Verme (Parahumanos #1) NovelCAPÍTULO 188 - Chapter 188: Migration 17.5
Capítulo 188“Você conseguiu,” disse Cody.
Krouse parou no meio do caminho. Eles estavam a mais de um quarteirão da casa, e Cody estava de costas encostado numa parede, no meio de uma interseção. Nenhum dos outros estava à vista.
Ele sentiu um breve momento de apreensão, viu a corrente de ar que se formava com o movimento das mãos de Cody, e a forma como a barra de ferro pendia de seus dedos, batendo contra a parede. Não pôde deixar de interpretar a situação como uma ameaça, mas tentou afastar o pensamento. Talvez fosse a influência da Simurgh, colorando suas percepções.
“Sim,” disse Krouse. “Consegui.”
“Você está machucado. Desculpe, mas não vou chorar por isso.”
“Noelle está bem?”
Cody encolheu os ombros. “Ela não melhorou. Na verdade, piorou um pouco.”
“E a Marissa?”
“Eu a trouxe de volta. Ela teve um daqueles ataques em que ficou congelada.”
“Você conseguiu achar algum médico? Mesmo uma enfermeira?”
“Não consegui alcançar ninguém pra perguntar. Eu estou bem, aliás. Só pra você ficar sabendo.”
“Não estava querendo. Você parece bem.”
“Claro, mas quem sabe como estou de verdade, se você olhar além da superfície? Posso estar um trapo emocional e mental, fingindo que está tudo bem.”
“Cody,” Krouse segurou a língua pra não dizer algo que não devia. “Estou bem machucado aqui. Se vamos falar sobre isso, podemos pelo menos fazer enquanto voltamos caminhando?”
“Porque a Simurgh tem mostrado memórias antigas pra mim, e o irritante é que elas não são as minhas memórias mais dolorosas.”
Cody não estava ouvindo. Krouse passou por ele, e Cody virou-se para segui-lo, falando com ele por trás.”Não é a época em que minha mãe eutanasiou meu gato, mesmo eles tendo possibilidade de salvá-lo. Não, toda vez que ela traz alguma memória à tona, é você.”
Krouse pausou no meio do passo, e então se obrigou a continuar andando.
“Não é um barato? Tenho uma pomba alienígena maluca na cabeça, e tudo o que ela quer é me fazer lembrar das vezes que você me irritou. As pequenas pegadinhas que aprontava, como chegar cedo na sala do clube e fuçar no meu computador antes de uma partida.”
“Era um jogo de treino,” disse Krouse.
“Antes do jogo. Estou aqui pra melhorar, e porque posso ganhar uma grana extra jogando e streamando minhas partidas na internet, e talvez consiga aquele patrocinador foda pra pagar parte da faculdade. Essas coisas, e você vem me sabotando.”
“Era um jogo de treino, Cody, e era só uma brincadeira que levou dois minutos pra consertar,” disse Krouse. Ele diminuiu o ritmo para Cody conseguir alcançá-lo. Começava a pensar que talvez não fosse uma boa ideia ter o cara com uma arma na mão atrás de si.
“Dois minutos, eu cheguei atrasado à partida, dois minutos em que fiquei mal visto pelo público que acompanhava online, e todos nós ficamos mal perante uma equipe de respeito.”
“Desculpa,” disse Krouse. Na verdade, não estava. Isso tinha atraído mais espectadores, tanto pra ele quanto para Cody. Era publicidade. Ele não queria discutir isso; era mais importante acalmar a situação. “Mas podemos conversar sobre isso depois? Você sabe que estamos no limite—”
“Me irrita que ninguém mais perceba. Me irrita que você não perceba que eu percebo. Os sorrisos arrogantes quando consegue passar por cima de mim, o olhar condescendente que me dirigiu na primeira vez que entrou na sala do clube, segurando a mão da Noelle.”
“Cody—”
“É isso que a Simurgh fica mostrando pra mim. Sempre que fecho os olhos, sempre que paro por um segundo, ela fica me enchendo a cabeça com isso.”
“Ela faz de propósito,” disse Krouse. “Ou ela só traz à tona as questões mais próximas da superfície, ou ela faz por achar que te lembrar dessas coisas vai causar mais dano no longo prazo do que lembrar do seu gato. Você acaba ajudando ela se deixar isso te afetar. Você deixa ela vencer.”
