Todas Essas Heroínas Perdedoras! — Capítulo 95: Volume 8 – Capítulo 1 – Capítulo 1: Juro que Não Tenho Segundas Intenções

Todas Essas Heroínas Perdedoras!
Cap. 95
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Todas Essas Heroínas Perdedoras!

Volume 8 – Capítulo 1 – Capítulo 1: Juro que Não Tenho Segundas Intenções

Capítulo 95

13.435 palavras~58 min de leitura

ULTIMAMENTE, OS DIAS VINHAM FICANDO VISIVELMENTE MAIS LONGOS.

Os raios quentes do sol poente entravam pelas janelas da sala do clube, banhando o ambiente com um suave brilho âmbar. E, bem no centro de tudo aquilo, estava Tiara-san, cercada pelas garotas do Clube de Literatura.

— Aqui está, Basori-senpai. Tome um pouco de chá — disse uma voz doce, colocando diante dela uma xícara fumegante.

— Ah, obrigada.

Aquela voz pertencia à aluna do primeiro ano, Riko Shiratama.

Ela foi para trás de Tiara-san e permaneceu ali, vigilante, com um sorriso perfeitamente radiante estampado no rosto. Tiara-san retribuiu com um sorriso educado, embora seus olhos corressem nervosamente de um lado para o outro.

Yanami estendeu a mão e empurrou uma caixa de biscoitos na direção dela.

— Biscoito?

— Ah... claro. Obrigada.

Tiara-san pegou um da caixa com um alívio evidente — até perceber Yanami se inclinando tanto para a frente que o nariz dela quase roçou os dedos da Tiara-san. Ela encarava o biscoito como um falcão observando a presa.

— Hum... É meio difícil relaxar quando ficam me encarando desse jeito.

Nem me diga. Contive um suspiro.

— Yanami-san. Vamos lá. Seja uma boa garota e sente aqui, tá?

Dei leves tapinhas na cadeira ao meu lado. Yanami estreitou os olhos.

— Deixa eu adivinhar. Você provavelmente acha que eu dei o biscoito para ela, me arrependi e agora quero ele de volta. Não é, Nukumizu-kun?

Isso. Como adivinhou? Ela suspirou teatralmente e se jogou na cadeira, como se eu fosse aquele que estava obviamente errado.

— Escuta bem, Nukumizu-kun. Esses biscoitos? Setenta quilocalorias. Cada um.

— Aham...

Assenti, desconfiado.

— Então, se a Basori-san comer o biscoito que eu ia comer, você entende o que isso significa?

Ela se virou de repente para Komari.

— Komari-chan, sua vez!

— Hã?! E-Eu?!

Komari deu um pulo no canto onde estava e quase deixou o celular cair.

— H-Hum... b-bem, a Yanami... vai... engordar um p-pouquinho menos?

— Incorreto.

Yanami virou-se para mim.

— Certo, próximo. Nukumizu-kun. O que isso significa?

Por que a gente está fazendo isso em forma de rodízio?

— Você podia pelo menos me dar uma dica ou alguma coisa.

— Bom, se você realmente precisa de uma, tudo bem. Pense: quando eu dou esse biscoito para outra pessoa, o que acontece com a minha ingestão de calorias?

Ué, você não comeu, então… É óbvio.

— Nada.

— Incorreto! — declarou Yanami com absoluta confiança. — As calorias que eu teria consumido foram transferidas para a Basori-san! Ou seja, agora estou com setenta quilocalorias negativas!

— Não, não é assim que—

— Portanto — continuou Yanami, ignorando-me enquanto cruzava os braços, completamente comprometida com sua absurda teoria conspiratória das calorias —, se a Basori-san comer cento e dez desses biscoitos, eu vou perder exatamente um quilo. Então... vamos! Coma mais um!

Ela empurrou um segundo biscoito na direção da Tiara-san.

— Não, um já é suficie——Ah... obrigada.

Incapaz de recusar, Tiara-san aceitou o biscoito sem jeito. Ela olhou para mim.

— Hum, se não se importar que eu pergunte... por que exatamente estou na sala do Clube de Literatura comendo biscoitos?

— Bom — comecei —, a biblioteca está fechada, e a bibliotecária costuma passar por lá depois do horário. Então achei que esta sala seria um pouco mais discreta...

— Mas tem mais gente aqui, não?

Bem observado.

Mas, para ser justo, Yanami e companhia operavam numa frequência tão particular que eram menos parecidas com pessoas e mais com... algum tipo bizarro de radiação de fundo.

— Mesmo assim — assegurei —, as chances de outra pessoa ouvir nossa conversa são... não exatamente zero, mas baixas o bastante. Pode ficar tranquila.

— Como isso deveria me deixar menos preocupada...?

Clinc.

— Aqui está, senpai. Tome um pouco de chá.

— O quê...?

Uma segunda xícara fumegante apareceu diante da Tiara-san, perfeitamente alinhada ao lado da primeira, que ainda nem tinha sido tocada. Tiara-san piscou para as duas xícaras idênticas.

— Hum... você é a Shiratama-san, certo? Eu já———

— Por favor, aproveite enquanto ainda está quente.

— Ah, obrigada.

Gole.

Tiara-san tomou educadamente um pouco do chá, enquanto Yanami... de maneira nada educada continuava perfurando o biscoito com os olhos.

É. Só mais um dia perfeitamente normal no Clube de Literatura.

— Então, Tiara-san — falei, tentando colocar a conversa de volta nos trilhos. — Você disse que queria falar comigo?

— Nós realmente vamos conversar desse jeito?

Sim.

Sim, vamos.

Conformada com a situação, ela enfiou o biscoito na boca e colocou uma única folha de papel sobre a mesa entre nós.

— Certo. Talvez eu precise explicar algumas coisas, mas... resumindo, eu gostaria de pegar seu nome emprestado, Nukumizu-san.

— Você quer dizer tipo... escrever ele aqui?

Estendi a mão para pegar uma caneta.

— Presidente!! — gritou Shiratama-san, jogando-se para a frente. — Pare!

— Eu fiz alguma coisa errada?

— Fez! Você não pode simplesmente assinar coisas sem ler!

— Se liga, Nukumizu-kun — acrescentou Yanami, balançando a cabeça. — Meu pai carimbou um documento sem ler uma vez e acabou se metendo numa confusão enorme.

Ela pegou a folha e começou a examiná-la. Então piscou.

— Formulário de inscrição de candidatura... para a eleição do conselho estudantil? O que isso tem a ver com o Nukumizu-kun?

— Imagino que vocês saibam que o mandato do conselho atual termina depois do festival esportivo do mês que vem, certo? — perguntou Tiara-san.

Hum… Não. Eu não sabia. Ela endireitou a postura e me encarou diretamente nos olhos.

— Pretendo me candidatar à presidência do conselho estudantil — continuou — e gostaria que você, Nukumizu-san, fosse um dos meus apoiadores oficiais.

— Apoiador? — repeti feito um idiota. — Eu?

Ela assentiu.

— Sim. E também gostaria que você fizesse meu discurso de indicação.

Discurso de indicação. Aquela coisa em que você sobe num palco no ginásio, com centenas de pares de olhos encarando você, e tenta formar frases minimamente coerentes.

Eu...

Discurso...

Ginásio...

Escola...

— Não. Não quero — peguei o formulário das mãos da Yanami e o deslizei de volta para Tiara-san. — Desculpa. Que tal pedir para outra pessoa?

— Você não poderia pelo menos me ouvir até o fim, Nukumizu-san? — pediu ela, ainda esperançosa.

Infelizmente para ela, da minha parte era um não bem categórico.

— Qual é, Nukumizu-kun — Yanami ofereceu um terceiro biscoito a Tiara-san. — Pelo menos escuta.

Tiara-san pegou o biscoito com certa hesitação, e Yanami abriu um sorriso para ela.

— Então, Basori-san. Se você ganhar, isso significa que o Nukumizu-kun também entra para o conselho estudantil?

— Sim. Como o presidente é quem nomeia os cargos do conselho, eu gostaria que Nukumizu-san fosse meu vice-presidente.

— Mas por que o Nukumizu-kun? Com certeza existe alguém mais qualificado.

Uau. Obrigado, Yanami.

Tiara-san, no entanto, assentiu. Com convicção.

Espera aí. Por que você está concordando?! Foi você que disse que me queria!

— Como a presidente e a vice-presidente atuais são mulheres, os professores pediram que, desta vez, nomeássemos pelo menos um rapaz para um dos cargos da diretoria. Então...

— Então o escolhido é o Nukumizu-kun? — perguntou Yanami. — O Sakurai-kun não seria melhor?

Yanami. Talvez você pudesse simplesmente, sei lá… Calar a boca?

— Sakurai-kun vai deixar o conselho e… — Tiara-san abaixou o olhar, constrangida. — Eu não tenho nenhum outro amigo próximo que seja homem...

Ai. Escolhido por falta de opção. Clássico.

— Mas precisa mesmo ser um garoto? — interrompi, recuperando a compostura. — O conselho atual funciona muito bem assim. Por que não explica isso aos professores? Tenho certeza de que eles entenderiam.

— O conselho representa todo o corpo estudantil, então é importante garantir que todos sintam que estão sendo representados — explicou Tiara-san. — Mas, se formos todos do mesmo gênero, alguns alunos talvez hesitem em procurar o conselho.

Ela tinha razão. Naquele momento, Sakurai-kun era o único garoto do conselho. E também a única bússola moral deles. Hmmm. Pensando bem, aquele conselho realmente precisava de mais homens.

— Eu mesma tive que superar muitas coisas para chegar ao cargo de vice-presidente. Depois de eleita, vamos precisar do apoio tanto dos alunos quanto dos professores. Então, por favor, como representante dos garotos do Colégio Tsuwabuki... você não poderia nos emprestar sua força?

Eu entendia o ponto dela… Mas eu? Representante dos garotos? Hum, não sei quanto a você, mas nada nessa frase parecia certo para mim. Então comecei a quebrar a cabeça, tentando pensar numa maneira educada de recusá-la, mas então—

— Eu entendo o que você está dizendo, Basori-san, mas o Nukumizu-kun é presidente do Clube de Literatura. A gente também ficaria em apuros.

Meu Deus. Aquilo foi… Algum tipo de apoio genuíno? Vindo da Yanami?

— É, exatamente! — entrei na conversa na mesma hora, aproveitando uma oportunidade que eu tinha certeza de que nunca mais se repetiria. — Eu tenho minhas responsabilidades no clube, então o conselho estudantil é meio que—

É claro que aquilo durou uns três segundos.

— Maaas... — Yanami abriu um sorriso diabólico — se a gente for emprestar ele, o Clube de Literatura também tem que lucrar com isso.

Droga. Eu sabia que tinha comemorado cedo demais...

— Lucrar? — repetiu Tiara-san, piscando.

— É, lucrar! — exclamou Yanami, inclinando-se tanto para a frente que praticamente invadiu o espaço pessoal dela. — Tipo, se você entrar para o conselho estudantil, pode fazer o que quiser com o orçamento? Ou comer de graça no refeitório? Vocês não têm algum tipo de privilégio especial do conselho?

— B-Bem, hum... nós elaboramos as propostas de orçamento dos clubes, mas ainda precisamos da aprovação dos professores e—

— Vocês decidem o orçamento dos clubes?! Nukumizu-kun, entra para o conselho estudantil!

Tá. Isso foi rápido demais.

— Não. Até você tem que perceber o quanto isso é absurdo, Yanami-san.

— Mas não seria bom ter uma geladeira na sala do clube? E um micro-ondas? Ah, e uma penteadeira também seria ótima!

