Verme (Parahumanos #1) NovelCAPÍTULO 221 - Chapter 221: Arc 20: Chrysalis - Interlude; Accord
Capítulo 221Se Accord não soubesse melhor, poderia pensar que essa pequena reunião foi situada aqui com o único propósito de irritá-lo.
Espere, ele sabia que era assim mesmo. Chafurda. Ela faria isso só para atormentar.
A Galeria Forsberg. Antes, o prédio era uma estrutura imaculada, embora assustadoramente assimétrica, de vidro e aço. Agora era uma ruína esmigalhada. Não havia muita lógica ou razão no design, e navegar por ali era uma verdadeira tarefa.
À sua direita, enquanto subia as escadas, havia um anexo que se projetava do lado do edifício, seis andares acima, como um tumor arquitetônico. Com os danos causados pelo ataque de Shatterbird, o único vidro que ainda restava na construção estava espalhado pelo chão, como uma geada de inverno. O crescimento indesejado na lateral do prédio tinha sofrido alguns danos, provavelmente mais por causa das vibrações do que pelo vidro em si, e as reforças feitas para sustentá-lo só o tornavam mais feio.
Inapropriado, desequilibrado.
Sua força imediatamente começou a fornecer respostas e soluções. Estava alerta, e os primeiros pensamentos que lhe vinham à mente eram de ofensiva e de ferir os outros. Como se estivesse vendo tudo claramente, podia imaginar um pêndulo, disfarçado entre a estrutura de aço do edifício, balançando de um ponto acima, e podia ouvir o som de aço contra aço, como uma espada sendo retirada de sua bainha, só que em uma escala vinte vezes maior.
Com o design adequado, o impacto seria limpo, quase silencioso. Seus inimigos, isolados no anexo, fariam mais barulho, gritando enquanto as varetas de reforço e os rebites que uniam as vigas intactas à estrutura maior fossem arrancados. O resultado final seria seus inimigos mortos, e o edifício melhorado, mais equilibrado.
Dez minutos para criar o projeto. Entre oitenta e cem minutos de trabalho, dependendo da habilidade dos artesãos. Duzentos e quarenta e cinco minutos se ele mesmo fizesse. E o resultado seria mais forte, melhor e mais eficiente se fosse ele a fazer. Custo estimado: mil e quatrocentos dólares, mais salários.
Impraticável. Seria difícil colocar seus inimigos na área. Quase impossível, se eles tivessem alguma inteligência.
Ele deixou a ideia de lado, mas outros pensamentos já se formavam na sua mente. Ele e seus dois Embaixadores no anexo ofensivo, ligados às construções próximas por cabos de aço. Não um, mas sete pêndulos.
Um deles cortaria o anexo tumoral, libertando-o do edifício. Balançaria pelos cabos de aço, entre os dois prédios. Com o ângulo correto, atravessaria entre as duas construções mais próximas. Com o mecanismo certo, um cabo poderia se soltar no momento oportuno, permitindo uma mudança de direção. Eles nem mesmo perderiam o equilíbrio, pois o ângulo do piso e a força centrípeta os manteriam firmes.
Com atenção aos detalhes, eles até poderiam dar um passo para fora da plataforma, como ao desembarcar de um teleférico de esqui. Então, o anexo seria disparado contra os escombros de um edifício próximo, destruído limpidamente. A Galeria Forsberg seria despedaçada, aço cortado de aço pelas lâminas de cisão dos pêndulos, o peso e movimento dos mecanismos servindo a um segundo propósito: amplificar a destruição, puxando pedaços individuais uns dos outros e colocando em movimento a destruição total do prédio.
A desajeitada Galeria Forsberg desabaria ao chão, com muitos de seus inimigos lá dentro, enquanto ele e seus Embaixadores assistiam do ponto de queda.
Ele detestava fazer bagunça, mas era tão satisfatório limpar a sujeira depois, seja retalhando o sangue ou vendo tudo livre de destroços.
Trinta e dois minutos para montar os projetos dos pêndulos e planejar a sequência mais eficiente. De três a quatro horas para montar tudo, dependendo da perícia dos operários. Custaria cerca de onze mil dólares, sem contar salários. Nenhum dos materiais era particularmente caro por si só, e ele tinha várias empresas debaixo do dedo, onde poderia adquirir esses materiais com descontos substanciais.
Mais prático, mas impossível. Não tinha tempo de montar tudo para hoje à noite. Ainda assim, era uma imagem elegante, se nada mais, levemente reconfortante.
Mal tinha virado as costas para a ideia de violência, pensamentos mais perturbadores já invadiam sua mente. A asa estendida sendo transformada de um cisto arquitetônico para uma ponte, conectando a cidade toda com estruturas semelhantes, cada ponte e ponto de ligação transformando pontos de design em uma série de gradientes. Estilos arquitetônicos e altura dos edifícios mudando de uma progressão truncada, esquizofrênica, para algo fluido, uma onda contínua.