“Engraçado é,” continuou Cody, “que eu preferiria vê-la vencer do que te ver saindo aqui o herói.”
“Ela está te manipulando. Isso não é você, Cody.”
“Talvez. Mas não importa. Ainda vou ajudar, não vou procurar vingança ou coisa do tipo,” disse Cody, oferecendo um sorriso sem humor, “Porque, mesmo que eu odeie sua pele, Krouse… Francis… eu não odeio eles.”
“Beleza,” Krouse olhou para a barreira de ferro, pensando se conseguiria se defender com uma mão só e com a maleta de metal.
“Ela faz a Marissa pirar, faz o Oliver chorar quando acha que ninguém está olhando, a Jess fica paranoica ao ponto de quase não falar mais, se não for sobre cuidar da Noelle, e aparentemente o Luke não consegue tirar a dor da cabeça. Mas você está bem, não é engraçado?”
“Eu não estou bem.”
“Ah? O que aconteceu?” a voz de Cody era quase provocativa.
Se ele não me machucar, eu posso machucá-lo.
“Não importa,” disse Krouse.
“Então, o grande Krouse, que tem toda a sorte, que tem todo mundo na mão, que consegue a garota e evita as consequências, não é invencível afinal. O que ela está fazendo com você?”
“Não é da sua conta.”
“Não é? Precisamos entender o que está acontecendo. Você pode ficar homicida a qualquer momento, pelo que sei.”
“Não sou homicida. É só coisa que não quero conversar com você,” respondeu Krouse.
“Suspeito, suspeito,” disse Cody, quase parecendo estar se divertindo.
Krouse acelerou o passo. Não gostava da ideia de os outros estarem indo tão mal. Tinha tido três escapadas do grito, com o que quer que a magia de Myrddin tivesse usado para puxá-lo para outra dimensão, mais os dois flashbacks. Cody parecia funcional, embora meio fora de si, mas também tinha os flashbacks.
Ele tentou a porta, achou-a trancada. Olhou para Cody, depois bateu forte algumas vezes.
Oliver abriu a porta. Parecia que tinham se passado vinte e quatro horas desde a última vez que dormira. Os olhos de Oliver estavam vermelhos, e ele desviou o olhar ao ver Krouse e Cody.
Como ela está afetando ele? A maior fraqueza de Oliver seria a sua autoconfiança. Ela estaria destruindo ele como a mãe faria? Ressentindo memórias de constrangimentos passados, momentos em que as pessoas riam dele?
Havia alguma forma de consertar isso? Apoiar o rapaz?
Krouse se contentou com um silêncio: “Obrigado, cara. Vamos superar isso. Deve acabar logo.”
Oliver assentiu, mas não demonstrou ânimo.
Krouse entrou, indo direto para a Noelle.
Marissa estava sentada no pé do sofá, com a cabeça jogada para trás, tentando dormir ou dormir de verdade. Luke tinha mantas empilhadas nele, quase não se mexendo desde que Krouse saiu. Jess estava na cadeira ao lado do sofá, parecida com Oliver na expressão.
“Você está machucado,” disse Jess.
Marissa mexeu-se. Seus olhos se arregalaram ao olhar para a mão de Krouse. “Nós, um- primeiros socorros. Temos.”
“Certo,” disse Krouse. Ajoelhou-se ao lado da cabeça de Noelle, colocando a maleta de metal no chão. Viu Cody de canto de olho, encostado na porta, observando-o.
“Você encontrou pessoas com poderes. Vilões?”
“Não sei se eram vilões,” respondeu Krouse de maneira distraída, focado em Noelle. Alguém tinha limpo o sangue, mas ela não parecia bem. Manta cobrindo até o pescoço, ela deveria estar superaquecendo, mas tremia. Os olhos fechados, ela abriu a boca, parece que ia dizer algo, mas sua boca ficou meio aberta, o maxilar tremendo como se estivesse trincando os dentes.
“Iam matar pessoas,” disse Cody. “Iam matar você, da última vez que vi.”
“Eram pessoas assustadas em um lugar estranho,” disse Krouse. “Estão ouvindo a mesma música na cabeça que a gente, e mal tinham noção de como funciona o mundo aqui. Não estou dizendo que estavam certos, fazendo o que fizeram, mas quase entendo. Caramba, não acredito que vocês não conseguiram achar um médico entre as pessoas que salvamos.”