Hum… Nada disso tinha absolutamente coisa nenhuma a ver com literatura.

Atrás da Tiara-san, os olhos da Shiratama-san de repente se iluminaram. Ela juntou as mãos, com os olhos brilhando.

— Uma penteadeira parece maravilhosa! Você não gostaria de uma também, Komari-senpai?

Komari se encolheu no canto.

— H-Hum... pentea...?

— Ela está falando de uma mesa de maquiagem — murmurei. — E não, nós não vamos usar o dinheiro do clube para isso.

— Quero dizer, uma penteadeira talvez seja demais, mas... nós poderíamos deixar vocês ficarem com a minigeladeira do conselho estudantil.

— Fechado! Nukumizu-kun, manda ver!

— Não está fechado! Eu nunca concordei com nada disso! — protestei.

Yanami me lançou um olhar desafiador.

— Então vamos votar. Shiratama-chan, o que você acha?

— Hmmm...

Shiratama-san encostou o indicador na têmpora e inclinou a cabeça de um jeito adorável.

— Ter um presidente de clube que também faz parte do conselho estudantil parece meio legal.

— Você acha? — Ela abriu um sorriso radiante para mim. — Acho! Eu ia ficar me gabando: "O presidente do meu clube é vice-presidente do conselho estudantil!"

— Quero dizer... ter alguém se gabando de mim é até legal, mas mesmo assim...

— Por que você só se deixa influenciar quando é a Shiratama-chan? — Yanami me encarou, perplexa.

Hum. Foi você que começou essa votação.

Intervim:

— A opinião dos membros do clube importa, não é? A gente também devia ouvir a Komari.

— V-Vai morrer longe d-daqui.

— Viu? Isso é um não — falei. — Então estamos——

— Isso — Yanami me interrompeu. — Dois a um a favor. A maioria vence.

— Eu não tenho direito a voto???

— Claro que não. Você é a pessoa em quem estamos votando. Enfim, Basori-san, está decidido—

— Ah, certo!

Tiara-san, que até então observava tudo em silêncio, de repente se animou e estendeu a mão para o formulário.

— Então, Nukumizu-san, se você puder simplesmente assinar aqui—

Clinc.

Uma terceira xícara de chá pousou delicadamente em cima do formulário.

— Hum... o quê...?

— Meu voto é neutro — disse Shiratama-san, com seu sorriso angelical brilhando por entre o vapor que subia da xícara. — Isso deixa o placar em um a um.

Ela se inclinou para a frente.

— Basori-senpai... por favor, beba antes que esfrie.

◇

Dois dias depois daquela emboscada em forma de convite, eu me encontrava na sala de Economia Doméstica depois das aulas, observando Sakurai-kun descascar habilmente uma raiz de bardana.

Era impressionante pra caramba.

— Isso é para o bentô da presidente do conselho estudantil? Você está fazendo aqui na escola?

— É. Preparo os acompanhamentos depois das aulas e grelho os pratos principais em casa pela manhã.

As risadas animadas das integrantes do Clube de Culinária ecoavam do outro lado da sala. Sakurai-kun não fazia parte oficialmente do clube, mas aparentemente deixavam que ele usasse o espaço de vez em quando.

— Ouvi algumas coisas. Parece que você também está com bastante coisa nas mãos, Nukumizu-kun.

Ele sorriu sem jeito e jogou a bardana descascada numa tigela com água.

— Se você pensa assim, por que não vira o apoiador dela você mesmo? Basori-san me emboscou no corredor de novo hoje.

— Basori-chan não parece querer ajuda do conselho estudantil. Yumeko-san se ofereceu para apoiá-la, e ela recusou.

— Alunos do terceiro ano também podem ser apoiadores? — perguntei.

— Não existe nenhuma regra proibindo. Eles nem precisam entrar para o conselho estudantil.

Hmm. Entendi. Então a Tiara-san realmente não queria nenhuma ajuda do conselho atual, hein...

Decidi não cutucar mais aquele vespeiro e voltei minha atenção para a panela que borbulhava no fogão.

— O que você está cozinhando aí?

— Fuki com aburaage. É o favorito da Hiba-nee.

Ele levantou uma ponta da tampa improvisada de papel-alumínio, liberando um aroma apetitoso.

— A presidente tem gostos bem adultos, hein?

— Ela prefere comida japonesa, no geral. Não come carne nem nada muito gorduroso a menos que eu faça para ela, então preciso ficar de olho no que ela come.

Hã.

Interessante. Então fiz umas contas mentalmente. Se você tirasse a média entre a dieta dela e a da Yanami e depois… dividisse por dois de novo… talvez desse alguma coisa equilibrada o suficiente para não matar ninguém.

— Talvez esta seja a última vez que eu consiga cuidar da Hiba-nee desse jeito. Com o festival esportivo e as eleições chegando também... achei que pelo menos podia preparar um bentô para ela.

— Não falta muito tempo.

A maioria dos alunos do terceiro ano logo sairia da cidade para ir à faculdade. Embora todos ainda caminhassem pelos mesmos corredores naquele momento, em breve cada um começaria a seguir seu próprio caminho.

— Então a presidente vai mesmo sair de Toyohashi, hein?

— Vai. Ela está indo para Tóquio para se preparar para o futuro.

O tom do Sakurai-kun ficou mais suave.

— Acho que eu também preciso começar a pensar no meu—

— Sakurai-kuuun! Abre a boquinha~!

De repente, uma garota de aparência glamourosa do Clube de Culinária surgiu do nada e se inclinou na direção do Sakurai-kun.

Ela segurava uma colher de madeira diante dos lábios dele. Sakurai-kun nem piscou. Provou o que estava na colher e assentiu como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.

— Chawanmushi gelado, certo? E o dashi... kombu e bonito?

(N/SLAG: bonito é um peixe muito utilizado na culinária japonesa)

— Isso! Caprichei nesse aqui. Na próxima vez, eu te ensino.

— Vou ficar esperando.

— Quer ir lá para casa hoje à noite? Meus pais não estão.

— Vou ter que recusar.

A garota riu e foi embora acenando. Sakurai-kun retribuiu com um aceno discreto e então pegou uma cenoura como se absolutamente nada tivesse acontecido.

— Espera aí, o que foi isso?! Vocês dois estão namorando?! — exclamei.

— Não. Ela é a vice-presidente do Clube de Culinária. Foi ela que conseguiu autorização para eu usar esta sala.

Ah. Então era ela que mexia os pauzinhos...

— Tá, mas... quero dizer, ela literalmente acabou de colocar comida na sua boca. Fez até aquele "abre a boquinha"! As pessoas normalmente não fazem isso a menos que estejam, sabe... namorando.

— Não tem nada disso. Como não existem garotos no clube, elas só gostam de brincar comigo.

Sakurai-kun soltou uma risada meio tensa. Só para constar, eu também sou um garoto, caso você não tenha percebido.

— Para falar a verdade, eu ficaria mais tranquilo se você ajudasse a Basori-chan, Nukumizu-kun. Provavelmente somos os únicos garotos que ela conhece.

— O que acontece se eu disser não?

— Aí os professores provavelmente vão encontrar algum outro garoto — respondeu ele simplesmente, desligando o fogão. — O conselho estudantil do Colégio Tsuwabuki não é exatamente muito concorrido. Todo ano, os professores precisam intervir para evitar que o número de candidatos chegue a zero.

— Então eu não preciso mesmo ajudar, preciso?

— Claro que não, se ela conseguir encontrar alguém com quem se dê bem. Mas pode acreditar em mim: ninguém que já trabalhou com ela teve algo ruim a dizer. Ela realmente se importa com as pessoas com quem trabalha.

— Você tem prestado bastante atenção, hein.

— Bom, somos só quatro no conselho. E eu e ela estamos no segundo ano.

A faca do Sakurai-kun parou por um instante enquanto ele descascava as cenouras.

— Neste momento, a presença da Hiba-nee no conselho é bastante significativa. E acho que Basori-chan provavelmente tem os próprios motivos para querer fazer as coisas sem a nossa ajuda. Então — disse ele com firmeza —, eu não vou interferir.

Ele voltou a cortar. A conversa tinha ficado profunda demais para mim, então peguei uma das cenouras descascadas numa tentativa de aliviar o clima.

— Precisa de ajuda com alguma coisa?

— Então pode cortar essas em tiras finas? O descascador está ali.

— Beleza. O que vai ter no cardápio?

— Provavelmente kinpira gobô e vagem com molho de gergelim.

Trabalhamos em silêncio por um tempo. Ou, pelo menos, tentamos. Até que uma explosão repentina de gritinhos surgiu atrás de nós.

— Com licença, Sakurai-senpaaaai!

— Senpaaai~!

Dessa vez, as vozes pertenciam a um grupo de três garotas do primeiro ano. As duas das pontas cutucavam a garota corada que estava no meio. Ela se remexia nervosamente enquanto as amigas a incentivavam.

— Anda, fala logo!

— Isso, fala!

Por fim, a garota tímida deu um passo à frente e, de repente, estendeu um pequeno pacote embrulhado, quase gritando:

— H-Hum, Sakurai-senpai! Eu fiz isso... por favor, experimente!

Nas mãos dela havia um madeleine. Embrulhado à mão e perfeitamente arrumado.

— Obrigado. Vou experimentar depois.

— O-Obrigada! A-A gente está sempre torcendo por você!

As três garotas soltaram gritinhos e saíram correndo, deixando um rastro de risadinhas para trás.

…… …

— Que diabos foi isso? Algum tipo de evento especial?

— Hum... Talvez seja porque eu não pareça muito másculo? Acho que isso facilita falar comigo.

Aham. Claro. Com certeza. Também dizem que eu "não pareço muito másculo", mas nenhuma garota do primeiro ano jamais me pediu para provar alguma coisa que ela mesma fez.

Enquanto eu ficava ali refletindo sobre a injustiça da realidade, Sakurai-kun falou baixinho.

— Eu só queria fazer este último ano valer a pena.

Ele parou de cortar e abaixou a voz para que apenas eu pudesse ouvi-lo.

— Para mim, o conselho estudantil é só a Basori-chan, a Yumeko-san e a Hiba-nee. Só isso. Então... este é o fim. Quando as eleições acabarem e o festival esportivo terminar, vou me concentrar nos estudos.

Ele olhou para mim e acrescentou, sem jeito:

— Desculpa por não conseguir ajudar mais.

Quase respondi: "Não, quem devia pedir desculpas sou eu."

Mas tudo o que consegui fazer foi dar um sorriso amargo. Para falar a verdade, eu estava esperando jogar todo o problema da Tiara nas costas dele.

Achei que ele provavelmente só fosse me dispensar, mas não custava tentar. Só que ele fez exatamente o contrário.

Sorriu. E pediu desculpas.

É. Perdi feio nessa.

Não é de admirar que Sakurai-kun seja popular. Voltei a descascar as cenouras em silêncio, enquanto uma estranha sensação de compreensão se acomodava dentro de mim.

◇

Ultimamente, eu vinha me acostumando a andar de bicicleta por aí.

Enquanto atravessava rapidamente as ruas ao entardecer na minha querida bicicleta, vi de relance o ponto de bonde Higashi-Hacchou pelo canto do olho — uma relíquia do meu primeiro ano, quando eu ainda usava o trem.

A brisa fria do fim de tarde, que antes ardia contra a pele, agora parecia até refrescante. Acho que a gente consegue se acostumar com qualquer coisa.

Eu tinha acabado de ajudar Sakurai-kun e fui direto para casa logo depois, usando todas as manobras evasivas que conhecia para evitar qualquer encontro acidental com uma certa aspirante à presidência do conselho estudantil.

