamos ver a onee-chan vestida de noiva?

Ela falou alto e claramente com a própria voz natural. As mulheres congelaram por um instante, surpresas.

— Ora, Riko-chan, o que aconteceu? Sua voz mudou de repente...

— É verdade. Agora que você estuda no Colégio Tsuwabuki, devia falar de um jeito um pouco mais refinado.

— Mas eu também quero ver a Minori-chan de vestido!

O grupo voltou a se animar, cercou Yanami e começou a caminhar pelo corredor, afastando-se da escada.

A rota de fuga está livre.

Troquei um aceno com Shiratama-san, e nos apressamos em direção à escadaria.

Yanami. Eu nunca vou esquecer seu sacrifício.

Felizmente, a escada estava vazia. Descemos correndo e seguimos direto para a entrada

Até eu parar de repente. Shiratama-san bateu de leve nas minhas costas.

— O que foi? Mesmo que alguém veja a gente, é só correr.

— Eu sei, mas—

Espiei com cuidado pela quina. Shiratama-san fez o mesmo. Ela recuou imediatamente, com o rosto pálido.

— Papai...!

De fato, parado perto da entrada e conversando com alguém estava o pai de Shiratama-san. Se eu não tivesse visto a foto dele antes, talvez tivéssemos dado de cara com ele. Shiratama-san levou a mão ao peito, assustada, e respirou fundo algumas vezes para se acalmar.

— Definitivamente não podemos deixar ele ver você. Vamos ter que esperar até ele sair.

— Ah, sim. Entendi.

...Espera um pouco. A pessoa com quem o pai de Shiratama-san está conversando é o gerente do local. Eu o reconheci da visita. E, se lembro corretamente, a noiva deveria entrar na capela acompanhada pelo pai durante a cerimônia.

Faltavam vinte e cinco minutos para o início. Em outras palavras, o próximo destino do pai de Shiratama-san provavelmente era o camarim da noiva no segundo andar.

As vozes estavam se aproximando da escada. Reconheço as vozes daqueles jovens. São os funcionários do local.

— Presidente!

Com o rosto pálido, Shiratama-san agarrou minha roupa. ...Droga. Se quisermos fugir, a única opção é voltar para cima. Mas, se fizermos isso, vamos ficar presos sem ter para onde ir.

Preciso encontrar um jeito de tirar Shiratama-san daqui. Nem que seja só ela—

No segundo seguinte, um grito trêmulo ecoou pelo lugar.

— C-Com licença! A-Alguém viu um g-gato correndo p-por aqui!?

Era Komari. A voz trêmula de Komari chamou a atenção de todos. Espiando para avaliar a situação, vi Komari irromper pela entrada, ignorando todas as tentativas de detê-la, e se plantar firmemente diante do pai de Shiratama-san. O pai de Shiratama-san pareceu confuso, mas tentou tranquilizá-la com um sorriso gentil.

— Por favor, acalme-se, mocinha. Um gato entrou correndo aqui? Eu não vi, mas como ele é?

— É-É um gato m-muito guloso! E-Ele come toda a c-comida que encontra pela frente! P-Precisamos pegar ele, rápido!

Isso é simplesmente a Yanami. Mas a gata-Yanami causou impacto suficiente. O gerente do local começou a chamar os funcionários próximos, tentando reunir informações sobre aquele suposto gato.

— Ah! E-Ele correu para lá! P-Para a cozinha! T-Temos que pegar ele!

— Ora, ora, não precisa empurrar tanto.

Komari começou a conduzir o pai de Shiratama-san na direção oposta à nossa, empurrando-o para longe. Os funcionários do local, agora distraídos, seguiram em direção à cozinha atrás do gato inexistente.

— Temos uma brecha de apenas alguns segundos.

Passos estavam se aproximando pelo andar de cima. Não havia tempo para hesitar. Agarrei a mão de Shiratama-san e disparei em direção à entrada.

Passamos correndo pelos convidados e saímos do prédio para o ar livre. As pessoas no estacionamento se viraram, espantadas. Uma noiva acabara de sair voando do local enquanto era arrastada pela mão por um garoto.

Estamos definitivamente chamando atenção, mas não temos tempo para nos preocupar com isso. Seguimos ao longo do muro, mirando o espaço entre os prédios—quando Shiratama-san puxou minha mão de repente.

— Espera, meu sapato—

Olhei para trás e vi um único sapato branco caído diante da entrada. No breve instante em que hesitei, funcionários do local saíram correndo atrás de nós. É claro que toda essa confusão não passaria despercebida.

Sem pensar, peguei Shiratama-san no colo e voltei a correr.

— Presidente!?