“Eles não sabiam como te encontrar, depois que fugiram,” disse Luke. “Vieram aqui para se reunir. A Marissa não estava bem, então Cody saiu sozinho para procurar vocês.”
Procurar por mim? Krouse virou para olhar para Cody. Você ficou esperando por aí.
“E eu o achei,” disse Cody.
“Pois é,” respondeu Luke.
“Você é um herói,” disse Krouse, lançando um olhar crítico a Cody.
Cody apenas sorriu de leve. Saíu do meio da porta enquanto Marissa entrava com mais bandagens.
“Não sei cuidar disso,” ela disse. “Entorses, sim, mas isso aqui…!”
“Limpa, enfaixa,” disse Krouse. “Olha, encontrei alguns heróis. Não consegui falar com eles, não me deixaram, mas ouvi eles dizendo que a batalha está quase acabando. A Simurgh pode tentar fazer alguma coisa como medida final, mas os heróis estão ganhando, e estão pensando no que fazer depois que tudo acabar.”
“Sério?” perguntou Marissa, colocando uma toalha dobrada na mesa de centro, segurando a vontade de despejar o antisséptico na mão dele.
Krouse fez um gesto afirmativo. “Mais ou menos quinze minutos, talvez meia hora. Mas quase acabou. É só aguentar, manter a calma. Garantir que a Noelle não piore.”
Marissa despejou o antisséptico na ferida de Krouse, e ele estremeceu com a dor, forçando a mão do ferimento contra a mesa com a boa mão, pra não puxar de volta automaticamente.
“O que é isso?” perguntou Cody. Avançou de trás, batendo o pé na maleta de metal. “Suprimentos médicos?”
“Não,” respondeu Krouse. “E você nem ia acreditar se eu dissesse. Dá pra Jess. Ela vai gostar.”
Cody pegou e levou até Jess. Ela colocou a maleta no colo, olhou com desconfiança para Krouse, e depois abriu.
Ele esperou enquanto Marissa colocava creme antisséptico na ferida dele, colocava umas almofadas de curativo brancas e começava a envolver tudo com uma bandagem de pano. Apesar de sua inexperiência com o restante dos itens, ela parecia saber o que fazia com a bandagem.
Jess largou os papéis nas seringa sem colocá-los na aba separada, fechou e travou a maleta. “Destrua.”
“O quê?” disse Cody. “Espera, o que é isso?”
“Não importa,” disse Jess. “Destrua.”
“O que você está dizendo, Jess?” perguntou Marissa.
Krouse conferiu se a bandagem estava no lugar, então se levantou.
Se aproximou de Jess, ela segurava a maleta contra o peito, quase implorando: “Coloque em algum lugar que ninguém vá achar, ou destrua. Misture com areia e jogue num buraco no quintal ou algo assim.”
“Eu pensei que você estaria mais interessada nisso do que qualquer um,” disse Krouse.
“O que é isso?” perguntou Cody.
“Superpoderes,” respondeu Krouse. “Se eu entendi direito, se eu não estou perdendo a cabeça, o conteúdo daquela maleta mostra como conseguir superpoderes. Encontrei junto com as coisas que derramaram aqui com os monstros.”
Os olhos de Cody abriram de surpresa. Marissa, Luke e Oliver também reagiram.
“Você não está entendendo,” disse Jess.
“O que tem de mais?” perguntou Krouse. “Estamos numa situação perigosa. Isso é diferente de pegar uma arma quando saímos pra rua?”
“Muito diferente,” respondeu Jess. “É permanente. Se funcionar, vai mudar sua vida. E isso se não for uma armadilha. Pode ser veneno, vindo do mesmo lugar e cultura que aqueles monstros.”
Será que era a intuição ou paranoia que dizia a ele que ela, de novo, estava escondendo informação?
Krouse esclareceu a voz, explicou: “Achei em restos de um escritório ou laboratório. Eles vendiam esse tipo de coisa, os papéis que você acabou de ler sugerem que esses produtos podiam estar à venda em lojas ou algo assim. Por que disfarçar isso com tanta papelada, uma maleta cara e espuma de proteção, só pra encher de veneno?”
