Todas Essas Heroínas Perdedoras!Volume 8 – Capítulo 2 – Capítulo 2:Abalado Sob o Peso que Carrego
Capítulo 96O PRIMEIRO DIA da semana finalmente se arrastava até o fim, e as aulas de segunda-feira já tinham ficado para trás. Só restava a reunião de classe entre nós e a liberdade.
Konami Amanatsu — professora responsável pela turma 2-C — estava diante da mesa do professor, examinando cuidadosamente a sala com os olhos antes de bater a mão com força sobre a madeira.
Pam!
— Prestem atenção, vocês todos — declarou ela, com absoluta convicção na voz. — Esse negócio de "Noivas de Junho"... é uma armadilha.
...E lá vamos nós.
Dois meses depois do início do novo ano letivo, já estávamos acostumados ao espetáculo peculiar conhecido como "Sermão da Amanatsu". Todos nós — ou pelo menos a maioria — já tínhamos chegado à mesma conclusão: a estratégia mais segura naquela situação era permanecer em silêncio e contemplar a natureza existencial das formações de nuvens até ela ficar sem energia.
— Aqueles desgraçados... Estão atrás do meu bônus de verão, eu sei que estão! Vocês sabiam? Vinte e oito anos é a idade em que todo mundo ao seu redor começa a se casar. É casamento pra um lado, casamento pro outro — puf, casou. Puf, casou! Aliás, é melhor explicar assim...
Ela agarrou um pedaço de giz e começou a desenhar freneticamente um diagrama no quadro-negro.
— Depois do ensino médio, as pessoas costumam seguir dois caminhos principais. Algumas ficam na cidade e começam a trabalhar. Dentro de alguns anos — digamos, dois ou três —, chega a primeira onda de casamentos. Vocês sabem como é: todo mundo atrás daquela história de "noiva jovem e bonitinha" e blá-blá-blá. Aí temos aqueles que vão para a faculdade. Eles se mudam, conhecem pessoas novas, começam novos relacionamentos... então, para eles... são necessários uns cinco ou seis anos depois da formatura até chegar...
Ela rabiscou "A SEGUNDA ONDA DE CASAMENTOS!" no quadro em letras enormes e furiosas, antes de se virar bruscamente para nós.
— Prestem atenção, seus pirralhos! É aqui que o verdadeiro inferno começa!
Bam. Bam. Bam.
Amanatsu-sensei socou o quadro-negro repetidas vezes para enfatizar suas palavras, sua voz ganhando cada vez mais força.
— Seus companheiros de batalha! Aquelas pessoas com quem vocês um dia dividiram as próprias feridas... essas mesmas pessoas... se transformam em seus inimigos! E vocês nunca percebem até ser tarde demais! Elas sempre vêm com aquela conversa: "Ah, Konami, você é tão bonita, vai encontrar alguém facinho~". Mas, se é tão fácil assim, CADÊ ESSE ALGUÉM?! Hein?! Se é tão fácil, tragam essa pessoa aqui! VOCÊS DISSERAM QUE ERA FÁCIL, NÃO DISSERAM?!
Konami Amanatsu, vinte e oito anos.
Aquilo, aparentemente, era um grito vindo diretamente do fundo da alma.
Infelizmente, seu público — os alunos da turma 2-C — tinha uma média de idade de meros dezesseis anos, o que nos tornava mais ou menos tão capazes de compreender seu sofrimento quanto um bando de pombos ouvindo um humano conversar.
Suas lamentações eram ouvidas… E, aparentemente, completamente ignoradas.
Deixei o episódio de hoje do "Teatro Amanatsu" passar por mim enquanto permanecia largado na carteira. Meus olhos, porém, estavam fixos na parte de trás da cabeça do Sakurai-kun.
As coisas entre nós tinham ficado meio estranhas desde o fim de semana, e eu ainda não encontrara uma boa oportunidade para perguntar a ele sobre a eleição.
Sério, o cara mudou de ideia do nada.
Foi tão repentino que parecia que ele simplesmente tinha decidido aquilo por impulso.
Droga, a gente realmente precisava conversar…
— Todos os fins de semana de junho estão lotados de casamentos! Ultimamente, eu nem consigo mais falar com a Konuki-chan... Sem contar que meus pais não me mandaram uma única foto de pretendente este ano! Nenhuma! Quer dizer, claro, eu disse a eles que encontraria alguém sozinha, mas, droga... deem uma colher de chá para a filha teimosa de vocês, pelo amor de Deus...
Com junho logo ali, ela parecia ainda mais fora de controle do que o normal. Acho que aquelas noivas invisíveis realmente estavam assombrando a mulher.
— Quando chegar a vez de vocês... — suspirou ela, mudando completamente o tom de voz. — É melhor simplesmente se deixarem levar, está bem? Não lutem contra isso.
Amanatsu-sensei folheou o caderno que segurava e então fez um gesto desanimado com a mão.
— Enfim, tinha mais alguma coisa que eu precisava avisar? Não? Beleza. Não vão perder a cabeça por causa de amor nem nada do tipo, entenderam? Eee é só por hoje. Dispensados~.
Ela deu uma última batida na mesa, sinalizando o fim da reunião de classe.
Todos nos levantamos ao mesmo tempo.
Perfeito. Essa era a minha chance. Eu precisava alcançar Sakurai-kun antes que ele—
BAM.
A porta da sala se abriu com violência e bateu contra a parede.
Tiara-san estava parada na entrada, ofegante. Seus olhos percorreram a sala até pararem em mim. Ela marchou diretamente até minha carteira sem desviar o olhar. Quando percebi, uma grossa pilha de papéis já estava sobre minha mesa.
— Nukumizu-san.
Ela se inclinou na minha direção.
— Sobre aquilo que conversamos no sábado...
Não vou mentir, aquela entrada tinha dado um curto-circuito no meu cérebro.
— Do que a gente conversou mesmo?
— No meu quarto! — sibilou ela, inclinando-se ainda mais para perto. — Não me diga que esqueceu! Logo depois de você me fazer vestir aquilo!
— Mas aquilo foi ideia su—Espera, espera, espera! Dá pra gente conversar sobre isso em outro lugar?!
Senti o calor de uma dúzia de olhares queimando a minha nuca. Alguém vai entender isso errado… E, droga, o pior é que nem dá pra dizer que seria exatamente uma interpretação errada.
Arrisquei uma olhada ao redor da sala. Yanami, Komari e até Himemiya-san estavam me lançando olhares nada amigáveis. E... hã, Amanatsu-sensei? Por que você está tirando fotos de mim...?
Tiara-san lançou um rápido olhar para Sakurai-kun.
— Você tem razão.
Ela limpou a garganta.
— É melhor levarmos isso para um lugar mais reservado. Vamos para algum lugar onde possamos ficar sozinhos.
Ótimo plano, Tiara-san. Realmente um ótimo plano. Mas, pelo amor de Deus, pensa um pouquinho melhor antes de escolher as palavras...
◇
No pátio interno do Colégio Tsuwabuki havia uma ampla mesa de pedra acompanhada por várias cadeiras do mesmo material. Tiara-san já estava lá e acenou para que eu me aproximasse. Sentei-me ao lado dela e, sem qualquer introdução, ela espalhou uma pilha de documentos sobre a mesa.
— Certo, vamos direto ao assunto da eleição — disse ela, disparando as palavras em velocidade máxima.
Sério, a velocidade com que aquela garota falava chegava a ser assustadora.
— O período oficial de campanha começa uma semana antes do dia da votação. Até lá, estamos na fase de preparação. Podemos coletar opiniões dos alunos, então—
Dois estudantes que passavam por uma passagem coberta próxima diminuíram o passo e começaram a nos observar, lançando olhares confusos em nossa direção.
— Hã, Tiara-san? Isso aqui não está meio... exposto demais? — murmurei, encolhendo-me sob os olhares deles.
— Estamos longe o suficiente. Ninguém consegue ouvir.
Ela começou a folhear os papéis.
— Além disso, por favor, não me chame pelo meu primeiro nome — acrescentou casualmente. — Agora, quero adiantar o máximo possível, e, para isso, você vai precisar entender razoavelmente bem como o Conselho Estudantil funciona. Desculpe pedir isso, mas acha que poderia reservar algum tempo depois das aulas durante os próximos dias?
— Tá, espera, espera. Me dá um segundo.
— Ah. Desculpe.
Um pequeno sorriso constrangido surgiu em seus lábios.
— Acabei me empolgando. Pode falar, Nukumizu-san.
— Hã... então, sobre a eleição...
— Sim!
Tiara-san me encarou, os olhos arregalados de expectativa. Desviei o olhar.
— É que... eu também tenho as atividades do Clube de Literatura, então... não sei se vou conseguir me envolver tanto assim...
— Mas, no meu quarto, você—
Ela se interrompeu. Silêncio. Então Tiara-san se levantou abruptamente.
— C-Claro. O Clube de Literatura, é claro.
Sua voz estava baixa e trêmula. Ela começou a recolher os documentos da mesa às pressas, juntando-os contra o peito.
— Desculpe. Acho que levei sua oferta educada a sério demais. Tudo bem, eu consigo cuidar disso sozinha. Ah, e amanhã começa a troca de uniforme, então não esqueça.
Ela enfiou os documentos na bolsa e já começava a se virar para ir embora.
— Espera.
Antes que eu percebesse, minha mão se estendeu e segurou a dela.
— Nukumizu-san...?
— Eu não posso ser seu apoiador oficial — disse rapidamente. — Mas... pelo menos posso ajudar até você encontrar outra pessoa.
Era pena? Ou eu só estava tentando diminuir a culpa que sentia em relação a ela? Seja qual fosse o motivo que fizera minha mão alcançar a dela... não tinha sido pelo motivo certo. Até eu sabia disso.