Ultimamente, Tiara-san tinha adquirido o hábito de ficar à espreita nas sombras do prédio oeste da escola como uma versão barata de fantasma de filme de terror.

Então decidi que a opção mais segura era simplesmente passar bem longe daquela área inteira.

— Cheguei—

Abri a porta de entrada e meus olhos imediatamente se fixaram num par suspeito de sapatos desconhecidos, cuidadosamente alinhados no genkan.

………

Tá. Que tipo de bandeira de evento era essa? Pelo couro preto e brilhante, eram sapatos femininos.

Hmm. Mas não pertenciam a ninguém do Clube de Literatura. Talvez alguma amiga da Kaju? Uma visita domiciliar? Ignorando a sensação de mau presságio, abri a porta da sala — e congelei.

Lá estava ela. Tiara-san. De avental. Na minha cozinha. Ao lado da Kaju.

— O quê?! Por que a Tiara-san está aqui?!

Apesar da minha pergunta perfeitamente lógica, Kaju me lançou um olhar de reprovação.

— Onii-sama, Basori-san é convidada da Kaju. Nós combinamos de cozinhar juntas.

— Desculpe incomodar, Nukumizu-san. E, por favor, não me chame pelo primeiro nome.

Tiara-san e Kaju…

Cozinhando juntas? Justo agora?

Tentando manter a calma, larguei minha bolsa no sofá e lancei um olhar cauteloso para a cozinha.

Kaju explicava alguma coisa com uma intensidade impressionante, segurando flocos de bonito numa mão e uma folha de alga kombu na outra, enquanto Tiara-san assentia com entusiasmo e fazia anotações.

Definitivamente parecia que estavam cozinhando… Mas vai saber. De qualquer forma, eu não ia baixar a guarda. A campainha tocou.

— Kaju atende — anunciou ela, enxugando as mãos no avental. — Onii-sama, por favor, faça companhia para a Basori-san.

Companhia? O que eu sou, babá dela?

Ainda assim, ignorá-la completamente parecia… meio cruel. Então fui até o lado de Tiara-san e espiei a panela fumegante sobre o fogão.

— Sopa de missô?

— Sim.

Os olhos dela nem se desviaram da alga kombu.

— Eu não quero ser vista como o tipo de mulher que nem sabe preparar uma sopa de missô.

Ah. Ela ainda estava remoendo aquele incidente do acampamento em março, quando esqueceu de fazer o caldo?

— Mas aquela sopa de missô ficou muito boa. O sabor do missô vermelho realmente se destacou. Ficou bem... missô-vermelhenta.

— Isso não foi exatamente um elogio, foi? Aqui. Experimente.

Tiara-san empurrou sem cerimônia um pequeno recipiente na minha direção. Tomei um gole, sentindo toda aquela pressão. Um calor familiar se espalhou pela minha língua.

— É, está bem boa. Você está usando o mesmo kombu que a Kaju usa, né? O gosto está praticamente igual ao dela.

— Onii-sama, usar os mesmos ingredientes não significa automaticamente que o sabor vai ficar igual — declarou Kaju, que já tinha voltado. — A forma como você trabalha os ingredientes muda completamente o sabor. É isso que torna a comida caseira especial.

— Acho que faz sentido. Mesmo assim, está bem parecido — admiti, observando Kaju pegar chá de cevada na geladeira.

— Naturalmente. A própria Kaju ensinou a ela.

Kaju exibiu uma expressão orgulhosa enquanto servia o chá.

— Com bastante prática, Basori-san vai conseguir reproduzir sozinha o sabor da família Nukumizu. Ela será sempre bem-vinda aqui.

— O-O quêêê?!

Tiara-san deu um pulo violento, ainda segurando a concha.

— N-Não é por isso que estou aprendendo! Quero dizer, sim, eu estava curiosa sobre o tipo de comida que o Nukumizu-san come, mas... espera, isso significa que eu vou me casar?!

………..

Moça. Por favor. Ninguém disse isso. Sério, as emoções dessa garota mudam de direção mais rápido do que trama de novela.

— Não é nada disso. Relaxa.

— Ei, é a Uma-chan! O que você está fazendo aqui?

Essa voz—

Yakishio.

Vestindo uma regata e um short justo, ela entrou tranquilamente na sala com uma toalha pendurada no pescoço.

— Kaju e Basori-san estão cozinhando hoje. Fique à vontade, Yakishio-san — disse Kaju, entregando a Yakishio um copo do chá de cevada que havia servido.

— Valeu, Kaju-chan.

Yakishio virou o copo inteiro de uma só vez e soltou um suspiro satisfeito.

— Aaaah, isso caiu bem. Vou pegar seu chuveiro emprestado, beleza?

— Claro. Já deixei uma toalha separada para você.

Yakishio acenou despreocupadamente e desapareceu pelo corredor. Desde que minha casa tinha virado a sala temporária do clube, aparentemente também tinha adquirido uma nova função como banho público...

— Basori-san, sua panela está transbordando. Está tudo bem?

— O-O quê?! Ah, hum... e-espera, por que Yakishio-san está tomando banho na sua casa?!

Sei lá. Eu também gostaria de saber.

— Hum... porque tem um chuveiro aqui, eu acho? — arrisquei.

— Mas isso... isso não é normal! Garotas normalmente não ficam tomando banho na casa de outros garotos. A menos que... espera... isso significa que vocês dois têm esse tipo de relação?!

— Onii-sama, isso é verdade?!

Por que a Kaju também ficou alterada...?

— Foi você que sugeriu que ela tomasse banho aqui em primeiro lugar, Kaju. E desliguem logo o fogão.

Ignorando as duas, estendi a mão e apaguei o fogo. Provei o caldo mais uma vez, com cautela. Comparado ao da Kaju, havia um leve toque de amargor. Mas, ainda assim...

Não estava nada ruim.

◇

Finalmente, conseguindo escapar da cozinha, fui em direção às escadas e lancei um olhar cauteloso para a porta do banheiro. Silêncio. Nenhum barulho de água corrente.

Perfeito. Se eu for rápido o bastante, consigo passar por este andar sem ser arrastado para outra—

— Ei, Nukkun.

Emboscada. Yakishio me chamou do outro lado da porta.

— O-O quê?!

Gaguejei enquanto minha alma saía do corpo por alguns instantes. Como se aquela fosse uma maneira perfeitamente normal de conversar, Yakishio continuou:

— O festival esportivo está chegando, né? Já decidiu em quais provas vai participar, Nukkun?

………

O festival esportivo? Sério? Era esse o momento que você escolheu para perguntar?

— Hum, acho que... corrida de obstáculos ou alguma coisa assim.

Tentei acompanhar o tom casual dela, mas minha carreira como ator chegou ao fim no instante em que ouvi o suave farfalhar de uma toalha enquanto ela se secava.

O que — só para deixar bem claro — significava que, do outro lado daquela mísera porta de madeira, estava uma Yakishio que tinha acabado de sair do banho.

Sim. Uma garota. Minha colega de classe. Da mesma idade que eu. Recém-saída do banho.

Resumindo…

Eu estava muito distraído. Quero dizer, talvez não pareça, mas eu ainda sou um adolescente perfeitamente saudável, sabe?

— Hum, será que a gente pode conversar sobre isso mais tarde—

— Você não vai perguntar o que eu vou fazer?

Tá. Quanta energia de namorada carente é essa?

— Tudo bem. Então, o que você vai fazer, Yakishio?

— Revezamento da turma, corrida de duzentos metros e provavelmente a competição de torcida. Você não vai participar da torcida?

Ah, é. Torcida. Aquela coisa em que as pessoas mais barulhentas e brilhantes da turma basicamente cantavam e dançavam para… elas mesmas.

— Tô fora. Não é meio estranho torcer por nós mesmos?

— Pfft, você pensa demais — disse ela, rindo.

Ri junto. Mas então o tom dela mudou completamente.

— Ah, e a Komari-chan me contou.

Contou o quê?

— Que você está tentando abandonar o Clube de Literatura de novo — continuou Yakishio.

— Você está mesmo falando isso, Yakishio?

— Ah, qual é. Aquilo foi totalmente diferente.

Certo. Claro que foi. Se Yakishio diz, quem sou eu para discutir?

— Bom, Basori-san me pediu para ser o apoiador da candidatura dela na eleição do conselho estudantil. Só está sendo difícil dizer não.

— Apoiador? Só isso?

— E... se ela ganhar, também quer que eu seja vice-presidente—

— Nukkun, você vai entrar para o conselho estudantil?!

Bam!

A porta do banheiro se abriu de repente. Virei a cabeça para o outro lado tão rápido que talvez tivesse distendido alguma coisa.

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— O quê?! Não abre a porta desse jeito!

— Relaxa, eu estou vestida. Viu? Toalha.

Toalha não é roupa. Vamos deixar isso bem claro.

Por outro lado, se ela está tranquila com isso, talvez dar uma olhadinha rápida não faça mal...?

Enquanto eu travava uma batalha brutal contra o meu bom senso, Yakishio se aproximou de mim com os pés descalços.

— Hmmm~. Então, quando eu tentei te recrutar para o Clube de Ir Direto pra Casa, você me recusou, mas quando a Uma-chan pede para você entrar no conselho estudantil, de repente você começa a pensar no assunto? Hmmm~.

— Eu recusei ela também. Ela só não aceita um não como resposta.

— Você recusou, e agora ela está cozinhando na sua casa. Aham~.

Nem precisei olhar para perceber o quanto ela estava perto. O cheiro do shampoo recém-usado, misturado ao aroma característico da própria Yakishio, pairava ao redor da minha nuca.

— Yakishio-san... você está brava?

— Eu não estou brava, não.

É. Não. Aquele era o patenteado tom de "Eu Não Estou Brava", distribuído exclusivamente para irmãs mais novas, namoradas e, possivelmente, policiais.

Eu conheço os sinais. Virei as costas para ela e abaixei a cabeça.

— Hum, desculpa. Vou tomar mais cuidado para não preocupar a Komari.

— Hmm. Bom, hoje eu deixo passar.

Misericórdia! Doce e maravilhosa misericórdia!

Que durou aproximadamente cinco segundos, porque ela de repente surgiu bem na minha frente.

— Gah?! Vai vestir alguma coisa antes que pegue um resfriado!

— Eu já falei que estou de toalha! Para de surtar, você está me deixando com vergonha.

Você devia estar com vergonha. Essa toalha deixa muito menos para a imaginação do que você pensa.

— Enfim, Nukkun, cuida da Komari-chan, tá?

— Tá, tá! Agora volta logo para dentro!

Depois que confirmei que Yakishio tinha voltado para o vestiário, finalmente soltei o ar que estava prendendo. O ambiente ainda estava impregnado pelo cheiro daquele shampoo desconhecido.

............

……

Espera aí.

— Ei, Yakishio... você anda trazendo seu próprio shampoo?

— Aham. Chiha-chan me deu. Você pode usar também se quiser, Nukkun.

Então isso significa...

Meus pais com certeza já perceberam aquele novo e inexplicavelmente feminino perfume no banheiro e—

……

Não. Não vou pensar nisso. Esse caminho leva direto à morte. Joguei o pensamento numa lixeira mental e subi correndo as escadas.

◇

No intervalo do almoço do dia seguinte, fui até a escada de emergência do prédio antigo da escola, armado com um pão de curry em uma mão e uma caixinha de leite na outra. O sol estava quente, a brisa estava fresca e, no geral, o tempo estava ótimo.

Então, se ela não estava na sala de aula, com certeza estaria ali—

— Ah. Sabia.

Bingo. Komari estava lá, encostada no corrimão do patamar entre o terceiro e o quarto andar, dando mordidas num pãozinho com manteiga. Ao me ver, ela engoliu rapidamente o pedaço que estava mastigando, surpresa.

