Todas Essas Heroínas Perdedoras! — Capítulo 97: Volume 8 – Capítulo 3 – Capítulo 3: Um Coro Carmesim de Caos

Todas Essas Heroínas Perdedoras!
Cap. 97
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Todas Essas Heroínas Perdedoras!

Volume 8 – Capítulo 3 – Capítulo 3: Um Coro Carmesim de Caos

Capítulo 97

17.046 palavras~74 min de leitura

DURANTE A SEMANA SEGUINTE, o mundo finalmente resolveu me deixar em paz.

Nada de drama. Nada de caos. Foi tão... tranquilo que as últimas semanas poderiam muito bem ter sido apenas um sonho febril do qual eu finalmente tinha acordado.

Tiara-san e Sakurai-kun passaram a semana se preparando para o festival esportivo, a última grande tarefa do Conselho Estudantil.

E, sem mais delongas, o fim de semana chegou. Hoje era domingo, eu estava no Estádio de Atletismo de Nagoya com Yanami e Komari. Pegamos um trem na Estação de Toyohashi, fizemos baldeação para o metrô e, depois de mais uns doze minutos, chegamos ao estádio onde aconteceria a competição de atletismo.

Yakishio estava competindo no Campeonato de Atletismo Escolar da Região de Toukai — a seletiva do Inter-High para o campeonato nacional.

Mais cedo, ela tinha destruído as eliminatórias dos 1.500 metros com o melhor tempo de todas. Agora, tudo o que precisava fazer era terminar entre as seis primeiras. Com isso, estaria classificada para o nacional.

As arquibancadas não estavam tão cheias. Komari estava sentada entre Yanami e eu, com as mãos entrelaçadas e uma expressão extremamente preocupada.

— A-A Yakishio vai ficar b-bem, né...?

— Vai ficar — respondeu Yanami, completamente despreocupada, enfiando um punhado de pipoca na boca. — Lemon-chan é rápida.

— M-Mas todo mundo a-aqui é rápido... — guinchou Komari.

Infelizmente, era um argumento bastante válido.

Mas sua lógica foi interrompida pelo som de passos descendo as escadas. Komari se endireitou num pulo e olhou por cima de mim, em direção à entrada. Segui seu olhar e avistei uma convidada bastante… inesperada.

A pessoa examinou as arquibancadas, passando os olhos de rosto em rosto até finalmente nos encontrar. Seus olhos se arregalaram em reconhecimento e ela — sim, ela — abriu um enorme sorriso, acenando freneticamente com uma das mãos acima da cabeça.

— Desculpa, desculpa! Estou atrasada, né?

Não era ninguém menos que nossa querida ex-integrante do Clube de Literatura. A única e inigualável Koto Tsukinoki. Por um instante, parecia que tínhamos voltado aos velhos tempos.

— S-Senpai!

Komari não perdeu nem um segundo. Saiu correndo e praticamente saltou para dentro do espaço pessoal da Tsukinoki-senpai, agarrando as mãos dela.

Yanami e eu fomos atrás, mas, antes que pudéssemos nos juntar às duas—

— Ei, pessoal.

O Rosto Familiar Número 2 surgiu pela escada logo atrás dela. Tamaki-senpai, nosso antigo Presidente, sorriu.

— Faz tempo, hein?

Depois dos inevitáveis "como vocês estão?" e afins, Tamaki-senpai se jogou no assento ao meu lado, enquanto nós dois observávamos as garotas mergulharem numa sequência de gritinhos animados e conversas empolgadas.

— E aí, como está a faculdade? — perguntei.

Ele soltou um gemido dramático.

— Tô me segurando por um fio, cara. Ninguém me avisou que eu ia me afogar em trabalho tão cedo. Tem sido laboratório, relatório, laboratório, relatório... E isso é só o primeiro ano.

— Então imagino que você não tenha muito tempo para anime e light novels, né?

— Quem disse isso? — retrucou ele, abrindo um sorriso. — Tô te falando, morar sozinho é o auge absoluto da liberdade. Eu prefiro chamar de "autorresponsabilidade", claro. Olha só: anime? Assisto enquanto faço os relatórios. Mangá e light novel? Fácil, é só não dormir!

Os olhos dele brilharam, e seus punhos se fecharam de empolgação.

— Dá pra pendurar pôsteres e banners em qualquer lugar! Parede, porta, droga, até o teto serve! Ninguém reclama! Quer uma dakimakura? Vai fundo!

(N/SLAG: dakimakura=aqueles travesseiros gigantes que tem algum personagem)

— E sua namorada não se importa com tudo isso?

Os olhos dele ficaram vazios.

— Cara — disse, num tom sério demais. — O quarto da Koto faz o meu parecer minimalista. Imagina só: você abre a porta e dá de cara com paredes cheias de caras seminus te cercando. Sempre dois por pôster, como se estivessem encarando a alma um do outro. E ela vive deixando CD de drama BL tocando no fundo, como se administrasse um café yaoi ou alguma coisa assim.

Hã. Então os dois têm um ninho de amor. Acho que essa é uma forma de se exibir.

— Pelo jeito, as coisas estão indo bem.

— Mais ou menos — respondeu ele. — E você, Nukumizu?

— Eu o quê?

Tamaki-senpai se inclinou para mais perto.

— Por que você ainda é... você? Como é que você realmente não avançou com ninguém até agora? Espera, não me diga... talvez seja aquela caloura nova de quem estão falando?

— Não avancei com ninguém, muito obrigado. Ninguém nem lembra que eu sou um garoto.

Ri para disfarçar, mas então pisquei e perguntei de volta:

— Espera, você sabe da nova integrante do clube?

— Sei. Ouvi dizer que ela é um talento e tanto. Ela não vem hoje?

Ah, ela é um talento mesmo. Só não sei se do tipo bom. Falando nisso, ela não tinha dito que estaria aqui antes das finais? Examinei as arquibancadas e, como se tivesse sido invocada pelo pensamento, vi nosso "talento" aparecer no topo da escada.

— Presideeeente! Desculpa o atrasooo!

Shiratama-san veio apressada, acenando.

— Tudo bem. A corrida ainda não começou.

……..

................

É. Shiratama-san definitivamente não nasceu para velocidade. Várias eras geológicas depois, ela finalmente parou na minha frente, pressionando uma mão contra o peito enquanto puxava o ar com dificuldade.

— Hehe, corri assim que cheguei porque queria vir dar oi para você o quanto antes — disse ela, radiante.

Então seus olhos se arregalaram ao notar Tamaki-senpai.

— Ah! Você deve ser o Tamaki-senpai, certo? Prazer em conhecer! Eu sou a Riko Shiratama.

— Ah, prazer também. Sou Tamaki. Eu fazia parte do Clube de Literatura até o ano passado. E ali está a Tsukinoki—

As mãos dela dispararam e agarraram as dele.

Mãos.

Entrelaçadas.

— Quê—?!

— Ah, será que você deixou suas chaves caírem? Aqui!

Ela colocou as chaves na palma dele.

— Ah, hã... Acho que deixei mesmo. Obrigado.

— Ufa, essa foi por pouco! Ainda bem que eu não sou uma garota má!

Ela sorriu para ele com toda a inocência do mundo, ainda mantendo a mão dele aprisionada.

— Se eu fosse, talvez tivesse entrado escondida na sua casa, sabia?

— Haha, bom… — um sorriso começou a surgir no rosto dele. — Acho que uma garota como você provavelmente seria mais do que bem-vinda...

Acreditem em mim quando digo que ele não tinha percebido o que acabara de falar.

Mesmo assim, o sorriso escapou. E ele tentou — sem sucesso algum — escondê-lo de volta.

Miseravelmente. Eu só consegui ficar encarando, atônito.

— Então... — Tsukinoki-senpai se enfiou abruptamente entre os dois. — Você é a Shiratama-san? Prazer em conhecer. Eu sou uma das ex-integrantes do clube—

— Uau, então você deve ser a Tsukinoki-senpai! Ouvi falar tanto de você!

Shiratama-san soltou a mão do Tamaki-senpai e fez uma reverência perfeita e educada.

— Ah, mas duvido que alguma coisa que você tenha ouvido tenha sido boa...

— Não, sério! Você é ainda mais bonita do que dizem! Todas as senpais do Clube de Literatura são. Isso me deixa até meio nervosa.

— S-Sério...?

E lá se foi a Tsukinoki-senpai. Mais uma abatida. O silêncio pairou de forma constrangedora no ar.

Shiratama-san inclinou a cabeça, curiosa.

— Aconteceu alguma coisa? Por que a gente não senta e conversa?

◇

Depois de uma rápida parada no banheiro, voltei para as arquibancadas bem quando a final feminina dos 400 metros estava prestes a começar. A corrida da Yakishio ainda demoraria uns vinte minutos, mas, por algum motivo, até eu já estava começando a ficar nervoso...

Enfim, eu estava voltando para o meu lugar quando um braço surgiu do nada e se jogou sobre meus ombros.

— E aí, Nukumizu-kun!

— Ah, oi.

O braço, identificado, pertencia a Tsukinoki-senpai, que aparentemente estava… me esperando de tocaia assim que eu saísse do banheiro. Pensando por meio segundo, talvez isso nem fosse exagero.

— Eu fiquei sabendo — começou ela, enquanto seus óculos davam aquele brilho ameaçador de sempre. — Você anda aprontando alguma coisa com a Basori-chan ultimamente, não é?

— Hã, bem. Só estou ajudando um pouco com a eleição.

— Então, se ela ganhar, você pretende entrar para o Conselho Estudantil?

— Não pretendo.

Escapei debaixo do braço dela.

— Você foi vice-presidente no segundo ano, né? Como foi a eleição naquela época?

— Meio complicada. Nossa presidente era ótima em não ser confiável. Ela me arrastou para aquilo, mas praticamente não fez nada durante a campanha.

— Ai. Então você teve que cuidar sozinha de toda a preparação?

Tsukinoki-senpai balançou a cabeça.

— Não. Eu também não fiz absolutamente nada. Minha única contribuição foi o discurso de apoio.

— Hã? Você está me dizendo que vocês venceram só com um discurso?

— Pois é, acredite se quiser. Inclusive lembro de um monte de professores me cercando depois que terminei o discurso. Ah, que saudade.

...O que você fez?

Decidi que algumas perguntas era melhor deixar sem resposta. Ela se recostou, com uma expressão nostálgica.

— Pensando bem, eu me pergunto por que a presidente me chamou para entrar no Conselho Estudantil. Minhas notas eram péssimas. E os professores também não gostavam exatamente de mim.

— Aham...

E então ela — obviamente — se recusou a explicar mais e deixou o silêncio pairar. Em vez disso, voltou o olhar para a pista. Segui sua direção bem a tempo de ver a pobre alma em último lugar cruzar cambaleando a linha de chegada dos 400 metros.

Mesmo dentro da mesma pista, existem vencedores… e perdedores.

Fiquei olhando distraidamente.

— Então, o que você pretende fazer, Nukumizu-kun? Depois da eleição?

— Hã?

Eu juro que já respondi isso, não respondi? Eu não ia entrar para o Conselho Estudantil.

Fiquei tentando entender o que ela queria dizer, mas Tsukinoki-senpai acabou apenas abrindo um sorriso.

— Desculpa, foi uma pergunta estranha. Vamos, é melhor voltar para os outros.

— Ah, é. Já está quase na hora.

Começamos a voltar. Ou melhor, estávamos voltando, até a mão dela surgir de repente e destruir completamente meu cabelo.

— Ei, qual é! Para com isso!

— As coisas só vão ficar mais difíceis daqui para frente, Nukumizu-kun. Aguenta firme.

Não, obrigado. Já estão difíceis o suficiente.

Afundei os ombros sob o ataque implacável dela ao meu cabelo, aceitando meu destino interminável.

◇

Logo chegou o motivo de todos estarmos ali: a final feminina dos 1.500 metros. Yakishio estava posicionada na raia cinco quando seu nome ecoou pelos alto-falantes do estádio.

Ela levantou uma das mãos e fez uma reverência calma em reconhecimento. Havia uma maturidade na maneira como se comportava. Algo que não existia no dia em que tinha corrido contra mim.

A diferença era clara. Eu conseguia enxergar. O silêncio caiu sobre a multidão. Todos prendemos a respiração.

...Hã, Shiratama-san está cheirando muito bem hoje. Será que trocou de perfume de novo...?

— Às suas marcas.

O anúncio me arrancou dos pensamentos, ecoando pelos alto-falantes. Todas as atletas na pista se moveram, inclinando o corpo para a posição de largada.

Silêncio.

Então————

BANG.

Yakishio disparou para a frente junto com o estampido da pistola. A liderança foi instantânea. Os integrantes do Clube de Atletismo do Colégio Tsuwabuki, sentados nas primeiras fileiras, explodiram em gritos de torcida.

Yanami e as garotas do Clube de Literatura também se levantaram, gritando junto com eles. Ao meu lado, Komari mantinha as mãos apertadas contra o peito, os lábios comprimidos numa linha fina e preocupada.

Ela assistia em silêncio. Não havia estratégia. Não havia posicionamento. Só ela. Ela, cujo ritmo ficava cada vez mais rápido. Yakishio devorava a pista como se fosse dona dela, aumentando cada vez mais a distância para as outras corredoras.

"Eu vou para o nacional."

Foi o que ela tinha dito naquela época. Naquele dia, na enfermaria. Yakishio. Desajeitada. Sem jeito. E — surpreendentemente frágil — considerando o quanto sempre parecia forte. Mas era justamente por tudo isso que eu podia dizer com absoluta certeza: Ela era a pessoa mais forte que eu conhecia.

Última volta.

A distância entre ela e a segunda colocada era absurda. A única coisa que restava diante dela era a linha de chegada. Quando percebi, eu também já estava de pé, gritando o nome dela a plenos pulmões.

A vitória era óbvia, mas eu não conseguia conter aquela estranha onda de emoções. Ao meu lado, Komari também saltou de pé, torcendo com uma voz aguda e trêmula. Yakishio atravessou a linha de chegada com sólidos dez segundos de vantagem.

Ela diminuiu o ritmo, parecendo vagamente irritada com toda aquela situação, mas ainda conseguiu erguer o punho esquerdo numa comemoração firme e triunfante em direção às nossas fileiras.

— E-E-Ela conseguiu! Incrível! — guinchou Komari, se lançando mais ou menos na minha direção.

Eu já estava com os braços abertos, mas, é claro, o sistema interno de pânico dela foi ativado no último segundo, fazendo-a desviar e se agarrar… à Yanami.

