Verme (Parahumanos #1) Novel — Capítulo 194: CAPÍTULO 194 - Chapter 194: Arc 18: Queen - Bonus Interlude #1; The Most Powerful Man in the World

Verme (Parahumanos #1) Novel
Cap. 194
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Verme (Parahumanos #1) Novel

CAPÍTULO 194 - Chapter 194: Arc 18: Queen - Bonus Interlude #1; The Most Powerful Man in the World

Capítulo 194

4.744 palavras~21 min de leitura

“Eu sou Kevin Norton, e sou a pessoa mais poderosa do mundo.”

Kevin fez um sinal de mão, e Duke latiu levemente.

“Salvei milhões de vidas. Billions.”

Outro sinal de mão, que virou um pequeno latido de concordância.

Ele estendeu sua caneca, mas os pedestres ao redor simplesmente o evitavam, ignoravam.

A sola do velho sapato de Kevin Norton havia se soltado na ponta há alguns dias, e a ponta dele estava abaixada demais, pegando na calçada de paralelepípedos. Ele tropeçou e quase caiu, e Duke pulou para o lado, com as orelhas eriçadas de alarme.

Kevin manteve o equilíbrio ao segurar-se em uma passante, uma mulher, e ela quase o empurrou para longe, com o rosto de repente marcado por nojo.

“Desculpe, moça,” Kevin disse a ela, enquanto ela se apressava em seguir seu caminho, acelerando o passo. Quando ele não obteve resposta, elevou a voz para que ela pudesse ouvir enquanto terminava: “É uma pena, que um homem da minha estatura não possa comprar sapatos, não é?”

A caminhada de Kevin fazia quase uma mancando, ajustando o passo para evitar tropeçar novamente na própria sola. O caminho aqui era antigo, de paralelepípedos desgastados pelo uso de centenas de pessoas ao longo de incontáveis anos. A região ao redor dele não era tão antiga. Fachadas renovadas e edifícios novos surgiam, imitando os estilos britânicos mais antigos, mas sem perder a modernidade, a jovialidade e a novidade.

“Não poderemos ficar muito tempo, Duke,” disse Kevin. “O quanto de dinheiro que a cidade coloca aqui, eles não vão querer dando abrigo a vadios. Mas quero só fazer uma visitinha ao meu antigo esconderijo, ver o que virou lá.”

Ele viu uma família se aproximando, estendeu a caneca, “Alguns trocados, pelo homem mais poderoso do mundo?”

Crianças encararam, mas os pais desviaram o olhar, a mãe colocando as mãos ao redor dos ombros do pequeno, como se protegesse.

Kevin deu de ombros e seguiu em frente. Dentro da caneca, havia apenas algumas moedas, que tilintavam enquanto seu braço balançava.

“Você não deve se lembrar muito desta área,” comentou a Duke, “Eu já tinha me afastado dela antes de te encontrar. Fugi. Passava por aqui algumas vezes quando você ainda era pequeno demais para segurar na mão, mas evitava esse lugar em particular. Não vou dizer que não sinto saudades. Os antigos donos costumavam me dar alguns restos daquela época.”

Ele apontou, “Ali, bem ali, tinha uma padaria. Os caras jogavam fora tudo que tinha mais de um dia. Sacos de pães e pastelarias. Pães de linguiça, pastéis. Quando perceberam que eu passava por ali pra pegar minhas migalhas, para complementar minha dieta escassa, começaram a deixar os sacos ao lado das lixeiras, pra não sujar, e deixavam outras coisas. Coisinhas pequenas. Algumas saladas, para que eu tivesse vegetais. Um pente, uma escova de dentes, sabonete, desodorante. Gente dócil.”

Kevin abaixou para fazer carinho na cabeça de Duke.

“Imagino o que será deles agora. Espero que as mudanças aqui tenham tratado bem. Seria uma vergonha se tivessem sido expulsos e não receberam o valor de suas lojas. Pelo menos, isso eles mereciam. Mais.”

Duke bocejou, e terminou o bocejo com um pequeno gemido.