Ainda carregando-a como uma noiva, disparei pelo estreito espaço entre os prédios. Ela é mais pesada que a Kaju, mas, comparada com a Yanami, parece leve como uma pluma.

Sem diminuir a velocidade, atravessei o buraco na cerca-viva que Asagumo-san havia coincidentemente descoberto antes.

— Kya!

Com o grito adorável da Shiratama-san ecoando nos meus ouvidos, continuei correndo sem parar—

*

Olhei para o teto da sala do Clube de Teatro da Escola Kirinoki, ofegando pesadamente.

Conseguimos...?

Depois que mergulhamos pela cerca-viva, tudo virou um borrão. Não olhei para trás.

Só corri o mais rápido que pude. De algum jeito, conseguimos chegar até aqui, mas meus braços e minha cintura estão gritando de dor.

— Já pode me colocar no chão, sabia?

— Hã!?

Voltando à realidade, percebi que ainda estava carregando Shiratama-san. Rapidamente, coloquei-a no chão.

— Hã, desculpa. Você se machucou?

— Não, nem um pouco. Você me protegeu, Presidente.

Prestei atenção aos arredores, tentando perceber qualquer movimentação. Não havia sinal de ninguém por perto. Os únicos sons eram os gritos distantes dos clubes esportivos e as notas constantes dos instrumentos de sopro—

— Parece que ninguém veio atrás da gente.

— É verdade. Acho que estamos seguros agora.

Shiratama-san estendeu a mão e tirou uma folha presa no meu cabelo. Ali estávamos nós, sozinhos numa sala pouco iluminada, apenas nós dois, e ela ainda usando o vestido de noiva. Um pouco constrangido, cocei a bochecha e dei um passo para trás.

— Só faltam quinze minutos. É melhor você se trocar rápido.

— Mas parece um desperdício tirar depois de todo o trabalho que tivemos.

Olhando para o vestido com uma expressão saudosa, Shiratama-san deu uma volta graciosa. As lantejoulas do vestido cintilaram na penumbra da sala.

— Ficou bonito em mim?

— Hã, você já não me perguntou isso antes?

— Quero ouvir de novo.

Ela está sendo persistente demais. Resignado, assenti.

— Sim. Combina com você.

— E o que isso quer dizer?

Shiratama-san se aproximou, olhando para mim de baixo para cima com expectativa. Essa é uma daquelas situações das quais não existe escapatória até eu dizer exatamente o que ela quer ouvir. Afinal, sou um refinado apreciador de simuladores de namoro.

— Tá bom, tá bom. Você está fofa. Mas não vou dizer de novo.

Respondi de maneira brusca, tentando esconder o constrangimento. Para minha surpresa, porém, a expressão de Shiratama-san ficou inesperadamente séria. Ela parou diante de mim e estendeu os braços em minha direção antes de dizer:

— Que tal a gente se beijar?

...Hã? Um beijo?

Isso é o tipo de coisa que acontece no volume final de uma comédia romântica clássica.

Embora, ultimamente, algumas séries estejam forçando os limites e fazendo isso já no primeiro capítulo—

O quê!? Um beijo!? Aqui!? Agora!?

Assustado, dei um salto para trás com muito mais força do que esperava.

— Shiratama-san!? Você não devia dizer uma coisa dessas, nem de brincadeira!

— Então você não vai?

Ela inclinou a cabeça de um jeito adorável e piscou algumas vezes.

— Ah, é... não vou...

— Entendi. Então você não vai, hã?

Shiratama-san abaixou os braços, parecendo um pouco decepcionada. ...Espera. Ela estava falando sério? Esse seria o meu momento de volume final?

Enquanto eu permanecia ali em choque, Shiratama-san virou de costas e seguiu em direção à cortina da área de troca de roupa.

— Então vou me trocar. Vou ser uma boa menina e participar da cerimônia.

— Certo.

Não, não. Por que eu levaria aquilo a sério? Foi só uma brincadeira de uma caloura. Se eu tivesse levado a sério, talvez acabasse acusado de assédio sexual e recebesse um final ruim.

Enquanto assentia para mim mesmo, tentando expulsar aqueles pensamentos da cabeça, Shiratama-san olhou por cima do ombro ao abrir a cortina.

— Sabe, Presidente? Na verdade, você é...

— Hã, o quê!?

Minha voz falhou, e Shiratama-san soltou uma risadinha.

— Bem covarde, não é?

Dizendo isso, desapareceu atrás da cortina.

*

Plim...

O suave toque eletrônico do meu celular me puxou de volta das águas rasas do sono. Logo depois da Shiratama-san trocar de roupa, vestir o uniforme e seguir para o casamento da irmã, eu tinha desabado no sofá, completamente exausto.