É. Claro. Eu devia ter previsto.

Fiquei abraçando o vazio mais absoluto, com os braços inutilmente estendidos enquanto observava as duas pularem juntas de alegria. Tamaki-senpai bateu no meu ombro, sorrindo.

— Se algum dia você precisar de um peito para se jogar, o meu estará disponível.

— Cheguei a pensar nisso, mas vou passar.

Rimos feito idiotas, ainda tomados pela adrenalina do momento, quando—

— Meu peito também está livre, sabia?

Shiratama-san abriu bem os braços diante de nós.

……..

Sério mesmo?

Infelizmente, o único segundo que passei processando minha absurda sorte me custou caro. Tsukinoki-senpai surgiu por trás e pegou a Shiratama-san nos braços como uma princesa.

— Vem comigo! A onee-san vai preencher esse vazio no seu coração!

— U-Uau! Tsukinoki-senpai, você é tão forte! Hã... mas para onde exatamente a gente está indo?

...E, assim, Shiratama-san foi levada embora. Bom. Acho que agora eu sei o que aconteceu com todas as garotas que tentaram dar em cima do Tamaki-senpai.

Antes mesmo que eu recuperasse o fôlego, uma pequena figura veio correndo até nós.

Asagumo-san.

— Ela conseguiu! Lemon-san é incrível! — gritou ela, com a testa brilhando sob a luz do sol enquanto socava o ar.

— Você também veio, Asagumo-san? Yakishio foi incrível, né?

Emocionada demais para falar, ela apenas assentiu freneticamente antes de se virar e sair correndo de novo.

...Inquieta como sempre. Espera. Se ela está aqui, então isso significa—

Asagumo-san correu de volta até um Ayano muito emocionado, que enxugava os olhos com um lenço. Eu entendo, cara. Entendo mesmo. Mas bem na frente dela?

Senti vergonha alheia por Asagumo-san.

Enquanto nós ainda estávamos dominados pela emoção, a prova masculina dos 1.500 metros já tinha começado. A competição estava quase no fim. Como todos os atletas do Colégio Tsuwabuki já tinham terminado suas provas, agora só restava colher os doces frutos da vitória.

Afundei de volta no banco, com o coração ainda batendo num ritmo irregular contra as costelas.

Yakishio tinha conseguido. Exatamente como disse que conseguiria. Ela tinha esmagado a concorrência e garantido sua vaga no campeonato nacional à pura força de vontade.

Talvez aquela declaração ousada dela não tivesse sido tão absurda assim.

— Uau, Lemon-chan foi rááápida! — Yanami se jogou no banco ao meu lado, segurando um saco de pipoca e exibindo seu sorriso despreocupado de sempre.

— Rápida nem começa a descrever. Droga, com esse tempo ela poderia ter subido ao pódio no nacional do ano passado.

— Oooh, essa é a nossa Lemon-chan.

Ela enfiou alegremente mais um punhado de pipoca na boca.

— Então, quantas vitórias ainda faltam para ela chegar ao nacional?

……..

Fiquei encarando Yanami. Olhos límpidos e brilhantes encararam de volta.

— Aquilo foi ela chegando ao nacional. Ela acabou de se classificar.

— Hã… — ela mastigou pensativa. — Espera, hã?! Quer dizer que aquela era a final?! Uau, Lemon-chan é rápida pra caramba!

— É. Ela é incrível — respondi com um sorriso paciente, assumindo com naturalidade meu papel de cuidador oficial da Yanami.

Naquele dia, no Campeonato de Atletismo Escolar da Região de Toukai, Lemon Yakishio, aluna do segundo ano do Colégio Tsuwabuki, conquistou o primeiro lugar na final feminina dos 1.500 metros.

E, junto com a vitória, garantiu sua vaga no campeonato nacional.

◇

A segunda-feira meio que passou derretendo ao meu redor. Passei o dia inteiro naquele estranho estado de limbo em que meu corpo estava na escola, mas meu cérebro ainda tinha ficado preso no domingo.

Mesmo depois do último sinal, eu ainda sentia aquela euforia residual sob a pele, deixando meus passos estranhamente leves. Acabei parado diante do cartaz de campanha do Sakurai-kun, afixado numa parede do corredor.

Lá estava ele, congelado numa foto perfeita, com aquele sorriso de galã e uma das mãos estendida como se tentasse alcançar os alunos.

Algumas garotas estavam até tirando fotos.

É… Sakurai-kun é mesmo popular, hein...

Meu olhar deslizou até a lista de propostas ao lado do cartaz. Havia uma sequência bem organizada de promessas: um Conselho Estudantil mais aberto, reforma do sistema de clubes, essas coisas de sempre.

...Hã, espera aí. Tem uma coisa absurda escrita lá embaixo.

— Heh! E isso é xeque-mate!

Yanami basicamente surgiu do nada, jogando o cabelo para trás num movimento dramático. Ela apontou para a parte inferior da folha, exibindo um sorriso convencido.

— Eu mesma pensei nesse último ponto. E aí? Dá até vontade de votar nele também, não dá, Nukumizu-kun?

Graças a Deus. Sakurai-kun ainda está são. Segui o dedo dela.

"O site do Conselho Estudantil vai publicar diariamente o cardápio da cantina!"

— Você sequer usa a cantina, Yanami-san? Você sempre traz bentô.

— Que visão superficial, Nukumizu-kun. Muito superficial.

Ela tirou do bolso uma casquinha de pão e a ergueu diante do meu nariz.

— Pensa comigo. O que você acha que acontece quando olha o cardápio da cantina enquanto come seu bentô?

— Provavelmente vai derrubar comida. Você vive deixando as coisas caírem.

— Eu não derrubo comida, obrigada! Aff. A questão é que, se você olhar o cardápio enquanto come, é praticamente como se estivesse comendo seu bentô e o prato do dia ao mesmo tempo. Satisfação de duas refeições pelo preço de uma! É a dieta definitiva!

Radiante, ela mordeu triunfalmente a casquinha de pão. Bom. Se você descartasse todas as leis conhecidas da física e da nutrição, a lógica dela era tecnicamente impecável.

Para Yanami, parar depois de uma refeição já era um milagre.

Assenti vagamente só para acompanhá-la e voltei a atenção para a lista de propostas fixada ao lado da de Sakurai-kun.

A de Tiara-san. A dela estava repleta de propostas comparativamente mais sérias: aumento do orçamento para atividades dos clubes, mais transparência no trabalho do Conselho Estudantil e coisas do tipo.

Ah, aliás, nunca mais quero ser pego revisando uma das propostas de campanha dela. Enxugar o texto em si era fácil. Essa nem era a parte difícil. O difícil era impedir Tiara-san de me desafiar para um duelo até a morte por causa de cada frase que eu tentava mudar.

Soltei um suspiro ao me lembrar daquela provação, e Yanami cutucou minha bochecha com a casquinha de pão.

— Ei, e o cartaz da Basori-san? Ela não fez um?

...Ah. Agora que ela mencionou… O que aconteceu com o cartaz da Tiara-san?

Peguei o celular. Como se estivesse esperando o momento perfeito, uma nova mensagem de Tiara-san apareceu na tela.

"Pode vir ao lugar de sempre?"

◇

Cheguei ao local combinado — o Quartel-General da Facção Tiara-san. Ou, como o resto do mundo humildemente chamava: "aquela mesa de pedra no pátio".

Cheguei no horário porque, bem, ela tinha me chamado, mas não havia Tiara onde normalmente haveria uma Tiara.

Estranho. Ela normalmente é do tipo que surge do nada para te emboscar.

Foi então que uma figura apareceu vindo da passagem coberta. Era a Chikapyon. Mais especificamente, a Chikapyon, Versão da Segunda Temporada, do anime desta temporada, "Borderline Gals".

Meus olhos se fixaram instantaneamente, como sempre, em suas características meias três-quartos listradas verticalmente — aquele padrão que nunca falhou em capturar meu coração.

Até hoje sinto arrepios quando lembro do Episódio 9, "Operação Território Absoluto", quando finalmente revelaram que elas eram feitas de cem por cento algodão—

……….

......Chikapyon?

Não. Não pode ser. Por favor. Não me diga que eu finalmente enlouqueci.

Esfreguei os olhos desesperadamente, mas a alucinação se recusou a desaparecer.

Lá estava ela, usando o uniforme do Colégio Tsuwabuki, com a saia encurtada o suficiente para exibir aquela sagrada faixa de pele entre a barra e o topo das meias listradas que eu conhecia tão bem.

Território Absoluto.

(N/SLAG: Zettai Ryouiki (絶対領域) Também conhecido como "Território Absoluto". Refere-se à faixa de pele exposta entre a barra de uma saia ou short e o topo de meias longas, normalmente acima do joelho.)

O cabelo caía liso e reto, preso em modestos nós logo acima das orelhas, de onde pequenas mechas se projetavam para os lados.

Quando aquela aparição parou diante de mim, meu cérebro começou a perceber algumas pequenas discrepâncias. As sobrancelhas pareciam um pouco mais grossas do que as da Chikapyon. E na lateral do pescoço havia… uma pinta.

………

Tiara-san. MAS QUE CARALHOS, em nome de tudo que é sagrado, você está fazendo?

— H-Hã, desculpa fazer você esperar, Nukumizu-san.

Ela murchou de vergonha sob meu olhar atônito, com as bochechas brilhando num vermelho intenso.

— Ah... Nah, eu acabei de chegar.

Ela começou a se remexer, com a ponta do sapato desenhando pequenos círculos nervosos no chão.

— V-Você não percebeu nada... diferente?

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— Hã... diferente como?

Perceber alguma coisa? Ah, não. Nem um pouco. Não é como se você estivesse completamente fantasiada. É claro que eu não ousaria apontar isso em voz alta.

— O-Olha... isso aqui — disse ela, ficando ainda mais vermelha enquanto dava leves tapinhas com as palmas das mãos nas mechas que se projetavam para os lados. — Viu? Viu?

......

Mas o que eu estou presenciando?

Sem conseguir pensar numa resposta melhor, decidi simplesmente… observar.

Se a extremamente séria — mais ou menos — Tiara-san, por qualquer motivo insano, estava me mostrando uma cena dessas, não gravá-la na memória seria falta de educação.

— Nukumizu-san... vamos... diga alguma coisa...

O ímpeto dela estava evaporando. O rubor agora já se espalhava até o pescoço.

Deixei o silêncio continuar por uma curiosidade meio mórbida, querendo ver até onde ela iria, até que seu rosto começou a perder a cor e ela passou a tremer.

— Tiara-san, talvez já seja o suficien—

— Nukumizu-san! Fale alguma coisa de uma vez! — explodiu ela finalmente.

— Bom, hã, e-eu estou completamente perdido aqui...

Ela se aproximou ainda mais, invadindo meu espaço pessoal.

— M-Mas você disse que gostava dessa personagem, não disse?!

…....

Bom, sim, eu gosto da Chikapyon. Mas o que isso tem a ver com você fazer cospl—

— Olá e desculpem interromper! Clube de Jornalismo!

Uma garota surgiu saltitante, com uma câmera balançando pendurada no pescoço. Ela fez uma reverência com um sorriso alegre.

(Numa observação completamente sem relação com o assunto, a saia dela era escandalosamente curta.)

— Basori-san, você ainda não tirou a foto para o cartaz eleitoral, certo?

— Hã? Não, mas eu já entreguei uma para o professor.

— Aquela era a foto da cerimônia de posse do Conselho Estudantil do ano passado! Pelas regras, a foto precisa ter sido tirada nos últimos três meses.

Hã. Não sabia que as regras eram tão específicas.

— Peço desculpas — Tiara-san imediatamente abaixou a cabeça. — Eu vou até o clube outro dia para tirar uma foto apropriada.

— Não. O sensei quer hoje. Vamos.

A alegre garota do Clube de Jornalismo agarrou o braço da Tiara-san com um sorriso largo de vendedora.

— E-Espera! Não enquanto eu estou vestida assim—

— Não temos tempo. Os cartazes precisam ir para impressão hoje. O professor já está esperando, sabia?

— Espera! E-Eu não posso—

……..

E a Tiara-san foi arrastada embora. Ela me lançou um olhar desesperado por cima do ombro. Mas regras são regras. Não havia nada que eu pudesse fazer. Desculpa, Tiara-san.

Deixado sozinho no pátio, ergui o rosto para o céu que ainda estava claro. Então, no fim das contas… qual era o objetivo daquele cosplay?

◇

Escondido perto da estação, no lado norte da Galeria Comercial da Rua Tokiwa, havia um café à moda antiga no segundo andar de um prédio que provavelmente era mais velho do que eu. Era um estabelecimento tradicional, de atmosfera tranquila, que costumava atrair uma clientela um pouco mais velha.

Dois dias depois do Grande Incidente Chikapyon, eu estava sentado diante da principal responsável por tudo aquilo. Uma Tiara Basori-san completamente miserável fazia naquele momento uma dramática imitação de uma poça de desespero, com o rosto enterrado entre os braços cruzados sobre a mesa de madeira.

Um gemido baixo e gutural escapava de seus lábios, parecendo vir diretamente das profundezas da alma.

— Não é o que parece... Não é mesmo... — gemeu ela.

Ela tinha voltado ao penteado sensato de sempre, infelizmente. Trágico.

— Qual é, olha só. Você entrou totalmente no personagem, não entrou? Parece até que estava se divertindo — disse, erguendo o celular.

Na tela brilhava o cartaz eleitoral oficial dela: Candidata à Presidência do Conselho Estudantil — Tiara Basori congelada na inconfundível pose da Chikapyon, com os dois indicadores girando em círculos.

— Foi por instinto! Disseram para eu fazer uma pose, e eu acabei fazendo sem querer aquela que estava praticando... e—não fica olhando essa foto aqui!

Ela se ergueu num pulo, agitando os braços. Bom saber que o espírito dela ainda estava intacto. Ela finalmente pareceu se dar conta de onde estávamos, olhando desconfiada ao redor daquele café desconhecido.

— Mais importante, por que exatamente você me trouxe aqui?

— Você disse que queria sair da escola, lembra? E, como nunca me respondeu, tomei a liberdade de decidir por conta própria.

Deslizei um copo de suco de uva tinta na direção dela. Tiara-san o pegou e ficou examinando.

— Não é café.

— Não. Você não parece muito fã de café, né?

— Como você sabe disso?

— Lembra daquele café de jogos de tabuleiro? Você praticamente afogou o seu em açúcar e leite antes de beber. E virou tudo de uma vez.