— V-Você veio m-mesmo...

— É. Imaginei que você estaria aqui.

— Ugh...

Ela fez uma careta, como se eu tivesse acabado de estragar o sanduíche dela. Mesmo assim, sentei ao lado dela. Yakishio — seminua — tinha me mandado verificar como Komari estava, e eu não podia simplesmente recusar.

Então ali estava eu. Podia considerar aquilo… um favor em troca.

Dar e receber.

Estendi a caixinha de leite para ela, soltando a fala que tinha preparado antes.

— Hum, eu... acabei comprando duas sem querer. Quer uma?

— V-Você não compra d-duas "sem querer"...

Ainda assim, ela pegou.

— É, justo — respondi. — Se importa se eu gastar um tempinho pensando na minha próxima fala, então?

— A-Antes do almoço acabar, p-por favor...

Justo. Abri a embalagem do meu pão de curry enquanto ela sugava o leite pelo canudinho, fazendo barulho. Agora… Eu só precisava descobrir como diabos começar aquele assunto.

— Komari, lembra do outro dia, quando Basori-san foi até a sala do clube—

— S-Se mata agora mesmo.

Uau. Tá. Direto para matar, hein. Dito isso, eu não podia culpá-la por estar tão arisca.

Primeiro teve toda aquela confusão da Yakishio querendo sair do clube. Depois, o próprio clube foi suspenso. E então apareceu uma nova integrante problemática. Agora, o conselho estudantil?

Komari, nossa vice-presidente, já tinha passado por coisa suficiente. Não que eu estivesse tendo vida fácil também.

— Não vai acontecer nada que faça você se preocupar, tá? Eu ainda sou o presidente do Clube de Literatura.

— V-Você não pode ficar d-dependendo do s-seu cargo para sempre.

— Sim, senhora. Vou tomar mais cuidado.

E… strike três. Fui eliminado. O silêncio que veio depois ficou tão denso que provavelmente dava para passar manteiga nele e colocar numa torrada.

Diante disso, tomei um gole constrangido do meu leite. Komari me lançou um olhar de lado.

— V-Você só está aqui porque a Yakishio f-falou alguma coisa, n-não está?

— Quero dizer, bom...

Enfiei o pão de curry na boca. Técnica profissional para ganhar tempo. Ela soltou um suspiro baixo.

— E-Eu sei que você é um frouxo. F-Faça o que quiser.

— Eu não vou me envolver na eleição do conselho estudantil. Ontem foi só a Basori-san que apareceu lá em casa por conta própria. Não fui eu que convidei.

— A-Aquela mulher foi na sua c-casa?!

Espera. Yakishio não contou essa parte? Ótimo. Acabei de puxar o pino da minha própria granada.

— Hum... ela disse que precisava conversar com a minha irmã! Elas se conhecem por causa do conselho estudantil. E a Yakishio também estava lá, então—

— A-A Yakishio também e-estava lá?!

A expressão de Komari começou a se transformar naquela que você faria ao olhar para lixo apodrecendo. É. Eu estava oficialmente cavando minha própria cova.

Meio metro… Um metro...

— Hum... o ponto é que não tem nada para se preocupar.

— S-Seu porco s-sem-vergonha.

E… Dois metros. Enterrado vivo. Descanse em paz, eu.

Dito isso, Komari mordeu o pão com manteiga e começou a mastigá-lo agressivamente, como se ele tivesse feito algo pessoal contra ela. Fiquei quieto e belisquei meu pão de curry, enquanto a tensão constrangedora atingia o auge.

Então, em voz baixa — alta o suficiente para eu ouvir:

— C-Como é você, provavelmente vai a-acabar cedendo mesmo, n-não vai...?

— Não, eu—

— V-Você consegue dizer s-sinceramente que isso não é v-verdade?

………

Não. Não conseguia. Terminei em silêncio a última mordida do pão e então abri a boca com cuidado.

— Tá, mas tipo... hipoteticamente — comecei. — Hipoteticamente, se eu aceitasse ser o apoiador da candidatura da Basori-san... você ficaria bem com isso?

— T-Tanto faz. Se você vai entrar no c-conselho estudantil ou não, faça o que q-quiser — murmurou Komari, resignada.

Ela brincava com a caixinha de leite agora vazia na palma da mão.

— Eu não estou planejando entrar.

— F-Foi por isso que eu d-disse para fazer o que q-quiser!

……..

Ela não acredita em mim. Para ser justo, eu também não podia culpá-la. Com o meu histórico, eu também não acreditaria.

Apoiei os cotovelos no corrimão e deixei o olhar vagar para longe. Além dos telhados da cidade, a familiar cadeia de montanhas baixas se estendia pelo horizonte. A vegetação estava mais intensa desde a última vez que eu tinha reparado.

Mais uma semana e já vai ser junho, eu acho.

Hora de trocar o uniforme. Outro verão estava logo ali.

◇

Naquela tarde, depois das aulas, de algum jeito eu acabei no DEJANA, um café de jogos de tabuleiro não muito longe da escola. Sentada à minha frente, numa mesa do segundo andar, estava ninguém menos que a secretária do conselho estudantil, Yumeko Shikiya.

Seus longos cabelos ondulados, de um tom branco-creme, balançaram suavemente quando ela inclinou a cabeça. Os olhos pálidos e desfocados da Shikiya-san se voltaram para mim.

— Nukumizu-kun... é a sua... vez...?

— Ah, certo. Foi mal.

Peguei os dados às pressas, torcendo para que ela não tivesse percebido que eu estava olhando para ela. Movi minha peça de urso-pardo.

Nosso "campo de batalha" era um jogo fofinho para dois jogadores, meio parecido com Sugoroku, mas estrelado por um urso-pardo e um urso-polar como protagonistas.

Só não se deixe enganar pelos mascotes felpudos, porque aquilo era surpreendentemente estratégico. Era preciso pensar bastante na hora de posicionar as fichas, e as regras tinham algumas maneiras inesperadas de manipulá-las.

Não que essas regras estivessem me ajudando muito, considerando que eu já tinha perdido três partidas seguidas.

— Vou pegar essa ficha. Por favor, volte ao início.

— Tem certeza... de que quer... fazer isso...?

Clac.

Shikiya-san tirou um seis nos dados.

— Você acabou de... pegar minha ficha de vinte pontos? Bela... assistência...

Parecendo satisfeita, Shikiya-san retirou a ficha do tabuleiro com as pontas dos dedos delicadamente decoradas. E, só para constar, não. Aquilo não era algum tipo de encontro romântico depois da escola ou qualquer outra coisa que você possa estar imaginando.

Eu mandei uma mensagem dizendo que queria conversar com ela, e ela respondeu: "Me encontre aqui."

Só isso. Sério. Eu só estava esperando a oportunidade certa.

— Hum, então... — comecei, tentando parecer casual. — Como a Basori-san tem estado ultimamente?

— Como... assim...?

A mão de Shikiya-san, que estava indo em direção à peça do urso-polar, congelou no ar.

— Quero dizer, tipo... como estão as coisas no conselho ultimamente? Só fiquei curioso.

— Você não... queria conversar... comigo...?

Shikiya-san começou a balançar suavemente de um lado para o outro. Apesar de um pouco desconcertado, assenti timidamente.

— Ah, sim. Eu queria perguntar para você, senpai, sobre a Basori-san. Achei que, hum... talvez pudesse me dar algum conselho...

Por que o ar ficou mais pesado? Enquanto eu me remexia nervosamente, Shikiya-san inclinou a cabeça.

— Sobre a... eleição?

— É. Ouvi dizer que a Tiara-san recusou quando você se ofereceu para apoiá-la...

— É... Tiara-chan... me deu um fora...

Shikiya-san disse aquilo enquanto balançava melancolicamente.

— Posso perguntar por que você se ofereceu, para começo de conversa?

— Um professor... me recomendou para a Tiara-chan... mas ela recusou... então...

Ela brincava com a peça do urso-polar, ainda balançando suavemente.

— Mas... se ninguém... ajudar ela... ela vai perder...

Por alguns instantes, continuou se balançando em silêncio.

— Tiara-chan... pediu para você?

Shikiya-san voltou seus olhos pálidos para mim.

— Pediu. Por algum motivo. Ela é muito insistente. Eu continuo recusando, mas...

Em algum momento, Shikiya-san tinha parado de balançar.

— Entendo...

Silêncio. Cutucava minha peça de urso com o dedo.

— Tiara-chan... gosta muito de você... por isso...

— Isso é só, tipo... uma coisa da personalidade dela, não é? Aquele jeito meio... BL...

— Não posso... negar.

Shikiya-san colocou delicadamente o urso-polar de volta no tabuleiro e retomou a partida. Joguei os dados, prestando só metade da atenção.

— Eu só acho que... se for eu fazendo o discurso, ela provavelmente teria mais chance tentando ganhar de um guepardo numa corrida. Seria muito melhor para ela se algum professor encontrasse um apoiador de verdade.

— Você não... quer apoiar ela...?

O olhar dela se fixou no meu. Hesitei. Então balancei a cabeça lentamente.

— Ela é séria e esforçada. Eu realmente espero que ganhe. Mas... não tenho muito interesse nas atividades do conselho estudantil, e não sei se deveria ser o apoiador dela só porque a gente se conhece. Além disso, sinceramente, falar em público é meio que—

— Você... falou isso para a Tiara-chan...?

— Não, não tudo isso. Ei, senpai... acha que talvez eu possa pedir para você ser a apoiadora dela de novo?

— Provavelmente... não vai funcionar...

Shikiya-san interrompeu a própria jogada e ficou olhando para os dados. Seus longos cílios tremeram levemente, apesar de não haver nenhuma brisa.

— Eu... me envolvi demais... e agora... ela me odeia...

— Hum, não acho que seja———

De repente, ela se levantou.

— Nukumizu-kun... vem aqui...

— Hã? Espera, senpai——

Antes que eu pudesse reagir, ela agarrou minha mão e me puxou até um canto do café.

— Senpai, o que você está——

— Abaixa...

— Hum, tá?

Fiz o que ela mandou, e nós dois nos escondemos debaixo de uma mesa vazia.

…… …

Ainda estamos de mãos dadas, hein. A pele dela era macia e fria. O frio foi se infiltrando lentamente pelos meus dedos, deixando-os dormentes.

— Tem alguma coisa errada...?

— Hum, não. Nada.

Quero dizer, hoje está bem quente mesmo. É. Está tudo bem. É só ar-condicionado grátis. Insolação mata.

De baixo da mesa, lancei um olhar furtivo para ela. Seus olhos e a testa apareciam acima do tampo, enquanto sua expressão continuava ilegível como sempre.

Aqueles olhos claros, emoldurados por cílios grossos, pareciam ter se esquecido de piscar. Um aroma levemente doce e maduro pairava no ar. Deve ser aquele perfume novo que ela anda usando ultimamente. Então ela olhou para o relógio.

— Cinco horas... em ponto...

— Você marcou de encontrar algu——

— Shh... abaixa a cabeça...

Abaixando-me outra vez, acompanhei o olhar dela. Subindo as escadas estava uma garota com o uniforme do Colégio Tsuwabuki.

Era...

Tiara Basori.

Ela examinou o ambiente com ansiedade e então se sentou na mesa mais próxima da escada, mantendo as costas retas contra a parede enquanto encarava fixamente os degraus. Estava esperando alguém.

— Por que a Basori-san está aqui? — sussurrei.

— Eu... chamei ela...

Havia um leve orgulho na voz de Shikiya-san.