Accord fechou os olhos brevemente, tentando ignorar. Não adiantou. Sentia o prédio como um todo, podia imaginar reconfigurá-lo, removendo as partes que projetavam para fora e usando-as para preencher lacunas próximas ao centro da estrutura. Trabalhara com seu poder para enxergar as coisas sob diferentes lentes de viabilidade: dinheiro, recursos, tempo, pessoal, mas isso agora quase parecia uma desvantagem.
Abriu os olhos em busca de algo para distraí-lo da irritação com o design do edifício, mas só viu fragmentos de vidro dispersos por toda parte, discordantes na forma como caíram. Alguns foram varridos pelos ocupantes da Galeria, mas as pilhas de vidro, poeira e detritos permaneciam tão desordenadas quanto antes. Ele vislumbrou uma capa de dormir encharcada e o conteúdo espalhado de um kit de suprimentos e desejou não ter olhado.
Imagens passaram por sua mente. Uma rede de fios, puxados por um peso que atravessava o poço do elevador, movendo-se em uníssono para varrer os fragmentos de vidro e sinais de vida humana para dentro do tubulão. Os mesmos fios pegariam seus inimigos, destruindo-os enquanto eram arremessados para baixo após uma chuva de vidro. Entre a longa queda e a thermite, que reduziria a bagunça a cinzas finas e limpas, até os subcapas mais resistentes não escapariam.
Não. Pensar assim não era construtivo.
Nos andares superiores, plexiglas e um volume grande de água misturada com alta concentração de dióxido de carbono e um agente espumante, varriam o prédio. Processo de escalonamento, para que a água do último andar pudesse limpar toda a espuma—
Rearranjando os fragmentos de vidro em um caleidoscópio—
“Citrine, Othello,” ele falou, interrompendo seu próprio raciocínio. “Distraia-me.”
“Não estou muito confortável nesta posição,” Citrine disse. “Só subir cansou, e esse ponto de vista não favorece nenhuma de nossas habilidades. Põe a gente em uma posição fraca.”
“Senhor,” sussurrou Othello.
“…Senhor!” ela acrescentou atrasada.
Accord subia as escadas à frente dela. Normalmente seria impossível, mas aqui, era fácil: virar e de jeito sutil cortar sua garganta com a lâmina dobrada na sua bengala. Quieto, eficiente.
Ele parou na metade da escada e a encarou. Viu que ela estava ilesa. Sua Citrine, jovem, loira, usando um vestido amarelo-queimado de girassol e uma máscara cravejada de pedras preciosas. Seu cabelo impecavelmente arrumado, maquiagem perfeita, com um batom amarelo que combinava com a roupa sem ser chamativo.
A mão esquerda de Accord cruzou sobre a direita, ambas apoiadas na bengala ornamentada.
Ela parou, olhou para Othello ao lado dela. “Desculpe, senhor.”
“Tudo e todos no lugar correto,” ele disse. “Não só na questão física, mas socialmente. Cortesia e reconhecimento de status são fundamentais.”
“Sei, senhor. Não é desculpa, mas eu estava cansada da caminhada e da escalada, pensando na estratégia, caso fossemos surpreendidos. Prometo melhorar, senhor.”
“Todos nós precisamos fazer melhor. Devemos buscar aprimorar-nos sempre. Um passo atrás é um golpe trágico, perigoso.”
“Sim, senhor.”
Como se estivesse assistindo a si mesmo em filme, Accord pôde ver-se empurrando-a escada abaixo. Não uma queda fatal, mas a dor bastaria para reforçar a disciplina, ajudando-a a entender a mensagem e acalmando seus próprios pensamentos.
Mas as marcas de hematomas, cortes, ossos quebrados, os tentativas inconsistentes de suprimir os sons de dor enquanto ela o acompanhava na trilha até o andar superior? Isso só agravaria a situação. Mais desordem.
Os pensamentos estavam tão intensos que se confundiam com a própria realidade. Ele ajustou a pegada em sua bengala, fixando o olhar em seus olhos. Ela ainda permanecia ali na sua frente.
Com um movimento quase imperceptível das mãos, houve uma mudança na linguagem corporal dela. Os músculos do pescoço e dos ombros ficaram mais tensos, sua respiração mudou. Ela disse: “Senhor-”
“Silêncio,” ele falou. Ela ficou calada.
A mão esquerda dele acariciou seu queixo, e seus olhos nunca deixaram os olhos dela. Mais uma reação: os olhos dela piscavam, movendo-se poucos milímetros enquanto se esforçava para manter contato visual. Ele podia sentir o calor do hálito dela no pulso enquanto ela exalava lentamente, o mais sutil movimento contra sua mão enquanto mudava o peso para permanecer completamente imóvel.
Seu polegar tocou sua bochecha. Suave. Sabia que ela dedicava uma hora toda manhã ao cuidado da pele, e outra hora ao cabelo. Diferente dela, seu olhar era firme e seguro. Em seu campo de visão periférica, via o movimento do peito dela ao respirar. Ele não era uma criatura sexual, pelo menos não no sentido mais primitivo, animal. A ideia de relação sexual não lhe atraía. A bagunça disso tudo. Mas ela era uma mulher bonita, de qualquer jeito. Podia apreciá-la pelo lado estético.