Ergui meu próprio copo de suco de uva.

— Enfim, na minha opinião, coisa doce é melhor quando a gente está cansado. Normalmente eu também peço café, mas hoje parece dia de suco.

Tiara-san observou a bebida por alguns instantes antes de tomar um gole delicado pelo canudo.

— Delicioso...

— Né? Eles usam uvas de uma vinícola de Azumino.

Parte da tensão finalmente deixou os ombros dela. Eu ia tomar um gole também quando seus olhos semicerrados se voltaram para mim, e ela murmurou baixinho:

— Você realmente está acostumado com isso.

— Hã? Acostumado com o quê?

— Você tem essa... rotina suspeitosamente habilidosa para lidar com garotas vulneráveis. Leva elas para um café calmo e isolado, prende com alguma coisa doce... e depois conquista...

Que acusação injusta.

— Eu só vinha aqui com meus pais quando era criança.

— Entendo. E depois começou a usar o lugar para atrair garotas.

Que grosseria. Só para constar, ela era a primeira garota que eu trazia aqui além da Kaju. Bom, mudando de assunto, parecia que ela tinha voltado ao normal.

Hora de ir direto ao ponto.

— Então — comecei, inclinando-me para a frente —, por que exatamente você estava vestida daquele jeito outro dia?

Tiara-san executou uma espetacular cuspida de surpresa com o suco de uva.

— Pfft!

Uma fina névoa de uvas de Azumino preencheu o espaço entre nós. Ela pressionou um lenço contra os lábios, os olhos arregalados e marejados.

— Eu... realmente preciso explicar isso?

— Quer dizer, também tem relação com a eleição.

— Hã, isso é... meio…

Ela começou a se enrolar, claramente procurando uma rota de fuga. Não quer confessar, hein? Suspirei e saquei a foto da eleição.

— Tá bom! Eu estava tentando seduzir você, seduzir! — disparou ela, inclinando-se de repente para a frente. — Eu estava tentando seduzir você para ser meu apoiador oficial!

Sem fôlego, ela bebeu desesperadamente o resto do suco de uva de uma vez.

Espera. Então… eu estava sendo seduzido em público? Eu… Eu não fazia ideia.

— Só para eu entender direito. Seu plano era... aparecer com aquela roupa e dizer algo tipo: "Por favor, me apoie, nyaa~"?

— Sim! Quer dizer, tirando o "nyaa"!

Agora que o segredo tinha sido revelado, ela bateu o copo vazio na mesa com um ar definitivo.

— Já que chegamos a esse ponto, vou perguntar de novo, do jeito certo.

Ela endireitou as costas. Sua expressão ficou séria, e os olhos permaneceram fixos nos meus. Tiara-san limpou a garganta.

— Você não poderia reconsiderar? Eu quero seu apoio, Nukumizu-san.

………

Por que ir tão longe?

Hesitei, escolhendo as palavras com cuidado.

— Por que eu? Você certamente conseguiria mais votos se pedisse para um professor.

— Talvez. Mas estou pedindo a você.

Estamos apenas andando em círculos.

O que eu deveria responder?

Então tomei minha decisão e ergui o queixo, pronto para recusar—

— Você sabe como fui nomeada vice-presidente?

— Shikiya-san recomendou você, não foi?

Tiara-san assentiu, deixando o olhar cair para o copo vazio.

— Nós nunca tínhamos sequer conversado direito antes disso. Por que ela iria querer alguém como eu? Por que me tornar vice-presidente? Eu tinha medo demais para perguntar.

Ela continuou.

— Minha primeira interação de verdade com os senpais foi quando me ofereci para ajudar o Conselho Estudantil. Eu... não fui exatamente útil, nem naquela época, para ser sincera.

— Nah, isso não é ver—

Tiara-san balançou lentamente a cabeça.

— Você já sabe disso, mas... eu sou teimosa. Arranjo conflitos. Sempre fui assim. Na verdade, eu discutia tanto que a presidente precisava intervir. Então, quando a presidente Houkobaru me pediu para apoiar oficialmente a candidatura dela na eleição do ano passado, eu tinha certeza de que estava brincando.

Ela segurou o copo de água com as duas mãos, observando as pequenas ondulações na superfície.

— Pensando agora, talvez tenha sido pena. Acho que sentiram pena de mim por eu estar sempre brigando com as pessoas. Então quiseram me colocar em algum lugar onde pudessem ficar de olho em mim.

Ela ergueu o olhar.

— É por isso que... eu quero vencer. Quero continuar ao lado de todos como igual. Como amiga de verdade. Não por pena. Quero estar lá porque mereci.

— Então... — fiz uma pausa. — Por que eu?

— A presidente e os outros se importam muito com você. Para mim, parece que... você tem alguma coisa que me falta.

O olhar firme dela me prendeu no lugar. Ofereci um sorriso fraco.

— Você está exagerando.

— Não estou.

O tom dela não deixava espaço para discussão.

— Ano passado, quando fiz o discurso de apoio à presidente Houkobaru, minhas pernas tremiam tanto que achei que fosse desmaiar.

— Ah, é verdade. Você também fez um discurso, né?

— Você estava lá, Nukumizu-san.

Ah. Eu estava?

Tiara-san limpou a garganta e continuou.

— Há um ano, as pessoas me chamam de arrogante. Dizem que eu me escondo atrás da autoridade da presidente e ajo como se fosse superior aos outros. E agora sou eu a candidata. Agora estou na mesma posição em que a presidente esteve. E, sinceramente... estou apavorada. Não consigo evitar.

Ela colocou uma mão sobre o peito e respirou fundo, tentando se acalmar.

— Então eu preciso das suas palavras. Mesmo que sejam apenas palavras educadas, só de fachada... se eu tiver isso, acho que... com certeza vou conseguir ficar lá na frente com confiança. Então, por favor—

Seu olhar permaneceu firme.

— Só por agora. Só desta vez. Você não poderia me apoiar? Apenas a mim?

O silêncio engoliu aquele pedido sincero. Sem saber o que dizer, só consegui ficar olhando para ela.

— Desculpa. Eu falei demais.

— Não, tudo bem...

Outro silêncio constrangedor se prolongou entre nós até que ela forçou um sorriso para o garçom que passava.

— Eu pago. Vamos pedir café.

— Hã? Você odeia café.

— Odeio. Mas, se você gosta, devo começar a me acostumar aos poucos.

Por que minhas preferências de café teriam qualquer influência na sua vida...?

— Aliás — Tiara-san tirou da bolsa uma folha cuidadosamente dobrada —, eu mandei imprimir o jornal da escola. A análise da eleição é surpreendentemente detalhada.

Ela abriu a folha sobre a mesa.

— Eles fizeram uma análise da eleição? — perguntei.

— Pelo visto, fizeram uma pesquisa de intenção de voto. Olhe aqui.

Ela bateu a ponta de um dedo fino sobre um gráfico de pizza. As cores dividiam as intenções de voto.

Sakurai-kun tinha 45% dos votos projetados.

Tiara-san, 30%.

E 25% ainda estavam indecisos.

O gráfico era bem detalhado, separando os resultados por série e gênero. Como era de se esperar, Sakurai-kun tinha forte apoio entre as garotas do primeiro e terceiro anos, além dos garotos do segundo ano.

Tiara-san, para seu mérito, conseguia se manter firme entre os garotos do primeiro ano. Mas, por enquanto, não dava para dizer que os números colocavam ela numa posição muito favorável. Vendo a expressão dela endurecer, ergui a folha.

— Não leva isso tão a sério. Metade desse jornal é fofoca de qualquer jeito. Tipo chamar Sakurai-kun de "inimigo das mulheres". Dá para ficar mais baixo que isso?

Quer dizer, ele era nosso rival, mas aquilo já era golpe baixo.

O rosto de Tiara-san se contorceu numa expressão complicada.

— O que foi?

— Acredito que o "inimigo das mulheres" seja você, Nukumizu-san.

— Quê—?! Eu?! Eu nunca tive nem uma namorada, muito menos duas!

— Sim, eu sei. Afinal, você prefere homens.

— Isso não é verdade — retruquei, com meu reflexo de falar educadamente entrando em ação.

Tiara-san calmamente tirou um caderno.

— O que você está fazendo agora?

— Desculpa. Eu mantenho um registro de assuntos que precisam ser analisados para poder revisitá-los depois, quando eu estiver sã.

Então você… não está sã agora?

Não parecia, considerando o monólogo inteiro que acabou de fazer.

Ela murmurou enquanto escrevia:

— Vejamos... Nukumizu-san... homens, mulheres... tanto faz... qualquer um serve...

Por favor, pare de olhar para mim enquanto escreve isso. E também não é isso.

Mesmo assim, engoli meus protestos. Interromper qualquer que fosse o processo terapêutico em andamento não parecia uma boa ideia.

Para me distrair, voltei a ler a fofoca sobre a minha suposta fama de mulherengo e… cara, eles realmente escreveram qualquer merda que quiseram, hein? Pelo visto, eu perseguia várias garotas sem namorar nenhuma. Um completo pedaço de lixo, segundo eles.

Ah, e tinha também essa "beldade do segundo ano, A-san". Hã. Essa com certeza é Anna Yanami, né? Uau, distorceram a história dela ainda mais do que a minha… Embora… por que algumas partes estão assustadoramente perto da verdade...?

Clac.

Tiara-san fechou o caderno e abriu um sorriso ágil.

— Certo. Obrigada por esperar. Já estou bem.

Ela tomou, hesitante, um gole do café que tinha acabado de chegar.

— Preto está bom?

— Surpreendentemente, sim. Mas vou colocar um pouco de açúcar.

Observei, divertido, enquanto ela mexia o café. Tomei um gole da minha própria bebida.

— Caramba, isso está bom demais. O que você pediu?

— Kilimanjaro. No cardápio dizia "O Rei dos Cafés".

Esse é caro. Ela vai pagar mesmo, né? Enquanto eu tomava meu café, agora profundamente desconfiado graças a certa pessoa, Tiara-san olhou para o relógio.

— Já está quase dando seis.

Hã? Ela tem horário para voltar para casa?

— A segunda edição do jornal da escola sai online às seis — explicou, pegando o celular.

— Ah, aquela que dizia "continue lendo online"?

— Não sei muito bem como funciona, mas aparentemente você pode ler o restante se pagar. Disseram que o plano anual compensava mais, então comprei esse.

Hã… Talvez você não devesse assinar coisas que nem entende direito...

Tiara-san encarou intensamente a tela do smartphone por alguns segundos.

— Nukumizu-san! Olhe!

De repente, ela virou a tela na minha direção.

— Hã... "O cosplay da vice-presidente Basori ficará bloqueado atrás de um paywall por—"

— Não isso! Isso aqui!

Os resultados mais recentes da pesquisa. Sakurai-kun tinha subido um pouco desde a última vez—

50%.

Mas Tiara-san tinha… saltado para incríveis 45%!

Ela se inclinou para a frente, com os olhos brilhando.

— Isso é um salto enorme! Será que as pessoas perceberam a sinceridade nas minhas propostas?

— Pode ser. Deixa eu ver a divisão dos votos?

Comparei com o gráfico anterior.

— Vejamos... Você teve um aumento gigantesco no apoio masculino. Os votos femininos... na verdade caíram. Ah. Entendi o que aconteceu...

A verdade me ocorreu, embora eu hesitasse em dizer em voz alta. Tiara-san se aproximou ainda mais.

— O quê? Não precisa se segurar.

— Acho que o seu cartaz de cosplay... fez sucesso.

O corpo inteiro dela deu um solavanco.

— M-Minha roupa...? Aquilo ajudou?

...

Quer dizer. Tudo que termina bem acaba bem, né?

Peguei o celular da Tiara-san emprestado e passei rapidamente pela matéria.

— Ah, eles têm um fórum no site.

— Um fórum? O que estão dizendo?

— Hã, só um segundo...

Inclinei discretamente a tela para longe dela. Fórum de ensino médio é uma terra sem lei repleta de opiniões anônimas. Era para o próprio bem dela.

"Por que ela está fazendo cosplay?"

"Não. Só... não."

"Clássico. Fazendo campanha com apelo sexual."

É. Mais ou menos o que eu esperava. A foto dinâmica do cartaz, tirada de baixo para cima, mostrando uma Tiara-san toda constrangida, era bastante… impactante.

Talvez impactante demais para os estoicos alunos do Colégio Tsuwabuki. Definitivamente não podia deixar ela ver isso—

"Território Absoluto! Meu voto é dela!"

"Chikapyon, Chikapyon!"

"Chikapyon-pyon!"

………

É. Absoluta e definitivamente não podia mostrar isso para ela.

— O que foi?

— É melhor você não ver.

— Eu já desfilei daquele jeito diante da escola inteira. Consigo lidar com um fórum também — declarou ela, arrancando o celular da minha mão.

Ela leu, estreitando os olhos. Ficou encarando a tela por um bom tempo.

— Alguns desses comentários eu esperava. Outros, nem tanto.

— Bom, os cânticos são referências ao Episódio 8 da primeira temporada, aquele do beisebol—

— Eu sei. Assisti aos doze episódios de "Borderline Gals" antes de me vestir daquele jeito.

Entendi. Então ela também devia assistir à segunda temporada.

— O que significa "Eu também estou bem no limite—pyon!"?

(N/SLAG: Borderline significa "estar no limite", isto é, muito perto de ultrapassar o aceitável. A frase faz um trocadilho sugestivo com o título do anime fictício Borderline Gals, enquanto pyon é uma terminação fofa e moe)

— Não sei. Não pesquisa.

Pelo visto, o Colégio Tsuwabuki abrigava mais gente da minha espécie do que eu imaginava. Bom saber. De qualquer forma, Tiara-san parecia estar lidando razoavelmente bem com o… entusiasmo… do fórum.

Ótimo. Mas o que mais me preocupava naquele momento era a situação dos votos. Ela estava apenas cinco pontos atrás de Sakurai-kun. Mas também restavam 5% de indecisos.

Então, nesse ritmo, mesmo que conseguisse todos os indecisos, o melhor resultado possível seria um empate. Portanto, para vencer, ela teria que roubar votos diretamente do Sakurai-kun de algum jeito.

— Também estão falando do Sakurai-kun no fórum. A maioria dos apoiadores parece ser de garotas.

— Não confia no gênero que colocam no perfil — avisei.

Regra número um da internet.