“Não estou dizendo que era veneno—”
“Você disse que era,” corrigiu Krouse.
“Não, quero dizer… É só que há várias maneiras de as coisas darem errado. Não devíamos arriscar. Ainda mais quando temos outras preocupações.”
Ela está se escondendo.
“Superpoderes?” perguntou Cody, querendo pegar a maleta, mas Jess virou o corpo para protegê-lo. “Sério? Como?”
“Seis frascos,” respondeu Krouse, mas seu olhar ficou em Jess.
“São seis doses?” perguntou Luke.
“Krouse,” disse Jess. “Vamos com calma. Você entende a situação em que estamos. Sabe que não é bom. Não quer voltar à normal?”
“Espera, parece que você está dizendo que tem algo mais acontecendo,” disse Luke. “Vocês estavam cochichando antes. É—”
“Luke,” interrompeu Krouse. “Olha, você me conhece, certo? Melhor que qualquer um aqui.”
“Praticamente,” disse Luke, mas olhou para Noelle.
“Melhor do que quem está consciente,” esclareceu Krouse, embora também não tivesse muita certeza. “E você conhece a Jess bastante bem. Então, pode confiar em mim quando digo que tem coisa acontecendo, e que estamos agindo no interesse de todos se não revelarmos tudo.”
“Eu não confio em vocês,” disse Cody.
“Não é uma jogada?” perguntou Luke, ignorando Cody. “Você sabe que já fez coisa assim antes, e sim, essa não é a hora, você tem mais senso que isso, mas se esse canto na nossa cabeça estiver nos deixando meio malucos, então…” E ele parou no meio da frase.
“Não é uma jogada. Se você não confia em mim, pelo menos confie no fato de que eu não faria isso com a Noelle assim, mesmo com minha cabeça uma bagunça. Temos prioridades maiores.”
Luke franziu a testa. “Tá. Confio em você. Mas não nos comprometa.”
Krouse assentiu, com expressão séria. Respirou fundo, e então enfrentou o principal problema. Jess.
“Jess, você sempre acompanhou a cena de heróis,” disse Krouse. “Você acompanha os heróis e vilões rachados que temos por aí, e os três ou quatro que talvez valham algo. Você conhece a Terra Bet, tudo que rola com os verdadeiros heróis e vilões. E está dizendo não? Como eu falei para o Luke, aquela maleta, não é minha prioridade máxima, nem minha segunda ou terceira. Juro por minha vida. Mas isso é uma coisa bem importante.”
“Como isso não é prioridade?” questionou Cody. “Poderes.”
“Cala a boca!” exclamou Krouse, com a voz firme, mais alto do que pretendia.
Todos ficaram em silêncio. Os únicos sons eram os gritos na cabeça, o barulho distante da luta, e a Noelle emitindo barulhos fracos enquanto se mexia.
Krouse ajoelhou-se ao lado dela, afastando alguns cabelos do rosto. Virou-se e sentou de costas contra o sofá, segurando a mão de Noelle. “Jess. Vamos ler os papéis na maleta. Descobrir se é real, uma farsa, se dá pra usar. Se não der, talvez ainda possamos vender. Poderíamos usar o dinheiro.”
“Você não entende,” ela falou.
“Eu não entendo, você está certa. Mas não posso entender se você não explicar, e não tenho a certeza de que vai explicar agora.”
“Se você pegar os papéis, vai decidir que deve fazer isso.”
“Talvez devêssemos.”
“Não podemos.”
Ele suspirou.
Ela continuou: “E se eu abrir a maleta pra te dar os papéis, você vai pegar a droga, e eu não posso simplesmente me levantar e tirar de sua mão, se você fizer isso.”
“A gente não vai,” disse Krouse. “Só… tire os papéis, entregue pra gente, você segura a maleta até decidirmos.”
“Por consenso?” perguntou Jess.
“Não sei se por consenso—” Ela mudou a expressão. “Vamos discutir isso com calma, pelo menos.”
Ela assentiu, abriu a maleta, pegou os papéis e estendeu na sua frente. Krouse tentou pegar, mas foi Cody quem puxou-os da mão de Jess.
Krouse respirou fundo, exalou. Mantenha a calma. O Cody está sob o efeito da Simurgh.