“E você, menino?” Kevin disse. “Não. Não mereço muita coisa. Essa história de poder e responsabilidade? Sou o homem mais poderoso do mundo, e tenho uma tremenda responsabilidade. Claro, vou pra cama com fome, dormi péssimo naquela praga de piolhos, mas o que me tira o sono de verdade é a ideia de que posso ter abdicado das minhas obrigações.”

Kevin olhou para baixo, e Duke encontrou seus olhos, inclinou a cabeça de forma curiosa.

“Fiquei assustado, garoto. Porque sou um covarde. Existem três boas maneiras de chegar ao que estou na vida. Não estou falando de ser o homem mais poderoso do mundo. Estou falando de como não tenho lugar para ir, nenhum amigo além de você. Uma dessas maneiras é a falta de apoio. Família, amigos, se você tem alguém, consegue passar por quase tudo. Mas se não tem ninguém pra te apoiar, pequenas coisas podem te derrubar bem longe se não tiver ninguém pra te segurar.”

Houve um barulho de trovão abafado, e então começou uma chuva forte.

“Uma chuva de verão, Duke. Está na hora, não é?”

Poucas pessoas nas ruas correram para se proteger, e a rua lateral quase ficou vazia em um minuto. Kevin esticou os braços, deixando a chuva ensopar. Passou os dedos pelo cabelo para pentear para trás e ergueu o rosto para o céu.

Duke sacudiu o corpo após alguns segundos, espirrando água. Kevin foi tirado de seu devaneio.

“Sobre o que eu tava falando? Ah, sim. A segunda maneira de chegar a circunstâncias como as minhas? Doença. Às vezes na cabeça, outras no corpo, e às vezes é uma doença que se consegue na garrafa ou no cachimbo. A terceira rota é a que eu segui. Covardia. Fugir da vida. Fugir de si mesmo. Às vezes a garrafa também é covardia. Fugir da verdade sobre o que você está fazendo contigo mesmo, sei lá. Sou grato a você por ter poupado-me desse pecado.”

Sentiu uma brisa fria e entrou debaixo das calhas dos edifícios recém renovados, para encontrar um abrigo breve da chuva enquanto caminhava.

“Sou tão teimoso que nem consigo mudar, viver uma vida mais corajosa. Voltar aqui é o máximo de coragem que consigo reunir.”

Duke empurrou a cabeça contra a mão de Kevin, e Kevin não pôde deixar de sorrir.

“Bom garoto, bom garoto. Aprecio seu apoio moral.”

Precisaram sair na chuva novamente para atravessar a rua. Kevin acelerou o passo, e Duke acompanhou ao seu lado.

Ele se abaixou na próxima calha ao chegar ao próximo quarteirão. “Pisei na merda, Duke. Sei disso. Tenho que conviver com isso. Fiz muito, mais do que a maioria, acho. Mas não é suficiente. Se minha intuição estiver certa, não é nem de longe suficiente. Droga.”

Pouco à frente, a porta de uma loja se abriu e uma jovem saiu. Petite, bonita, na casa dos vinte, cabelo preto cortado no estilo pica-pau, com um beret cinza escuro na cabeça. Meias pretas, saia curta e plissada cinza. Ah, moda. Ela virou-se na direção dele, segurando um guarda-chuva.

Ele sorriu para ela, saiu na chuva enquanto eles cruzavam caminhos, para que ela não precisasse.

“Senhor?” ela chamou.

Ele estava voltando à sombra da calha. “O que foi?”

“Aqui,” ela disse. Tinha a carteira na mão, entregou-lhe uma nota de dez libras. Ele a olhou.

Ao pegar a nota, disse: “Obrigado.”

“De nada.”

Ele a analisou de relance. Ela olhava nos seus olhos. “Normalmente, tenho dois tipos. Uns me dão o dinheiro sem nem me olhar direito. Outros me olham e ainda dão uma bronca, dizendo como devo gastar. Então fique à vontade, mexa seu dedo indicador, fale que não deve gastar com drogas, bebida ou cigarro. Eu entendo, posso ficar envergonhado.”