Pensei na facção Sakurai. O Clube de Literatura já tinha pouca gente como estava. Se ele ganhasse, Yanami seria levada embora como vice-presidente. E, como o ritmo de escrita da Komari tinha diminuído ultimamente, não podíamos nos dar ao luxo de perder mais mão de obra...

Tiara-san, que observava a tela em silêncio, soltou um longo suspiro.

— Até semana passada, eu não achava que tinha chance alguma de vencer. Mas agora... parece que consigo lutar de verdade.

Ela me encarou com absoluta seriedade.

— Eu quero vencer. Quero me tornar presidente do Conselho Estudantil pela minha própria capacidade, e não por pena. Não vou pedir para você entrar no Conselho. Então, por favor... me dê seu apoio como meu apoiador oficial.

Ela ter se tornado vice-presidente definitivamente não tinha sido por pena. A presidente, Shikiya-san e Sakurai-kun… eu sabia que todos acreditavam em Tiara-san. Mas, por mais que acreditassem nela, tenho certeza de que também se preocupavam com ela na mesma medida. E provavelmente era justamente essa dúvida que impedia Tiara-san de acreditar completamente em si mesma.

Bebi o resto do café já morno e coloquei a xícara na mesa, escolhendo minhas palavras.

— Eu não entro numa disputa para perder.

Tiara-san assentiu em silêncio.

— Então, se eu aceitar ser seu apoiador oficial, tenho uma condição.

O rosto dela ficou vermelho.

— Q-Qual?! Você não está querendo dizer—

— Não é o que você está pensando — disse, descarrilando imediatamente aquele trem de pensamentos impróprios.

Abri no celular o infame cartaz eleitoral.

— No seu discurso de candidata na segunda-feira, você vai usar isso.

— Se for só isso—espera, o quê?!

Os olhos dela se arregalaram, e ela puxou o ar.

— A-Ah. Entendi o que você quer dizer.

— Entendeu?

Tiara-san assentiu profundamente, com uma expressão de compreensão transcendental.

— Exibicionismo.

— Não. Não é isso.

Essa garota não tem jeito.

— Segundo a pesquisa — expliquei —, seu maior apoio está vindo dos alunos do primeiro ano, principalmente dos garotos. Certo? Precisamos apostar ainda mais nisso.

Cara, estou me sentindo um pai.

— Mas e o apoio das garotas? Esses votos despencaram, não foi?

— Principalmente entre as garotas do segundo ano. Mas não tem muito o que fazer quanto a isso. A partir do momento em que você começa a chamar atenção, automaticamente vira alvo de críticas. Por outro lado... mostra os resultados de novo.

Tiara-san abriu a pesquisa no celular e colocou o aparelho no meio da mesa.

— Os ganhos do Sakurai-kun vêm quase todos das garotas. Na verdade, os votos dele entre os garotos do primeiro e terceiro anos estão caindo agora.

Nós dois nos inclinamos sobre a tela.

— Objetivamente, Sakurai-kun tem traços bonitos, mas isso não se traduz tão facilmente em popularidade entre os garotos. Na verdade, os garotos que acham ele atraente talvez tenham ainda mais chance de votar em você por pura negação.

— Isso acontece?

A psique humana é um lugar estranho e misterioso.

— Então, se quisermos ter chance de vencer, vamos apostar tudo no voto masculino com a roupa da Chikapyon. É a única maneira de virar esse jogo agora.

— As garotas não vão me odiar por isso?

— Meh. Você já não é popular entre elas.

— Guh!

Ela agarrou o peito. Era uma verdade cruel, mas às vezes você precisa abraçar a vergonha para garantir a vitória.

— Então, o que vai ser?

— Então é uma promessa — com o rosto vermelho, ela ergueu os olhos do celular. — Se eu fizer o discurso com aquela roupa na próxima segunda-feira...

— É. Eu vou ser seu apoiador oficial, Tiara-san. Vou fazer o discurso de apoio à sua candidatura.

Também ergui os olhos do celular e percebi que o rosto de Tiara-san estava de repente bem diante do meu.

Nós dois tínhamos nos inclinado para a frente. Nos afastamos ao mesmo tempo e, constrangidos, estendemos a mão para nossas xícaras de café.

— Certo. Então está decidido.

— S-Sim. Por favor.

Então, exatamente ao mesmo tempo, nós dois tentamos tomar um gole—só para lembrar que nossas xícaras estavam completamente vazias. Olhamos um para o outro por cima das bordas daqueles recipientes estéreis e trocamos sorrisos constrangidos antes de colocá-los de volta na mesa.

— O que foi, Nukumizu-san? Você está segurando o riso.

— Você também, Tiara-san. Não precisa segurar.

Nossos olhares se encontraram, e a tensão finalmente se desfez. Nós dois caímos na risada.

Depois que finalmente nos recuperamos, Tiara-san enxugou os cantos dos olhos com um lenço.

— Não me faça rir tanto. E, Nukumizu-san—

— O quê?

— Não me chame pelo meu primeiro nome, tá? — disse ela, num tom estranhamente alegre.

◇

O tempo tem uma maneira engraçada de escorrer por entre os dedos. Tudo depois daquilo passou num borrão e, quando percebi, já era domingo à noite — a véspera da eleição. Eu estava largado sobre a escrivaninha, com o celular no viva-voz, enquanto Tiara-san e eu fazíamos os últimos ajustes nos preparativos.

— Então, os dois discursos estão prontos, certo?

— Sim. Excelente trabalho, Nukumizu-san.

A voz educada dela soou claramente pelo alto-falante, em forte contraste com a risadinha baixa que escapou um instante depois.

— O que foi tão engraçado?

— Bem... só achei curioso que o discurso com que você mais teve dificuldade fosse justamente o seu.

Golpe direto no meu frágil ego de escritor. Senti minha alma murchar um pouco.

— Bom, sabe como é... é porque essa foi a última parte que fechamos, tá? Eu precisava ter certeza de que não estava repetindo nada do que você ia falar, Basori-san.

— Oh? Hoje não vai me chamar pelo primeiro nome?

— Hã—bem, isso é...

Encerrei a ligação com um toque do polegar que definitivamente não foi apressado por nervosismo. Recostei-me na cadeira e deixei a caneta cair sobre o caderno.

— Certo. Agora só preciso passar o rascunho a limpo e pronto...

Nossa estratégia era bem simples, na verdade. O maior trunfo da Tiara-san era a experiência. Ela já tinha servido como vice-presidente durante o primeiro ano.

Então montamos o plano em torno disso. Meu trabalho seria reforçar ao máximo as realizações que ela já tinha acumulado durante meu discurso de apoio, criando uma base sólida para que, em seguida, ela entrasse e se apresentasse como a sucessora natural e legítima do trono da Houkobaru.

Os discursos seriam feitos logo depois do almoço no dia seguinte. E a votação aconteceria imediatamente depois. Isso significava uma coisa: quem causasse a impressão mais forte venceria.

— Onii-sama, não quer fazer uma pausa?

Uma voz suave surgiu de repente bem ao lado do meu ouvido, quase me fazendo pular.

Era Kaju.

Quando foi que ela entrou aqui?

Ela colocou uma xícara de chá de camomila sobre minha escrivaninha, e uma delicada espiral de vapor espalhou um aroma doce e relaxante.

— Quando foi que você entrou aqui?

— Hmm, quando será~? — cantarolou ela, desviando brincalhonamente da pergunta.

Kaju caminhou até a janela e fechou as cortinas, espiando para fora antes disso.

— Ah, está nublado hoje. Não dá para ver a lua.

— É, a previsão diz que vai chover.

Recostei-me na cadeira, inspirando o aroma relaxante. Eu realmente tinha ido longe demais, não tinha? Podiam me perguntar o dia inteiro que eu ainda não saberia explicar como tinha chegado até ali, mas, pelo visto, acabei aceitando a responsabilidade por pura inércia.

Não foi exatamente como se eu tivesse escolhido ajudar. Eu só fui aceitando meu destino aos poucos até que, quando percebi, já estava envolvido. Nesse ritmo, eu ainda podia acabar virando vice-presidente por acidente...

"Eu não confio em você, mas acredito em você."

As palavras de Komari ecoaram na minha cabeça. Não. Isso eu me recusava a aceitar. Eu não seria vice-presidente. Acreditem ou não, eu sou um homem capaz de dizer não.

Coloquei a xícara de volta sobre a mesa com um clinc, e Kaju se virou como se estivesse esperando exatamente por aquele som.

— Onii-sama, você vai entrar para o Conselho Estudantil?

— Não pretendo—espera, você sabe da eleição?

— Claro. Kaju sabe tudo sobre você, Onii-sama.

Era para isso ser uma piada? Porque… não teve graça nenhuma.

Ela se jogou na minha cama, sorrindo.

Certo, pensando bem, fazia sentido. Kaju já conhecia a maioria dos membros do Conselho Estudantil, então provavelmente algum deles tinha contado.

— Eu não vou entrar — esclareci. — Só estou ajudando porque Basori-san está concorrendo à presidência.

— Entendo. Isso é um pouco decepcionante.

Ela começou a balançar as pernas despreocupadamente — ainda sentada na minha cama, diga-se de passagem.

— Seria tão bom se você ajudasse a organizar minha cerimônia de entrada no ano que vem, Onii-sama.

— Primeiro você precisa passar na prova de admissão — provoquei.

As bochechas dela se inflaram num bico, e Kaju se jogou dramaticamente para trás, abrindo braços e pernas sobre meu edredom como uma estrela-do-mar.

— Kaju também está estudando muito. Quando Kaju entrar, vamos juntos para o Colégio Tsuwabuki na bicicleta do Onii-sama!

— Andar duas pessoas na mesma bicicleta é ilegal.

É claro que eu estava brincando.

Kaju realmente vinha estudando bastante ultimamente. Eu quase nem a via mais no Colégio Tsuwabuki também.

Deixei que ela continuasse rolando silenciosamente pela cama e tentei obrigar meu cérebro a se concentrar no discurso.

Liguei o notebook.

Cerca de vinte minutos depois, me espreguicei e soltei um suspiro alto. O discurso finalmente estava pronto.

Vitória!

Ou, pelo menos, alguma coisa parecida com isso.

………..

Espera aí. A Kaju estava quieta demais.

Girei a cadeira.

Kaju estava profundamente adormecida, abraçada a um dos meus travesseiros, respirando de maneira lenta e tranquila.

Cobri Kaju com um cobertor e fui fechar as cortinas que ela tinha deixado entreabertas. Meu olhar acabou preso no vidro da janela, onde meu reflexo se sobrepunha à rua escura e enevoada do lado de fora.

O fórum do Clube de Jornalismo só tinha ficado mais movimentado desde a última vez que olhamos. O cosplay da Tiara-san ainda estava pegando fogo em meio à polêmica.

As críticas das alunas pareciam crescer na mesma proporção em que a popularidade dela disparava entre os garotos. Ela dizia que não estava incomodada. O que, é claro, significava que estava completamente incomodada, considerando que tinha sentido necessidade de me dizer isso.

Aquilo mexia com ela. Em algum lugar lá dentro, aqueles comentários estavam machucando. Um nó de inquietação apertou meu peito. Forçar tanto a estratégia da roupa da Chikapyon tinha sido mesmo a escolha certa?

— A gente precisa vencer — as palavras escaparam num murmúrio.

Enquanto eu olhava para a escuridão lá fora, percebi pelo canto do olho uma forma negra se movendo do lado de fora do portão.

Uma sombra. Uma sombra em movimento.

— Hã.

Aproximei-me da janela, estreitando os olhos. A sombra tinha meio que o formato de… uma pessoa?

Espera aí. A única pessoa que eu conhecia capaz de atingir aquele nível de furtividade era—

Meu celular escolheu exatamente aquele momento para destruir o silêncio. O toque, que imitava o som de vidro se estilhaçando, ecoou violentamente pelo quarto.

Ligação recebida: Shikiya-senpai.

◇

Desci correndo e abri a porta da frente. Parada diante da entrada da minha casa, Shikiya-san recebeu de mim uma bateria portátil.

— Obrigada... Eu... devolvo... amanhã...

Ah, é. Aliás, era só isso. Esse era o motivo de ela ter me chamado para fora de casa. A bateria do celular estava quase acabando, então ela pediu uma bateria portátil emprestada.

Engraçado. Eu jurava que já tinha existido outra garota que tentou entrar à força na minha casa exatamente pelo mesmo motivo.

A luz fraca da tela do celular iluminava de leve o rosto dela, pálido no escuro. Acabei ficando olhando sem pensar muito e, antes que percebesse, a pergunta escapou.

— O que você estava fazendo aqui fora, afinal?

— Ultimamente... estou praticando... pegar ônibus e trem... então...

Essa frase parecia ter saído direto de um mangá de ojou-sama.

— Ah, é verdade. Normalmente alguém busca você no meio do caminho para a escola, né?

— Uhum... Quando eu pego ônibus... acabo indo parar... em lugares que não conheço... então evito...

Shikiya-san balançou levemente o corpo.

— Mas... eu não posso... continuar assim... para sempre...

As palavras dela se dispersaram suavemente no ar noturno, deixando uma emoção estranha presa no meu peito. Antes que meu coração conseguisse entender o que era, o olhar dela começou a vagar.

— Qual caminho... para o ponto do bonde...?

— Ah, é só seguir reto por esta rua até a avenida principal.

— Entendi... Desculpa... incomodar tão tarde...

Ela deu alguns passos, então parou, ainda de costas para mim.

— Ei... sobre você e... a Tiara-chan... — murmurou baixinho.

— O que tem ela?

Nenhuma resposta. O cabelo dela se moveu de leve, apesar de o ar estar parado.

— Não... Não é... nada…

Ela voltou a andar. Sua figura parecia se misturar à escuridão, frágil como uma sombra flutuante. Como se pudesse se desfazer no vento a qualquer momento.

Não sei exatamente o quê, mas alguma coisa naquela cena me fez agir.

— Eu acompanho você — dei um passo à frente. — Só até a avenida principal.

Shikiya-san parou. A cabeça dela girou lentamente na minha direção.

— Tá.

Caminhamos lado a lado, sem dizer nada. Não era longe — apenas alguns minutos até a Rota Nacional 1 —, mas o ritmo dela estava um pouco mais lento que o normal, e cada passo parecia estranhamente pesado.

Tentei mais uma vez, sem sucesso, desenrolar a emoção presa no meu peito. Havia tanta coisa que eu queria dizer. E nada conseguia sair da minha garganta.

O zumbido distante dos carros foi ficando mais alto conforme nos aproximávamos da avenida.