— Mas eu não quero causar problemas para você, Nukumizu-san...
— Todo mundo do Conselho Estudantil sempre me tratou bem. O mínimo que posso fazer é retribuir quando um de vocês precisa de ajuda.
A tensão na mão de Tiara-san diminuiu aos poucos.
— Mas não é o Conselho Estudantil que está pedindo sua ajuda agora. Sou eu.
— O que quer dizer? — perguntei sem pensar.
Ela balançou lentamente a cabeça.
— É só que... você também é próximo do Sakurai-kun. Não seria estranho você me ajudar?
— Duvido que ele se importe. Ele tem um monte de outros amigos.
— Eu também tenho amigos, sabia? — murmurou ela baixinho, antes de soltar uma risadinha para aliviar o clima. — Mesmo assim, agradeço. Não tenho muitos outros amigos homens a quem possa pedir isso.
— Eu também não tenho muitos amigos homens.
— É verdade, a maioria dos seus amigos são garotas... Não sei muito bem o que pensar disso — provocou ela, deixando o clima mais leve.
Isso é, até—
— Basori-senpai, tome um pouco de chá.
— ?!
Um pequeno copo de papel surgiu diante da Tiara-san, com vapor subindo suavemente da borda. Atrás dele, Shiratama-san sorria serenamente, como se não tivesse acabado de brotar literalmente do nada.
— Shiratama-san?!
— Espera, por que você está—?
— Vi vocês dois da passagem coberta. Estavam de mãos dadas, então achei que talvez estivessem com frio.
Tiara-san arrancou imediatamente a mão da minha.
— N-Não é isso! Nukumizu-san simplesmente segurou minha mão do nada!
Ei, ei. Desse jeito você faz parecer que eu sou o vilão da história.
Shiratama-san, agora sem ninguém para receber sua oferta de boa vontade, tomou delicadamente um gole do próprio chá e assentiu, compreensiva.
— Ah, entendi. Então foi você quem decidiu ajudar a Basori-senpai, não é?
— Então você realmente estava ouvindo—Espera, o que quer dizer com "então foi você"?
Shiratama-san inclinou a cabeça de um jeito adorável diante da minha pergunta.
— Você não ficou sabendo? Quem vai apoiar a candidatura do Sakurai-senpai é a Yanami-senpai.
◇
No dia seguinte, a primeira aula foi sacrificada aos deuses do treino para o festival esportivo.
Os professores nos conduziram para fora, debaixo do sol, como se fôssemos gado, e a grande atividade do dia era o tal "treino de torcida".
O colégio tinha programado uma competição de torcida entre as turmas para o dia do festival, mas, felizmente, a participação era opcional.
Eu, sendo fundamentalmente alérgico a qualquer tipo de trabalho voluntário, exerci meu direito de assumir a nobre função de encontrar uma árvore com uma boa sombra para me encostar enquanto observava todo mundo se debatendo no calor.
Entre os voluntários estavam Yanami e Himemiya-san, além de Ayano e Sakurai-kun entre os garotos. E, pelo que parecia, os meninos usariam uniformes tradicionais durante a apresentação, enquanto as meninas vestiriam roupas de líder de torcida.
Não consegui evitar a dúvida se Himemiya-san realmente ficaria bem com aquilo... Quer dizer, ela teria que pular e quicar bastante e... bem, as leis de Newton não iam deixar de existir só por causa disso.
Perdido em pensamentos enquanto refletia sobre a inevitável tragédia da física, mal percebi quando o treino chegou ao fim. A música parou, e o grupo de torcida começou a se dispersar. Ao olhar para o lado, avistei aquela espécie rara de extrovertido, Sakurai-kun, em seu habitat natural.
Ele estava conversando com um grupo de garotas, rindo como se conhecesse todas desde a pré-escola. Chegou até a pedir uma toalha emprestada. Quem faz isso?
— Sakurai-kun é mesmo popular, hein? — murmurei.
— Bom, claro. Mas você também não está exatamente ficando para trás, Nukumizu.
Mitsuki Ayano apareceu ao meu lado, observando a mesma cena. Ele me encarou com curiosidade.
— Aconteceu alguma coisa entre você e o Sakurai? Você está meio estranho desde ontem.
— Nah, não é nada disso. Só tenho umas coisas na cabeça.
— Oho. Entendi.
Os óculos do Ayano pareceram refletir o sol de maneira ameaçadora. Ele definitivamente não tinha entendido.
— Nukumizu, seu desgraçado... Você finalmente encontrou alguém de quem gosta, não foi?
— Não encontrei.
É. Passou longe.
— Tem certeza? Quer dizer, você e a Basori-san não estavam fazendo alguma coisa juntos ontem?
— Minha relação com a Basori-san é... bem, circunstancial — respondi com cuidado. — Ou, sei lá, acho que dá pra dizer que somos parceiros de negócios. Algo assim.
Além do mais, ela ainda me deve produtos da Chikapyon. Só as orelhas de gato não completam uma transação.
— Se não é a Basori-san, então—
Shing!
Os óculos dele brilharam de novo.
— Então o quê?
— Boa sorte, Nukumizu.
Ayano ergueu o polegar para mim com toda a convicção do mundo e, sem dizer mais nada, simplesmente saiu andando. Fiquei mais confuso do que esclarecido. Mas, pensando bem, Ayano sempre foi meio esquisito mesmo...
— Ficar matando aula não é bom, Nukumizu-kun.
Antes mesmo que eu conseguisse processar o que tinha acabado de acontecer, outra voz me atingiu. Virei-me. Desta vez, era a Yanami quem estava diante de mim, com as mãos erguidas para os lados numa pose que era...
Sei lá que pose era aquela. Ela abriu um sorriso provocador.
— Então? O que achou da minha roupa?
— Hã... isso é... uma pose de intimidação de tamanduá?
— Errado. Estou perguntando qual foi a sua reação. Me ver vestida de líder de torcida não faz você pensar em nada?
— Você ainda está com o uniforme de educação física, Yanami-san — apontei.
Yanami deu de ombros, como se a minha resposta não tivesse sido irrefutavelmente lógica.
— Tá vendo? Esse é o seu problema, Nukumizu-kun. Quando soube que eu ia participar da competição de torcida, aposto que imediatamente me imaginou usando uma roupa de líder de torcida, não foi?
— Não muito.
— Tudo bem se imaginar, sabia?
Ugh… Estou cansado demais para gastar meus neurônios com isso. Hmm, mas, vejamos… Yanami de líder de torcida: pompons, rabo de cavalo... saia esvoaçante, uma blusinha justa e—
— Ah, mas é melhor tomar cuidado. Sua barriga pode acabar aparecendo.
— O que exatamente você está imaginando?!
— Sua—Não, esquece.
Ela agitou a mão, exasperada.
— Olha, eu só vim até aqui porque você está com essa cara de enterro desde de manhã. Eu estava tentando te animar, tá bom?
Aquilo era uma tentativa de me animar? Por favor, tente um pouco mais.
— Enfim... então, Yanami-san, você vai apoiar a candidatura do Sakurai-kun, cer—?
— Oho? Ficou curioso, foi?
...Dá pra me deixar terminar? Ela lê mentes ou alguma coisa assim? Desviei o olhar, sentindo-me exposto.
— É só que você, surpreendentemente, não se dá tão bem com multidões, então... fiquei preocupado se você realmente ficaria bem fazendo um discurso de apoio à candidatura.
— Eu não sou mais a mesma pessoa de antes — respondeu ela, confiante. — Além disso, seja você ou eu, se um de nós virar vice-presidente, é uma vitória para o Clube de Literatura, não é?
Olhei para ela, surpreso.
— Você vai concorrer a vice-presidente?
Yanami assentiu como se aquilo já fosse óbvio.
— Tsukinoki-senpai fazia parte tanto do Conselho Estudantil quanto do Clube de Literatura, não fazia? Dá para conciliar.
— Bom, dá, mas ainda assim...
Ela olhou ao redor e então se aproximou de mim, abaixando a voz até um sussurro.
— É pelo poder.
Poder? Pisquei, confuso. Ela assentiu com um sorriso convencido.
— Esquece o frigobar. Eu vou mandar instalar uma cozinha completa na sala do clube. Com bancada e ilha central!
— O Conselho Estudantil não tem tanto poder assim... — murmurei.
De qualquer forma, parecia que ela realmente estava falando sério sobre entrar para o Conselho Estudantil. Era uma ideia estranha, e fiquei alguns instantes em silêncio, tentando processá-la.
Yanami interrompeu meus pensamentos e deu uma leve batidinha no meu ombro com o dela.
— Ei, o que está rolando entre você e a Basori-san?
— Nada — respondi sem rodeios, porque era exatamente isso.
— Sério? Antes você ficava todo hesitante quando o assunto era ela, mas ontem vocês dois pareciam bem íntimos.
— Não parecíamos.
Yanami estreitou os olhos para mim, desconfiada.
— Mas você foi até a casa dela, não foi?
— Eu não fui—
Espera. Não… Eu fui. As orelhas de gato.
— O quê? Sério? — Ela arqueou uma sobrancelha. — Caiu nos encantos femininos dela ou alguma coisa assim?
— Não, não é nada disso. Eu só queria produtos de anime. Foi uma troca.
— Produtos de anime...?
O cérebro de Yanami deu tela azul. Mas, antes que conseguisse reiniciar, uma pequena figura se aproximou de nós.
— Y-Yanami, o treino vai r-recomeçar logo.
Era Komari, carregando um velho aparelho de som com CD, todo surrado, que parecia pesado demais para ela.