“Gaste como for preciso,” ela disse. Tinha um leve sotaque francês, “As circunstâncias podem estar tão difíceis que talvez você precise das pequenas alegrias, mesmo que não sejam boas para você.”

“Verdade. Pode ficar tranquilo, eu dou comida primeiro ao Duke, depois a mim mesmo, e só então compro essas coisinhas que você citou. Adoro um cigarro quando consigo um.”

“Que bom ouvir isso,” ela sorria. “Olá, Duke.”

“Ele é um bom garoto, mas não aconselho pegar nele.”

Ela recolheu a mão.

“Não por pulgas ou algo assim. Eu cuido da saúde dele. Mas ele é um cão de trabalho. Protege minha retaguarda quando preciso. Nos cuidamos mutuamente. Então talvez ele seja protetor comigo, não gosta de alguém se aproximando demais, muito rápido.”

“Você o nomeou?” ela perguntou. Quando ele assentiu, ela perguntou: “Motivo do Duke?”

“Pensei bastante. Duke parecia adequado. O mais alto grau do Reino Unido, logo abaixo de um rei em status. Perfeito para o cachorro que serve o homem mais poderoso do mundo.”

Ele olhava nos olhos dela enquanto dizia isso, percebeu a tristeza na expressão dela. “O homem mais poderoso do mundo?”

“É verdade. Não pense que não percebi. Você não acredita em mim.”

“Quer dizer, é uma grande afirmação, senhor…”

“Kevin. Kevin Norton. E não se preocupe com minhas turistadas.”

“Lisette,” ela disse, estendendo a mão.

Ele a apertou. Mesmo com a umidade da chuva forte, a mão dela permanecia quente.

“Está tudo bem?” ela perguntou.

“Hm?” ele animou-se, retirando a mão.

“Você tinha uma expressão na cara.”

“Só estou pensando na última vez que tive contato com outra pessoa. Deve fazer uns anos. O pastor me deu um abraço ao sair do abrigo dele.”

“Isso parece tão solitário, Kevin. Anos sem contato humano?”

“Nem tão solitário assim. Tenho um amigo,” disse, passando a mão na cabeça de Duke.

Lisette concordou com a cabeça.

“Mas não esqueça. As pequenas coisas. Mesmo um aperto de mão? É algo especial. Significa muito. Valorize, mesmo se acontecer todo dia.”

“Vou guardar isso na cabeça,” ela sorriu.

“Não tenho palavras para agradecer,” Kevin falou. “O tempo que você tirou por mim, significa o mundo para mim. Pode ser o empurrão que me falta.”

“Para quê?”

“Estou olhando para trás, e há um longo tempo que não faço isso. Uma visita à minha antiga casa, por assim dizer. Pensando em coisas que nem contei ao Duke nesses últimos doze anos. Você me deu um impulso de moral num momento que eu precisava. Obrigado.”

“Fico feliz. Espero que você faça as pazes com isso.”

“Fardo pesado, o meu. Eu... não acho que você teria um tempinho? Gostaria de caminhar comigo por alguns minutos?”

Ela olhou para trás na direção de onde vinha, “Meu trem...”—

“Entendo se não quiser. Mas se você aceitar, daria uma força enorme diante do que vou enfrentar hoje. Uns poucos minutos.”

“Você não é tão velho assim.” Ela fez uma pausa. “Acho que posso.”

“Então vamos, não é longe. Talvez você queira abrir esse guarda-chuva.”

Ela lançou-lhe um olhar desconfiado.

Ele balançou a cabeça, “Não. Não espero que compartilhe. Não lavei minhas roupas recentemente. Não quero passar isso pra você. E o Duke pode ficar ciumento.”

Ela concordou, caminhando ao lado dele enquanto seguia seu caminho. Não perdeu a distância que ela deu, permanecendo alguns passos atrás, na defensiva, como se estivesse pronta para fugir se ele fizesse alguma coisa. Ela pode ser gentil, mas não é boba.