Logo, surgiu diante de nós a lanterna de pedra na esquina, sua superfície entalhada iluminada por uma pequena chama alaranjada.

A inscrição nela dizia Jouyatou — A Lanterna da Noite Eterna.

(N/SLAG: trata-se de uma lanterna de pedra com os próprios kanji inscritos nela, o que dá ao termo uma nuance mais poética)

Logo adiante, do outro lado da faixa de pedestres, ficava o ponto do bonde. Uma estranha relutância me apertou por dentro, mas mesmo assim paramos ao chegar ali.

Shikiya-san ficou ao lado da lanterna de pedra, observando a chama tremeluzente.

— Sabe... agora eu também... consigo andar de bicicleta...

— Sério? Isso não é... meio perigoso? Tem certeza de que não devia começar com rodinhas?

Apesar da minha observação rude, ela balançou o corpo de um jeito contente.

— As coisas que eu consigo fazer... estão aumentando, pouco a pouco... É divertido...

— Isso é ótimo. Fico feliz por você.

Cada coisa nova que ela aprendia parecia aumentar a distância entre nós.

Amanhã, Tiara-san ou Sakurai-kun seria escolhido como o próximo presidente do Conselho Estudantil. Depois do festival esportivo, o atual Conselho Estudantil seria dissolvido. Então Shikiya-san — e a presidente Houkobaru também — seguiriam em frente, se preparando para o caminho que tomariam quando chegasse a primavera.

"A formatura chega num piscar de olhos."

Foi o que a Tsukinoki-senpai tinha dito certa vez. Quando a vi na semana passada, ela já parecia alguém de outro mundo.

Parecia… mais adulta.

Percebi imediatamente que Koto Tsukinoki já não era a mesma pessoa que eu tinha conhecido no Colégio Tsuwabuki.

Talvez por fora parecesse igual. Mas dava para perceber. Ela tinha mudado.

Uma ansiedade começou a crescer dentro de mim. Como se todo mundo estivesse amadurecendo e me deixando para trás.

Mas… acho que é assim para todo mundo.

Esteja preparado ou não, quando chega a hora… você precisa seguir em frente.

Com coragem ou sem.

Até eu, algum dia.

Algum dia… eu também mudaria.

Voltei à realidade e percebi Shikiya-senpai me observando atentamente.

— O que... foi...?

— Eu só estava pensando... você realmente amadureceu bastante, Shikiya-senpai.

Shikiya-san inclinou levemente a cabeça, confusa.

— Eu... ainda sou... só uma criança... sabia...?

A mão dela se ergueu hesitante na minha direção, estendendo-se. Mas parou pouco antes de tocar meu rosto.

— Sabe... sobre a eleição de amanhã... Tiara-chan...

Ah, é. A eleição. Então era por isso que ela tinha vindo hoje.

É. Fazia sentido.

Ela era muito próxima da Tiara-san, e com alguém como Sakurai-kun concorrendo contra ela, a pressão devia estar absurda.

Shikiya-san abriu a boca para falar, mas hesitou. O que era meio estranho, na verdade. Normalmente ela sabia o que queria dizer.

Esperei, prendendo a respiração.

— Senpai?

— Hã... eu... o discurso...

Ela parou de novo, balançando o corpo de um lado para o outro. Depois de alguns instantes, baixou o olhar, parecendo um filhote que tinha acabado de levar uma bronca.

— Acho que... a Tiara-chan... realmente está me evitando...

— Nah, isso não é—

As palavras morreram na minha língua. Agora era eu quem hesitava. Tiara-san tinha feito questão de manter distância de todos no Conselho Estudantil.

Afinal… ela estava se esforçando.

Ela, que sempre tinha vivido sob a sombra das senpais, queria escapar dela. Queria se destacar. Queria brilhar por conta própria.

— Depois que as reuniões do Conselho acabam... Tiara-chan... vai embora imediatamente...

— Não é que ela esteja evitando você, Shikiya-senpai—

É que ela está evitando todo mundo. Mas eu sabia que essa verdade não serviria de consolo para a pessoa diante de mim.

— Ela provavelmente só está ocupada. Ultimamente, tem me ajudado com meu discurso de apoio.

Shikiya-san praticamente não reagiu às minhas palavras. Um silêncio opressivo se instalou entre nós.

Ela permaneceu ali, imóvel de uma maneira inquietante, como se a escuridão ao redor estivesse engolindo seu corpo inteiro. Um carro passou em alta velocidade pela avenida, e os faróis iluminaram nós dois por um instante, arrancando-a do vazio e trazendo-a de volta à realidade.

— Você... por favor... faça a Tiara-chan vencer...

A voz dela mal passou de um sussurro. Tão fraca que pareceu desaparecer imediatamente no ar da noite. Ela se inclinou para trás sobre os calcanhares, lutando para manter o equilíbrio.

— Senpai, cuidado!

Avancei num impulso, agarrei a mão da Shikiya-san com toda a força e a puxei para trás bem no instante em que ela cambaleava para dentro da faixa de pedestres com o sinal vermelho para pedestres.

Ela não ofereceu resistência alguma e caiu direto contra meu peito. Um caminhão enorme passou rugindo ao nosso lado, o vento chicoteando nossas roupas. Ele atravessou exatamente o ponto onde ela estava segundos antes.

Mantive-a apertada contra mim enquanto tentava estabilizar minha respiração trêmula. Shikiya-san permaneceu mole contra meu corpo, os olhos brancos e sem expressão erguidos para o meu rosto.

Ela era inesperadamente pequena. Frágil. Como se fosse quebrar caso eu encostasse nela com força demais.

— Hã, senpai—

— Está... doendo um pouco...

Afrouxei imediatamente os braços, assustado com a força que tinha colocado neles. Mas, mesmo depois de soltá-la, ela não se afastou. Apenas ficou ali, agarrada em silêncio, com o rosto encostado no meu peito.

Um aroma leve e limpo de suor e xampu preencheu meus sentidos.

— Você está bem?

— Nn... Estou...

Ainda apoiada contra meu peito, ela segurou minha camisa entre os dedos e ergueu aqueles olhos pálidos para mim. Desviei o olhar, tentando não encará-la, e dei um passo desajeitado para trás.

O sinal tinha ficado verde.

— Senpai... agora está verde.

Mesmo assim, Shikiya-san não fez menção de ir embora.

— Tem certeza de que está bem? Por favor, tome cuidado na volta.

Ela se moveu levemente. Eu sabia———

———Soco.

Um golpe fraco atingiu meu peito.

— Hã... senpai?

Ela não respondeu. Em silêncio, virou-se e começou a atravessar na direção do ponto do bonde sem dizer mais nada.

No meio do caminho, olhou para trás uma única vez. Seus lábios se moveram, e a voz era tão baixa que os carros passando quase abafaram tudo.

Mas, quando as palavras finalmente chegaram aos meus ouvidos, finas como um sussurro, tenho certeza de que foi isso que ela disse: "Inimigo das mulheres."

◇

A manhã da eleição chegou sob um céu da cor de um hematoma de uma semana, pesado de nuvens que ainda não tinham decidido se queriam acordar. Uma penumbra opaca e silenciosa cobria a cidade abaixo, e o mundo inteiro parecia estranhamente quieto e irreal.

Eu tinha chegado à escola mais cedo do que nunca naquele dia, caminhando pelo caminho vazio sob as árvores de ginkgo. Em silêncio, repassava o discurso de campanha na cabeça, torcendo para não estragar tudo de maneira espetacular quando chegasse a hora.

Esperanças frágeis.

Eu tinha três minutos no total.

Já tinha planejado tudo: começar desenvolvendo melhor quem era a Tiara-san. Destacar as conquistas dela no meio. E então encerrar de forma limpa, entregando o palco para ela — tudo isso sem soar como algum idiota convencido.

— Droga, agora eu estou ficando nervoso.

Como diabos eu me deixei convencer a fazer isso?

Cara, eu devia ter simplesmente fugido para as montanhas naquele dia…

Na esperança de me distrair, deixei o olhar vagar até o campo. O Clube de Atletismo já estava no meio do treino matinal. E lá estava Yakishio, já parecendo um borrão na curva mais distante enquanto a maioria dos colegas ainda bocejava e tentava tocar a ponta dos pés.

Mesmo entre os próprios companheiros de equipe, ela era de outro nível — boa o bastante para se classificar para o nacional tanto nos 1.500 quanto nos 3.000 metros.

— Parece que alguém está motivado hoje, hein?

A voz da Yanami-san, alegre demais para aquela manhã sombria, atravessou meus pensamentos.

— Bom dia. Você também acordou cedo.

— Bom, sim. Você não é o único todo empolgado.

Ela estendeu um recipiente plástico abarrotado de sanduíches de tonkatsu.

— Toma, come um.

Tenho quase certeza de que aqueles sanduíches tinham sido a única fonte de nutrientes dela nas últimas semanas. Provavelmente dava até para rastrear por onde Yanami passava seguindo as migalhas de pão que caíam dos bolsos.

Começamos a caminhar juntos pelo caminho arborizado, mastigando em silêncio. Por algum motivo, o nó no meu estômago começou a afrouxar conforme andávamos. Uma trilha de migalhas marcava nosso percurso, sendo imediatamente atacada por um esquadrão esperançoso de pardais.

— Aliás, você também tem um discurso de apoio, né? Vai ficar bem diante de tanta gente?

Yanami lambeu uma gotinha de molho do polegar e piscou para mim.

— Claro que vou. Estou pronta! Sabe aquele truque dos vegetais? Vou usar aquilo.

— Ah, é — assenti, reconhecendo. — "Imagine que a plateia é um monte de batatas ou abóboras."

Yanami pegou outro sanduíche.

— Isso! Batata fica ótima com manteiga, abóbora dá um ensopado maravilhoso, cenoura é boa até crua... então, se eu pensar assim...

Ela parou de repente.

— Opa. Agora comecei a salivar.

Eu não esperava nada menos de você, Yanami… Pensando em outra comida enquanto já está comendo.

Embora, dessa vez, até desse para entender. O sanduíche era realmente bom. A gordura rica e saborosa da carne de porco e o molho espesso eram perfeitamente equilibrados pelo repolho crocante cortado em tirinhas. Normalmente, comida frita tão cedo seria difícil de encarar, mas—

— Isso está muito bom.

As palavras escaparam antes que eu pudesse segurá-las.

— Né?

Os cantos dos lábios dela se ergueram num sorriso convencido.

— Toma, come mais, Nukumizu-kun. Você precisa colocar um pouco mais de carne nesses ossos.

— Mas isso não é para dar sorte? Você não devia dar para o Sakurai-kun em vez de mim? — Perguntei com uma irritação vaga e incômoda na voz.

(N/SLAG: Katsu e boa sorte — Existe uma superstição comum no Japão de que comer costeletas antes de uma prova, competição ou ocasião importante traz sorte. Isso acontece porque katsu (カツ), "costeleta", tem a mesma pronúncia de katsu (勝つ), "vencer". Por isso, pratos como tonkatsu, torikatsu e katsu sando são associados à vitória e considerados alimentos de boa sorte)

— Ohooo?

O sorriso dela se alargou ainda mais.

— Não me diga. Alguém está com ciúmes porque eu tenho passado tempo com Sakurai-kun?

— O quê? Não — neguei, com a voz completamente neutra.

— Não precisa se preocupar, não precisa~ — cantarolou ela, dando alguns tapinhas extremamente irritantes no meu ombro. — Nada de ficar com ciúmes! Depois de hoje, a eleição acaba! Amanhã tudo volta ao normal. Não tem por que ficar todo incomodado.

— Quer dizer, acho que você tem razão, mas—espera, eu disse que não estou com ciúmes.

— Nossa, você é tão teimoso com os próprios sentimentos, Nukumizu-kun. Pode simplesmente admitir, sabia?

Aff. Irritante como sempre. Ainda assim… acho que ela tinha razão em uma coisa.

Tiara-san queria que os outros membros do Conselho Estudantil enxergassem ela como ela mesma, não simplesmente como amiga deles. Queria ser reconhecida como indivíduo. Mas buscar esse reconhecimento trazia consigo o risco de abalar todas as relações que ela já tinha.

— Na verdade, talvez você tenha razão, Yanami-san.

— Hã? O que isso quer di—

Ah, ótimo. Meu péssimo hábito de pensar em voz alta atacou de novo. Parei de andar e me virei propriamente para ela.

— Quando você passa muito tempo com alguém e essa pessoa está sempre ao seu lado... às vezes tem certas coisas que você simplesmente deixa de perceber. Você sabe do que estou falando, não sabe?

— Bom, sim, acho que... já passei por isso.

Yanami assentiu rigidamente, com o pescoço rangendo como uma dobradiça enferrujada. Ótimo. Estávamos pensando na mesma coisa.

— Mas, se quisermos seguir em frente, acho que precisamos de uma oportunidade para reafirmar nossos sentimentos... reavaliar qual é nossa posição nessa relação. Por isso eu preciso ser sincero sobre o que sinto—

— Espera, espera, ESPERA! Isso não é assunto para discutir no caminho para a escola!

Pisquei para ela, confuso.

— Mas a votação é hoje à tarde.

Yanami congelou.

— Nukumizu-kun. Do que você está falando?

— Da Basori-san. De quem mais?

Olhar vazio.

— Quer dizer, mesmo que depois disso todo mundo volte a ser amigo normalmente, ela sempre acaba se empolgando demais e perde literalmente todo o resto do panorama, entende o que quero dizer? Seria péssimo se as coisas terminassem mal entre ela e o Conselho. A gente devia—Ei! Que diabos, por que você está me chutando?!

Sem dizer uma palavra, ela deu uma mordida no sanduíche e então de repente me chutou na perna.

— Ai! Por que isso?!

— Tá vendo? Esse é o seu problema, Nukumizu-kun!

Yanami girou nos calcanhares, bufando, e saiu marchando na direção do prédio da escola, me deixando ali parado, piscando atrás dela.

...Essa mulher é louca?

Ainda esfregando a canela, entrei mancando no prédio e quase bati nela porque, do nada, Yanami tinha parado completamente diante dos armários de sapatos.

— Yanami-san, agora o que—

— N-Nukumizu-san... b-bom dia.

A voz veio da frente dela. E parada ali não estava a Chikapyon… mas uma edição especial da Tiara Basori. As meias três-quartos listradas estavam presentes e devidamente contabilizadas.

A faixa sagrada do Território Absoluto estava completamente à mostra. Os dois rabos de cavalo meio presos balançavam alegremente dos lados do rosto vermelho como um tomate.