— Ah, Komari-chan. Conseguiu as pilhas? — perguntou Yanami.
Komari assentiu com lágrimas nos olhos.
— A-A sala dos professores de e-educação física... dava m-medo...
Espera. Se ela está carregando o aparelho de som—
— Hã? Você também está participando dessa competição de torcida, Komari?
— S-Sim! E-Eu estou encarregada da m-música e das filmagens! — respondeu ela, estranhamente orgulhosa. — D-Disseram que, se você entrar p-para a equipe de torcida, não precisa participar d-das provas individuais...!
Hã. Isso é até meio genial. E eu ali, preso tendo que correr numa prova de obstáculos idiota da qual nem queria participar.
— Então vamos, Komari-chan? — disse Yanami, estendendo a mão para pegar a alça do aparelho de som. — Aliás, tem certeza de que não quer ser líder de torcida?
— N-Não, obrigada.
As vozes das duas foram se afastando enquanto elas caminhavam de volta para o campo.
...Ufa. Acho que consegui escapar da maior parte daquilo. Bom, pensando bem, nem tinha exatamente nada do que escapar, mas… Eu também não podia simplesmente dizer: "É, passei a tarde no quarto da Tiara-san vendo ela fazer cosplay com orelhas de gato e depois concordei em ajudar na campanha dela por culpa."
Imagina só como elas reagiriam.
Foi então que Yanami e Komari pararam de andar e olharam para mim por cima dos ombros.
— O quê? — perguntei, nervoso.
As duas fizeram suas declarações provocativas para mim:
— Vamos fazer isso de forma justa e limpa, Nukumizu-kun.
— T-Traidor.
Cara. Elas realmente conseguem me fazer parecer um canalha. Ergui a cabeça para o céu azul e límpido, fazendo o possível para ignorar os olhares dos colegas que passavam por nós.
◇
Dois dias depois, o grande circo conhecido como campanha para a eleição do Conselho Estudantil finalmente tinha entrado em movimento. Depois das aulas, eu caminhava pelo corredor ao lado da Tiara-san enquanto folheava uma grossa pilha de papéis em minhas mãos.
— Certo, o próximo é o Clube de Artes. Temos uma reunião marcada com o Clube de Softbol daqui a trinta minutos, então, levando em conta o tempo de deslocamento... precisamos terminar isso em vinte.
— Entendido. Eu já conheço a vice-presidente do Clube de Artes, então, tecnicamente, já fizemos uma entrevista preliminar.
Tiara-san subiu as escadas em ritmo acelerado. Apressei o passo atrás dela, fazendo o possível para acompanhá-la.
Então.
Curiosidade: eu tinha subestimado absurdamente a quantidade de preparação necessária para uma eleição. Ninguém nunca me contou que concorrer ao Conselho Estudantil significava literalmente virar um vendedor de porta em porta.
Na minha cabeça, eu imaginava algo como distribuir alguns panfletos, talvez colocar uns cartazes pela escola.
Isso ainda era uma eleição de ensino médio? Porque, nesse ritmo, só faltavam um ônibus de campanha e um terno para aquilo virar eleição de verdade.
Espera, pensando bem—
— Isso não chega a ser fraude eleitoral? Ficar indo de clube em clube pedir apoio diretamente? — expressei minha preocupação.
— Coletar opiniões dos eleitores é permitido. Eu perguntei aos professores — respondeu Tiara-san sem hesitar.
Ao chegar ao topo da escada, ela olhou para o relógio de pulso.
— Hmm. Parece que estamos dentro do horário.
— Nah, esse corredor é mais comprido do que parece. Vamos ter que acelerar se quisermos chegar a tempo.
Ela piscou.
— Como você sabe disso?
Eu realmente precisava explicar?
Obviamente, eram anos aperfeiçoando minha capacidade de calcular exatamente quanto tempo eu podia enrolar entre um sinal e outro e desperdiçar tempo com a máxima eficiência possível.
Mas, em vez de falar tudo isso, apenas dei um sorriso convencido e passei por ela, ultrapassando Tiara-san com passos confiantes.
◇
Depois da reunião com o Clube de Softbol, Tiara-san parou diante do ginásio.
— O que foi? Aquilo era a última coisa da lista de hoje.
— Não, bem... eu estava pensando que o time masculino de basquete deve estar treinando agora. Ainda não consegui marcar uma reunião com o capitão deles, então pensei em tentar pedir pessoalmente.
Fiquei ao lado dela enquanto nós dois tirávamos os sapatos.
— Você não conseguiu marcar uma reunião? O time masculino de basquete é tão ocupado assim?
— A gerente do time está me barrando. Ela se recusa a me deixar passar. Pelo visto, acha que eu só estou indo lá por causa dos garotos...
Tiara-san suspirou. Uma vez eu tinha ouvido na sala que os times de basquete e futebol eram os dois mais populares entre as garotas.
— Deve ser complicado fazer parte de um clube popular — comentei. — Ainda bem que o Clube de Literatura não precisa lidar com nenhum desses dramas românticos.
Tiara-san me lançou um olhar longo e bastante significativo em completo silêncio. O quê? Que olhar foi esse? Se tem alguma coisa pra dizer, fala logo.
— Tenho muitas, muitas opiniões sobre isso — murmurou ela. — Mas vamos nos concentrar primeiro em conseguir essa reunião.
Ela colocou a mão sobre a pesada porta do ginásio. Aproximei-me para ajudá-la a empurrá-la e, no instante em que abrimos a porta, uma onda de barulho veio direto em nossa direção.
O ginásio estava dividido em duas metades. De um lado, o time masculino de basquete ocupava a quadra. Do outro, o time feminino de vôlei.
Enquanto Tiara-san seguia na direção da gerente do basquete, fiquei mais perto da entrada, mantendo-a no canto do meu campo de visão enquanto meus olhos vagavam pela quadra.
Agora, talvez eu jamais fosse compreender o funcionamento interno da mente feminina… Mas conseguia entender o apelo daquilo. Garotos altos, jovens, atléticos… É, realmente ficam bem bonitos.
Uau, o número 10 acabou de acertar uma cesta de três.
Droga. Aquilo foi incrível.
Eu estava quase desligando o cérebro quando percebi algo estranho. Por algum motivo, os jogadores continuavam olhando na minha direção.
O quê? Nunca viram um solitário antes?
...Só que eles não estavam olhando para mim.
Estavam olhando para a outra metade do ginásio. Mais especificamente, para onde estava o time feminino de vôlei. Quando olhei naquela direção, encontrei duas figuras muito familiares bem no meio da quadra:
— Anna Yanami e Hiroto Sakurai.
Ainda usando os uniformes escolares, os dois riam e brincavam enquanto trocavam bolas altas de vôlei como se estivessem tendo o melhor momento da vida.
Meu Deus, o que era aquela bolha insuportavelmente alegre cheia de risadinhas?
Hihi!
Ehehe!
Ah, vão à merda. Sério, que tipo de cara fica brincando e se divertindo todo feliz no meio de um monte de garotas desse jeito?
Repugnante.
Continuei julgando os dois em silêncio por mais algum tempo até que a brincadeira pareceu chegar ao fim. Sakurai-kun deixou Yanami conversando com a capitã do time de vôlei e veio trotando na minha direção.
— Você também está aqui, Nukumizu-kun? Está indo de clube em clube cumprimentar o pessoal com a Basori-chan?
— Bem... algo assim — respondi, meio sem jeito.
De repente, Sakurai-kun inclinou discretamente a cabeça para mim, aparentemente tomando cuidado por causa das outras pessoas ao redor.
— Desculpa.
— Hã? Pelo quê—?
Ele me mostrou aquele sorriso perturbado de sempre.
— Eu disse que ia desistir, mas acabei atrapalhando a Basori-chan mesmo assim. E, no fim, também menti para você, Nukumizu-kun.
— Eu não me importo muito, mas...
Olhei de lado. Tiara-san parecia estar discutindo com a gerente do time masculino de basquete.
— O clima também ficou meio estranho na sala do Conselho Estudantil — disse Sakurai-kun, soltando um sorriso amargo.
Bom, é. Eu conseguia imaginar. Tiara-san era uma boa garota, mas sutileza nunca tinha sido exatamente o ponto forte dela.
— Mas decidir concorrer à presidência significa que você tem seus próprios motivos, não é?
— Quem sabe? Às vezes... você é a pessoa que menos entende os próprios sentimentos.
Sakurai-kun sorriu novamente. Desta vez, havia um toque de tristeza e saudade curvando seus lábios.
— Eu também nunca imaginei que seria tão difícil abrir mão disso.
Aquelas palavras, ditas tão baixinho, pareciam menos algo dirigido a mim e mais algo que ele tinha deixado escapar sem querer.
Eu não sabia o que responder, então simplesmente… fiquei olhando para ele.
E então—
— Ah, Nukumizu-kun. Você também veio?
Yanami se aproximou, enxugando o suor do rosto com um lenço.
— É. Só tinha umas coisas para resolver com o time de basquete.
— Ah, claro! Você está distribuindo aqueles "pãezinhos envenenados", né?
— Pãezinhos... envenenados? — repeti automaticamente, diante daquele termo extremamente suspeito. Yanami cruzou os braços com um sorriso convencido.
— Ouvi dizer que, durante as eleições, os candidatos saem distribuindo pãezinhos envenenados. Tipo, tão gostosos que chegam a matar.
Isso… não… é assim que funciona.
Bom, pensando bem, eu não duvidaria que Yanami comesse mesmo assim
Veneno e tudo.
— Desculpe fazê-lo esperar, Nukumizu-san.
Tiara-san voltou enquanto anotava alguma coisa em seu caderno.
— Amanhã, depois das aulas, antes do treino, teremos um tempo para—Ah, Sakurai-kun também está aqui?