— Se nós três íamos conversar, não dava simplesmente para usar a sala do conselho estudantil?

— Você... não gosta... de sair comigo...?

— Não foi isso que eu quis dizer.

Estranhamente constrangido, desviei o olhar de volta para Tiara-san. Então, lentamente, Tiara-san tirou alguma coisa da bolsa.

Um pequeno estojo redondo. Um espelho compacto. Depois de abri-lo, começou a passar pó no rosto.

………..

Ela parecia um pouco uma senhorita da era Showa.

— Por que a gente está escondido observando ela?

— Tiara-chan... você veio... estou feliz...

Shikiya-san sussurrou aquilo enquanto balançava de empolgação. Ah, é. Essas duas tinham intimidade suficiente até para tirar o sutiã uma da outra, não tinham?

Eu não entendia muito bem, mas aquilo devia ser outra parte do roleplay delas. Negligência e Voyeurismo...

Isso é coisa de alto nível...

Enquanto meu coração ainda acelerava diante daquele mundo maduro dos adultos, percebi de repente que a Tiara-san estava encarando diretamente na nossa direção.

— Ela está olhando para cá? A cara dela está assustadora.

— Este momento... é o melhor...

Ah, sim. O mundo adulto. Tiara-san veio marchando até nós, bufando de raiva.

— Vocês dois estavam aqui esse tempo todo?! Por que não falaram nada?

— Achei que... poderia atrapalhar sua maquiagem...

Shikiya-san se levantou, ainda balançando levemente, e envolveu Tiara-san com os braços. Aproximou tanto o rosto que os narizes das duas quase se tocaram.

— Sua maquiagem está desajeitada... É fofa demais... Contra as regras da escola...

— Não existe uma regra assim... espera, o que quer dizer com "desajeitada"?!

— É isso que... deixa fofo...

— Para de esfregar o rosto em mim!

Bom, me meter entre aquelas duas seria falta de educação. Voltei para meu lugar e tomei um gole do café, que já estava completamente frio. O amargor e a acidez se misturaram na minha língua.

— Ei, Nukumizu-san, para de ficar olhando e ajuda———ei, onde você está tocando?!

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Observando as duas emboladas uma na outra, tomei outro gole.

Café frio e yuri.

Sinceramente?

Não é uma combinação ruim.

◇

— O que está acontecendo?! Qual é o problema de vocês?!

Tiara-san me lançou um olhar furioso enquanto mexia o café, fazendo a colher tilintar rapidamente contra a xícara.

— E, para piorar, quem realmente me convidou para vir aqui simplesmente foi embora satisfeita?! O que eu deveria pensar disso?!

— Não pergunta pra mim...

É. Shikiya-san simplesmente me abandonou ali, o pobre coitado que agora tinha que lidar sozinho com uma Tiara-san furiosa.

Cara, eu nem fiz nada.

— E você nem tentou impedir ela, Nukumizu-san! Simplesmente me ignorou e continuou mexendo no celular!

— Eu estava, hum, pensando em filmar... quer dizer, ajudar você. Mas, Tiara-san, vocês duas pareciam estar vivendo uma relação tão pura e adulta que, sabe... achei que seria falta de educação interromper.

— Nós não temos uma relação dessas! E, por favor, pare de me chamar pelo primeiro nome!

Ela virou todo o café de uma vez, que, de tanto leite e açúcar que tinha colocado, já podia muito bem ser branco.

Alguns segundos se passaram. Então, como num passe de mágica, o açúcar e a cafeína deviam ter começado a fazer efeito, porque seus ombros relaxaram.

Ela pousou a xícara com um clinc e limpou a garganta.

— Então, hum... você disse que queria conversar comigo sobre alguma coisa?

…… …

Eu disse? Quando isso aconteceu?

— Mas eu nem sabia que você vinha.

— Eu só vim porque Shikiya-senpai disse que você tinha me chamado.

Espera, o quê? Então a Shikiya-san me usou de isca para atrair a Tiara-san?

Enquanto eu tentava montar aquele quebra-cabeça na cabeça, um som agudo de vidro se quebrando — CRASH! — chegou aos meus ouvidos.

— Que barulho foi esse?

— Ah. Mensagem da Shikiya-senpai.

Olhei para o celular. Uma notificação: "Troco pelo Natal."

……… ..

Ela me pegou. Instintivamente, ergui os olhos para o teto. Na véspera de Natal do ano passado, eu tinha enganado Shikiya-san para fazê-la encontrar Tsukinoki-senpai sob o pretexto de irmos ver as luzes de Natal.

Agora a cobrança tinha chegado.

— Não fica aí parado viajando, Nukumizu-san. O que aconteceu?

— Bom... aparentemente, isso foi uma vingança por uma coisa que eu fiz.

— Vingança? O que você fez?

— Hum, bem... várias coisas, eu acho. É uma longa história — respondi vagamente.

Fingi tomar um gole do meu café vazio. Mesmo assim, uma pergunta continuava me incomodando. Por que Shikiya-senpai tinha armado daquele jeito um encontro entre nós dois?

Pensei nisso por alguns segundos.

— Ei, sobre aquela coisa da eleição do conselho estudantil...

Deixei a frase no ar, testando o terreno.

— Sim?

Ela endireitou um pouco a postura e esperou que eu continuasse. Meu plano original era perguntar por que ela tinha recusado Shikiya-senpai. Mas, vendo-a tão séria daquele jeito...

— É o seguinte. Eu sou o presidente do Clube de Literatura. Não tenho muito interesse nas coisas do conselho estudantil. E ser seu apoiador só porque a gente se conhece não me parece certo. Além disso, eu...

Tentei rir, mas o que saiu pareceu mais um gemido de sofrimento.

— Eu não sou muito bom em falar em público.

Tiara-san ficou em silêncio. Parecia querer dizer alguma coisa a mais, mas então soltou um suspiro profundo.

— Tudo bem. Não vou mais insistir.

…………

Só isso? Sério? Foi... muito mais fácil do que eu imaginava.

Fiquei ali, atônito, piscando sem entender. Ignorando minha surpresa, Tiara-san colocou o celular sobre a mesa. A tela se acendeu, mostrando a foto de uma garota fofa de anime.

Hmm, não. Era uma foto de algum produto de anime? Por que a Tiara-san teria uma coisa dessas...?

Pisquei de novo. E quase caí da cadeira.

— Caramba! Esse é o expositor da Chikapyon de Borderline Gals?! Por que você tem isso?!

— Um parente meu trabalha numa loja. Por algum motivo, acham que eu gosto de anime e às vezes me dão materiais promocionais desse tipo.

Com uma expressão completamente séria, Tiara-san empurrou o celular na minha direção.

— Eu não entendo muito dessas coisas, então... pensei que seria melhor dar para alguém que realmente soubesse apreciar.

— Então...!

Inclinei metade do corpo sobre a mesa——mas hesitei. Minha sanidade me puxou de volta para a cadeira. Em voz bem mais baixa, falei:

— Quero dizer... é. Legal. Espero que encontre alguém que goste.

— Ah, é? Tem certeza? Não vi um chaveiro parecido na sua bolsa uma vez, Nukumizu-kun?

— Viu? Muitos personagens se parecem hoje em dia.

Discretamente, virei minha bolsa para o outro lado. Parecido? Não.

Era o mesmo. Meu chaveiro era da Chikapyon. E ela sabia. Ela sabia exatamente o que era e estava usando aquilo como isca. Eu precisava resistir.

……… …..

Mas talvez eu possa… só… ouvir o que ela tem a dizer?

Enquanto eu encarava o celular dela, Tiara-san soltou uma risadinha.

— Isso vai ser seu, então, por favor, seja meu apoiador—

— O quê?!

— Claro que eu jamais diria uma coisa dessas. Se você quiser, terei prazer em entregá-lo para você.

As palavras escaparam antes que eu conseguisse segurá-las.

— Sério?

E pronto. Eu tinha perdido.

— Bom, eu não me importo exatamente, mas… — um sorriso brincalhão surgiu no canto dos lábios dela. — Acabei me apegando um pouco a ele também. Então ficaria agradecida se você me desse alguma coisa em troca... dentro do razoável, é claro.

Tsc. Claro que ela pediria. Preparei-me para o pior.

— Você poderia me ajudar a estudar de novo?

………..

Estudar? Só isso?

Pisquei, perplexo. Tiara-san pareceu um pouco envergonhada.

— Minhas notas na última prova não foram muito boas...

— Quero dizer, minhas notas também têm caído ultimamente — respondi depressa. — Mas, se você não se importar com isso...

— Nah. Você é bom explicando as coisas, Nukumizu-san. Ajuda bastante.

Aquilo… na verdade não foi nada ruim de ouvir. Ainda assim, alguma coisa continuava me incomodando.

Ela realmente desistiu da eleição tão fácil assim...?

Tiara-san desviou o rosto, evitando meu olhar. Então perguntou baixinho:

— Você mudou o som de notificação da Shikiya-senpai? Aquele barulho de vidro quebrando de antes...

— Ah, sim. Mudei. Assim fica mais fácil saber quem mandou mensagem sem precisar olhar. É bem útil.

Por exemplo, se fosse a Konuki-sensei, eu podia simplesmente decidir não conferir a mensagem.

De repente, Tiara-san tirou o celular e começou a tocar na tela.

Plim.

Meu celular vibrou. Quando olhei para baixo, vi uma mensagem vazia enviada por ela.

— Para que foi isso? — perguntei, erguendo os olhos, confuso.

Ela enfiou o celular de volta na bolsa com uma expressão nada satisfeita.

— Então minhas mensagens ainda estão com o som padrão de notificação, hein.

— Bom... estão.

Que diabos? Por que ela ficou de mau humor do nada?

Tiara-san se levantou e ajeitou a saia.

— Então amanhã. Sábado. Por favor, deixe a tarde livre.

— Amanhã...? Não está meio em cima da hora?

— Ah? Você tinha algum compromisso?

……….

Não exatamente.

Balancei a cabeça.

Tiara-san respondeu com um sorriso doce e então se virou para ir embora.

◇

Naquela noite, fiquei diante da minha escrivaninha, de braços cruzados, encarando a pilha de materiais de matemática espalhada à minha frente.

A sessão de estudos de amanhã.

Grande decisão: o que eu levo?

Se aparecesse com tudo, pareceria que eu estava me esforçando demais. Mas, se levasse pouca coisa, talvez acabássemos sem nada para fazer.

Hmm. Obviamente, o livro didático e o caderno eram indispensáveis. Quanto ao livro de referência e às listas de exercícios… Vou levar só um.

Escolhido com cuidado.

Depois que encontrei o que queria e coloquei tudo na bolsa, ergui-a rapidamente para testar o peso.

Hmm. Não estava muito cheia. Perfeito. Minha coluna sobreviveria.

Próximo: roupa.

Separei uma camisa de manga curta com colarinho e uma calça chino leve. As duas lisas, é claro.

Considerando que uma sequência de acidentes lamentáveis tinha colocado a maioria das minhas roupas estampadas fora de serviço, peças lisas eram praticamente tudo o que me restava.

— Certo, está ótimo—

— Você vai sair amanhã, Onii-sama?

Dei um pulo de susto. Bem atrás de mim estava minha irmã mais nova, Kaju. Caramba. Eu nem tinha visto ela entrar.

— É... só vou ali perto da estação — respondi.

— Ah? Vai estudar na biblioteca?

Ela olhou para minha bolsa. O plano era encontrar a Tiara-san em frente à livraria Seibunkan, perto da estação, e depois irmos juntos até o lugar onde estudaríamos.

Não íamos fazer nada suspeito. Mas, se Kaju descobrisse… seria uma dor de cabeça.