Então ela apontou os dois indicadores para Yanami e fez a icônica pose da Chikapyon.

— Y-Yanami-san! Desculpa, mas nós também estamos indo com tudo para vencer...!

Yanami, ameaçada por aquele gesto dolorosamente constrangedor, encarou a Tiara-san como quem assiste a um acidente de carro em câmera lenta.

— Sim... claro. Boa sorte para nós duas.

……….

Yanami, não olha para mim desse jeito.

Confia em mim. Eu também estou morrendo de vergonha.

◇

O intervalo do almoço chegou e foi embora tão rápido quanto apareceu. Os alunos que estavam brincando no ginásio voltaram aos poucos para suas salas. Esperamos o local esvaziar, enquanto o leve arrastar de passos preenchia o ar.

— Muito bem.

De pé no palco do ginásio agora silencioso, a presidente Houkobaru começou:

— Parece que todos os candidatos e seus apoiadores estão presentes. Vou repassar o cronograma.

O olhar dela percorreu nós quatro — eu, Tiara-san, Sakurai-kun e Yanami —, parando brevemente em cada rosto.

— Primeiro, Yanami-kun e o candidato Hiroto. Você terá três minutos para o discurso de apoio. Hiroto, seu discurso não deve passar de cinco minutos. Depois, Nukumizu-kun e Basori-kun terão o mesmo tempo. Assim que os discursos terminarem, os alunos deverão retornar imediatamente às salas para votar. Espero que todos respeitem os limites de tempo estabelecidos.

Satisfeita, os lábios dela se curvaram num sorriso discreto, quase nostálgico.

— É estranho ver apenas rostos conhecidos aqui. Mas suponho que seja o destino. Não se contenham. Nada de arrependimentos. Digam tudo o que tiverem para dizer — os alunos do Colégio Tsuwabuki vão ouvir.

Antes que ela pudesse continuar, uma sombra opaca surgiu atrás dela.

— Hibari... O sensei... está chamando você...

— Entendi. Já vou.

O cabelo da presidente balançou quando ela se virou, mas Shikiya-san não a acompanhou. Por um instante — embora tenha parecido muito mais —, ela simplesmente encarou a Tiara-san.

O silêncio ficou denso, quase carregado de eletricidade, até que a Shikiya-san girou nos calcanhares e desapareceu sem dizer nada.

Sozinho no palco, soltei um suspiro longo e profundo. Ao meu lado, Tiara-san mantinha as duas mãos cerradas contra o peito, com um tremor fino percorrendo seu corpo.

— Nervosa? — perguntei.

— Sim — respondeu ela. — Daqui a pouco a escola inteira vai estar aqui, não é? E você, Nukumizu-san... está bem?

— Ah, sim, eu também estou nervoso. Mas, pelo menos dessa vez, tudo é legal. Não corro o risco de ser preso. É uma mudança agradável.

— Nukumizu-san, estamos falando de coisas diferentes?

Opa. Talvez eu não devesse ter falado isso em voz alta. Já me aposentei da vida do crime, muito obrigado.

— Então — mudei de assunto —, está pronta para o discurso, Basori-san?

Ela assentiu, embora o rosto estivesse um pouco pálido.

— Estou acostumada a falar em público. Faz parte de ser vice-presidente. Mas... só de pensar em subir lá vestida assim, diante da escola inteira...

— Mas...?

Gulp.

Ouvi ela engolir em seco. A curva de seu pescoço, pálida exceto pela pequena pinta na base, se moveu de maneira inquietante.

— E-Eu começo a sentir calor, meu coração acelera e meu corpo inteiro fica... estranho. Isso é... só nervosismo?

……..

Tiara-san. Acho que você está tentando abrir uma porta que deveria permanecer muito, muito fechada. Por favor, pelo amor de tudo que ainda é decente neste mundo… mantenha essa porta trancada.

Bem trancada.

◇

Não demorou muito para os alunos começarem a entrar no ginásio. O ambiente foi se enchendo de um murmúrio crescente de vozes e do som de passos se arrastando. Nós quatro esperávamos na lateral direita do palco, do ponto de vista da plateia.

Do outro lado, na ala oposta, a presidente do Conselho Estudantil e a Shikiya-san conversavam em voz baixa com o professor, conferindo os últimos detalhes. À medida que o murmúrio do ginásio aumentava, meus nervos aparentemente decidiram iniciar uma revolta em larga escala.

Respirei fundo.

Depois de novo.

E mais uma vez.

Infelizmente, era como tentar apagar um incêndio soprando nele. Tentei reler meu discurso, mas as palavras simplesmente escorregavam diante dos meus olhos.

Completamente inútil. Desisti e olhei ao redor. Sakurai-kun e Yanami pareciam irritantemente tranquilos. Os dois cochichavam, trocando conversa fiada como se estivessem prestes a assistir a um filme, e não fazer um discurso diante da escola inteira.

Meu Deus, eu preciso desse tipo de poder.

………..

Eles não estão um pouco perto demais um do outro?

Nah. Balancei a cabeça. Paranoia.

Definitivamente paranoia. Em vez disso, virei-me para a Tiara-san. Ela puxava a barra da saia, prendendo o tecido entre os dedos e tentando baixá-la repetidas vezes.

— O que foi?

— É que... está curta demais — disse ela, olhando para baixo. — Estou começando a ficar preocupada que as pessoas consigam ver por baixo quando eu estiver no palco. Quer dizer, no anime ela tem mais ou menos esse comprimento, então acho que deveria estar tudo bem, mas...

— Não... o mundo 2D possui uma física sobrenatural de saias que impede as pessoas de olharem por baixo delas. As três dimensões em que vivemos não vêm com o mesmo recurso de segurança — expliquei. — Se eu fosse você, tomaria cuidado.

— Vou ajustar rapidinho…….

Ela desapareceu nos bastidores. Uma parte profundamente indigna do meu cérebro observou que, se eu tivesse ficado de boca fechada, provavelmente teríamos garantido mais uns doze votos masculinos...

Enquanto eu me permitia aquele pensamento moralmente questionável, Sakurai-kun apareceu ao meu lado.

— Desculpa por arrastar você para tudo isso — disse ele em voz baixa. — Tudo começou por causa do meu egoísmo.

— Não é culpa sua — respondi sem pensar muito. — Qualquer pessoa pode se candidatar, por qualquer motivo. É assim que funciona.

Ele ficou me encarando de maneira desconfortavelmente direta.

— O quê?

— Hã — disse ele. — Então esse é o tipo de pessoa que você é.

(N/SLAG: Essa fala é uma variação do bordão da Yanami, normalmente traduzido como "Esse é o seu problema, Nukumizu-kun!". A expressão japonesa, porém, pode ter um sentido mais amplo, próximo de "Esse é o tipo de coisa que define você". Aqui, Sakurai usa a frase de maneira positiva, como quem reconhece que aquele comportamento é simplesmente característico de Nukumizu)

Ótimo. Agora até Sakurai-kun está falando isso...

Antes que eu pudesse comentar qualquer coisa, as portas do ginásio se fecharam com um baque retumbante, indicando que os últimos alunos tinham chegado.

Era hora.

— Desculpa — disse ele baixinho. — Mas eu pretendo vencer esta.

Com isso, Sakurai-kun se virou e voltou para o lado da Yanami, me deixando sozinho com aquela declaração irritantemente enigmática.

Por que ele estava se desculpando?

Fiquei em silêncio, ainda mastigando aquele pensamento, quando Tiara-san voltou.

— Desculpa fazer você esperar. Já vai começar, né?

— É. Hã... sua saia não parece realmente mais comprida do que antes... Tem certeza de que está tudo bem?

— Decidi que um pouco de emoção... quer dizer, de estilo... é necessário.

………

Alguma coisa me diz que aquela nova porta já começou a ranger.

Então a voz calma e firme da presidente Houkobaru atravessou os alto-falantes e silenciou os últimos cochichos da multidão.

— Todos, daremos início agora aos discursos de campanha.

O ginásio, barulhento apenas segundos antes, caiu num silêncio instantâneo.

— Primeiro, teremos o discurso de apoio ao candidato à presidência Hiroto Sakurai, apresentado por Anna Yanami, da turma 2-C. Pode começar.

◇

Yanami subiu até o púlpito no centro do palco, pegou o microfone e começou a mexer nele.

— Ahh, teste, teste.

Depois de passar… tempo demais… testando o microfone, ela limpou a garganta e começou.

— Hã, oi. Eu sou Anna Yanami. O cara concorrendo à presidência, Sakurai-kun, é meu colega de classe e... é. Basicamente essa é a nossa relação.

Era uma abertura descontraída até demais. Mas dava para relevar, considerando que ela estava diante de um ginásio cheio de alunos meio adormecidos.

Assim como no começo de uma apresentação de rakugo, ela precisava quebrar o gelo com a plateia enquanto ainda sentia o clima do ambiente.

(N/SLAG: Neste contexto, Nukumizu se refere ao makura, a introdução de uma apresentação de rakugo, em que o contador faz piadas e conversa com a plateia para aquecer o público antes de entrar na história principal)

Exatamente como eu imaginava, Yanami lançou mais algumas piadas fáceis para a multidão, aquecendo o público.

Por fim, sua expressão ficou mais séria. Certo. Chega de introdução.

Agora vem—

— Isso pode parecer meio aleatório, mas, pessoal... vocês são do time pão ou do time arroz?

……..

Eu menti. Talvez o discurso inteiro fosse só introdução.

Ignorando as expressões confusas que se espalhavam pelo ginásio, Yanami continuou com sua confiança habitual.

— Vejam bem, eu sou mais do tipo pão no café da manhã e arroz no almoço. De manhã, pão é o melhor porque é rápido e fácil quando você está com pressa. Mas, na hora do almoço, aí não tem jeito: o negócio é uma boa marmita com arroz branco. Então! Se vocês querem sobreviver àquelas aulas intermináveis da tarde e rastejar vivos até o fim do dia... Sim! Vocês precisam do PODER DO ARROZ!

Ela declarou aquilo com uma convicção impressionante, varrendo a plateia com os olhos.

— A essa altura, acho que todos já entenderam onde quero chegar.

Desculpa. Nenhuma ideia.

Lancei um olhar inquieto para Sakurai-kun, preocupado com a imagem dele, mas o encontrei observando Yanami com uma expressão divertida.

A tolerância desse homem era… verdadeiramente infinita. Yanami limpou a garganta novamente.

— Isso mesmo: Sakurai-kun É o arroz branco! O arroz aceita gentilmente qualquer acompanhamento. Seja ensopado ou oden, o arroz recebe todos de braços abertos!

(N/SLAG: Oden (おでん) Prato japonês popular principalmente no inverno, preparado com diversos ingredientes cozidos lentamente em caldo. Costuma ser acompanhado de arroz branco)

O motor dela já estava a todo vapor. Deixando o resto de nós abandonado na beira da estrada, o Teatro Yanami continuou avançando.

— Eu posso ser mentaiko! Os amigos dele podem ser frango frito ou sal com gergelim! E, mesmo assim, ele nunca escolhe favoritos! Ele recebe todos da mesma maneira!

(N/SLAG: Mentaiko (明太子) Ovas de bacalhau temperadas, geralmente marinadas com pimenta. É um acompanhamento e recheio bastante comum para arroz e onigiri. Yanami compara sua própria personalidade mais intensa e "apimentada" ao mentaiko, em contraste com a natureza simples, acolhedora e confiável do arroz branco, representado por Sakurai-kun)

Ela gesticulou dramaticamente em direção à lateral do palco e, no momento perfeito, Sakurai-kun surgiu de trás da cortina.

— Sakurai-kun nunca diria uma coisa grosseira que rasga seu coração como um cinzel, diferente de certo Sal-com-Gergelim-kun! E ele REALMENTE escuta quando eu falo! Você podia aprender com ele.

Ela fez uma pausa.

— Por favor, aprenda com ele.

Não faço ideia de quem seja esse tal Sal-com-Gergelim-kun, mas duvido muito que ele merecesse aquilo.

Além disso, Yanami… por que você está olhando para mim?

Ela voltou a encarar a plateia, os olhos em chamas.

— O Conselho Estudantil existe para que todos possam ter uma vida escolar melhor. Mas, às vezes, também vamos precisar da ajuda de vocês — para caminharem ao nosso lado. E, quando isso acontecer, Hiroto Sakurai, aquela grande e generosa tigela cheia de arroz branco, vai receber os sentimentos de vocês e saboreá-los deliciosamente!

PÁ!

Ela bateu as duas mãos com força no púlpito.

— Ninguém vai passar fome sob a liderança dele! Vamos garantir isso! Hiroto Sakurai! Com o apoio de vocês, vamos transformar Hiroto Sakurai no nosso arroz recém-cozido e fumegante!

Um silêncio atônito pairou por um instante. Então, impulsionados pela paixão estranha, mas contagiante da Yanami, os alunos começaram aos poucos a aplaudir.

As palmas ficaram mais fortes. E mais fortes. E, no instante em que Yanami ergueu um punho triunfante e se afastou do púlpito o ginásio explodiu.

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◇

Obviamente, o discurso de Yanami tinha deixado todo mundo completamente empolgado, mas… que diabos eu tinha acabado de presenciar? Se eu não tivesse comido antes, talvez até eu tivesse acabado caindo no feitiço dela...

Quando Yanami desceu do palco, exibiu um sorriso vitorioso e bateu na mão do Sakurai-kun. Desviei o olhar daquela expressão convencida e me voltei para Sakurai-kun, que, como sempre, mantinha aquele sorriso calmo e inabalável.

No entanto, seus olhos estavam fixos intensamente no palco.

O ginásio, ainda fervilhando com a energia do Teatro Yanami, caiu em silêncio quando a voz clara da presidente atravessou o barulho.

— A seguir, ouviremos o discurso do candidato Hiroto Sakurai, da turma 2-C. Pode começar.

◇

— Boa tarde — começou Sakurai-kun, fazendo uma reverência educada diante do microfone. — Meu nome é Hiroto Sakurai e atualmente exerço a função de tesoureiro do Conselho Estudantil.

Sua voz era clara e controlada — completamente diferente da de Yanami pouco antes. Ele não se apressou. Em vez disso, deixou o olhar percorrer lentamente o ginásio, como se estivesse fazendo contato visual com cada aluno ali dentro.

— Dito isso, normalmente não fico diante de uma multidão assim — continuou. — Então imagino que muitos de vocês talvez nem saibam quem eu sou.

