Vejo Você Quando a Neve CairVOLUME ÚNICO – Capítulo 31
Capítulo 31Era sábado. Acordei às 7h, tomei café da manhã e já estava pronto para sair. Minha mãe perguntou o que tinha dado em mim. Respondi que ia para a Biblioteca Metropolitana de Tóquio estudar. Ela ficou muito feliz em ouvir isso. Mais tarde meu pai me contou que nunca tinha visto minha mãe tão contente na vida inteira. Isso me fez sentir culpado, porque eu não ia estudar.
Ela me deu uma nota de cinco mil ienes para o almoço e jantar e disse algo sobre tia Reiko ter feito um ótimo trabalho comigo. Guardei o dinheiro e a culpa na mochila.
Vamos ver… como faço para chegar à biblioteca?
Peguei meu celular, abri o aplicativo de mapa e, antes dos dados carregarem, recebi uma mensagem.
AYAKA: O que você está fazendo?
Era a primeira vez que ela me mandava mensagem no fim de semana. E tão cedo ainda.
O que ela quer?
Escrevi que estava indo para a biblioteca. A grande central, perto de Roppongi Hills. Imediatamente ela me ligou. Não tive escolha senão atender. Como eu tinha respondido, ela sabia que eu estava com o celular na mão.
— Por que você vai para a biblioteca tão cedo? — perguntou.
— Tem umas coisas que quero pesquisar.
— Umas coisas, hmmm?
— Isso…
— Posso ir com você?
— Você consegue chegar a tempo?
— Qual estação?
— Deixa eu ver.
Minimizei a chamada e carreguei os dados no mapa.
— Estação Hiroo, linha Hibiya.
— Ok! Te encontro lá às 9h30?
— Beleza.
— Até lá!
— Tá bom…
Desliguei.
Cheguei à estação Hiroo em quarenta minutos e acabei esperando por ela mais meia hora. Ela veio correndo de algum lugar fora da estação. Disse que o chofer do pai dela tinha deixado. Achei que o Japão estava em recessão. Pelo visto recessão só vale para os plebeus.
Quer dizer, para os pobres... Para as classes de menor renda.
— Você já tomou café da manhã? — perguntei.
Ela balançou a cabeça.
— Acordei, te liguei e pulei no carro.
Era difícil de acreditar, porque ela estava toda arrumada: cabelo liso, suéter branco com casaco preto, saia curta rosa. Falei:
— É melhor a gente comer alguma coisa primeiro. A viagem de trem me deu vontade de tomar um segundo café da manhã.
— Nunca tomei café da manhã fora antes… o que as pessoas costumam comer?
Apontei para um McDonald’s próximo.
— Ali é bem decente.
— Minha mãe diz que isso é veneno.
— Veneno pro corpo, remédio pra alma.
Ayaka me olhou de um jeito estranho.
— Remédio pra alma. Isso soa legal.
Fomos ao McDonald’s e pedimos panquecas e McMuffins. A comida era mediana, mas a companhia era boa. Ayaka me contou que a empregada da família dela fazia sopa de missô fresca e rolinhos de ovo todas as manhãs. Disse que o café da manhã do McDonald’s também não era ruim.
Escutei com um sorriso divertido. Era engraçado o jeito como ela via o mundo. De certa forma, ela era o exato oposto de Miyazono: rica e um pouco ingênua. Seus olhos tinham o brilho de uma garota curiosa. Miyazono tinha olhos de gerente.
Depois fomos para a biblioteca. Perguntei no balcão de informações sobre os jornais e o funcionário mandou irmos para o 4º andar. Ayaka perguntou por que eu queria ver jornais tão cedo. Respondi que estava pesquisando algo. Ela me lançou um olhar curioso, mas não fez mais perguntas.
No 4º andar havua cheiro de papel, fileiras de mesas, solidão no ar. O silêncio era sufocante, como se ninguém tivesse falado acima de um sussurro ali desde o início dos tempos.
— O que você está procurando? — sussurrou Ayaka.
— Vou dar uma olhada. Você pode procurar livros se quiser.
Ayaka me lançou um olhar, mas pareceu decidir que era melhor me deixar em paz por enquanto.
Procurei nas prateleiras até encontrar a seção dos jornais da província de Nagano. Depois filtrei para os jornais regionais menores que eram vendidos na vila de esqui da tia Reiko. Então encontrei a seção do Kimiyama Times. Reduzi as datas para por volta de 2003 e Meus dedos congelaram no ar
Será que era engano? Não, não pode ser.
Todas as prateleiras ao redor estavam cheias de papel e tinta. Mas a seção que eu precisava, estava vazia.
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