“Eu tinha uns vinte e poucos anos quando comecei,” disse. “Nascido em Londres, não sobrou ninguém após meus pais morrerem na adolescência. Vim pra cá, pra York. Conheci uma garota, mudei pra casa dela. Não vou dizer que foi a causa do meu problema, estou disposto a aceitar a culpa por estar onde estou. Mas foi aí que tudo começou.”

“O que aconteceu?”

“Muitos erros de uma vez só. Ela não era a garota certa, por exemplo. Nosso relacionamento evoluiu, e percebi que não gosto de mulheres.”

“Ah,” disse Lisette.

“Já foi um pouco tarde, mas eu cheguei lá fazendo o que achava que tinha que fazer, e namorar uma menina era uma dessas coisas. Deixe-me perguntar: estou te incomodando? Te entediando?”

“De jeito nenhum.”

“Pois bem, eu era um garoto jovem e bobo, de vinte anos, tinha me mudado sem dizer nada no contrato de aluguel e sem guardar dinheiro para sair. Ela percebeu que a nossa relação não ia dar certo, ameaçou me tirar de casa, e eu implorei para ficar. Sem pra onde ir. Achei que pudesse juntar dinheiro e arrumar outro lugar, se aguentasse a raiva. Ela começou a me bater. Eu nunca fui de revidar. Ficou feio.”

“Me desculpe.”

“Existem abrigos para mulheres maltratadas, mas, pelo que sei, nenhum para homens agredidos. As pessoas acham que mulher nunca bate em homem.”

“Você saiu?”

“E perguntei por muito tempo se tinha tomado a decisão certa,” Kevin disse. “Chegamos ao fim.”

A estrada terminou, e eles chegaram a uma ponte estreita que cruzava uma pequena correnteza que alimentava o rio Ouse. Uma ponte charmosa de paralelepípedos atravessava o riacho, bancos de pedras estavam em um pátio de pedra, e árvores jovens haviam sido plantadas em um solo cercado por círculos de pedra.

“Esse é a casa que você não voltou?” perguntou Lisette.

“Mais perto do que já tive na vida,” Kevin afastou-se da sombra da calha, se aproximando da ponte, “Eles mudaram. Antes, eu podia dormir aqui embaixo. Era o meu lugar quando saí daquele apartamento e daquela garota.”

“E você está na rua desde então?”

“Fiquei alguns tempos em abrigos, quando fazia muito frio, e quando deixavam o Duke também. Preciso fazer concessões para durar tanto. Obrigado, aliás, por ter vindo. Sei que perdeu seu trem. Não sei se teria coragem de fazer isso tudo sozinho, mesmo com o Duke ao meu lado. Comecei e parei tantas vezes que nem dá pra contar. Mas é importante.”

Ela olhou com uma expressão estranha. “Tudo bem. Toma seu tempo.”

Kevin assentiu. “Você pegaria o Duke? Só por um minuto?”

Ela pegou a coleira, uma corda carefully knotada, que funcionava como arnês, e a estendeu ao Duke, ligado ao ombro dele. Era quase desnecessário. Duke nunca puxou.

Kevin se aproximou da ponte, passou os dedos pelos paralelepípedos arredondados, observou o rosto de gárgula desgastado pela chuva que ficava na pilastra ao fundo. A chuva escorria do rosto de pedra, molhando-o por completo, e parecia quase adequado.

Não fazia muito sentido, com o tempo chuvoso, mas ele se ajoelhou na beira da água, onde a superfície borbulhava com a corrente e a chuva, lavou as mãos. Respirou fundo, sentindo os cheiros familiares e suaves da água do rio. Um cheiro natural.

Memórias vindo com força.

Kevin afastou o cabelo do rosto, encheu as mãos de água e espirrou no rosto.

Levanta-se, então para, congelado.

Um suspiro escapou pelos lábios, abafado pelo barulho da chuva forte.

Entre a mesa do patio mais próxima e uma árvore, o homem dourado flutuava, a poucos centímetros do chão, luminescente na penumbra e na chuva intensa. A luz refletia nas gotas caindo, cintilando, criando reflexos assustadores no rio e na água que escorria entre os paralelepípedos.