— A gente sabeeee!

Um coro de vozes agudas de garotas apaixonadas explodiu em algum ponto da plateia.

Uau, Sakurai-kun. E eu achando que a gente era amigo.

— No Conselho Estudantil, sempre preferi trabalhar nos bastidores. Apoiar os outros em vez de ocupar o centro das atenções. Por isso, embora eu não possa reivindicar nenhuma grande conquista como sendo apenas minha... gostaria de compartilhar algumas das realizações do Conselho Estudantil até agora.

Era uma abertura convencionalmente sincera… E, na verdade, bem mais direta do que eu esperava.

Como ele também fazia parte do Conselho, fazia sentido destacar as conquistas deles.

Digitalização das reservas de instalações. Revisão dos orçamentos de eventos. Instalação de nova iluminação no prédio esportivo feminino.

Todos projetos simples, mas também extremamente eficientes. Ele tinha escolhido muito bem os exemplos. E, ainda assim, quanto mais eu ouvia, mais alguma coisa se apertava dentro do meu peito.

Espera aí...

— Nukumizu-san — sussurrou Tiara-san com urgência, puxando minha manga. — Deixe-me ver seu roteiro.

— É. Só um segundo.

Segundo nossa estratégia, meu discurso de apoio destacaria as conquistas anteriores dela, enquanto Tiara-san se concentraria nas propostas para o futuro.

Baixei os olhos para minhas anotações e li os pontos nos quais planejava focar.

Digitalização das reservas de instalações. Revisão dos orçamentos de eventos. Instalação de nova iluminação no prédio esportivo feminino.

— Isso não é—

Tiara-san apertou os lábios numa linha fina e assentiu levemente. Exatamente. Sakurai-kun estava listando as conquistas dela. Era um ataque direcionado.

Tecnicamente, claro, aquelas eram iniciativas do Conselho Estudantil, e Sakurai-kun também tinha deixado claro que apenas ajudara.

Então ele não estava mentindo. Também não estava enganando ninguém. Mas… se repetíssemos os mesmos pontos agora, não apenas pareceria que estávamos copiando ele. Pareceria que estávamos tentando levar o crédito pelas conquistas dele.

— Droga. Não achei que Sakurai-kun fosse jogar desse jeito.

— É uma estratégia válida — respondeu Tiara-san com firmeza, cerrando o punho. — Fomos nós que escolhemos usar a ordem dos discursos para causar impacto com a minha roupa. Sakurai-kun apenas transformou a desvantagem de falar primeiro numa vantagem. Só isso.

Não havia ressentimento algum em sua voz. Apenas determinação.

— Certo. Esquece o roteiro. Não dá mais para usar. Faz o que você sabe fazer melhor e improvisa.

— Isso definitivamente NÃO é uma das minhas habilidades!

Percebendo nossa agitação, Yanami piscou e olhou de um para o outro.

— Por que vocês estão cochichando tanto? Nukumizu, você é o próximo, sabia?

Como se tivesse sido calculado, aplausos começaram a subir do ginásio, sinalizando o fim do discurso de Sakurai-kun. Ele fez uma reverência profunda para a plateia e deixou o palco. Nos bastidores, Tiara-san cruzou os braços e o encarou com os olhos semicerrados.

— Você realmente foi lá e fez isso, não foi, Sakurai-kun?

Ele sorriu sem jeito.

— Desculpa, Basori-chan. Depois eu peço desculpas quantas vezes você quiser, prometo.

…………

Eu não devia ser a pessoa recebendo esse pedido de desculpas?

Não. Prioridades. Olhei novamente para meu roteiro.

E de novo.

Meus olhos correram pelas palavras repetidas vezes, quanto mais eu lia, mais tudo parecia apenas uma cópia do que Sakurai-kun tinha acabado de dizer.

Então é isso. Eu vou ter que ficar na frente da escola inteira e… improvisar o discurso todo.

Hã. A voz calma e ressonante da presidente Houkobaru ecoou pelo ginásio agora silencioso.

— E agora, o discurso de apoio à candidata Tiara Basori, apresentado por Kazuhiko Nukumizu, da turma 2-C. Por favor, prestem atenção.

Bom.

Era isso.

Minha vez tinha chegado.

◇

…………..

Agora não tinha mais como voltar atrás. Fechei os olhos e puxei uma respiração lenta e trêmula.

Certo. Quase pronto. Só mais uma respiração profunda. Mais uma e eu iria para o palco.

— Nukumizu-san! Acabaram de chamar seu nome!

— Ah, sim. Eu... hã, estou me aquecendo. Me dá um segundo—

— Você pode se aquecer no palco!

— Espera, calma—!

Uma mão firme me empurrou entre as escápulas e me fez cambalear para a frente. O ginásio surgiu inteiro diante dos meus olhos. Centenas de olhares, vindos de todos os cantos do lugar, se voltaram para mim ao mesmo tempo.

O peso daquela atenção me atingiu como uma parede. Tentei não pensar nisso e corri até o púlpito antes que minha coragem evaporasse por completo, procurando o botão do microfone com os dedos trêmulos.

Clique.

— Hã, hã... Eu sou Nukumizu — disse, e minha voz explodiu pelos alto-falantes. — Eu tive a, hã... a honra de ser escolhido para servir como... apoiador da candidatura da Basori-san.

As palavras se embolaram na garganta. Forcei uma tosse constrangida, e o silêncio apenas ficou mais pesado.

Tenho que admitir: ficar ali sozinho não se parecia em nada com a apresentação dos clubes lá em abril. A pressão era completamente diferente. Dolorosamente diferente.

— Basori-san é, hã... muito séria. E, hã...

O ginásio engoliu minha voz. O silêncio pressionava meu corpo até quase dificultar a respiração. Qualquer resquício de coragem que ainda me restava evaporou instantaneamente.

Sério, o que eu estava esperando?

Aquilo era o mundo real. As três dimensões. Você não desperta poderes ocultos só porque foi encurralado.

Sentindo-me minúsculo e dolorosamente consciente de mim mesmo, olhei para a lateral do palco, onde Tiara-san assistia.

Preparei-me para encontrar irritação. Decepção. Ou qualquer coisa entre as duas—

Mas não havia nada disso.

Em vez disso, os olhos dela encontraram os meus com uma intensidade afiada. Não havia impaciência neles. Apenas confiança… e força.

"Só por agora. Só desta vez. Você não poderia me apoiar? Apenas a mim?"

As palavras dela naquele dia no café voltaram à minha mente, tão claras como se estivesse ali ao meu lado.

Mesmo agora, mesmo enquanto eu gaguejava diante da escola inteira, mesmo enquanto não fazia nada além de passar vergonha—

Tiara-san ainda acreditava em mim.

Em mim. Endireitei as costas antes que pudesse me convencer a desistir. Então ergui a cabeça e encarei as fileiras de olhares à minha frente.

— Eu... conheci ela pouco antes do Festival Tsuwabuki do ano passado.

Foi então que percebi: minha determinação nunca importou. Minha coragem improvisada nunca importou. Porque, não importa quantas dessas coisas eu tentasse vestir por cima de mim… no fim das contas, eu ainda era apenas um aluno qualquer.

Como Kazuhiko Nukumizu, eu era apenas um cara comum. A única coisa que eu podia fazer era falar sobre ela. Sobre a Tiara-san. A garota que eu conhecia há menos de um ano.

— Minha primeira impressão dela foi que era... extremamente séria — disse. — Quer dizer, sim, ela se vestiu de empregada no festival e até falou "nyaaa~" e essas coisas, mas... no geral, eu juro que ela realmente é uma pessoa muito séria.

……..

O olhar que veio dos bastidores não era brincadeira.

— Durante toda essa eleição, todo tipo de boato foi publicado no jornal da escola e no site do Clube de Jornalismo. Alguns eram verdade. Outros não. Muitos eram apenas comentários cruéis e ofensivos, mas...

O rosto dela surgiu na minha mente. A expressão que fez quando aquelas matérias saíram. Ela fingia que não se importava. Mas se importava. Até eu conseguia perceber isso.

— Para ser... completamente sincero, algumas das coisas que disseram não estavam totalmente erradas — continuei. — Sim, ela é teimosa. Inflexível. Cabeça-dura pra caramba. E também um pouco egoísta.

A pressão invisível vindo dos bastidores aumentou violentamente. Puxei o ar e continuei apesar dela.

— Mas esse egoísmo nunca foi por ela mesma. Sempre foi por outra pessoa. Sempre. E... acho que decidir se candidatar desta vez foi a primeira coisa egoísta que ela fez por si própria.

Talvez fosse melhor Sakurai-kun se tornar presidente. Eu realmente tinha pensado nisso no começo. Ele era popular, competente e respeitado… Se eu não tivesse me envolvido em toda essa história, provavelmente teria votado nele também.

— O motivo de eu ter aceitado ser o apoiador oficial dela — disse, erguendo a cabeça novamente — foi porque eu queria ajudar a realizar esse primeiro desejo egoísta. Claro, comparada à atual presidente, ela talvez pareça pouco confiável.

Só que eu estava envolvido. Eu era o apoiador oficial da Tiara Basori.

— Mas a Basori-san ainda é uma pessoa por mérito próprio. Basori-san tem as próprias qualidades. Eu realmente acredito que ela também pode se tornar uma excelente presidente do Conselho Estudantil. E, se ainda houver alguém aqui que pense mal dela—

………

Então é justamente por isso que estou aqui. Porque, se ninguém mais fizer isso—

— Mandem o pior que tiverem! — Minha voz ecoou por todo o ginásio. — Para cada insulto que jogarem contra ela, eu vou responder com um elogio ainda maior! Vou contar exatamente o que eu conheço da Basori-san desajeitada, forte, sincera e genuinamente gentil que eu vi até hoje! E, se for preciso, vou continuar falando até amanhecer!

Esvaziei tudo o que havia nos pulmões numa única e longa respiração e encarei o ginásio silencioso.

Silêncio. O ginásio inteiro parecia congelado. Todos os alunos permaneciam calados, de olhos arregalados.

Eu… acabei de fazer uma merda colossal...?

Virei lentamente a cabeça na direção dos bastidores. Tiara-san estava ali, com o rosto pegando fogo de tão vermelho, tremendo da cabeça aos pés.

Os dois indicadores estavam erguidos na pose da Chikapyon. O que… diabos isso quer dizer?

De repente, um arrepio gelado subiu pela minha nuca.

— Eu... também quero falar até amanhecer...

— Hã?!

Antes mesmo que eu pudesse reagir—

Bzzzt.

Um estalo violento rasgou o ginásio, e todas as luzes se apagaram de uma vez. A escuridão engoliu tudo. Vozes confusas explodiram na plateia em ondas sobrepostas.

Por um instante, minha visão ficou turva, e o mundo pareceu se inclinar estranhamente ao meu redor. Alguns segundos se passaram até meus olhos finalmente se ajustarem.

Então os arregalei em choque. Eu estava… nos bastidores.

Exatamente onde estava antes de começar o discurso. Outro estalo seco cortou o ar, e as luzes do ginásio voltaram todas ao mesmo tempo. Uma onda baixa de murmúrios se espalhou pelo ambiente como ondulações na água.

No centro do palco, parada diante do púlpito estava Shikiya-san. Enquanto ela balançava levemente diante do microfone, um chiado agudo e estridente explodiu pelos alto-falantes, perfurando os ouvidos de todos.

Quando a microfonia finalmente cessou, Shikiya-san abriu lentamente a boca.

— Turma 3-E... Yumeko Shikiya... substituição... de jogador...

Naquele instante, todos no ginásio prenderam a respiração. Então as luzes do teto começaram a piscar novamente, e algumas garotas na plateia soltaram pequenos gritos.

◇

É claro que a presidente Houkobaru não tinha previsto aquilo. Do outro lado do palco, ela balançava a cabeça e fazia gestos urgentes para Shikiya-senpai descer. Shikiya-senpai, porém, ignorou completamente e se inclinou sobre o microfone.

— A candidata... à presidência do Conselho Estudantil... Tiara-chan... como todos sabem... atualmente ocupa... o cargo de vice-presidente...

Fiquei encarando, completamente atônito. Ao meu lado, Tiara-san agarrou minha manga com uma força preocupante.

— Por que a Shikiya-senpai está lá em cima?! — sibilou.

— Eu não faço ideia... — murmurei.

Enquanto ela continuava me pressionando agressivamente por respostas, Yanami ergueu um polegar entusiasmado ao nosso lado.

Por favor, para. As pessoas vão entender errado.

Voltei a atenção para o palco enquanto ainda tentava acalmar Tiara-san.

Shikiya-san tinha avançado para outro assunto e agora falava sobre abril do ano anterior, quando Tiara-san tinha se voluntariado para ajudar na limpeza da escola.

— Tiara-chan... não se dava bem... com os outros...

É. Eu conseguia imaginar perfeitamente. Na época em que a conheci, ela era um pouco mais… espinhosa… do que hoje, eu diria.

Só conseguia imaginar com quantas pessoas ela devia ter entrado em conflito naquela época.

— Mas... quando eu fiquei afastada... por um tempo... ela cuidou... do meu precioso canteiro de flores... e manteve tudo bonito...

Balançando levemente, Shikiya deixou o olhar vagar para o espaço vazio acima de nós. Os alunos seguiram seus olhos por reflexo e olharam para cima, mas, obviamente, não havia nada ali.

— Eu achei... que todas iam murchar... então fiquei... muito feliz...

Era verdade que suas palavras saíam num tom quase sem emoção. Mas havia fios desajeitados de sentimento passando por elas. Eram claros o suficiente até para eu perceber e Tiara-san certamente percebeu também.

A tensão fervilhante nos ombros dela foi diminuindo aos poucos.

— Shikiya-senpai tem o hábito de desistir... das coisas que são importantes para ela — murmurou Tiara-san com certa melancolia.

Talvez percebendo meu olhar, acrescentou no tom brusco de sempre:

— É por isso que o resto de nós precisa proteger essas coisas por ela.

A história daquele canteiro tinha acontecido antes mesmo da Tiara-san entrar para o Conselho Estudantil. Como ela tinha conseguido compreender Shikiya-san tão profundamente numa época em que mal a conhecia?

— Por que você acha isso? — perguntei.

— Dá para perceber só de olhar. Eu sou igual.

Ela sustentou meu olhar por um instante antes de voltar os olhos para o púlpito. A narração suave e fragmentada de Shikiya-san continuou.

— Aquela garota... mesmo quando alguém fala mal dela... continua ajudando... sem pensar duas vezes...