É. Definitivamente uma dor de cabeça.

— Bom, hum... só vou resolver umas coisas — falei em vez disso.

— Você vai estudar com alguém, não vai? — murmurou Kaju.

— Espera, não—

— É com uma garota?! Não me diga que você vai para a casa dela ter um encontro de estudos?!

— Não, não, não! Não é nada disso. É só um amigo. Um amigo homem — soltei de uma vez.

Kaju percebeu minha mentira esfarrapada instantaneamente. Apenas balançou a cabeça, os olhos brilhando de desconfiança.

— Sakurai-san vai estar ocupado amanhã ajudando os parentes na colheita de repolho. Ayano-san tem cursinho. E você não tem nenhum outro amigo homem com quem poderia estudar, tem?

Ai. Ela estava certa. Kaju nunca pega leve...

— Tá, sim, esses dois são praticamente os únicos. Mas como você sabe a agenda deles?

— Quando a Basori-san veio aqui outro dia, Kaju teve uma conversa muito agradável com ela sobre sua vida social. Enfim, é mesmo uma garota, não é? É a presidente? Shikiya-san? Ou talvez—

— Tá bom, já chega. Alunos do ensino fundamental não deveriam estar dormindo a essa hora?

— Muu! Kaju já é adulta!

Ignorando os protestos dela, coloquei as duas mãos sobre seus ombros e gentilmente a empurrei para fora do meu quarto.

Caramba. Essa garota tem curiosidade nível S.

……….

Espera aí. Ayano? Como diabos a Kaju conhece o Ayano?

Ayano e Tiara-san mal tinham se encontrado, então não podia ter sido por causa dela. E eu definitivamente tinha apagado os dados de contato da Asagumo-san do celular da Kaju fazia séculos...

— Será que eu já... mencionei o Ayano na frente dela?

Ugh. Já não posso nem confiar na minha própria memória.

Suspirando, conferi minha bolsa uma última vez — e enfiei dentro o estojo que quase tinha esquecido.

◇

No dia seguinte, o ponto de encontro era a loja principal da Livraria Seibunkan, em frente à Estação de Toyohashi. Cheguei cedo, então matei um pouco do tempo olhando os novos lançamentos de light novels e mangás, até acabar vagando pela seção de revistas no primeiro andar.

Tínhamos combinado de nos encontrar ali às duas da tarde.

— Ainda tenho um tempinho...

Caminhei entre os corredores, passando os olhos pelas prateleiras. Foi então que uma silhueta familiar apareceu diante de mim.

— Hã? Nukumizu-kun?

— Yanami-san? O que você está fazendo aqui?

E, de fato, lá estava Anna Yanami, folheando uma revista de gastronomia. Ela me entregou o exemplar de "Comendo por Toda Mikawa" que estava lendo.

— Shiratama-chan me chamou para sair. Ela tinha ingressos grátis para um buffet de sobremesas e perguntou se eu queria ir com ela. Aqui, segura aberto para mim.

— Vocês duas saem juntas? Não sabia que eram tão próximas.

— Não somos, na verdade. Mas é um buffet de sobremesas grátis! À vontade!

Yanami jogou o cabelo para trás e acrescentou:

— A Shiratama-chan é uma garota muito legal, sabia? Eu julguei ela completamente errado.

Aparentemente, a confiança da Yanami custava exatamente um ingresso para buffet de sobremesas à vontade. Uma pechincha.

— Parece divertido. Bom, acho que eu devia—

— Esse lugar chamado Kadowara parece bem bom. Eles colocam daikon no ramen. Será que ajuda a emagrecer?

— Talvez. Enfim, eu—

— Ooh, ovos de codorna grelhados com cobertura de mitarashi! — exclamou ela. — Ah, vira a página para mim?

……..

Eu realmente queria que ela parasse de me usar como suporte humano para revista. Obedientemente, virei a página enquanto lançava olhares nervosos ao redor. Basori-san chegaria a qualquer momento.

Não é como se encontrar com ela fosse algum grande segredo, mas… com toda essa história da eleição acontecendo agora, eu preferia que ninguém visse nós dois juntos.

Então Yanami, ainda encarando a revista, perguntou baixinho:

— Ei... você está mesmo pensando em ser o apoiador da Basori-san?

— Eu já recusei — respondi. — Ela entendeu. Eu acho.

— Hmm.

Ela me olhou de lado.

— Você não para de olhar em volta como se estivesse esperando alguém.

— Hum, não. Eu só vim dar uma olhada nos lançamentos novos—

Ela arrancou a revista das minhas mãos e me lançou um olhar fulminante.

— Com quem? Nukumizu-kun, você sequer tem amigos fora do Clube de Literatura?

— Tenho, tá? Tipo o Ayano. E o Sakurai-kun.

— Então você vai encontrar um deles?

— Quero dizer, bom...

Pânico.exe estava rodando a 100%.

Foi então que um aroma doce passou pelo meu nariz.

— Ah? É o Presidente?

Virei-me. Shiratama-san estava ali, usando um vestido azul-marinho de bolinhas brancas, com a saia curta deixando à mostra seus joelhos bem torneados. Sem perder um segundo, Yanami correu até ela e a envolveu num abraço.

— Shiratama-chan! Obrigada por me chamar hoje!

— Fico feliz que tenha vindo, senpai.

Depois de se desvencilhar gentilmente, Shiratama-san inclinou a cabeça para mim de um jeito fofo.

— Quer vir também, Presidente?

— Hã? Ah, não, eu tenho planos... quer dizer, não exatamente "planos" planos, mas—

— Aww, fui rejeitada — provocou ela, brincalhona.

Então tirou dois ingressos da bolsa.

— Yanami-senpai, primeiro eu preciso buscar um livro que encomendei. Você pode ir na frente? Eu alcanço você logo depois.

— Claro, mas... parece meio estranho começar a comer sozinha.

Estranho comer antes? Yanami realmente tinha sentimentos desse tipo?

Shiratama-san juntou as mãos diante do peito de um jeito adorável, parecendo arrependida.

— Sinto muito mesmo. Se a gente se atrasar, a reserva é cancelada. E o rosbife pode acabar!

— Tem rosbife também?! Tá bom, já estou indo!

Yanami pegou o ingresso, escancarou as portas de vidro e praticamente saiu correndo pelo corredor. Shiratama-san acenou discretamente enquanto observava Yanami ir embora, então se virou para mim com uma risadinha satisfeita.

— Fico feliz que ela tenha gostado. Valeu a pena correr para conseguir aqueles ingressos.

— Hã? Achei que você tivesse dito que eram grátis.

— Isso mesmo. Sim, eram grátis — respondeu alegremente, girando o corpo para ficar de frente para mim. — Ah, por falar nisso, troquei contato com a Kaju-chan recentemente.

— Com a Kaju?

Aquilo me pegou de surpresa. Até onde eu sabia, as duas eram praticamente como cão e gato. O que diabos aconteceu entre elas...?

— Desde quando vocês ficaram tão próximas?

Shiratama-san não respondeu. Em vez disso, abriu um sorriso doce para mim.

— Kaju-chan é tão fofinha, não acha? Fica toda agitada por causa do querido onii-sama dela.

— Hum... é...

Ela entrelaçou as mãos atrás das costas e se inclinou levemente para a frente, olhando para mim de baixo para cima.

— Ela é tããão fofinha. Tenta agir escondido, mas é completamente óbvia. Até deixou escapar o lugar do encontro.

— Hum, do que você está falando...?

— Ora, do que será que eu poderia estar falando?

Então ela se endireitou e olhou por cima do meu ombro.

— Hmm. A vice-presidente, hein?

— Hã?

— Você não queria que Yanami-san visse vocês dois juntos, certo? Não que eu me importe.

O quê—

Espera aí. Quanto ela sabe?

— Hum, por acaso você... já sabia que eu ia—

— Bom, então eu vou indo. Não quero ficar segurando vela.

— A-Ah. É, certo...

Fiquei parado ali, rígido. Ela passou por mim—mas, no instante em que chegou à altura do meu ombro, aproximou-se e sussurrou suavemente no meu ouvido:

— Presidente... acredite ou não, eu sou o tipo de garota que é bem "fácil de lidar", sabia? Então pode me usar quando precisar, tá?

◇

Depois que nos encontramos, Tiara-san ficou completamente calada e, por algum motivo, caminhava rápido demais.

Acelerei o passo para alcançá-la, atravessei as portas de vidro e passei pelas estantes de revistas. Saímos para a Rua Tokiwa, passamos por uma fila diante de uma barraca de crepes e seguimos mais para dentro da galeria comercial.

Finalmente, consegui caminhar ao lado dela.

— Hum... você está brava comigo?

— Não estou brava. Só fiquei um pouco surpresa por você ter convidado aquelas duas também.

— Eu não convidei. Elas simplesmente estavam lá e começaram a falar comigo.

Ela assentiu em silêncio. Viramos uma esquina, passamos por uma loja de chocolates no fim da galeria e, depois de mais alguns passos, ela finalmente soltou o ar, segurando o peito com evidente alívio.

— Ufa... agora devemos estar seguros.

— Hã? Seguros de quê?

— Aquela área era exposta demais. Ultimamente, as pessoas têm... prestado atenção demais em mim.

Ela examinou rapidamente os arredores antes de se inclinar um pouco na minha direção.

— Nukumizu-san, você já ouviu falar do Clube de Observação de Aves?

— Você quer dizer aquele que foi fechado por vender fotos tiradas escondido?

— Oficialmente, foi apenas uma suspensão temporária. Graças à intervenção da presidente, eles receberam permissão para retomar as atividades como Clube de Jornalismo.

— Eu nem sabia que nossa escola tinha um Clube de Jornalismo.

— Não tinha. A presidente concedeu esse título a eles na esperança de que mudassem de atitude, contribuíssem com algo significativo para o Colégio Tsuwabuki e, eventualmente, reconquistassem o direito de reativar o clube original. Foi... um gesto bastante misericordioso, na verdade. Mas...

Pode me chamar de cínico, mas talvez um Clube de Observação de Aves cuja principal conquista não tinha absolutamente nada a ver com aves não valesse todo esse esforço para ser salvo.

— E o que tem eles?

— Estão agindo como um tabloide. Perseguindo qualquer pessoa envolvida com a eleição. O problema é que eles são apenas um círculo de atividades, não um clube oficial, e por isso estão fora da jurisdição do conselho estudantil. Então nem podemos fazer nada a respeito.

Ela suspirou e pressionou os dedos contra a têmpora. Como um companheiro apreciador de aves, pensei em pedir desculpas em nome de todos nós, mas, sinceramente, aqueles caras provavelmente não sabiam diferenciar um pardal de uma câmera de segurança.

Continuei observando os arredores com cautela enquanto caminhávamos.

Saímos da galeria comercial e atravessamos para o lado norte da Rua Hirokouji, onde o movimento diminuiu consideravelmente.

O lugar não estava deserto, mas a antiga rua comercial claramente já tinha visto dias melhores.

A maioria dos prédios agora era residencial, embora a atmosfera daquela época ainda permanecesse bastante visível.

Ainda dava para perceber que alguns edifícios tinham sido lojas no passado, e alguns estabelecimentos continuavam funcionando até hoje.

Aqui e ali, restaurantes mais novos tinham surgido entre as construções antigas. Toda aquela região parecia respirar silenciosamente, mudando aos poucos com o passar do tempo.

Tiara-san caminhava com confiança. Pelo visto ela conhece bem a região.

— Então, Basori-san, onde a gente vai estudar?

— Ah, desculpe. Eu devia ter falado antes. Minha casa fica aqui perto. Estamos indo para lá.