Kevin colocou as mãos nos bolsos para aquecê-las, olhou para Lisette e Duke. Duke não se mexia, mas suas orelhas estavam para trás, achatadas. Lisette tinha as mãos na boca, os olhos arregalados. O guarda-chuva tinha caído ao chão, esquecido.

Kevin estudou o homem. Sem idade definida, o homem dourado não tinha mudado nem um pouco. O cabelo tinha a mesma altura, assim como a barba curta. Cada parte dele era de ouro polido, inclusive os olhos. Ele não respirava, não piscava, apenas observava.

A água escorria do corpo do homem dourado, mas ele não se molhava. O cabelo quase não se mexia enquanto a chuva o atingia, e seu traje absorvia a umidade, secando rapidamente. A água simplesmente escorregava de sua pele e cabelo, deixando-o intocado.

Era esse mesmo efeito que mantinha o traje limpo, um macacão branco simples, que ia até os bíceps e os dedos dos pés. Estava sujo há incontáveis vezes, por tudo quanto era coisa, mas a radiância dourada que ele emitia repelía as partículas, limpando-o lentamente, assim como fazia com a água. O traje parecia uma parte dele agora.

“Olá, velho amigo,” disse Kevin.

A única resposta era a chuva incessante. O homem dourado não falou.

“Eu tinha quase certeza que te veria aqui,” continuou Kevin. “Fazia tempo. Quase me convenci de que tinha te imaginado. O cachorro ali, nem nasceu quando eu parti, e já está naquela idade. Doze anos.”

O homem dourado apenas fixou o olhar.

Kevin virou-se para longe do herói. Caminhando rápido, alcançou a guarda-chuva de Lisette, pegou-o, sacudiu a água, e entregou-lhe.

“Scion,” ela sussurrou.

“Não,” Kevin disse. “Nunca foi esse o nome dele.”

“Não entendo.”

“Chegue mais perto.”

Ela hesitou, mas se aproximou até ficar a uma curta distância do homem dourado. Os olhos sem pupilas nunca desviaram de Kevin.

“Disse que sou o homem mais poderoso do mundo. Não estava mentindo,” Kevin afirmou. “Viu?”

O homem dourado não reagiu.

“Você controla ele?” Lisette perguntou.

“Não. Não realmente. Sim. Não como você está pensando.”

“Não entendo.”

“Antes, esse homem dourado passava o tempo vagando, flutuando aqui e ali, observando, mas nunca fazendo nada. Em um transe. Nu como no dia em que nasceu. Cada um tinha sua ideia do que ele era. Alguns achavam que era um anjo, outros pensavam que era um anjo caído, e mais ainda achavam que havia explicações científicas. A única coisa em que concordavam era que ele parecia triste.”

“Ele parece mesmo.” Lisette estava olhando, mas o homem dourado só olhava para Kevin.

“Ele não,” disse Kevin. “Não caia nessa. Ele NÃO parece nada. Essa expressão nunca muda. Mas o que estiver por baixo, é isso que te dá essa sensação. Ele parece triste porque é triste. Exceto que você tira a parte do ‘parece’.”

“Isso não faz sentido.”

“Ele voa pra valer! E luta contra um lagarto gigante que destrói continentes com raios de laser dourados! Nada nele faz sentido!”

O homem dourado mudou o olhar para outro ponto, examinando uma das árvores recém-plantadas. Seus olhos fixaram-se numa folha.

“O que ele está fazendo?”

“Vai chegar a isso. Foi pura coincidência, mas ele parou perto daqui, no meio da noite. Aconteceu lá por volta da época em que ainda era novato nesse mundo, quando eu ainda me sentia tão mal comigo mesmo que não conseguia olhar ninguém nos olhos. Eu o vi, percebi que era esse mesmo homem dourado que tinha visto na televisão. Eu estava mal, mergulhado na depressão, corri até ele, bati na parede do peito dele, gritei com ele, xinguei, chamei de tudo quanto é nome.”