— É. Você realmente conseguiu marcar uma reunião com o time de basquete? Uau. Eu fui recusado.
Ele lançou um olhar carregado de significado para Yanami. Ah, é. Yanami tinha rejeitado o antigo capitão do time masculino de basquete, não tinha? Mas, se percebeu o olhar, ela simplesmente ignorou ou não se importou.
Em vez disso, bateu de leve no meu ombro.
— Ei, Nukumizu-kun, o que aquela garota está fazendo?
— Hã?
Do lado de fora do ginásio, havia uma garota estilosa de saia curta apontando uma câmera DSLR na nossa direção. No instante em que percebeu nossos olhares, ela desapareceu. Tiara-san franziu a testa.
— Remanescentes do Clube de Observação de Aves. Agora fazem parte do Clube de Jornalismo.
Entendi. Então aquele era o famoso Clube de Jornalismo. Ela era até bonitinha, com aquela saia curta e tudo mais, mas acho que as aparências realmente enganam...
— Tem alguma coisa no meu rosto, Nukumizu-kun?
— Ah, não, nada.
Opa. Eu estava encarando Yanami sem perceber. Antes que Yanami pudesse dizer mais alguma coisa, Tiara-san se meteu entre nós.
— Então, Nukumizu-san. Vamos continuar.
— A gente já não terminou por hoje?
— Ainda tem bastante coisa para fazer. Vamos, estamos atrapalhando o treino do clube.
Ela me empurrou para a frente com o ombro até eu quase tropeçar.
— Vamos, Sakurai-kun — Yanami puxou a manga de Sakurai-kun. — A gente também devia fazer nossa própria reunião de estratégia.
— Parece uma boa. Vejo vocês dois depois.
— Hã? Ah...
Yanami olhou para mim, então se agarrou ao braço de Sakurai-kun.
— Ah, é! Eu tenho dois anpan de noz. Vou te dar um, Sakurai-kun.
(N/SLAG: Anpan (アンパン) Pão doce japonês clássico recheado com anko, uma pasta doce de feijão-azuki)
— Eles não eram os dois para você?
— Estou de dieta. Decidi me limitar a um só.
E, assim, os dois desapareceram juntos, deixando apenas eu e a Tiara-san para trás.
— Então — comecei —, o que vem agora na agenda?
— Hmm. Boa pergunta.
Hã? Você não acabou de dizer que ainda tinha um monte de coisa para fazer? Virei-me para olhar para ela com uma expressão completamente confusa, mas Tiara-san apenas franziu a testa e virou o rosto, emburrada.
◇
Na sexta-feira à noite, minha alma já parecia ter abandonado o corpo. O que restava de mim se arrastou até o bicicletário pela última vez.
Sim. Pela última vez. Depois de dias e mais dias visitando clube após clube, eu finalmente estava — finalmente — livre. Até Tiara-san tinha parado de arranjar briga com as pessoas em algum momento. Desenvolvimento de personagem, eu acho.
Dito isso...
Será que ela já tinha encontrado alguém ingênuo o suficiente para apoiar oficialmente sua candidatura?
Porque, se a estratégia dela fosse deixar aquilo se arrastar até eu simplesmente aceitar a responsabilidade por padrão, então ela estava sem sorte. Meu coração pode até ser mole, mas não é tão mole a ponto de eu ceder só por sentimentalismo.
Eu não vou cair tão fácil.
Minha tentativa de convencer a mim mesmo freou bruscamente quando avistei uma figura familiar parada diante da minha bicicleta.
— Komari? O que você está fazendo aqui?
— E-Esperando você — respondeu ela.
...É. Faz sentido.
Cocei a bochecha, sem jeito.
— Desculpa por não ter aparecido muito no Clube de Literatura ultimamente. Yanami-san tem ido lá?
— À-Às vezes... E-Ela vive aparecendo e me obrigando a c-comer sanduíches de tonkatsu.
Então essa é a estratégia de campanha dela… Desse jeito, a Komari vai acabar engordando.
— Semana que vem eu volto — prometi. — Basori-san vai estar ocupada com o festival esportivo de qualquer jeito.
— D-Dessa vez é sério?
— É. Só falta o discurso de campanha e a foto para o cartaz. Depois disso, não tem muita coisa que ela possa fazer abertamente até o dia da votação—
Komari me lançou um olhar fulminante.
— Sério, eu juro que dessa vez acabou!
Ela não disse nada. Em vez disso, apenas me encarou através da franja com olhos carregados de julgamento. Caramba.
— Pela centésima vez, eu não vou entrar para o Conselho Estudantil, tá?
— M-Mas... você ainda está ajudando a vice-presidente.
— É.
Não dava para discutir essa.
— N-Nukumizu... você cede fácil demais q-quando te pressionam.
— Ei, eu não sou tão mole assim... — protestei sem muita convicção.
O olhar de Komari ficou ainda mais estreito.
— N-Não se esqueça do Clube de Ir Direto p-para Casa.
— Certo.
Baixei a cabeça sob aquele olhar penetrante. Não tinha muito o que eu pudesse dizer depois dessa. Komari ficou se remexendo por alguns instantes, então perguntou de repente:
— V-Você tem planos a-amanhã?
— Sábado? Não muito.
— E-Então deixa sua agenda livre. E-Eu tenho uma coisa que quero c-conversar com você.
Depois de me deixar para trás com aquelas palavras secas, Komari girou nos calcanhares e saiu correndo, com a saia esvoaçando dramaticamente ao vento.
...O que acabou de acontecer?
Ela acabou de—
Não.
Impossível. Não tem como ela ter me convidado para um encontro. E ela também parecia meio irritada.
Assustador.
Soltei um suspiro profundo e joguei minha bolsa na cesta dianteira da bicicleta.
◇
Quando chegou a manhã de sábado, eu estava parado diante de uma enorme loja de descontos, a cerca de dez minutos de ônibus da Estação de Toyohashi. Acima de mim se estendia um céu azul tão vasto e intenso que chegava a dar tontura, enquanto um pinguim usando gorro de Papai Noel sorria para mim da placa da loja.
Suspirei.
— Vou levar bronca.
Ontem, Komari tinha me convidado do nada, sem qualquer explicação. Isso só podia significar uma coisa: Hora do sermão.
E, como se quisesse deixar isso ainda mais óbvio, ela até se deu ao trabalho de mudar o local do encontro de última hora, trocando a biblioteca central — território neutro — por este lugar, de todos os possíveis.
Aquilo já dizia tudo. Afinal, essa loja de descontos era um dos principais pontos de encontro dos extrovertidos da cidade. Nenhum canto seguro. Nenhuma rota de fuga. Ela definitivamente planejava me encurralar justamente onde eu era mais vulnerável...
Embora, pensando bem, eu tivesse quase certeza de que Komari era tão alérgica a esse lugar quanto eu. Bom, se eu estava indo para um tribunal, melhor pelo menos aparecer com uma oferenda.
Precisava suavizar as coisas de algum jeito.
Hmm.
Se fosse Yanami, uma batata-doce assada resolveria.
Mas, para Komari...
Acho que eu teria que comprar algum produto de BL ou coisa assim. Só que produtos de BL são meio arriscados, já que os gostos variam bastante...
Hmm, talvez fosse melhor escolher algo seguro. Tipo um Toshocard? Ou simplesmente dar dinheiro e deixar ela escolher?
(N/SLAG: Toshocard=giftcard para comprar livros)
Enquanto eu mexia na carteira, senti o olhar de Komari atravessando meu corpo. Ela estava ali usando uma camiseta simples de algodão de mangas curtas sob um colete marrom, com a saia balançando suavemente ao vento.
O estilo levemente cafona era até meio fofo, mas, sabiamente, guardei essa observação para mim. Meus instintos de sobrevivência não são tão ruins assim.
— N-Nukumizu, desculpa f-fazer você esperar — murmurou ela baixinho, desviando o olhar de forma constrangida.
— Hã? Essas crianças—?
Dois humanos em miniatura estavam ao lado dela, um de cada lado: o pequeno Susumu-kun e a Hina-chan.
— H-Hã, então... meus pais foram c-chamados para trabalhar de última hora — explicou Komari, mexendo nervosamente na franja. — E-Eu tive que trazer os p-pequenos comigo...
Percebendo o desconforto da irmã, Susumu-kun deu um passo à frente e fez uma reverência educada.
— Olá, Onii-san. Por favor, cuide da gente hoje.
— Ah, claro. Igualmente.
Susumu-kun estava em qual série mesmo? Quarto ano? Eu juro, aquele molequinho tinha muito mais compostura do que eu e a irmã dele juntos. Na idade dele, a única coisa que me importava eram videogames.
Ah, e não podemos esquecer da menor do trio: Komari Hina. Idade estimada: quatro anos. Orgulho e alegria de Toyohashi. E, sem qualquer dúvida, a forma de vida mais adorável de toda a cidade. Ela espiou por trás da saia de Komari, piscando aqueles olhos enormes para mim.
— Amigo da Nee-chan?
— Faz tempo, hein? Eu sou Nukumizu. Seu onii-chan — disse, colocando no rosto meu sorriso mais gentil.
Ela deu um passo lento e deliberado para fora de trás de Komari.
— Nukumizu.
— Sou eu — respondi alegremente.
Hina-chan assentiu com toda a seriedade do mundo e imediatamente voltou a se esconder atrás de Komari.
Urgh. Fofa demais. Komari soltou um suspiro de alívio.
— E-Então tudo bem?
— Sem problema nenhum. Na verdade, assim é até melhor.
Com os irmãos por perto, seria menos provável que Komari descarregasse sobre mim todo o arsenal de técnicas de bronca que possuía. Eu não estava prestes a desperdiçar aquela intervenção divina.