“Seis fórmulas,” disse Cody. “Cada uma desenhada pra dar tipos diferentes de poderes. Não fala exatamente quais poderes, bem vago.”
Marissa voltou para o lado de Krouse, juntando-se a ele enquanto verificava Noelle. Seu coração passou a bater mais forte ao perceber que os dentes dela pararam de tremer. Precisou colocar a mão na boca dela pra garantir que ela ainda respirava.
“Isso aqui é caro. De sete dígitos,” disse Cody.
Jess balançou a cabeça. “A segunda página dizia que tinha uma bateria de testes físicos e psicológicos,” disse. “Pense bem. Por quê? Lógica simples para não usá-lo. Acham que há uma razão para que pessoas com problemas psicológicos não devam usar, e estamos na área de influência da Simurgh. Estamos todos um pouco neuróticos agora.”
“Podemos esperar,” disse Krouse.
“Não que eu esteja do lado da Jess,” disse Luke, “Mas você está se contradizendo. Você dizia que deveríamos usar isso pra nos proteger, e agora diz que devemos esperar até acabar tudo? Por que precisaríamos garantir nossa segurança depois que a Simurgh for embora?”
Krouse balançou a cabeça, olhou para Jess. Ela não estava apoiando essa opinião.
Porque mesmo depois que a Simurgh sair, ainda vamos precisar voltar pra casa.
“Eu… acho que não sei,” disse Krouse, sem conseguir pensar numa resposta que não envolvesse dizer toda a verdade.
“Merda,” falou Cody, com os olhos arregalados. “Jess, até onde você leu?”
“Nas primeiras páginas.”
“Você leu essa parte?” Ele dobrou as páginas da frente, colocou em mãos de Jess, apontando.
Krouse olhou para Noelle, apertou sua mão. Ela apertou a dele de volta, fraquamente.
“Você está acordada?” murmurou.
Marissa se inclinou, “Ela está?”
Noelle não respondeu. Krouse balançou a cabeça. “Achei que tinha recebido uma resposta.”
Marissa acariciou seu ombro.
“Galera,” disse Cody, empolgado.
Krouse quase tinha dado uma na cabeça do Cody. Aquilo, aquela empolgação, enquanto Noelle poderia estar morrendo? Tão empolgado com esses malditos superpoderes, quando uma amiga estava seriamente machucada?
“Espera, escuta, passa isso pra cá,” ele pegou o papel de Jess, “Olha só. ‘O cliente três deve ser informado sobre o impacto do produto na sua paralisia cerebral, blá blá, questões legais de responsabilidade, sem promessas, blá blá, onde foi que estava? Ah, sim. Produto potencialmente oferece uma recuperação leve até total.’
Eles pararam. Mais de um par de olhos se voltou para Jess.
“N—não tenho paralisia cerebral,” ela disse.
“Mas a paralisia cerebral começa no cérebro, certo?” perguntou Cody. “Essa é a parte mais complexa e delicada do corpo. Se alguma coisa pode consertar seu cérebro, talvez possa resolver outras coisas também. Deixa eu ler mais, é—”
“Não,” disse Jess. “Mesmo com isso. Principalmente com isso, não vou tomar. E também não vou deixar vocês tomarem.”
“Por quê?” perguntou Cody. “Principalmente por quê?”
“Porque!”
“Você está paranoica,” disse Luke. “É o canto na sua cabeça que está te deixando assim.”
“Não! Eu sei. Li sobre essas coisas! Sobre ela! Isso é o que ela faz!”
“O que é?” perguntou Krouse.
“Por que acha que eles estão tão assustados? Por que acha que existe uma cerca com soldados prontos pra atirar? Você consegue entender por que eles estão devendo ficar fora do alcance do som?” Ela apontou para Krouse, “Por que os heróis que o Krouse viu não ouviriam ele?”
“Por causa da música. Porque somos imprevisíveis, nervosos,” disse Oliver.
“Eles poderiam usar gás de lágrima para controlar isso. Ou soldados com armas! Por que não podem, mesmo com noventa por cento ou mais da cidade evacuada?”
“Então, por que?” perguntou Krouse.
“Porque é isso. É por isso que ela assusta. Behemoth pode transformar pessoas em cinzas se estiverem a duzentos pés dele, Leviathan afundou ou destruiu grandes massas de terra. Matou milhões em um dia. Mas a Simurgh é a que mais assusta deles todos. Você viu como ela lutou, a forma como desviava e bloqueava as coisas. Ela vê o futuro.”