“Por quê?”

“Porque ele ousou estar mais miserável do que eu. Ou porque as pessoas tinham todas as esperanças nele e ele só fazia de conta que era um zero que tinha o poder de voar. Sei lá. A maior parte foi eu falando comigo mesmo. Disse que não era miserável, que não era um inútil, e que talvez se ele ajudasse numa cooperativa de alimentos ou alguma coisa assim, se sentiria melhor consigo mesmo.”

“Uma cooperativa?”

“Não, realmente não esperava que ele fosse trabalhar numa cooperativa. Eu acabei fazendo, mas isso é outra história. Eu mandei ele fazer alguma coisa, ajudar as pessoas. E ele fez. Desde então.”

“Assim, de improviso?”

“Olhe para ele. Não tem nada ali. Qualquer coisa que tenha acontecido com ele, qualquer coisa que o tenha transformado assim, quebrou o homem. Quebrou a mente dele. Talvez esse seja o motivo do seu andar errante. Procurando respostas, tentando entender o que está acontecendo.”

O homem dourado continuava olhando as folhas.

“Ele não se ofende?” perguntou Lisette. “Quando você fala dele como se ele não pudesse entender?”

“Ele entende. Ouve. Mas nunca o ouvi falar. Dificilmente consegue olhar pra mim enquanto falo, e não demonstra emoções, talvez nem entenda.”

“É quase como se fosse autista,” disse Lisette.

“Como assim?” Kevin perguntou.

“Demasiado conectado,” disse ela. “Muito estímulo, abafando tudo ao redor.”

“Audição aprimorada, ouvindo toda a cidade ao mesmo tempo?”

“Talvez. Ou talvez ele perceba coisas que nós não percebemos,” afirmou ela. “O homem mais poderoso do mundo, e olhando pra ele agora, parece uma criança.”

“Sim, e a não ser que algo mude,” Kevin disse, “a única pessoa que ele escuta sou eu. Ele vinha quando eu estava só, quando fazia tempo ruim ou meia-noite, e, de alguma forma, ninguém nunca o seguiu até aqui.”

“Não podem segui-lo com câmeras ou satélite, ouvi dizer. Precisam de testemunhas oculares ou comunicação global para rastreá-lo.”

“Ah, pode ser isso,” Kevin disse. “Surpreende-me que tenha vindo com você aqui. Eu pensava— quase achei que ele não viria, porque estava contigo. Isso me deixou mais tranquilo.”

“Por quê? Por que evitá-lo?”

Kevin não desviou o olhar do homem dourado. “Ele me assusta. Escolheu mim pra ouvir, entre todas as pessoas. Eu sou o mais poderoso do mundo, só por isso. Porque posso mandar no homem mais forte, mais capaz do planeta.”

“E você fugiu?”

“Demorei a entender o que tinha causado. Comecei a ouvir falar dele. Rumores, jornais, rádio. O homem dourado salva uma ilha de uma tragédia, interrompe uma guerra prestes a estourar. Mas só percebi mesmo quando aquela maldita cena começou a passar no noticiário, que eu tinha me envolvido nisso.”

“Não entendo.”

“Ele costumava aparecer normalmente, sabe? Passava por aqui, como se estivesse verificando se tinha algo mais pra dizer. Quem sabe eu dissesse pra ele ser mais gentil quando salvasse alguém de um acidente, ou depois que aquele cara de chifres saiu do chão e o homem dourado passou voando por ele para vir até mim, e aí eu dizia pra ele ajudar na próxima, atacar o monstro e tudo mais. Mas às vezes eu não tinha nada pra falar, e não é que ele obedecia a cada instrução minha, então às vezes ele ficava aqui às quatro e meia da manhã, e eu não conseguia me livrar. Então, eu só falava.”

“Falar?”

“Sobre qualquer coisa. Um livro que eu tinha pegado, eventos do dia, a generosidade dos estranhos. Ou arrumava uma roupa decente pra ele, e falava das roupas.”

Ficou em silêncio, observando o homem dourado.

“O que aconteceu?”