Opa. Então esse é o bairro dela. E a gente vai estudar… na… casa dela...?

— Espera... na sua casa?! Agora?!

— Meus pais saíram, então não precisa se preocupar... espera, não! Não nesse sentido! Meu irmão mais novo está em casa, então não tenha nenhuma ideia estranha! E-além disso—

Ela ficou um vermelho espetacular e acrescentou:

— Meu irmão já tem namorada!

………Não faço ideia do que essa última parte deveria esclarecer.

Ainda assim, olhando para a situação como um todo: eu estava prestes a entrar casualmente na casa de uma garota. Irmão ou não, pela lógica das comédias românticas, isso definitivamente é algum tipo de bandeira de evento.

E pela lógica dos… eroges, bem… isso é o que chamam de "oportunidade para desbloquear a galeria".

— Embora, se for para completar todas as CGs...

— Nukumizu-san, o que você está murmurando?

Opa. Entrei no modo degenerado por um segundo.

Seguindo em frente.

Voltando à realidade, reconheci o calçamento de pedra sob meus pés.

— Isso aqui não é perto de Hanazono?

— Sim. Você já veio aqui antes?

— Às vezes passo no supermercado mais adiante, então acabo atravessando por aqui.

Aquela região era um antigo distrito comercial. No passado, tinha sido bastante movimentada, mas agora a maioria das portas de aço permanecia abaixada, e, a cada ano, parecia haver menos lojas abertas.

Foi então que um prédio novo e completamente deslocado do restante da paisagem chamou minha atenção.

— Sempre teve um condomínio aqui?

Tiara-san, que estava prestes a passar direto, parou e ergueu os olhos para o prédio.

— Foi construído recentemente. Todo mundo que morava aqui antes se mudou.

— Hã... entendi.

— Dizem que o bairro era muito movimentado na época dos meus avós. Mas acho que os tempos mudam — comentou ela, sem demonstrar muita emoção.

Ela virou outra esquina.

— Minha casa é logo ali na fren—

— Ora, se não é a Tiara-chan!

Uma voz alegre e estrondosa simplesmente vaporizou o resto da frase dela. Viramos na direção do som e vimos uma senhora de meia-idade, rechonchuda e sorridente, acenando para nós com entusiasmo.

Tiara-san se encolheu e rapidamente fez uma reverência.

— Boa tarde, Michishige-san.

— Ora, ora, por que tanta formalidade? Você sempre me chama de Oba-chan!

— N-Não, é que—

— Oba-chan fica tão triste assim... Minha pequena Tiara-chan já está toda crescida...

Hmm? O olhar dela se deslocou até mim. Então seus olhos se arregalaram.

— Ooooh! Minha nossa! Ora, ora, ora! Tiara-chan?! Ora essa...

— V-Você entendeu tudo errado!

— Aham, aham, claro que entendi. Oba-chan também já passou por isso, sabia? Embora, naquela época, não fosse com o meu marido, mas... bom, esse é o nosso segredinho~.

— E-Eu estou dizendo que não é nada disso!

— Claro, claro. Oba-chan entende tudo. Desculpem por interromper~.

Ela assentiu vigorosamente, como se já conseguisse enxergar todo o futuro da Tiara-san se desenrolando diante dos olhos, e então passou por nós toda sorridente. Por algum motivo, ao passar por mim, levantou o polegar com uma empolgação absurda.

— A Tiara-chan já está toda crescida... bem, quase "toda". Talvez em breve. Ora, ora, ora~...

Tiara-san tremia, enterrando o rosto nas mãos. E, sinceramente, depois de testemunhar o poder destrutivo de uma tiazinha da vizinhança, eu nem conseguia culpá-la.

………..

Que Deus nos ajude se a Yanami virar uma dessas algum dia.

◇

A residência da família Basori ficava a poucos minutos de onde havíamos encontrado a senhora Michishige — um prédio de três andares voltado para a rua.

O primeiro andar provavelmente tinha sido uma loja no passado, com uma ampla vitrine de vidro de frente para a rua. Tiara-san abriu a porta de vidro de correr, entrou e fez sinal para que eu a acompanhasse.

A antiga área da loja estava pouco iluminada. Prateleiras ocupavam as paredes do cômodo, abarrotadas de caixas com roupas e caixas de papelão empilhadas.

— Desculpe pela bagunça — disse ela, com as bochechas levemente coradas de vergonha, enquanto me conduzia até os fundos.

— Que nada. Que tipo de loja era essa?

— Era do meu avô. Até a época dele, nós vendíamos insígnias e artigos comemorativos.

— Insígnias?

— Hum, distintivos, troféus, faixas... esse tipo de coisa. Tivemos que fechar quando já não conseguimos acompanhar a concorrência.

Hã. Insígnias. Eu nem sabia que isso era um ramo de comércio.

— Ah, então é por isso que você sempre usa o crachá com seu nome no uniforme, Tiara-san?

— Não. Isso é simplesmente uma regra da escola. E, por favor, não me chame pelo primeiro nome — respondeu Tiara-san, ignorando meu comentário.

Ela abriu a porta nos fundos. Do outro lado havia um pequeno genkan para tirar os sapatos. Um único degrau levava até a parte residencial da casa. À direita, uma escada subia para o segundo andar; logo à frente ficava a sala de estar.

— Meu quarto fica no terceiro andar. Por favor, tire os sapatos aí.

— Ah, sim. Pode deixar.

…………

Instintivamente, comecei a falar de maneira formal.

Olha. Aquilo não era uma casa qualquer. Era a casa de uma garota. E naquele momento eu estava sentindo com muita força aquela sensação de "alguém realmente mora aqui".

E eu nem era particularmente próximo dessa garota, o que, de algum jeito, fazia toda a situação parecer cinquenta vezes mais importante.

Subimos a escada — um pouco íngreme — até o terceiro andar.

Havia duas portas no corredor.

— Takashi! — chamou Tiara-san quando passamos pela primeira. — Guarda sua bolsa direito!

Então ela fazia o papel de irmã mais velha em casa. Ah, pelo menos o irmão dela tem um nome bem normal.

Por fim, chegamos ao final do corredor. Tiara-san hesitou antes de abrir a porta.

— Não é grande coisa, mas... pode entrar.

Envergonhada, ela me conduziu para dentro. Era um quarto japonês bem básico e tradicional: cama, escrivaninha, estante de livros e uma mesa baixa. Na verdade, era minimalista pra caramba, considerando que estávamos falando do quarto de uma garota do ensino médio.

Ainda havia pequenos detalhes femininos espalhados pelo ambiente. O tapete sob a mesa tinha um tom rosa-claro, combinando com as cortinas. Mas nada era excessivamente cheio de babados ou fofura.

Era discreto. E, sinceramente, funcionava muito bem.

— Por favor, sente-se na almofada.

— Ah, claro.

Sem jeito, ajoelhei-me em seiza. É. Eu estava nervoso. Dá para me culpar? Era a primeira vez na vida que eu colocava os pés num legítimo "quarto de garota".

O quarto da Komari não contava. Ela dividia com os irmãos e, além disso, toda aquela situação tinha sido uma emergência.

Tiara-san sentou-se diante de mim. Nervosa, começou a mexer na franja.

— E-Então... vamos começar?

— C-Certo... é. Vamos.

Nós só estávamos ali para estudar. Estudar. Então, hum… alguém pode me explicar por que o clima está tão tenso?

Nós dois tiramos os livros didáticos em silêncio.

— Hum... podemos estudar matemática de novo hoje? — perguntou ela. — Eu sou muito ruim em sequências...

— Perfeito. Eu também sou péssimo nisso.

Ela soltou uma risadinha.

— Isso não tem nada de "perfeito". Mas então vamos sofrer juntos.

Quero dizer, eu nem estava tentando fazer uma piada. Mas aceito a vitória.

Abri meu livro e me inclinei para a frente, aliviado.

— Por falar nisso, como foi sua prova outro dia?

— Bom... eu diria que houve alguns sinais de melhora. Pelo menos, os números não pioraram.

Tiara-san cerrou o punho com determinação. É. Pensamento positivo é importante.

Cerca de meia hora depois de começarmos a estudar, ergui os olhos enquanto conferia minhas respostas e peguei Tiara-san completamente concentrada no livro de exercícios.

Sua testa estava ligeiramente franzida, e os lábios se comprimiam em concentração.

O cabelo estava preso para trás com firmeza, deixando à mostra suas sobrancelhas grossas e uma pequena pinta no pescoço, que se destacava contra sua pele clara.

Percebi de novo como o rosto dela era pequeno. Vendo-a assim, tão de perto, ela parecia praticamente natural, como se não estivesse usando maquiagem nenhuma. Quero dizer, eu sei que ela costuma se arrumar um pouco mais nos fins de semana—

— Tem alguma coisa no meu rosto?

Estremeci. Em algum momento, ela tinha levantado os olhos e me pegado encarando. Tiara-san inclinou a cabeça, curiosa.

— Ah, não. Nada. É só que... alguma coisa chamou minha atenção...

Murmurei aquilo, tentando escapar da pergunta. Ela se inclinou para a frente, sorrindo interessada.

— O quê? Agora fiquei curiosa.

— Hum, bem... eu só estava pensando que... então você realmente não me trouxe aqui para tentar me recrutar para o conselho estudantil, hein?

O sorriso dela evaporou como água numa frigideira quente.

Uau. Dez de dez, Nukumizu. Excelente escolha de palavras.

— Bom — respondeu ela calmamente —, dependendo de como as coisas corressem, talvez eu tentasse. Depois que conseguisse atrair você até aqui, já seria meu.

Não consegui dizer se ela estava brincando. Provavelmente não estava.

Ah, espera aí.

— Então você não pretende mais tentar?

— Na verdade, o prazo para as candidaturas à presidência terminou ontem. E, até o fim do dia, eu ainda era a única pessoa inscrita — confessou ela, com uma expressão um pouco constrangida.

— Espera, então não vai ter eleição?

— Correto. Só uma declaração de intenções e um voto de confiança. Também não haverá discursos de indicação.

Então… todo aquele estresse, perseguições, emboscadas e gente escondida pelos cantos… foi inútil? E, além disso, eu literalmente não tinha visto ela ontem mesmo no café de jogos de tabuleiro...?

— Por que você não me contou ontem à noite?

— Desculpe. Tecnicamente, isso só foi confirmado oficialmente à meia-noite, então não queria dizer nada antes.

Justo.

Provavelmente eu deveria estar mais irritado do que estava. Mas, sinceramente? Eu estava mais aliviado do que qualquer outra coisa. Um sorriso começou a surgir no meu rosto.

— Oh? Você estava mesmo considerando aceitar?

— Bom, estava pensando que talvez pudesse pelo menos ajudar com a campanha.

Ela abriu um sorriso.

— Fufu, agora que acabou você pode dizer o que quiser, não é?

— Ei, falar é de graça.

Ela riu alegremente. Era a primeira vez que eu via Tiara-san rir daquele jeito… Depois de enxugar uma lágrima do canto do olho, ela se recostou.

— Na verdade, eu tinha preparado uma arma secreta caso ainda precisasse convencer você, Nukumizu-san. Mas parece que não vou mais precisar.

— Uma arma secreta? O que era?

— Ah, nada tão interessante assim — respondeu rapidamente, tentando rir e mudar de assunto.

Suspeito. Extremamente suspeito. Espera. Eu não fui atraído até aqui com a promessa de ganhar aquele produto da Chikapyon? Então… se ela tinha essa tal "arma secreta", só podia ser—

— Posso ver?

— Hã? Mas—

Inclinei-me na direção dela, e Tiara-san recuou um pouco. Ah, é. Tem que ser algum item promocional ultrarraro. Me dei bem.