Pouco a pouco, seu balanço ficou mais acentuado.

— Mesmo quando ninguém está olhando... mesmo quando ninguém elogia... ela continua fazendo... as coisas que ajudam todo mundo...

De repente, ela congelou. Hã. Ela está bem? Alguém não devia dar uma água açucarada de pêssego para ela ou alguma coisa assim?

O corpo estudantil inteiro assistia com ansiedade, todos prendendo a respiração ao mesmo tempo. Então, lentamente, Shikiya-san voltou a se mover.

— Mas... eu não fui... a primeira... a encontrar ela...

Pisquei.

Sempre tinha presumido que Shikiya-san fosse quem descobrira Tiara-san e a recomendara ao Conselho Estudantil.

— Sakurai-kun me disse... que tinha uma garota muito boa... que eu devia observar...

— Hã?

Ao meu lado, Tiara-san deixou escapar um pequeno som de surpresa. Ela voltou o olhar para Sakurai-kun, que coçou a ponte do nariz sem jeito.

— Ele disse... que ela era esforçada... e gentil... então queria recomendar ela para o Conselho...

Shikiya-san balançou alegremente, com um pequeno salto surgindo em seu ritmo.

— Quando finalmente conheci ela... era fofa... séria... um pouco fácil de convencer... e muito gentil...

A voz dela ficou mais calorosa conforme enumerava as qualidades da Tiara-san, e era impossível não perceber a alegria por trás daquelas palavras. Já o alvo dos elogios começava a se remexer profundamente constrangida.

— A pinta dela é fofa... ela tem cheiro de sabonete... as costas são sensíveis... é adorável...

Hã… Tenho a impressão de que estamos saindo um pouco do assunto.

O sorriso tímido da Tiara-san desapareceu, e sua expressão começou a se contorcer.

— E o tamanho do sutiã... não serve direito... é fofo.

Ela fez uma pausa.

— Mas ultimamente... tenho a impressão... de que cresceu...

Hã.

Os punhos da Tiara-san estavam tremendo agora, com os nós dos dedos completamente brancos.

Aparentemente satisfeita por ter tirado aquilo do peito, Shikiya-san voltou a ficar em silêncio, continuando a balançar suavemente no palco.

Quando os últimos segundos do tempo concedido começaram a acabar, ela se inclinou outra vez para o microfone.

— Tiara-chan... é o tipo de garota... que pode se tornar... alguém que está lá pelos outros...

De repente, o corpo dela tombou para a frente, na direção do púlpito. Sons de surpresa percorreram a plateia, mas ela conseguiu se segurar, agarrando o microfone com as duas mãos para permanecer de pé.

— Então, por favor... pessoal... — disse, com a voz enfraquecendo. — Votem na Tiara-chan... se puderem...

Ela puxou uma última respiração, reunindo o derradeiro fiapo de força que ainda lhe restava.

— Mas Sakurai-kun também é... um kouhai fofo... então, por favor... pensem com cuidado... e votem... com o coração...

No instante em que aquelas palavras deixaram sua boca, um brilhante feixe de luz solar atravessou perfeitamente as janelas do ginásio e caiu sobre Shikiya-san como um holofote.

Como se aquilo fosse o sinal, os aplausos explodiram.

O ginásio inteiro tremeu com tamanho estrondo que fez o discurso de alguns instantes atrás parecer um sonho febril.

◇

Assim que a Shikiya-san voltou para o lado oposto do palco, a presidente Houkobaru a recebeu com um golpe de caratê no topo da cabeça.

Foi meio fofo.

Olhei para Tiara-san. Ela estava de cabeça baixa, o corpo inteiro tremendo.

— Sinceramente... todos eles... todos... sério...! — murmurou entre os dentes cerrados.

Ih. Ela vai explodir.

— Mas, quer dizer... no fim das contas, meio que deu certo, não deu? — tentei argumentar. — E, hã, aliás, agora é a sua vez.

— Não existe absolutamente nenhum limite para o quanto eles conseguem ser egoístas?! Será que não podem simplesmente parar?!

Hã…

Não sei muito bem o que você espera que eu faça a respeito disso.

— Obrigada por aguardarem — ecoou a voz da presidente Houkobaru. — Agora daremos continuidade aos discursos dos candidatos à presidência. A seguir, da turma 2-F: Tiara Basori. Pode começar.

Tiara-san claramente ainda tinha muito do que reclamar, mas, ao ouvir o anúncio da presidente, sua expressão se concentrou imediatamente. Ela pressionou uma das mãos com firmeza contra o peito e respirou fundo.

— Bom, se é assim que as coisas vão ser... então acho que eu também vou ter que fazer tudo do meu jeito.

— Hã? Agora você ficou toda empolgada?

Ela ergueu a mão e, com confiança, deu um pequeno toque em uma das mechas presas nas laterais do rosto. Então abriu para mim um sorriso largo, mostrando os dentes.

— Lá vou eu, Nukumizu-san.

◇

Um murmúrio atravessou o ginásio quando Tiara-san surgiu dos bastidores. Eu tinha quase esquecido, mas… ela estava literalmente fazendo cosplay agora.

Ela parou ao lado do púlpito, fez uma profunda reverência para a plateia e então se posicionou diante do microfone.

— Meu nome é Tiara Basori e estou concorrendo ao cargo de próxima presidente do Conselho Estudantil.

Era um começo bastante sério. O que ficava meio estranho considerando a aparência dela naquele momento. Como resultado, a atmosfera leve deixada pelo espetáculo anterior de Shikiya-san começou pouco a pouco a se acalmar.

— Assim como Sakurai-kun, que falou anteriormente, eu também faço parte do Conselho Estudantil e atualmente exerço a função de vice-presidente. Tenho certeza de que já tive o prazer de trabalhar com muitos de vocês durante os eventos escolares.

Ela fez uma breve pausa, avaliando o clima do ginásio antes de continuar num tom gentil.

— Meu plano original era destacar aquilo que conquistei junto ao Conselho Estudantil durante este último ano... mas parece que o Sakurai-kun já roubou essa parte de mim, não é?

Ela abriu um pequeno sorriso e lançou um olhar brincalhão para Sakurai-kun nos bastidores. Algumas risadas dispersas ecoaram pela plateia.

Voltando-se novamente para o público, o tom da Tiara-san ficou solene.

— Na época do ensino fundamental, o Colégio Tsuwabuki era a escola dos meus sonhos.

……..

Ela está saindo do roteiro.

Não havia nada tão nostálgico assim no discurso que tínhamos planejado.

— Para mim, os senpais que caminhavam por estes corredores eram heróis e heroínas. Eu sonhava com o dia em que passaria na prova de admissão. Com o dia em que finalmente poderia estudar aqui, no Colégio Tsuwabuki e dividir minha vida no ensino médio com eles.

Suas palavras pareciam estranhamente distantes. Como se ela não estivesse realmente falando com a multidão diante dela… mas com a própria versão do passado.

— Eu queria fazer parte do "normal" do Colégio Tsuwabuki. Queria estudar normalmente, suar normalmente durante as atividades dos clubes e viver uma vida escolar normal...

Ela fez uma breve pausa. Sua expressão endureceu enquanto seu olhar percorria o ginásio.

— Eu achava que bastaria ser aprovada para conseguir isso. Porém… A realidade não foi tão gentil.

Tiara-san hesitou por um instante antes de continuar.

— Minhas notas não são, de forma alguma, boas. Na verdade, dá até para dizer que são péssimas. Todo semestre, eu mal conseguia escapar de ser reprovada.

O mesmo segredo que ela certa vez tinha tentado esconder com tanto desespero. Sua maior insegurança.

— Também sou péssima em esportes. Até quando estou apenas conversando casualmente com meus amigos, sou constantemente lembrada da diferença que existe entre nós. Quase imediatamente depois de entrar na escola, fui obrigada a encarar uma verdade cruel: eu jamais conseguiria me tornar aquela estudante "normal" que tanto idolatrava.

Conforme expunha suas vulnerabilidades, uma expressão de alívio tomou conta de seu rosto, como se finalmente tivesse se livrado de um peso que carregava havia muito tempo.

— Foi mais ou menos nesta época, no ano passado. Eu estava participando como voluntária de uma atividade organizada pelo Conselho Estudantil quando alguns senpais vieram falar comigo e me convidaram para entrar. Embora, pelo visto, quem realmente sugeriu meu nome tenha sido o Sakurai-kun ali.

Ela abriu um sorriso travesso antes de continuar.

— Quanto a tudo o que fiz desde então... bem, tenho certeza de que muitos de vocês já sabem o que aconteceu depois disso.

A brincadeira pairou no ar por alguns instantes antes de sua expressão voltar a ficar séria.

— Para ser completamente sincera, sei que causei problemas para muitos de vocês. Minha imaturidade chegou até a machucar pessoas.

Para minha surpresa, Sakurai-kun tinha aparecido bem ao meu lado. Ele parecia querer dizer alguma coisa, então dei uma leve cutucada nele com o cotovelo.

— Tudo que termina bem acaba bem — sussurrei.

— Obrigado.

— Não precisa agradecer.

E ficou por isso mesmo. Agora estávamos lado a lado, ombro a ombro, observando em silêncio enquanto Tiara-san abria o coração.

— Foi trabalhando no Conselho Estudantil que finalmente percebi uma coisa. Talvez eu nunca consiga me tornar o herói ou a heroína que idolatrava quando criança. Mas...

Num súbito impulso de energia, Tiara-san arrancou o microfone do suporte.

— Eu posso ser aquela que dá apoio a eles!

Ela continuou:

— Sim! Todos vocês, alunos do Colégio Tsuwabuki — cada um de vocês sentado aqui agora! Vocês são os heróis e heroínas que eu sempre admirei! Aqueles que eu sempre quis ser!

Seu grito apaixonado reverberou por todo o ginásio, puro e sem qualquer contenção.

— Eu vou construir esse lugar! Nós, do Conselho Estudantil, vamos construir! Vamos criar um ambiente em que vocês possam se dedicar completamente aos estudos, aos clubes, a tudo!

Ela gritava no microfone sem se importar nem um pouco com a microfonia estridente que estava provocando.

Atingidos pela força crua de suas emoções, os alunos permaneceram imóveis, com os olhos presos nela.

— Mesmo assim! Sei que minha própria falta de capacidade ainda vai causar problemas para vocês! Tenho certeza de que haverá momentos em que vão querer reclamar! E, quando isso acontecer... descarreguem tudo em mim! Eu vou aceitar cada última reclamação! Descontem suas frustrações em mim!

Ela respirou fundo.

— Não precisam se segurar!

Eu não conseguia evitar a impressão de que, com aquele jeito de falar, ela estava escancarando aquelas novas portas de uma vez. Mas decidi firmemente ignorar isso.

Ainda assim...

Aquilo estava funcionando surpreendentemente bem.

Tiara-san praticamente se jogava por cima do púlpito, mas os alunos não pareciam incomodados com a intensidade dela.

Na verdade, era o contrário. O calor puro e sem filtros de sua paixão parecia atraí-los ainda mais.

A maneira como as coisas tinham acontecido até ali tinha deixado todos com perguntas sem resposta, sem saber muito bem o que pensar. Com o rosto completamente vermelho, Tiara-san se inclinou ainda mais sobre o púlpito.

— É por isso... É por isso que...!

Hã.

Ela não está ficando empolgada demais? Se continuar se exaltando assim, pode acabar—

— Eu—?!

As mãos de Tiara-san voaram imediatamente para o nariz. O microfone escapou de seus dedos e bateu no púlpito com um baque surdo.

……….

Não pode ser. Os ombros da Tiara-san começaram a tremer violentamente.

Hã, bom… isso significa que—

O ginásio se encheu de murmúrios confusos diante daquela interrupção repentina.

— Ei, o que aconteceu com a Basori-san? Ela comeu demais?

Com as bochechas estufadas enquanto mastigava algum lanche, Yanami apareceu ao meu lado e olhou preocupada para o palco.

Yanami. Caso você não tenha percebido, estamos literalmente no meio de uma assembleia escolar.

Mas deixa isso pra lá.

Aquilo era ruim. Eu não tinha muita certeza de quão ruim, mas definitivamente era ruim. Precisava fazer alguma coisa, rápido. Comecei a vasculhar desesperadamente os bolsos atrás de um lenço de papel—mas, quando ergui os olhos novamente, Tiara-san já tinha parado de tremer.

Agora, seus olhos ardiam com uma determinação feroz e inabalável. Ela se preparou, afastando as mãos do rosto enquanto agarrava novamente o microfone com o sangue ainda escorrendo livremente de seu nariz.

— Resumindo... cada um de vocês é o meu oshi! — gritou ela. — Então, por favor...!

(N/SLAG: Odeio interromper o discurso lindo da Tiara-san, mas vamos lá. Oshi (推し) Termo usado para indicar a pessoa ou personagem favorito de alguém. Nesse contexto, Tiara-san está dizendo que considera todos os alunos pessoas que deseja apoiar e pelas quais torce.)

Era um apelo desesperado. Acompanhado por um sangramento nasal.

Naquele momento, Tiara-san puxou uma quantidade enorme de ar para os pulmões — e soltou o que acabaria se tornando o grito mais alto de todo aquele dia.

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— EU IMPLORO! POR FAVOR! DEIXEM QUE EU APOIE TODOS VOCÊS!

SCRIIIIICH!

Os alto-falantes soltaram um uivo agudo de microfonia. A intensidade absurda daquela declaração deixou o ginásio inteiro em completo silêncio. A respiração ofegante e irregular da Tiara-san ecoava pelo espaço.

Então, puxando o ar mais uma vez, ela se virou de repente e apontou um dedo acusador para Shikiya-senpai, que estava fora do palco.

— E, Shikiya-senpai! Pare de me chamar pelo primeiro nome em público!

Limpando o sangue do nariz com uma passada da manga, Tiara-san voltou-se para todo o corpo estudantil do Colégio Tsuwabuki e soltou seu último brado:

— É só isso! Tiara Basori se despedindo!

Naquele fatídico dia, Tiara Basori foi oficialmente escolhida como a próxima presidente do Conselho Estudantil do Colégio Tsuwabuki. E, daquele dia em diante, ela passaria a ser conhecida como: "A Presidente Carmesim do Conselho Estudantil."

📖✨ Este capítulo foi traduzido por Slag e revisado por Shisui

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Fim da leitura

Capítulo 97 concluído

Volume 8 – Capítulo 3 – Capítulo 3: Um Coro Carmesim de Caos