“Ele nunca respondia, quase nunca prestava atenção enquanto eu discursava, mas seguia as ordens gerais que eu dava: Ajude as pessoas, faça mais isso, menos aquilo. Mas eu estava no meio de um papo sobre minha infância, minha casa, quando ele fixou o olhar em alguma coisa. Virou a cabeça, estabeleceu contato visual. Me deixou assustado. Eu revia tudo, mas era cinco da manhã e eu não conseguia lembrar exatamente o que tinha dito. Ou melhor, só consegui lembrar três dias depois, quando, por acaso, vi na televisão um trecho que aparecia no noticiário. E foi a primeira e última vez que ele falou algo. Todo mundo achou que ele tinha dito Scion, e ficaram grudados nisso. Errado, mas ficou. A palavra virou frase em camisetas, na música, e a galera tá falando nisso, bem aqui, na minha cidade. Tudo por causa de uma frase que eu soltei numa conversa, e o mundo muda toda hora.”

“Foi isso que te assustou?”

“Foi o despertador. Quer dizer, burro, não é? Uma coisa boba.”

“Não. Nada é bobo quando se trata dele.”

O homem dourado virou os olhos pra direção do rio, de costas pra eles.

“O que foi, se a palavra não era Scion?” perguntou Lisette.

“Só percebi depois. Tava falando de casa, religião e família. Uma lembrança da infância. Nem lembro direito, agora. Mas a palavra que ele prestou atenção foi Zion.”

“Isso é hebraico, não é?”

Kevin assentiu. “Não sei. Não domino o idioma, era alguma coisa relacionada a um primo meu que se complicou aos treze anos. Não sei por que fixou nisso. Mas fixou, e, justo na época do vídeo, eles estavam falando do que ele tinha feito. Como ainda é a pessoa mais poderosa por aí. É assustador, porque todo esse poder estava sob meu comando, ao meu alcance. Porque um loser, um inútil como eu, consegue mudar o mundo com uma palavra.”

“Você não é um perdedor. Você pediu a ele pra ajudar as pessoas.”

Kevin assentiu com expressão séria.

O rosto dela mudou. “Você não vai mudar isso, vai?”

Ele balançou a cabeça. “Homem dourado!”

O homem dourado se virou para encará-lo de frente.

“Fiz besteira, deixando passar tanto tempo pra falar com você. Mas estou aqui agora, e há duas coisas que precisamos tratar.”

Nenhuma resposta. Só o olhar imóvel.

“Isso é difícil, porque eu realmente quero estar errado aqui. Se der certo, então minha burrice e covardia custaram vidas. Significa que poderia ter resolvido tudo antes. Foi na primavera passada que eu tive a chance de usar aquele novo internet, o tal. Demorei pra aprender, mas pesquisei sobre você. Vi vídeos da sua luta…”

“Kevin?” perguntou Lisette.

“Aquelas criaturas que destruíram tudo. Disse que você precisava parar com eles, que tinha que lutar e proteger as pessoas. E você tem feito isso.”

Ele apertou as mãos, olhou para o chão. “E que Deus me ajude, talvez eu não tivesse sido específico o suficiente. Talvez ele tenha interpretado tudo ao pé da letra. Precisamos que mate as criaturas. Destruía tudo, atirasse no espaço. Sei lá. Mas lute pra matar, não apenas… Espero, do fundo do coração, que eu esteja errado, que as palavras que escolhi tenham sido erradas, e que ele não tenha interpretado minha sugestão como uma ordem pra lutar só por lutar, ou pra lutar só pra impedir, mas não pra acabar de uma vez por todas. Você entende? Não apenas impedir que eles façam o que estão fazendo. Acabar com eles para sempre.”

O homem dourado permaneceu pairando no ar, tão imóvel que parecia congelado no tempo, flutuando no espaço.

“Meu Deus, homem dourado, por favor, que você entenda. Demorei um ano pra ter coragem pra fazer isso, porque tinha medo do que poderia acontecer. Se você matar um desses covardes, eu… Eu acabei ajudando a salvar muitas pessoas, e todo o sangue de quem eles mataram no meio do caminho fica na minha mão.”