— Sua arma secreta... agora eu quero muito saber o que é.

Os olhos dela desviaram para o lado.

— Bem... não é exatamente algo que valha a pena mostrar...

— Tudo bem! Eu não conto para ninguém. Vai ser nosso segredinho.

Ela congelou.

— S-Segredo...?!

Boa.

Pelo visto meu entusiasmo tinha chegado até ela. Os lábios da Tiara-san tremeram levemente, mas ela assentiu e ergueu os olhos para mim.

— T-Tudo bem, mas... não sei se vai corresponder às suas expectativas...

Tiara-san se virou para a gaveta da escrivaninha e tirou alguma coisa de dentro, escondendo-a atrás das costas enquanto voltava a se sentar.

Não parecia muito grande.

Minha aposta era num stand de acrílico.

Prendi a respiração.

— Certo, lá vai!

Lentamente, ela colocou aquilo com cuidado sobre a cabeça. Curvou as mãos, imitando patinhas de gato. E então, com uma voz baixinha e absurdamente adorável, disse:

— Por favor, torça por mim, nyaa~.

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………….

Com licença, Tiara-san? O que foi que eu acabei de presenciar?

Ali estava Tiara-san, vermelha feito um tomate, usando… orelhas de gato.

Orelhas de gato de verdade — quero dizer, não de verdade, mas ainda assim — absurdamente felpudas.

Fiquei paralisado diante daquela sobrecarga de fofura.

— O-O quê...? N-Não, espera, não é o que você está pensando! E-Eu só coloquei isso porque achei que você talvez gostasse desse tipo de coisa! Não é porque eu gosto! Eu não tenho nenhum hobby estranho desses!

— Hum... bem, eu gosto, mas—

— V-Você gosta?!

Tiara-san soltou um grito, completamente desnorteada.

BAM!

A porta do quarto se abriu de repente.

— Nee-san, eu estou sain—

— Takashi?!

O irmão mais novo da Tiara-san estava parado na porta. Era um garoto de aparência agradável, vestido de maneira estilosa com um agasalho esportivo e, provavelmente, tinha mais ou menos a idade da Kaju.

Ele piscou. Ficou imóvel por alguns instantes… E então decidiu que aquilo não era problema dele. Desviou os olhos da irmã e se virou para mim, fazendo uma breve reverência.

— Hum... seja bem-vindo. Eu sou o irmão dela.

— Ah, prazer. Eu sou Nukumizu.

Silêncio constrangedor.

Takashi olhou mais uma vez para a irmã, com uma expressão completamente indecifrável. Então fez outra reverência.

— Hum... vou jantar fora. Vocês dois, bem... fiquem à vontade.

Clique.

A porta se fechou. Os passos dele desapareceram escada abaixo em tempo recorde. Tiara-san, ainda congelada, lentamente virou o rosto na minha direção, como se estivesse enferrujada. Seu rosto estava pálido feito o de um fantasma.

— Nukumizu-san... o que a gente faz?

Não faço ideia.

Parei por alguns instantes para pensar e respirei fundo. Então respondi com toda a seriedade:

— Seu irmão enxerga bem?

— Ele comentou que a visão dele piorou um pouco ultimamente...

Perfeito. Assenti como um sábio.

— Então e se... ele não tiver visto as orelhas de gato?

— Sério? Isso é possível?

— Pensa bem. Ele abre a porta e vê a irmã usando orelhas de gato e dizendo "nyaa~" para um cara que ele não conhece.

— Guh...!

Tiara-san agarrou o peito. Aguenta firme. Só mais um pouco.

— Normalmente, seria impossível alguém simplesmente ir embora depois de ver isso. Mas seu irmão estava calmo, não estava?

— Estava? Quero dizer, eu nunca vi ele fazer aquela cara antes.

— Não, ele estava calmo. Definitivamente calmo. Sem dúvida nenhuma. E isso significa, pela lógica, que ele não viu as orelhas de gato. É a única explicação possível.

Um pouco de cor começou a voltar lentamente às bochechas dela. Boa. Quase lá.

— Mas e o "nyaa"? Ele também não ouviu?

— Ah, claro que não. O barulho da porta abrindo anulou o som por cancelamento de fase. A gente estudou isso em Física.

— Entendi... Eu faço Biologia, então acho que não vi essa parte.

Engraçado. Eu também faço Biologia.

Admito que talvez eu estivesse inventando tudo na hora, mas, ei, ela engoliu minha lógica sem muita dificuldade.

Finalmente tirando as orelhas de gato, Tiara-san soltou um suspiro aliviado.

— Certo... agora estou me sentindo um pouco melhor. Desculpe por ter ficado tão abalada.

— Sem problema.

Sinceramente, Tiara-san, você não deveria confiar tão facilmente nas pessoas.

— Fico feliz que tenha entendido, Tiara-san.

— Certo. Ah, e, por favor, pare de me chamar pelo primeiro nome.

Ela tinha sido enganada———ou melhor, convencida. E, assim, o assunto foi resolvido pacificamente.

Agora tudo o que me restava era terminar de estudar com ela e pegar meus produtos da Chikapyon.

(N/SLAG: Lembrando que Chikapyon é uma personagem de anime dentro do universo de Makeine. Ela pertence ao anime fictício "Borderline Gals", do qual Nukumizu é fã.)

O irmão dela tinha ido embora, então não havia mais risco de mal-entendidos estranhos.

Hum. Espera aí. Os pais dela estavam fora. O irmão dela tinha acabado de sair. Então, se nenhum deles estava em casa, isso significava que...

— A gente está sozinho...?

— O-O quê?!

Opa. Falei em voz alta. Tiara-san se levantou num pulo.

— O que você está dizendo do nada?!

— Não, não quis dizer de um jeito estranho! É só que, tipo, quando um garoto está sozinho no quarto de uma garota, é fácil as pessoas entenderem errado. Então nós, garotos, também precisamos tomar cuidado, sabe? Alguém pode tirar conclusões erradas, e eu não quero causar problemas para você.

Ela me encarou com desconfiança, mas lentamente voltou a se sentar.

— B-Bem, eu sei que justamente você nunca faria uma coisa dessas, Nukumizu-san. Afinal, eu sou uma garota.

Obrigado? Eu acho?

— Hum, só para deixar claro, eu não gosto de rapazes.

— Sim, eu sei———O quê? Você acha que eu não consigo distinguir minhas fantasias da realidade?

Acho um pouco, sim.

Provavelmente percebendo minha expressão impassível, ela limpou a garganta.

— Bom, admito que houve uma época em que eu não conseguia.

— Houve?

— Mas tenho trabalhado nisso. Ultimamente, tenho anotado meus pensamentos.

— Anotado? Tipo num diário?

Ela assentiu.

— Por exemplo — disse, encostando um dedo na testa —, na minha cabeça, você é um sádico ativo, e a presidente do conselho estudantil é um homem passivo, certo?

Certo uma ova...

— Então eu escrevo isso. Mas, quando releio alguns dias depois, percebo: "Espera, isso não pode estar certo." Acho que é meio parecido com terapia cognitiva.

Dias?

Moça, você precisa de mais do que terapia.

Ainda assim, ela parecia estranhamente orgulhosa de si mesma.

— Então pode relaxar. Eu enxergo a realidade com bastante clareza. A presidente é uma mulher. E Nukumizu-san é um mulherengo, sádico e ativo.

Ainda estamos meio presos no mundo da fantasia aí.

Ela cantarolou alegremente e voltou ao livro de exercícios.

Mas então o lápis dela parou de repente.

— Eu disse alguma coisa estranha agora?

— Não. Isso é bem normal vindo de você.

— C-Certo! Você gosta de garotas e é um sádico ativo... sem... nenhum... escrúpulo...

O rosto dela perdeu completamente a cor.

— H-Hum... eu sou uma garota. Mas não, tipo, o tipo de garota por quem você sentiria desejo. Certo?

— É, claro. Você não é.

— Eu não sou?!

Quero dizer… Como você esperava que eu respondesse?

De qualquer forma, a verdade continuava sendo a mesma: realmente era perigoso uma garota da nossa idade convidar casualmente um garoto para entrar em casa.

Felizmente, eu sou um cara decente. Mas e se eu fosse algum tarado?

Limpei a garganta e me virei seriamente para Tiara-san.

— Escuta, Basori-san. Garotos são... propensos a interpretar as coisas errado.

— Interpretar errado?

— É. Se um cara está sozinho com uma garota na casa dela, ele pode acabar pensando que... bom, que ela convidou ele para, sabe...

— Eeeek?!

Tiara-san se afastou de mim enquanto ainda estava sentada.

— Não eu. Mas, se fosse outra pessoa———

— H-Hm...

Ela apertou as mãos contra o peito, tremendo.

Droga. Será que fui longe demais?

Tiara-san ergueu os olhos para mim. Com os lábios tremendo, murmurou baixinho:

— V-Você quer...?

— Hã? Quero o quê?

O rosto de Tiara-san ficou vermelho vivo.

— Você sabe, aquilo! P-Por que está me fazendo dizer uma coisa dessas?!

Aquilo?

Antes que eu pudesse perguntar, o celular dela começou a tocar.

— Ah, uma ligação! Eu vou atender! — ela se levantou depressa e encostou o telefone no ouvido. — Sensei? Nossa, deve estar cansado, trabalhando num sábado. Ah, sim, estou bem.

Ela saiu para o corredor, e sua voz foi ficando cada vez mais distante. Seja lá sobre o que estavam conversando, parecia algo meio sério. Será que ela foi mal em alguma prova ou coisa assim?

………

Mesmo assim. Sinceramente, que garota estranha. Me traz para a casa dela, coloca orelhas de gato… e para quê? No fim das contas, aquilo nem tinha servido para nada. E, sinceramente, nem havia motivo para aquela coisa estar na casa dela.

A eleição já estava decidida, então—

Clique.

A porta se abriu. Tiara-san voltou com o rosto completamente pálido.

— Aconteceu alguma coisa?

Ela respirou fundo, com uma das mãos sobre o peito, e então falou:

— Ontem à noite, alguém apresentou a candidatura no último minuto.

Então… afinal, haveria uma eleição de verdade?

Surpreso, ergui os olhos enquanto Tiara-san corria até mim.

— Nukumizu-san! Você falou, não falou?! Que ajudaria na eleição!

— Não, eu nunca—

Espera. Talvez eu tenha falado. Ops. Senti o suor começando a se formar na minha testa.

— Não, espera, eu falei isso, mas não quis dizer desse jeito—

— Por favor! Eu não consigo vencer ele sozinha!

Não é como se eu fosse ser de muita ajuda, mas… espera. Ela acabou de dizer "ele"?

— Quem está concorrendo? Eu conheço?

Ela assentiu lentamente.

— Hiroto Sakurai. O tesoureiro do conselho estudantil.

— ?!

Mas Sakurai-kun tinha dito que não pretendia… se isso fosse verdade, eu não conseguia imaginar nenhuma forma da Tiara-san vencer.

Droga, até eu votaria no Sakurai-kun. Ao me ver sem palavras, Tiara-san tirou alguma coisa de trás de si… alguma coisa no formato de orelhas de gato. Lentamente, ela colocou as orelhas sobre a cabeça. Sua voz tremia enquanto implorava:

— P-Por favor, lute ao meu lado nesta eleição... nyaa~.

Ela fez uma pose, curvando as mãos no ar como pequenas patinhas de gato.

Hum… e agora?

Nyaa.

📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag e revisado por Shisui

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Fim da leitura

Capítulo 95 concluído

Volume 8 – Capítulo 1 – Capítulo 1: Juro que Não Tenho Segundas Intenções