A última coisa de que me lembrava era meus pensamentos ficando cada vez mais vagos, então devo ter adormecido sem perceber. Esfreguei os olhos e me sentei. Um blazer do Colégio Tsuwabuki escorregou dos meus ombros e caiu no chão.

Pelo visto, alguém tinha colocado aquilo sobre mim enquanto eu dormia. Considerando que eu já estava usando um blazer, fiquei literalmente coberto por duas camadas. Pensando nisso, peguei a peça.

O tamanho familiar e reconfortante deixava claro que era da Yanami… Conferi o celular e percebi que não tinha dormido nem uma hora inteira. Ao passar rapidamente pela enxurrada de notificações, vi que a missão havia sido concluída apesar de alguns acidentes.

Asagumo-san e a Presidente estavam recolhendo os equipamentos que tinham espalhado pela área. Eu não entendia exatamente os detalhes, mas, aparentemente, se fossem descobertos, poderíamos ter problemas sérios envolvendo leis de radiocomunicação e outras questões legais.

...Então, e agora?

Shiratama-san decidiu continuar escondendo os sentimentos por Tanaka-sensei e ser uma boa cunhada. E, se ela realmente acabar entrando para o Clube de Literatura, nosso futuro estará garantido.

Levantei-me e coloquei o blazer da Yanami de volta no cabideiro. Foi então que percebi a cortina da área de troca se mexendo de leve.

— Nukumizu-kun, você está sozinho agora...?

— Hã? Você está aí, Yanami-san? Obrigado por colocar o blazer em mim.

Ainda bem que eu não fiquei falando nada estranho sozinho. Enquanto suspirava aliviado, Yanami chamou outra vez em voz baixa.

— Ei. Vem aqui um segundo.

Hã? Atrás da cortina?

— Nem pensar. Não vou entrar enquanto você estiver se trocando.

— Já estou vestida. Está tudo bem. Só entra.

...Então por que você não sai daí? Eu não entendia, mas discutir parecia trabalhoso demais. Afastei a cortina. E a visão diante de mim me deixou sem palavras.

Ali estava Yanami usando o vestido de noiva da Shiratama-san. Ela mantinha o rosto abaixado, envergonhada, enquanto o vestido branco balançava levemente. Comparado com a Shiratama-san, o busto mais avantajado da Yanami forçava o vestido muito além do desenho original, quase fazendo as costuras estourarem.

— Hã? Por que você está usando—

— Tira para mim.

O quê!? Eu ainda estou sonhando!? Estou com medo. Isso está mais para pesadelo.

Yanami ergueu lentamente o rosto. Lágrimas começavam a se acumular de leve nos olhos dela.

— Não seria melhor pedir ajuda para alguém—

— Eu fiquei curiosa e experimentei, mas agora não consigo tirar! Faz alguma coisa, Nukumizu-kun!

...Quê?

— O zíper nas costas não se mexe! Acho que o vestido encolheu depois que eu coloquei! Isso acontece direto, então tenho certeza de que foi isso!

É mesmo? Isso acontece com frequência? Então este pesadelo ainda não acabou.

— Certo. Vou chamar a Asagumo-san e as outras. Fica aqui, Yanami-san.

— Espera! Você quer que eu viva com uma vergonha dessas!? Não quero que mais ninguém descubra!

Mas tudo bem se eu souber? Yanami se virou e ergueu o cabelo, revelando o zíper nas costas.

— Anda logo e puxa para baixo. PUXA. PARA. BAIXO.

Hã...? Nós vamos mesmo fazer isso? Para ser sincero, eu não quero. Mas também não dá para simplesmente recusar. Apesar das aparências, sou bastante bom em ler o clima.

Coloquei o dedo indicador esquerdo ao lado do zíper e comecei a puxá-lo lentamente para baixo com a mão direita—

— Uau, está completamente preso. Não se mexe.

— Não pode ser. Nukumizu-kun, você é fraco demais?

...Eu poderia simplesmente abandonar ela aqui e ir para casa.

Mas, movido pela bondade de um samurai, tentei de novo. Dessa vez, coloquei mais força e puxei lentamente o zíper para baixo, expondo cada vez mais pele. Desviei um pouco os olhos, desconfortável. Então o zíper parou no meio e se recusou a descer mais.

— O que foi? Só puxa até o fim.

— Espera. O zíper prendeu em alguma coisa azul por baixo...

— Alguma coisa azul?

Yanami ficou em silêncio por um instante. Então soltou um grito que parecia quase um choro.

— Espera!? Isso é o meu sutiã—

Hã!? Essa coisa azul é roupa íntima!?