“Kevin,” falou Lisette, com voz baixa. As mãos repousaram em seus ombros.

Ele a ignorou: “Outro assunto importante? Acabei o tempo. Estou na meia-idade, e meu fígado está acabado. Nunca gostei de beber, porque tinha que cuidar daquele cachorro ali. Nunca usei drogas, além de fumar cigarro. Mas peguei hepatite de algum jeito. Sangue ruim no hospital, ou alguém com sangue infectado acabou misturado ao meu numa noite em que uns garotos atacaram um morador de rua e ele reagiu. Encontrar você assim, homem dourado, e você parar para ouvir? Foi uma chance uma em um milhão. Contrair essa doença foi outra, pode ser. Conhecer você foi a maior e mais assustadora coisa da minha vida, talvez a mesma doente, uma benção disfarçada. Talvez, além da ajuda daquela jovem, tivesse sido a única razão que tive pra vir até aqui.”

A chuva não era mais tão violenta ou pesada como antes. A chuva soava diferente, no ritmo das gotas batendo na pedra e na água.

Kevin suspirou. “Estou aqui pra resolver minhas coisas, e você, depois do Duke, é a minha prioridade. Quero que continue fazendo o que vem fazendo. Ajudar as pessoas. Tentar se comunicar mais com os bonzinhos. Já te falei isso antes, e você não ouviu, mas devia. E, se precisar de alguém pra ouvir, pra visitar de vez em quando, procure essa jovem aqui. Lisette. Porque ela é uma boa pessoa. É uma pessoa melhor que eu. Mais corajosa. Tem que ser mais corajosa, se estiver parando pra falar com um marginal como eu, seguindo ele aonde quer que vá.”

“Não,” disse Lisette, “não daria para isso.”

“Coisa de otário, eu fazer isso,” disse Kevin, virando-se pra dar a ela um olhar de lado. “Esse peso, essa responsabilidade. Mas, de alguma forma, sinto que isso me deixa melhor do que mandar ele aqui pra obedecer aos Esquadrões, ou ao Protecionato, ou ao Guepardo Vermelho, ou qualquer um. Você pensa nisso, decide o que precisa fazer, o que ele deve ouvir.”

“Você acha que ele vai? Vai vir falar comigo?” perguntou Lisette, com os olhos bem abertos.

“Não sei, mas acho que pode. Não sei por que ele escolheu mim pra ouvir, mas escolheu. Podia ser alguém que conhecia antes, ou simplesmente achou que éramos amigos, quem sabe. Com sorte, pode ser seu amigo também.” Kevin suspirou. “Entenderam? Vocês agora são parceiros.”

Lisette não conseguiu falar. O homem dourado também não respondeu, nem sequer se virou para olhá-la.

O homem dourado ficou pairando no ar por longos segundos silenciosos, e então desapareceu numa velocidade que ninguém conseguiria acompanhar. Apenas um rastro dourado de luz ficou no ar, desaparecendo rapidamente.

Em poucos segundos, o Scion desapareceu.

“Precisamos contar para alguém,” disse Lisette.

“Você pode tentar. Eles vão olhar pra você do jeito que olham pra mim. Como se você tivesse enlouquecido.”

“Mas—mas…”

“Pois é,” Kevin disse. “Nem é tão simples, não é? Talvez, se der sorte, ele apareça quando outros estiverem por perto, e eles vão acreditar quando você contar.”

Ele suspirou. “Vamos, Duke.”

Lisette não resistiu quando ele pegou a coleira de Duke. Kevin começou a caminhar para longe.

“Não entendo!” Lisette chamou, correndo atrás.

Kevin não se virou nem parou, respondendo alto, acima do som da chuva forte: “Boa, não é? Dez libras para se tornar a pessoa mais poderosa do mundo.”

Fim da leitura

Capítulo 194 concluído

CAPÍTULO 194 - Chapter 194: Arc 18: Queen - Bonus Interlude #1; The Most Powerful Man in the World