Krouse assentiu. “Eu até suspeitava disso, mas—”
“Não,” interrompeu Jess. Seus olhos arregalaram. “Escuta aqui! Ela apareceu nesta cidade na Suíça. Primeira vez. Depois, ela canta. Começa a jogar prédios por aí, coloca uma usina nuclear em estado crítico, espalha ventos contaminados com poeira radioativa, mata alguns heróis, incita o povo a fazer protestos e pânico com a música dela. Como se fosse padrão de Endbringer, né?”
Krouse permaneceu quieto, esperando. Podia ver Marissa e Oliver concordando com a cabeça.
“Seis meses depois? Um cientista promissor se suicida. Outro tenta explodir uma emissora de TV pra se vingar da namorada. Um herói assassina um primeiro-ministro, e o próximo a assumir o país começa uma guerra. Todos estavam lá, quando a Simurgh apareceu. Os amigos do herói disseram que não tinha sinal, antes do encontro dele com ela. Ele simplesmente entrou em decadência depois. Tinha mais coisa, coisas que não me lembro. Mas é tudo ruim.”
“Não entendo,” disse Luke.
“Ela sempre volta. Toda vez que aparece. E toda vez, as pessoas que escutam essa música na cabeça? As coisas dão errado. Elas perdem o controle, quebram, suas vidas desmoronam, ou fazem algo e aquilo desencadeia outra coisa, causando um grande desastre. Aquele cara que dizia estar criando uma fonte de energia limpa que poderia abastecer cidades inteiras? Sua esposa e filhos foram mortos, e ele virou um supervilão que tem como objetivo matar quem tenta melhorar a sociedade com seus poderes. Tinha outros. Repetidamente, toda vez que ela aparece. Ela nunca causa o mesmo dano de Leviathan ou Behemoth, não logo de cara, mas sempre acontece algo depois.”
“Então ela… o quê? Faz pessoas se tornarem assassinas?”
“Não,” disse Jess. “Não exatamente. Ela não muda sua forma de pensar. Não direto. É mais algo subliminar, tipo… causa e efeito. Toda vez que ela aparece, escolhe algumas pessoas, transforma elas em mísseis guiados, que fazem coisas terríveis semanas, meses ou anos depois de encontrarem ela.”
Krouse olhou para a maleta. “E você acha que essa maleta é isso? Uma questão de causa e efeito?”
Jess soltou uma risada curta, seca, sem humor, “Não é? Não é bem coincidência que a gente esteja nesse lugar, aqui, presos no alcance dela, enquanto o Krouse vai procurar um médico pra Noelle e encontra isso ao invés? Eu sei no que vocês estão pensando. Essas coisas, talvez, permitam que eu ande de novo. Se funcionar. Talvez todos nós fiquemos com superpoderes. Mas a Simurgh consegue prever o que vai acontecer. Provavelmente. E ela não está do nosso lado. De alguma forma, ela já armou tudo como uma máquina de Rube Goldberg, onde o início e o fim envolvem um prato cheio de manipulação na cabeça.”
Luke balançou a cabeça. “Mas você não pode… se pensar assim, então não há ação nossa que ela não tenha previsto e ajustado para levar ao pior cenário possível.”
Jess riu de novo, curto. Lá no canto dos olhos, tinham lágrimas. “Se ela nos escolheu, e se aquela maleta fez ela pensar que sim, então estamos ferrados. Pronto. Toda vez que ela aparece, quem estiver no alcance vira uma bomba-relógio. Se não usarmos o conteúdo daquela maleta, acabamos atuando exatamente como ela previu, e coisas horríveis vão acontecer. Mas, se usarmos, é a mesma coisa: estamos seguindo a sequência de eventos que ela imaginou, só que as coisas ruins ficam piores porque tudo o que fizermos daqui pra frente vai ser várias ordens de magnitude maior… sei lá. Superpoderoso.”
“Tem alguma coisa… —” Luke tentou, mas deu uma tossida, mexeu a perna, “— que possamos fazer.”
Jess balançou a cabeça, dizendo: “Não há saída, porque ela já viu tudo que vai acontecer. Por isso que eu não queria te contar.”