Agora que estou olhando direito, realmente dá para ver uns ganchos.

— Droga, vou chamar alguém—

— Não! Eu não estou com roupa íntima por baixo da roupa! Não é um sutiã!

Isso não torna a situação ainda mais constrangedora? Mas, se ela insiste que aquilo não é roupa íntima, ir embora agora só faria parecer que eu estou consciente demais disso. O que seria ainda pior. Preparei-me mentalmente e continuei aquele cenário de pesadelo.

— Não olha, Nukumizu-kun! E não toca também!

— Sim, eu também não quero tocar—

— O quê!? Eu lavo minhas roupas, sabia!? Por favor! Eu deixo você tocar! Só tira isso de mim!

Eu realmente não quero. Por que preciso tocar na roupa íntima de outra pessoa? Mas, desse jeito, não vamos sair do lugar.

— Yanami-san, você tem manteiga ou margarina?

— Hã? O quê? Você vai me comer?

Não. Eu não sou você.

— Se passar manteiga no zíper, ele desliza melhor. Mas não é como se você carregasse manteiga por aí—

— Ah, tenho um pacotinho na bolsa.

Por quê?

Mas agora não é hora de questionar isso. Com a ajuda da manteiga da Yanami, o pesadelo finalmente chegou ao fim pouco depois.

*

...Estou exausto. Isso foi três vezes mais cansativo do que lidar com toda a situação da Shiratama-san. Desabei no sofá, completamente drenado. Yanami, já de volta ao uniforme, se jogou ao meu lado.

— Fui profanada.

Isso induz completamente ao erro. Se alguém foi profanado aqui, fui eu. Yanami ficou brincando com a fita no peito por alguns instantes antes de suspirar e falar:

— Como você convenceu a Shiratama-chan?

— Como assim—

— Ela estava prestes a fazer alguma besteira, não estava? Alguma coisa deve ter acontecido para ela desistir tão fácil.

Não foi nada demais. Mas também não é exatamente uma coisa que eu queira contar… Escolhi cuidadosamente as palavras.

— Bom, se eu tiver que dizer, acho que ela percebeu que agora não era o momento certo.

— Quer dizer que ela adiou?

— É. Algo assim.

...Adiar.

Tomar uma decisão nem sempre é a solução. Talvez chegue um momento em que apareça uma resposta que agora você ainda não tem. Pode ser no ano que vem. Ou pode ser amanhã. Quando esse momento chegar, talvez você nem perceba. E, a essa altura, aquilo que você segura agora talvez já tenha virado apenas uma lembrança.

Eu não confio em quem sou neste exato momento. Por isso não me desespero em relação ao futuro. Mas também não alimento esperança demais. Talvez um dia a Shiratama-san roube Tanaka-sensei da irmã. Talvez encontre um novo amor.

As coisas vão acabar tomando a forma que tiverem que tomar. E só poderão seguir esse caminho. A única responsabilidade que podemos realmente assumir é por quem somos aqui e agora—

Enquanto eu me perdia nesses pensamentos, Yanami me lançou um olhar sem expressão.

— Hã? O que foi?

— Ei, Nukumizu-kun, você não aproveitou o clima e tentou alguma coisa estranha com Shiratama-chan, tentou?

— É claro que não———

Comecei a responder. Mas então os olhos profundos e hipnotizantes da Shiratama-san surgiram na minha mente.

"Que tal a gente se beijar?"

Foi só um capricho. Se levar a sério, vai se arrepender. Essa é a Riko Shiratama.

— Espera, alguma coisa aconteceu, não aconteceu!? Você deu em cima dela? Sério!?

— Não, eu não dei! Eu recusei———

— O quê!? O que você quer dizer com isso!?

Droga. Deixei escapar.

O rosto de Yanami se contorceu de raiva enquanto ela agarrava minha gravata. Isso é ruim. Desse jeito, vou acabar parecendo um canalha que tentou alguma coisa com uma caloura.

Enquanto eu me esforçava para pensar numa desculpa, percebi um par de olhares sobre nós. Olhei para a porta da sala. Ali estavam Asagumo-san e a Presidente. As duas exibiam sorrisos divertidos e cheios de segundas intenções.

— Obrigada pela refeição — disseram as duas ao mesmo tempo.

Yanami e eu respondemos às pressas, em perfeita sincronia:

— Não é nada disso!

📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag e revisado por Shisui

💬 Quer acompanhar os próximos lançamentos, dar sugestões e trocar ideia com a gente?

Entre no nosso servidor do Discord e faça parte da comunidade! 🚀

Fim da leitura

Capítulo 84 concluído

Volume 7 – Capítulo 4 – Capítulo 4: A Grande Vingança