Agachei-me até ficar na altura dos olhos da Hina-chan e sorri novamente.
— Certo, Hina-chan. Onde você quer ir hoje?
— Hina... quer fazer compras — respondeu ela com uma vozinha baixa, ainda agarrada à saia da irmã.
— Ótimo! Seu onii-chan vai comprar tudo que você qui—
— E-Ei! Não vai fazendo promessas d-desse tipo!
Bronca instantânea. Cara, a irmã mais velha realmente não dá moleza.
— Certo, então vamos andando. O que vamos comprar?
— A-A Hina quer—E-Ei! Não c-corre!
As portas se abriram automaticamente com um whoosh, e as crianças dispararam para dentro da loja de mãos dadas. Komari correu atrás delas em pânico.
Observei os três desaparecerem lá dentro enquanto uma estranha sensação de nostalgia tomava conta do meu peito.
Sorrindo, atravessei as portas automáticas atrás deles.
◇
As prateleiras da loja estavam abarrotadas até não caber mais nada, e as etiquetas de preço exageradamente coloridas faziam minha cabeça girar.
Enquanto Komari e eu seguíamos os dois pequenos furacões que corriam pelos corredores, meus olhos foram inevitavelmente atraídos por uma enorme placa vermelha anunciando sabão em pó com um desconto absurdo.
— Uau, isso está barato — murmurei, diminuindo o passo até parar.
A mão de Komari imediatamente agarrou minha manga e me puxou.
— N-Nukumizu, n-não fica se afastando! Você vai se perder!
— Não, olha só, sabão em pó nunca entra numa promoção dessas, então—
— N-Não hoje! Você precisa resistir.
Sim, senhora. Vou resistir.
Mais à frente, as crianças tinham parado diante de uma sofisticada exposição de presentes de ochuugen, com os olhos brilhando diante das caixas de doces variados cuidadosamente embrulhadas.
— Hina-chan disse antes que queria fazer compras. Ela está pensando em mandar presentes de ochuugen para alguém?
(N/SLAG: Ochuugen (お中元) Literalmente, "presente de meio de ano". É um costume japonês de dar presentes por volta do meio do ano, principalmente em julho, como forma de demonstrar gratidão às pessoas que ajudaram ou apoiaram quem oferece o presente ao longo do ano.)
— C-Claro que não. E-Ela vai ter uma festa do pijama na c-creche. Viemos comprar um pijama n-novo para ela.
Ah. Certo. Uma criança de quatro anos mandando presentes de ochuugen seria… alguma coisa.
As crianças dispararam de uma exposição para outra, e Komari correu até elas para segurar a mão de ambas.
— S-Se vocês se afastarem demais, v-vão acabar igual ao Nukumizu e se perder.
Droga. Komari realmente levava jeito com crianças. Eu observava os três com um sorriso carinhoso quando ela de repente me lançou um olhar desconfiado.
— Q-Que foi? Por que está fazendo essa c-cara assustadora?
— Eu só estava pensando... você vai ser uma ótima mãe algum dia.
— Quê—?! V-Vai se—
Ela travou no meio da explosão quando os olhos enormes da Hina-chan se fixaram nela. Tossindo sem jeito, reformulou a frase.
— E-É esse o seu problema, N-Nukumizu.
Os olhos da Hina-chan brilharam.
— É esse o seu pobema, Nukumizu! — repetiu ela, toda animada.
— É, você tem razão — suspirei. — Acho que seu onii-chan tem um problema mesmo, hein.
Fofa demais. Aliás, Komari, será que dá para parar de me olhar como se eu fosse lixo?
Por insistência de Komari, subimos pela escada rolante até a seção de brinquedos. Os olhos das crianças brilharam assim que correram na frente, e Komari soltou um suspiro resignado.
— S-Se prepara. Quando eles ficam a-assim, dá trabalho.
Enquanto Komari corria atrás da Hina-chan, fui até Susumu-kun. Ele tinha parado diante da seção de tokusatsu, encarando um cinto de transformação novinho e reluzente.
(N/SLAG: Tokusatsu (特撮) Refere-se a um gênero japonês de filmes e séries live-action que utiliza muitos efeitos especiais, frequentemente com elementos inspirados em anime)
...Nossa, esses negócios ficaram bem sofisticados, hein? Peguei um dos cintos de demonstração.
— Hã? Como isso funciona?
— Você não pode simplesmente deixar a carta aí — explicou Susumu-kun. — Tem que passar ela pelo leitor para o cinto reconhecer.
Ah, que legal. Seguindo as instruções dele, passei a carta. O cinto se iluminou com luzes piscantes, e uma voz heroica e estrondosa anunciou um golpe final.
— Uau. Cada carta tem um efeito sonoro diferente? Isso é muito legal.
— Não é só isso. Se passar duas ao mesmo tempo, sai um ataque combinado.
É o que rapaz? Isso é incrível.
Sob a orientação de Susumu-kun, experimentei todas as funções. Esses cintos eram um sonho comparados com qualquer coisa que eu tinha quando era criança.
— Quer tentar agora, Susumu-kun?
— Nah, tô de boa. Já passei dessa fase.
Ai. E eu estava brincando com aquilo com toda a empolgação do mundo...
— Então, o que anda fazendo sucesso na escola hoje em dia?
— Acho que principalmente jogos. Você conhece Trainimon?
Sim, aquele cooperativo em que você forma uma equipe para caçar monstros gigantes, certo? Dizem que o jogo mais recente é uma obra-prima. Eu mesmo estava louco para experimentar.
— Já ouvi falar. Mas é principalmente cooperativo, né? Não seria meio solitário jogar sozinho?
— Bom, é. Claro que você joga com os amigos. Esse é o objetivo.
Certo. O objetivo é jogar com os amigos… Certo...
Saindo da seção de tokusatsu, passamos pelo corredor de videogames. Susumu-kun pegou a caixa de um jogo e ficou olhando para ela com desejo.
— Eu ainda não tenho esse, então sempre fico só olhando. Mas mês que vem vou conseguir comprar quando receber minha mesada.
— Legal! Você está economizando direitinho, hein?
— Né? Não gastei nada ultimamente.
Susumu-kun sorriu timidamente, com um certo orgulho. Talvez a irmã dele pudesse aprender uma coisinha ou duas. De repente, Susumu-kun se aproximou e perguntou em voz baixa:
— Ei, hoje é um encontro com a Nee-chan?
— Não — respondi imediatamente.
Ele franziu a testa.
— Então qual é a diferença entre um encontro e só sair junto?
Boa pergunta, na verdade. Qual era a diferença? Tirando aquela vez com a Yakishio, minha experiência com encontros era praticamente zero...
— Bom... a diferença entre um encontro e simplesmente sair junto é, hã...
Ele inclinou a cabeça.
— É...?
Olhei diretamente nos olhos dele.
— Dar as mãos. Talvez.
— As mãos? Mas eu dou a mão para a Hina e para a Nee-chan o tempo todo.
— Seu onii-chan também dá a mão para a irmãzinha dele com frequência, mas infelizmente família não conta. Só vira um encontro quando um garoto e uma garota — que não são parentes — saem juntos e dão as mãos. Isso é o que chamamos de encontro.
Perfeito. Ou pelo menos foi o que pensei enquanto fazia minha melhor cara de irmão mais velho descolado. Mas Susumu-kun pareceu um pouco decepcionado.
— Perguntei porque a Nee-chan passou um tempão escolhendo a roupa ontem. Eu tinha certeza de que era um encontro.
Ah. Então ela está começando a se preocupar mais com a aparência, hein? Enquanto refletia sobre o crescimento da Komari, Susumu-kun olhou ao redor.
— Aliás, cadê a Hina?
— Está com sua irmã. Por... ali, eu acho.
Fomos procurar na seção de brinquedos e encontramos as duas num canto. Elas observavam uma série popular e antiga de pequenos animais que viviam em casinhas de boneca em miniatura.
Quando Hina-chan me viu, ergueu um coelhinho e um ursinho.
— Essa é a Nee-chan. E esse é o Nii-chan!
— Entendi. Então essa é sua onee-chan e esse é seu onii-chan, hein.
...O que exatamente isso queria dizer?
Lancei um olhar suplicante para Komari, pedindo ajuda. Ela acariciou gentilmente a cabeça de Hina-chan antes de responder.
— E-Ela sempre dá os nossos nomes para as b-bonecas, o meu e o do Susumu. É-É assim que ela sempre b-brinca.
Então o coelho era Komari e o urso era Susumu-kun? Estranho, mas tudo bem. Devia ter toda uma história por trás. Enquanto eu refletia sobre o verdadeiro significado de "família", Hina-chan pegou uma boneca de lontra.
— Esse é o Nukumizu! — declarou ela.
Hã, eu? Então isso significava que eu seria o... irmão mais velho dela? Não, o pai? Sinceramente, qualquer um dos dois estava ótimo para mim.
— Ah!
Hina-chan exclamou de repente enquanto eu ainda encarava a lontra em minhas mãos. Ela estendeu o braço e pegou uma pequena caixa da prateleira: um adorável conjunto em miniatura de um beliche de três andares.
— Esse! Não achava em lugar nenhum!
— E-Ei, a gente não vai c-comprar isso — disse Komari, tentando tirar a caixa dela.
Hina-chan abraçou a caixa contra o peito em protesto.
— Mas a Hina procurou esse por um tempão!
— N-Não vamos comprar, tá bom? V-Vamos, Susumu.
— Ei, Komari...
Ela pegou Susumu-kun e foi embora. Bom… Fingiu que foi embora. Na verdade, apenas se escondeu atrás de uma prateleira próxima. Não que estivesse fazendo um bom trabalho.