Ninguém respondeu. Krouse olhou pros outros, viu os olhos da Marissa, arregalados, viu o Oliver sentado com os braços ao redor dos joelhos. O rosto do Luke estava tenso.
Jess continuou: “Aqueles soldados fora da cerca? Eles também sabiam. É por isso que estavam com medo de nós, Oliver. Acham que vamos dizer ou fazer algo, e isso lhes dará uma ideia certa, colocar as peças no lugar, e eles acabam morrendo num acidente ou matando as esposas. Não é uma quarentena contra uma doença ou vírus, é contra causa e efeito. Uma quarentena pra limitar nossa capacidade de influenciar o mundo lá fora.”
“Não pode ser assim,” disse Krouse.
Jess encolheu os ombros, amargamente: “Talvez não seja. Talvez precise ouvir a música, pra ela invadir a sua cabeça e descobrir como você vai agir, e as pessoas, de uma forma geral, são complexas demais pra ela prever. O jeito que agimos, o medo, todas as emoções, talvez seja só um efeito colateral dessa invasão. Ou talvez tudo seja isso errado, e ela seja realmente tão poderosa. Mas é isso que ela é. Ela é mais frágil que os outros dois, não dura muito numa luta dura. Mas o pós?”.
Jess empurrou a maleta do colo e jogou no chão. “O pior dela é o pós.”
Krouse olhou fixamente para o maleta de metal.
Levou talvez um minuto até ele ter certeza de que estava acontecendo, mas os gritos começaram a diminuir. Mais dois minutos se passaram até total silêncio.
Silêncio absoluto, sem mais gritos na cabeça, sem ruídos de destruição a quilômetros de distância, sem ruído urbano ao redor.
Esse silêncio foi quebrado quando Jess começou a soluçar. Nenhum dos outros se juntou a ela. Krouse suspeitou que fosse porque ainda estavam processando tudo. Só Jess tinha tido a chance de refletir de verdade sobre todas as ramificações, só ela tinha detalhes e evidências suficientes para ter uma visão mais completa e acreditar em tudo.
Krouse sentiu os olhos úmidos, mais por Jess do que por si mesmo, o que era estranho. Parte era cansaço, a tensão mental que eles tinham suportado. Ele teria se levantado, ido até ela para oferecer apoio e tranquilizá-la, se soubesse como fazer isso sem prometer algo que não pudesse cumprir, especialmente quando tudo indicava que não tinha como. Mas não era tipo de pessoa que conseguisse fazer isso, nunca tinha feito antes. Não sabia como. Tinha medo de errar, e Jess era uma pessoa boa. Ela não merecia uma tentativa de reconforto amalucada.
Não. Ele iria ficar com o que sabia fazer. Krouse piscou as lágrimas, esclareceu a garganta, forçou um sorriso de canto de boca que tinha toda a cara de estar de sacanagem. “Não vejo motivo para todo mundo ficar tão preocupado. Quão ruim pode ser?”
Jess deu um som de embrulho, uma mistura de soluço, gorgolejo, soluço e uma risada sem humor.
Krouse viu os olhares incrédulos, não pôde deixar de sorrir.
“Idiota,” disse Luke, mas também sorriu.
Cody virou-se, saiu batendo o pé, chutou algo forte ao passar pelo corredor da entrada. A empolgação dele se desfez com sua saída.
A sala caiu novamente no silêncio. Pelo menos, notou Krouse, Jess não está chorando mais.
Krouse ainda segurava a mão de Noelle, com os dedos entrelaçados aos dela. Puxou a mão dela pra perto de si e beijou as costas. Seus olhos caíram sobre a maleta de metal.
Talvez não fomos nós, pensou. Talvez ela escolheu várias outras pessoas, e nos envolver nisso tudo foi só uma coisa que aconteceu. Talvez a gente consiga arrumar a Noelle, encontrar o caminho de volta pra casa, e tudo isso acabe sendo só uma memória assustadora.
Ele respirou fundo com uma risada silenciosa, irônica, de uma nota só. Conseguiu distrair ou enganar Jess por um instante, fazendo ela se sentir um pouquinho melhor. Mas mesmo dizendo algo tão ridículo pra mim mesmo, não consigo convencer ninguém disso.
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