Vejo Você Quando a Neve CairVOLUME ÚNICO – Capítulo 28
Capítulo 28Assim que o horário de almoço começou, senti os olhares de toda a sala me seguindo para fora. Houve alguns sussurros e talvez alguns rosnados de inveja.
— Para onde estamos indo? — perguntei.
— Hmm, já que estou te chamando de Satoshi-kun, que tal você me chamar só de Ayaka?
Sem hesitação, sem vergonha. Sem “-chan” ou qualquer honorífico. Se ela não tivesse me dito que veio de Kagoshima, eu teria achado que ela cresceu fora do Japão.
— Que tal eu te chamar de Yao-san?
— Mas ia ficar estranho eu te chamar pelo primeiro nome e você me chamar pelo sobrenome.
É estranho você me chamar pelo primeiro nome desde o começo.
Mas não tive coragem para falar isso.
— Então que tal Ayaka-san?
— Isso também serve.
Ela me perguntou se eu tinha dinheiro. Eu tinha. Perguntou onde ficava a saída secreta da escola. Quase toda escola tem uma. Os alunos precisam sair escondidos de algum jeito. Levei ela para trás do prédio principal, onde uma árvore caída permitia escalar a cerca que cercava a escola.
— Ei! — exclamou Ayaka ao pular do outro lado da cerca. Eu a segui.
— O que você quer fazer?
— Eu te contei antes, né? Na minha escola antiga, a gente era expulso se fosse pego saindo escondido duas vezes, então nunca comi almoço fora durante o horário de aula.
Suspirei. Seria um saco levar advertência por causa dessa garota nova, mas meus pés já estavam do outro lado da cerca, então eu ia até o fim.
— Então, o que você quer comer? — perguntei.
— Hmm, o que as pessoas costumam comer?
— Às vezes vamos ao McDonald’s ou a uma loja de ramen.
— Que tal sushi?
— Isso é caro demais. Não tenho 2000 ienes para gastar no almoço.
[NT: Na data desta tradução (06/2026), isso equivale a R$ 67,50. Apesar de parece acessível, algumas escolas já dão a opção de refeições mensais por volta de ¥4.000, ou seja, só a ida ao McDonalds representaria 2 semanas de refeição na escola.]
— Hmm, eu sempre achei 2000 ienes bem barato.
Garota rica.
Ayaka pensou um pouco e acabou dizendo que queria experimentar a loja de ramen.
Eu li uma vez num blog que você nunca deve ir a uma loja de ramen com uma garota. A comida chega rápido demais, você come rápido demais e não sobra tempo para conversar, o que fazia total sentido. O ramen ficou popular durante o período de reconstrução depois da Segunda Guerra Mundial, quando os trabalhadores precisavam de algo rápido, barato e que enchesse a barriga.
Dá pra dizer que o ramen foi o fast food original japonês.
Mas eu não estava num encontro com essa garota, portanto, levei ela para a pequena barraca de ramen que os alunos frequentam depois da aula. Custava 500 ienes por tigela, mais caro que o prato de 250 ienes da cantina da escola, mas tinha o dobro do sabor.
Ayaka parecia fascinada com o mundano. Olhava ao redor e prestava atenção em cada detalhe. Perguntei por que ela estava agindo como uma turista idiota.
— Em Kagoshima a gente quase nunca ia a lojas de ramen. Minha mãe não gostava de comer fora e achava que toda comida de rua, a menos que fosse de alto nível, fazia mal à saúde.
Olhei para o meu ramen.
Caldo oleoso, porco, macarrão, sem nenhum legume... A mãe dela não está totalmente errada….
Partimos os hashi e começamos a comer. Não falamos muito durante a refeição. Cada um focado na própria comida. Quando terminou, ela disse que queria pedir um chope. Eu avisei que ainda estávamos de uniforme e não tinha a menor chance de servirem cerveja, então ela fez biquinho.
Quando voltamos, peguei meu celular e liguei para Kota, um amigo antigo e leal. Nos conhecemos desde o ensino fundamental. Ele veio até os fundos do prédio, jogou uma corda por cima da cerca e nos ajudou a subir.
Ayaka viu meu celular e disse que devíamos trocar os IDs do LINE, então fizemos isso. Ela se virou para Kota-kun e trocou IDs com ele também.
Voltamos para a sala, com Ayaka andando na frente.
— Então… aconteceu algo bom? — perguntou Kota.
— Não.
— Que chato.
— Nem tudo precisa ser tão empolgante.
As aulas da tarde começaram e, durante a última aula, Ayaka me mandou uma mensagem.
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