Vejo Você Quando a Neve CairVOLUME ÚNICO – Capítulo 29
Capítulo 29Mensagem dela era:
“Podemos nos encontrar depois da última aula?”
Olhei para ela. Estava sentada ao meu lado, mexendo no celular embaixo da carteira. Ela me olhou de relance e sorriu de leve.
“Preciso falar com a professora da sala depois da aula, você pode me esperar?”
Não dizia o que ela queria e nem onde queria se encontrar, mas eu não tinha nada para fazer mesmo, então respondi que a esperaria na nossa sala.
Contei para o Kota que ia esperar a Ayaka depois da aula e a reação dele foi exatamente a que eu esperava. Ele me perguntou que tipo de magia eu tinha usado.
Antes das férias de inverno, nenhuma garota me procurava assim.
Kota foi embora e eu me sentei na minha carteira.
Meu reflexo na janela: um pouco mais musculoso, um pouco mais velho, um pouco mais rude. Talvez Takeshi-não-sei-das-quantas estivesse certo.
A sala estava quieta e vazia. Era estranho como um lugar que, poucos minutos antes, estava cheio de barulho, mas agora se encontrava completamente silencioso. O quadro-negro ainda tinha algumas rabiscadas. As carteiras estavam alinhadas em fileiras ordenadas, com as cadeiras embaixo. De fora, os sons do treino de futebol invadiam o silêncio. Neste momento de calmaria, Ayaka entrou.
— Desculpa, você esperou muito? — perguntou.
Reagir balançando a cabeça horizontalmente.
— Nem um pouco. O que você quer fazer?
— Nada.
— Hã?
— Não, é que hoje de manhã eu me atrasei e meu pai me trouxe de carro, mas preciso voltar de trem… Nunca peguei trem em Tóquio antes. — então acrescentou, com a voz baixa e ficou vermelha.
Fomos trocar de sapatos e saímos da escola juntos. Enquanto caminhávamos até a estação, Ayaka andava um pouco à minha frente. Olhava para todos os lados, observando tudo. Acho que eu faria o mesmo se estivesse estudando numa cidade nova.
Pensando bem, é a primeira vez que eu caminho com uma garota depois da aula.
— Você pegava o bonde depois da aula em Kagoshima? — perguntei.
— Não, a maioria dos alunos ia andando para casa, porque geralmente estudávamos em escolas do bairro.
— Hmm, em Tóquio é diferente. Os alunos moram espalhados pela cidade toda. A maioria pega trem para ir à escola.
— Ouvi dizer que tem muitos chikans nos trens de Tóquio, é verdade?
— Não sei. Nunca fui apalpado, então não posso falar por experiência própria.
Ayaka riu.
— Chikans apalpam garotas! Nunca ouvi falar de um chikan que quer apalpar caras.
— Talvez exista um por aí.
— Fico me perguntando como deve ser apalpar um cara… — Ela me olhou de lado.
Abri um sorriso frio e respondi:
— Eu fico me perguntando como deve ser apalpar uma garota…
Ayaka se afastou um pouco.
— Eca, que nojo.
Um momento depois, caímos na gargalhada.
Chegamos à estação e eu a ajudei a recarregar o cartão Suica. Ela comentou como o pinguim da ilustração era fofo. Eu nunca tinha reparado nisso. Acho que era mesmo fofo.
Entramos no trem.
Ayaka se aproximou e sussurrou:
— O que você faria se um chikan me apalpasse?
— Você parece que quer que alguém te toque.
— Claro que não! Mas e se acontecesse? O que você faria?
— Chamaria o funcionário na próxima estação.
— Quê?! Você não vai lutar por mim?
— Tá bom, tá bom… Eu torceria o braço dele, faria ele se ajoelhar e pedir desculpas pra você.
— Sério?
— Não. Provavelmente eu diria algo como “Essa é minha namorada que você está tocando” e, normalmente, eles só se afastam ou descem do trem.
— Ooooh! — Os olhos dela brilharam.
Parecia que ela realmente queria que um chikan aparecesse só para ver se eu cumpriria o que disse. Algumas estações depois, Ayaka disse que era a parada dela.
— Até amanhã.
Ela acenou. As portas se fecharam e o trem seguiu. Fiquei me perguntando se isso viraria uma rotina diária.
Uma semana depois, começamos a namorar.
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