O rabinho de cavalo na lateral da cabeça dela estava tremendo — e eu ainda conseguia ver o rosto inteiro. Observando os dois, comecei a caminhar na direção deles, mas Komari balançou freneticamente a cabeça.
— N-Nukumizu, você vai estragar meu disfarce.
— Você já estragou sozinha. Não se preocupa. Eu fico com a Hina, então vocês dois podem ir na frente.
Ela me lançou um olhar desconfiado. Em voz baixa, murmurou:
— N-Não compra, tá?
...É. A luta é real. Depois que Komari e Susumu se afastaram, agachei-me ao lado de Hina-chan.
— Você quer mesmo esse, hein?
Ela assentiu só um pouquinho.
— Acho que vocês têm alguma coisa parecida em casa, não têm? Que tal deixar para outro dia e ver primeiro se não encontra por lá?
— Aquele é diferente. Só tem duas camas.
Ah… Então esse tinha três camas e o de casa só tinha duas. É, eu entendo. Só porque algo parece sem importância para você não significa que também seja insignificante para outra pessoa.
Uma certa senpai de óculos me ensinou a nunca esquecer disso. Principalmente naquela vez em que ela estava decidindo qual era o "esquerda e direita".
(N/SLAG: Referência à cena do Volume 2 em que Koto faz comparações envolvendo ameixa e curry com Komari)
— Entendi. Esse é bem legal mesmo. Do que você gosta nele, Hina-chan?
Ela ficou em silêncio por alguns instantes.
— Com esse, a Nee-chan, o Nii-chan e a Hina podem dormir juntos.
Hmm… Agora eu entendia. Era muito difícil dizer não, ainda mais sabendo o quanto aquilo significava para ela. Se eu recusasse, poderia magoá-la… Mas, se simplesmente comprasse sem pedir, Komari provavelmente me mataria...
— Mas sabe... — comecei. — Não seria meio solitário se todo mundo dormisse em camas diferentes?
— Solitário...?
Ela me olhou, surpresa. Assenti.
— É. Aposto que Susumu e Chika-nee ainda querem dormir ao seu lado. Então, talvez só por mais um pouquinho... você não poderia continuar dividindo a cama com eles?
Hina ficou imóvel por alguns instantes. Mas, por fim, com o menor dos acenos, virou-se e colocou a caixa de volta na prateleira.
— Muito bem. Agora vamos procurar sua onee-chan, tá?
Peguei a mãozinha dela e comecei a caminhar na direção em que Komari tinha ido. Sua palma era quente e tão pequena que parecia que poderia quebrar.
Aquilo me fez lembrar da minha própria infância. Dos momentos em que, por mais que eu tentasse, simplesmente não conseguia transmitir o que estava sentindo.
Eu ficava tão frustrado… Mas nem eu mesmo entendia direito o que estava tentando transmitir.
— Você é muito madura, Hina-chan... — murmurei.
E então dei de cara com Komari, que estava agachada atrás de uma prateleira.
— Uéé—?! Hã, ah—
— Ah, aí está você, Komari.
Hina-chan soltou minha mão e abraçou Komari.
— Nee-chan, tá ali!
— S-Sim, eu tô ali... Quer dizer, aqui. V-Vamos, hã... fazer compras.
— Tá!
(N/SLAG: No japonês, as frases da Hina-chan e do Nukumizu usam construções bastante parecidas — dando a impressão de que a Hina está repetindo o que Nukumizu acabou de dizer. Ambas utilizam o verbo いる (iru) no passado)
Hina-chan, esquecendo-se completamente de mim, agarrou-se ao lado de Komari enquanto as duas começavam a caminhar. Sentindo-me um pouquinho solitário...
Acelerei o passo para andar ao lado delas.
— A gente veio comprar o pijama da Hina-chan, né? — perguntei.
— S-Sim. Seção infantil.
Ah, é. Ela tinha aquela festa do pijama na creche em breve. Perdido em pensamentos sobre os meus próprios dias de creche — não que eu lembrasse de muita coisa —, ouvi Komari murmurando para si mesma:
— H-Hã, a Hina... usa muita roupa que era minha ou do Susumu, e-então... eu só queria comprar para ela a-alguma coisa nova que fosse realmente dela.
Roupas herdadas, hein? Eu era o mais velho, então Kaju, na verdade, queria ficar com as minhas coisas velhas. Isso deixava nossos pais malucos.
Hmm… Pensando bem, por que comigo era diferente?
De repente, Komari olhou ao redor em pânico ao perceber—
— N-Nukumizu, cadê o Susumu?
— Hã? Ele não estava com você?
— E-Eu vou procurar.
Komari disparou de volta na direção da seção de brinquedos. Mas, nesse exato momento, Susumu-kun apareceu vindo do lado oposto, carregando uma sacola plástica amarela.
— Hina, toma.
Ele empurrou a sacola para as mãos dela.
— O que é isso, Nii-chan?
— Só dessa vez, entendeu?
Ele falou de maneira ríspida e virou o rosto. Curiosa, Hina-chan tirou o conteúdo da sacola e seus olhos imediatamente se iluminaram. Lá dentro estava o beliche em miniatura de três andares que ela tinha ficado encarando antes.
— Nii-chan! É pra Hina?!
— É. Só não deixa a Nee-chan ver, tá?
— Tá!
Então era por isso que ele tinha voltado. Cara, Susumu-kun… Que homem.
Logo depois, Komari voltou, ofegando pesadamente.
— S-Susumu... Não sai... andando por aí... sozinho...
Susumu desviou os olhos da irmã, que tentava recuperar o fôlego.
— Eu só fui fazer umas compras.
Komari olhou para a sacola apertada contra o peito da Hina e entendeu na mesma hora. Ela abriu um sorriso meio sem jeito e acariciou a cabeça dos dois.
— H-Hina, você agradeceu?
— Eu agradeci—não! Nii-chan, muito obrigada!
— Não foi nada. Eu também queria, só isso. Vamos, ainda temos compras pra fazer.
Um irmãozinho tsundere dos mais fofos, sem dúvida.
— E-Ei, Susumu, não c-corre!
— Nii-chan, espera!
As irmãs Komari correram atrás do Susumu-kun, que tinha disparado para esconder a vergonha. Eu, cumprindo meu papel de observador, segui tranquilamente atrás deles.
◇
Depois de terminarmos nossa maratona de compras, nos reunimos ao redor de uma mesa na praça de alimentação.
Primeiro, preciso dizer uma coisa: sentar naquelas cadeirinhas baixas das mesas infantis enquanto comia espaguete ankake era uma experiência… bem surreal.
Observei Komari cuidando da Hina-chan, e, quando percebeu que eu estava olhando, ela me lançou uma expressão confusa.
— Q-Que foi? Você não vai c-comer?
— Komari, troca comigo. Você ainda não comeu nada.
— E-Eu tô bem. Você cuida do Susumu.
— Nee-chan, eu sei comer sozinho! — reclamou Susumu-kun, inflando as bochechas enquanto colocava na boca um croquete de creme que vinha como acompanhamento.
Estávamos comendo o famoso espaguete ankake do Chao, um dos restaurantes mais conhecidos de Toyohashi. Era ótimo eles terem uma unidade na praça de alimentação, mas, caramba, as porções de massa daquele lugar eram gigantescas.
Komari e Susumu-kun estavam dividindo um prato entre os dois, enquanto Hina-chan tinha pedido o menu infantil.
Sinceramente, nem eu tinha certeza de que conseguiria terminar o meu. Será que Yanami não podia passar por aqui magicamente?
Enfiei mais uma garfada de massa fumegante na boca.
— Olha! — Hina-chan começou a tirar alguma coisa de uma sacola plástica. — Esse pijama tem as mesmas estrelas do da Nee-chan!
— E-Ei, termina de comer p-primeiro. Olha, você está com m-molho no rosto.
Komari limpou a boca da Hina-chan enquanto eu enrolava no garfo um pedaço de massa levemente queimado.
Isso… não é simplesmente um passeio normal de família no fim de semana? Então por que diabos eu estou no meio disso...?
Coloquei o restante da massa na boca, ainda tomado por aquela estranha sensação de estar vivendo algo completamente surreal.
◇
Terminamos as compras, almoçamos e, com todos os nossos compromissos resolvidos, de algum jeito acabamos… no fliperama ao lado.
Encostei-me em uma máquina de garra e esfreguei a barriga estufada.
— Eles têm bastante energia, hein? — murmurei, observando os pequenos correrem de uma máquina para outra.
— N-Na verdade, hoje eles estão até se s-segurando um pouco... porque você está aqui...
...Sério? Cara, Komari, sua vida é difícil.
Ainda assim, enquanto observava as crianças correndo de um lado para o outro, um sorriso suave e genuíno surgiu no rosto de Komari.
— M-Mas... eu fico feliz. Parece que eles estão se d-divertindo.
— Então acha que eles gostaram do passeio?
Komari assentiu levemente.
— O-O papai teve que ir trabalhar de última hora, e-então nossos planos foram cancelados... A Hina até começou a chorar...
— Ah, então hoje eu estou fazendo o papel do pai, hein.
— Q-Quê—?!
Komari engasgou, ficando completamente vermelha. Preparei-me para a inevitável facada verbal no estômago que minha boca idiota costumava me render, mas ela apenas ficou parada ali, tremendo em silêncio.
— Hã, eu não quis dizer nada estranho com isso, tá?
— I-Idiota.
Ela virou o rosto de uma vez, emburrada. É. Mandou bem, Nukumizu. Mandou muito bem.
De repente, os dois pequenos tornados vieram correndo na nossa direção.
— Nee-chan, Nee-chan! Vamos jogar aquilo! Somos exatamente quatro pessoas!
— Eeh, aquilo...? T-Tá bom, só uma vez!
— Aquilo o quê?
— Ali!
— Nukumizu, vem por aqui—!
Os pequenos me arrastaram e, quando percebi, estávamos diante de uma mesa de air hockey. Arqueei uma sobrancelha.
— Nós quatro vamos jogar?
— Q-Que foi? Já está a-amarelando? — provocou Komari, com um sorriso convencido, como se tivesse sido ela mesma quem inventou o air hockey.
Ah? Guerra, é? Muito bem. Guerra é o que você vai ter, Komari.
Estalei os dedos e me alonguei um pouco enquanto Susumu-kun se posicionava ao meu lado.
Garotos contra garotas, hein?
— Tem certeza de que não querem uma vantagem? — provoquei.
— T-Tenho — retrucou Komari. — Talvez você é que precise de uma.
Clinc. Moeda inserida. Hora do show.
— A Nee-chan é muito boa — avisou Susumu-kun, ficando repentinamente sério.
É verdade. Ela já tinha se gabado disso uma vez, não tinha? Ah, quão boa ela poderia ser? Talvez só comparada aos irmãos.
O disco deslizou para fora.
Devagar… na direção do lado de Komari...
Observei enquanto ele se aproximava.
Mais perto.
Mais perto.
E então—
PÁ!
Direto para dentro do meu gol. Antes que eu sequer conseguisse piscar.
— Mas o quê?! Eu nem vi isso!
— Eu avisei! Lá vem outro!
Outro? Não era a minha vez de sacar agora? Ou pelo menos foi o que pensei, até a máquina começar a cuspir discos como uma maldita pipoqueira possuída.
Enquanto eu ainda tentava compreender mentalmente o absurdo completo daquela situação — isso ainda podia ser chamado de air hockey? —, disco após disco passou direto por mim e entrou no gol.
— Bloqueia, Nukumizu! — gritou Susumu-kun.
— Bloquear o quê?! Eu nem consigo ver eles!
A partida terminou, e o placar piscou: 870 a 120.
Chamar aquilo de massacre seria pouco. Aquilo nem parecia um placar. Parecia a cena de um crime.
As irmãs Komari bateram as mãos em comemoração pela vitória, enquanto Susumu-kun deu um tapinha consolador no meu ombro.
— Não fica mal. Você fez o seu melhor, Nukumizu-nii-chan.
Sendo consolado por um aluno do quarto ano. Você é bondoso demais, Susumu-kun. Já o sorriso convencido da Komari… esse atravessou minha alma.
— Komari. Me diz onde fica a máquina de trocar dinheiro.
Saquei uma nota de mil ienes. Ela bufou pelo nariz.
— V-Você acha que isso vai ser suficiente? — perguntou, nada impressionada.
— Não se preocupa. Ainda tenho o Shibusawa Eiichi esperando no banco de reservas.
Pelo bem da minha dignidade, não vou entrar em detalhes sobre o que aconteceu depois. Mas vou dizer só isto: no fim, minha Shibusawa-san reencarnou em alguns Kitasato-senseis.
(N/SLAG: Shibusawa Eiichi=é o rosto da nota japonesa de dez mil ienes. Kitasato Shibasaburou, chamado por Nukumizu de "Kitasato-sensei", é o rosto da nota japonesa de mil ienes. Ele perdeu tantas vezes que praticamente estraçalhou sua nota de dez mil em notas menores, de mil)
◇
Existe uma teoria de que crianças de quatro anos têm energia infinita. Não sei se é verdade, mas elas definitivamente têm um botão de desligar. E, quando ele é acionado, desabam num sono tão profundo que parecem até mortas.
Nós quatro estávamos espremidos na última fileira de um ônibus seguindo em direção ao distrito atacadista. Hina-chan, aninhada em meus braços, já tinha apagado completamente.
Do outro lado, Susumu-kun estava sentado com Komari entre nós, os olhos fechados enquanto balançava suavemente junto com o movimento do ônibus.
— E-Ela não está muito pesada, e-está? — perguntou Komari, espiando Hina-chan.
— Nah. Estou acostumado a ficar com a Kaju no colo o tempo todo. Hina-chan parece uma pluma.
— D-Devolve a Hina.
...O que foi que eu fiz?
Dei leves tapinhas nas costas da Hina-chan enquanto a observava dormir. Então Komari murmurou baixinho:
— O-Obrigada por hoje.
— Bom, eu fui quem quis jogar air hockey mesmo.
— M-Mas você passou o dia inteiro com a gente.
Ah, era disso que ela estava falando? Não era exatamente algo que merecesse agradecimento, mas tudo bem. Eu aceito.
O ônibus estava estranhamente silencioso, e o balanço lento fazia minhas pálpebras ficarem cada vez mais pesadas.
— O Susumu mima demais a Hina — disse Komari, afastando a franja dele do rosto enquanto dormia. — I-Isso é um problema.
Mas o sorriso gentil em seus lábios parecia dizer o contrário. Sentindo o peso da Hina-chan no colo, perguntei:
— O Susumu-kun vai ficar bem? Ele disse que estava economizando para comprar um jogo, mas o brinquedo da Hina-chan provavelmente era caro, não era?
— T-Todo mundo mima a Hina — Komari sorriu de maneira tranquilizadora. — Então, se eu n-não mimar um pouco o Susumu, quem vai?
Foi aí que percebi. Na escola, Komari podia até ser o mascote do nosso clube. Mas, ali, ela era a irmã mais velha deles. Olhei pela janela para uma placa em formato de caranguejo que passava lá fora.
— Aliás — finalmente perguntei aquilo que vinha incomodando minha cabeça —, você não disse que queria conversar comigo sobre alguma coisa hoje?
Ontem à noite, ela tinha dito isso com os olhos carregados de preocupação. Eu estava meio distraído, ocupado demais me preocupando com a bronca que levaria, mas não dava simplesmente para esquecer.
Komari fez uma pausa e olhou para o rosto adormecido de Susumu-kun.
— E-Eu achei que queria... mas agora está tudo bem.
— Era sobre a eleição do Conselho Estudantil, não era?
Tentei incentivá-la a falar, mas ela balançou suavemente a cabeça.
— E-Eu não confio em você... mas acredito em você.
(N/SLAG: A frase em japonês é 信用してないけど、信じてる (Shinyou shitenai kedo, shinjiteru) quer dizer mais ou menos isso: Komari não confia muito no Nukumizu pela lógica, mas, no fundo, acredita nele. É a diferença entre confiar pela razão e confiar pelo coração.)
Sua expressão se suavizou enquanto ela acariciava o cabelo de Susumu-kun. Então—
— P-Porque você disse que estaria s-sempre lá por mim.
Clanc.
O ônibus deu um solavanco, e o silêncio voltou a nos envolver. O alto-falante anunciou a próxima parada, mas ninguém desceu. O ônibus seguiu adiante.
— Eu sou tão pouco confiável assim? — brinquei.
A expressão atrevida de sempre voltou ao rosto de Komari.
— V-Você é bem fácil de enganar, sabia?
Na parada seguinte, um passageiro desceu, deixando apenas o motorista e nós. O ônibus voltou a andar. Nossa parada já estava chegando.
— E-Ei... você... foi para a casa da B-Basori?
Como ela—
Ah, é. Basori-san tinha deixado escapar isso na sala outro dia.
— Eu só fui buscar uns produtos da Chikapyon... e, hã, o irmãozinho dela também estava lá.
Não era mentira. Embora ela ainda não tivesse me dado os produtos.
— E-Ela também foi... na sua casa?
— O quê? Nah, ela nunca chegou nem perto da minha—
...Espera. Tecnicamente, ela já foi. Mas foi como convidada da Kaju, não minha. Desviei o olhar de Komari, que me encarava desconfiada, enquanto procurava desesperadamente uma desculpa.
— Ah, mas não se preocupa. Só você chegou a ficar de molho na banheira. Yakishio só usou o chuveiro.
— M-Morra.
Ela está mesmo aproveitando que os irmãos estão dormindo, hein. Foi então que a Hina-chan se mexeu e abriu os olhos sonolentos. Ela olhou para mim.
— Nukumizu? Cadê Nee-chan?
— E-Eu estou aqui.
— Quero Nee-chan...
Ainda meio adormecida, Hina-chan estendeu os braços para Komari. O ônibus tinha parado, então Komari aproveitou para pegá-la dos meus braços. Ela a ergueu e ajustou a posição para deixá-la confortável.
— Você está bem? — perguntei.
— S-Sem problema. Susumu, a gente vai descer logo. A-Acorda.
Susumu-kun esfregou os olhos sonolentos.
— Eu acordei faz tempo...
Quando o ônibus parou, ele foi o primeiro a se levantar. Ele era um garoto meio seco, mas tive a impressão de que aquele dia tinha nos aproximado um pouco.
Quer dizer, sim, existe uma diferença grande de idade, mas acho que isso é coisa de homem.
Assim que descemos do ônibus e começamos a caminhar juntos—
PÁ!
Susumu-kun de repente me acertou na cintura.
— Hã? Por que isso?
— Nukumizu, seu idiota!
— ?!
Ele me bateu de novo e saiu correndo.
— E-Ei, Susumu! — chamou Komari, repreendendo-o. Susumu-kun se virou, mostrou a língua e gritou:
— Nukumizu, seu idiota! Touhenboku!
E, com isso, disparou na direção de casa. Hã… Que diabos deu nele? Fiquei ali parado, perplexo, e Komari me lançou um olhar constrangido.
— D-Desculpa. Vou dar uma bronca nele q-quando chegarmos em casa.
— Nah, não precisa. Mas o que foi aquilo afinal?
Inclinei a cabeça. Komari me lançou um olhar que claramente dizia que queria explicar, mas não faria isso.
— M-Mas você também teve culpa.
Ah. Então eu também fiz besteira… Claro que fiz...
— Espera, não, como assim? O que eu fiz de errado?
— D-Descobre sozinho.
Komari se virou e saiu marchando na frente.
◇
Com o fim de semana terminado, agora era segunda-feira, e eu estava sentado à mesa de pedra no pátio para minha reunião habitual depois das aulas com Tiara-san. No fim de semana passado, passei um tempo longe do trabalho com minha famí—
Espera, hã, errado. No fim de semana passado, saí com a família Komari, e todos nós nos divertimos bastante. Então hoje deveria ser um dia igualmente tranquilo. Mas, nesse caso, por que diabos Susumu-kun tinha reagido daquele jeito na volta?
"Touhenboku" significa alguém insensível, meio cabeça-dura. Mas por quê? Será que isso era simplesmente uma coisa da família Komari? Tipo algum ritual em que eles jogam insultos em você na hora de se despedir...?
Tiara-san limpou a garganta.
— Nukumizu-san, você está ouvindo?
— Ah, desculpa. Do que a gente estava falando?
— Do cronograma daqui para frente. Daqui a uma semana teremos a apresentação das propostas e a exposição dos cartazes eleitorais. Depois, na semana seguinte—
— É o dia da votação, certo?
— Sim.
Tiara-san assentiu com firmeza.
— Haverá os discursos dos candidatos e os discursos de apoio dos responsáveis pelas indicações, seguidos imediatamente pela votação. É fácil imaginar que a qualidade dos discursos afetará diretamente o resultado, então é absolutamente necessário coordenarmos o conteúdo deles para obter o melhor resultado possível.
— Mas eu só estou ajudando. Não sou seu apoiador oficial.
— Sim, eu sei.
Tiara-san assentiu seriamente.
— Ouvi de Shikiya-senpai que você poderia ser convencido se eu insistisse o suficiente, então pensei em tentar apelar para o seu emocional.
...Ela estava apelando para o meu emocional?
— Isso não vai funcionar tão fácil comigo, tá? Enfim, primeiro devíamos começar preparando suas propostas de campanha.
— Eu já fiz um rascunho.
Tiara-san me entregou várias folhas de papel. Nelas havia listas longas e detalhadas de pedidos dos alunos que ela tinha coletado durante as entrevistas, além de referências a regras escolares e regulamentos locais relacionados...
Era muita coisa.
— O Conselho Estudantil realmente consegue fazer tudo isso?
— É claro que, na prática, não temos autoridade nem orçamento para realizar tudo isso. Mas podemos encaminhar solicitações aos professores. O importante é compartilhar as opiniões dos alunos.
Ela folheou o rascunho nas minhas mãos. Embora pudesse simplesmente ter me pedido.
— Já me disseram que meu jeito de escrever acaba parecendo rígido e difícil de entender. Seria útil ter por perto alguém bom com as palavras... mas não consigo pensar em ninguém.
Não consegue? Certo. Por pura coincidência, a pessoa sentada ao seu lado faz parte do Clube de Literatura.
Literatura.
— Hã, e se você pedisse ajuda aos senpais do Conselho Estudantil? — sugeri, contendo a vontade de apontar para mim mesmo.
A expressão de Tiara-san endureceu.
— Não pretendo depender dos senpais. Essa é a minha própria batalha.
Percebendo o tom mais duro que tinha usado, ela tossiu e corrigiu:
— Além disso, como Sakurai-kun também está concorrendo, não quero deixar as coisas constrangedoras.
Claro. A presidente e a Shikiya-san viam Tiara-san e Sakurai-kun como kouhais queridos. Independentemente de escolherem um lado ou serem chamados para ajudar, aquilo provavelmente seria desconfortável para elas.
— Não há dúvida de que ele é muito mais popular. É exatamente por isso que é importante perguntar a todos sobre o futuro da nossa escola—
— Espera aí.
Tiara-san endireitou a postura, atenta.
— Sim, Nukumizu-san?
— É que... este lugar é meio exposto. Quer dizer, as pessoas das outras salas e da sala dos professores conseguem ver a gente. Não seria melhor conversar em algum lugar fechado?
Tiara-san piscou, surpresa com a minha pergunta.
— Como já disse antes, este lugar fica longe o suficiente dos corredores e dos prédios principais, então não há risco de alguém ouvir nossa conversa. Eu diria que é perfeito para discutir estratégia de campanha.
Pensando bem, quando ela me deu aquele cachecol, também me chamou para o meio do lago, não foi? Quer dizer, eu entendo o argumento dela, mas os olhares dos alunos que passam por aqui realmente distraem.
— Então, vamos continuar. Primeiro, vamos reunir apoiadores por meio do discurso de propostas e publicar as opiniões no mural—
— Espera. Acabei de receber uma mensagem.
Peguei o celular, agradecido pela interrupção, e congelei ao ver quem tinha enviado.
Na tela, havia uma mensagem de Komari.
"Venha para o corredor do segundo ano. AGORA."
◇
Seguimos pelo corredor do segundo ano e imediatamente demos de cara com uma muralha de gente. E digo isso literalmente — umas doze pessoas estavam amontoadas em volta do mural como se ele fosse o último bote salva-vidas do Titanic.
Normalmente, aquele corredor virava uma cidade fantasma depois das aulas, então, naturalmente, meu primeiro pensamento foi: Que diabos está acontecendo?
Parei sem jeito na beirada da multidão, tentando não tropeçar nos próprios pés, quando Tiara-san de repente se lançou de cabeça no meio do povo com uma força impressionante.
— Com licença! Poderiam nos deixar passar? — bradou ela, abrindo caminho entre as pessoas.
Segui pela passagem que ela criava, admirado com a ousadia. Então. O que havia de tão importante para precisarmos atravessar uma multidão desse jeito?
— N-Nukumizu!
— Guh?!
PÁ!
Do nada, alguma coisa — correção, alguém — acertou minha barriga vindo do meu ponto cego. Meu estômago fez questão de me lembrar, bem alto, de que colisões doíam.
Olhei para baixo e encontrei Komari parada ali.
— O-O que aconteceu...? — perguntei, sem fôlego.
— E-Eu fiquei presa na multidão e... n-não conseguia sair...
As mãos trêmulas dela tinham se agarrado à minha gravata. A coisa que estava em volta do meu pescoço.
Comecei a disputar com Komari o controle do meu próprio acessório quando Tiara-san, demonstrando um senso de oportunidade verdadeiramente impecável, puxou minha manga de repente.
— Nukumizu-san, olhe!
Segui o dedo dela até o mural. Bem no centro, havia uma única folha de papel mais ou menos do tamanho de uma página de jornal.
"Tsuwabuki Times, Edição Especial da Eleição do Conselho Estudantil...?"
Tá? O que tem para ver? É só mais uma matéria sobre a eleição.
Esse pensamento foi assaltado, espancado e jogado numa vala no instante em que meus olhos encontraram a manchete.
"Eleição do Conselho Estudantil: na verdade, um campo de batalha amoroso disfarçado?!"
..Mas que porra é essa? Não, sério. Do que isso está falando?
A eleição deste ano para o Conselho Estudantil se desenrola em meio a uma complicada teia amorosa centrada em uma deslumbrante aluna do segundo ano — e em um estudante conhecido por sua reputação como "inimigo das mulheres", um destruidor de corações em série famoso por brincar com os sentimentos de várias alunas.
Ah, esse deve ser Sakurai-kun. Aquele cara é popular mesmo.
Além disso, uma das candidatas à presidência estaria usando a promessa do cargo de vice-presidente como isca para atrair a atenção de certo rapaz.
Espera aí… Será que—
O rosto da Tiara-san pegou fogo de tão vermelho. Sério. Acho que até vi fumaça. A vermelhidão desceu até o pescoço como se alguém tivesse derramado um balde de tinta nela.
— I-Isso não é verdade! NÃO foi com essa intenção que eu me aproximei dele! — gritou ela, tremendo de vergonha e raiva.
— Claro que eu sei. Sim, eu sei, eu sei.
— Não, você claramente não entende nada, ENTENDE?! Além disso, isso é culpa SUA, Nukumizu-san! Você vive fazendo comentários sugestivos e bagunçando a minha cabeça—
Hã? Por que eu estou envolvido nisso...? Olhei para Komari, que assentia solenemente enquanto ainda usava minha gravata como âncora.
— Tá bom, tá bom! Estamos em público! Fala mais baixo, por favor!
Meu Deus, esses olhares estão doendo...
Enquanto tentava desesperadamente acalmar Tiara-san, continuei lendo o jornal da escola.
A matéria dizia ainda que o famigerado "inimigo das mulheres" supostamente tinha até roubado a popular beldade do segundo ano, a "A-san", do antigo capitão do time de basquete, apenas para brincar com os sentimentos dela e depois descartá-la.
E, pelo visto, agora ele estava mantendo um caso duplo entre uma integrante do Conselho Estudantil e uma garota do primeiro ano que tinha escolhido como sua nova presa.
Cara.
Sakurai-kun.
Eles estão indo direto na jugular.
Enquanto eu lia aquilo com certa solidariedade, a matéria terminou abruptamente. Logo abaixo, em letras vermelhas e grossas:
"CONTINUA NA INTERNET!
Compre o restante pelo site do Clube de Jornalismo!"
Encarei as letras góticas carmesim e murmurei, mais uma vez, o pensamento recorrente daquele dia:
— O que tá acontecendo….?
📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag e revisado por Shisui
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