Citrine tinha se desencaixado do lugar. Uma peça quadrada, só um pouco torta, que não encaixava na cavidade feita para ela. Um incômodo — e uma sombra que recai sobre tudo o que nela havia de certo.
À medida que seus dedos percorriam a linha do queixo dela, indo até o queixo, a ideia de cortá-la pela garganta invadiu seus pensamentos. Uma decisão rápida, limpa, cortando fluxos vitais. Podia ver as linhas de tensão no pescoço dela enquanto ela se esticava, tentando manter-se completamente imóvel.
Porém, novamente, o caos, a ruptura. Sangue é bagunçado, e por mais que ele desejasse passar trinta minutos limpando tudo na sua área mais segura, outros veriam, e isso desequilibraria demais as coisas.
Não havia uma resposta certa nesta situação, e isso o incomodava.
Racionalmente, sabia que estava irritado. O local, até essa cidade, não lhe convinha. Não podia agir por isso ainda, e a insatisfação resultante afetava sua reação até às menores coisas.
Seus dedos soltaram a barba, um por um, enquanto pensava em suas opções. Quando o dedo indicador caiu, ele decidiu.
“Você é minha melhor representante, Citrine,” ele disse.
Ela respirava um pouco mais forte, enquanto a tensão que mantinha todo o corpo tenso finalmente se aliviava. Uma leve vermelhidão invadiu as bochechas dela enquanto ela respondia: “Sim, senhor.”
“Não quero perder você.”
“Sim, senhor, farei o possível para que isso não aconteça.”
“Por favor, faça isso,” ele pediu. Notou que a vermelhidão tinha descido até o decote dela. Não era medo ou raiva, outro sentimento primário. “Citrine?”
Ela o olhou de relance.
“Fique calma.”
“Sim, senhor,” ela sussurrou.
Ele olhou para Othello, que vestia um terno preto e uma máscara dividida entre branco alabastro e preto azeviche. O homem não comentou nem demonstrou reação enquanto Accord se dirigia a Citrine.
Accord virou-se e voltou a subir as escadas. “Acelere o passo. Não quero chegar atrasado.”
Pensamentos intrusivos ainda o atormentavam. Já descrevera isso como uma sensação semelhante à que se tem numa plataforma de trem, em uma beira ou diante de trânsito em alta velocidade, aquele impulso momentâneo de simplesmente avançar, ver o que acontece.
Exceto que esses pensamentos eram mais afiados, com mais peso, mais físicos do que etéreos. Seu poder era resolver problemas, e tudo que fosse problema exigia ser resolvido. As soluções surgiam, quer ele quisesse quer não, planos em uma, cem etapas. E aquilo nunca terminava.
Cada defeito precisava ser corrigido, cada desequilíbrio precisava ser reavaliado. A mediocridade poderia ser elevada à grandeza.
Quanto maior o problema, mais rápido ele o solucionava. Uma tarde, ele passou seis horas e vinte e seis minutos tentando resolver a fome no mundo. Com internet e telefone à mão, conseguiu entender os elementos-chave do problema. Esboçou um documento durante as nove horas seguintes, praticamente só digitando e anotando números exatos. Cento e cinquenta páginas, formatadas e claras, detalhando quem faria o quê e os custos envolvidos.
Era uma estrutura básica, com espaço para anexar documentos com detalhes mais específicos, mas as ideias principais estavam lá. Simples, equilibradas, inegáveis. Todos os principais países e lideranças considerados, com estratégias para convencê-los, levando em conta suas particularidades e o clima político. Produção, distribuição, finanças e logística, tudo esboçado em linguagem clara. Dezoito anos, três vírgula um trilhão de dólares. Não era um valor impossível, exigia alguns sacrifícios moderados de muita gente.
Mesmo ao entregar o arquivo com toda sua pesquisa, seu chefe mostrou-se mais interessado em que ele chegasse atrasado ao trabalho do que no conteúdo. Mal olhou o documento antes de dizer que era impossível e ordenou que Accord voltasse às suas tarefas. Uma mente como a dele, em um escritório de supervisão econômica na TPR, procurando pelas precogs e pensadores que tentassem manipular os mercados para seus próprios proveitos.
Era só uma distorção, uma irregularidade, mas uma importante. Insistiu, exigiu uma resolução. Ele precisava provar que aquilo era possível.
Então, desviou os fundos sob sua gestão. Não foi difícil redistribuir parte da riqueza que os vilões e malfeitores tentavam manipular. Um mal disfarçado por um bem inegável. Ele cuidou de esconder suas pegadas perfeitamente.
No processo, não levou em conta toda a extensão das habilidades de seu mais novo colega. Poderes de pensador interferiam um no outro, e mesmo com sua capacidade de colaborar com essa limitação, até ajudar na sintonia, o vidente o descobriu. Foi pego, preso, e libertado posteriormente pelo especialista em fugas de prisão ao qual tinha enviado detalhes com antecedência.
Hoje, anos depois, ninguém respondeu às suas ideias, e vários governos não tiveram paciência de ler os documentos que enviava. Nada foi levado à ONU ou a outros órgãos políticos importantes. Eles preferiam manter o status quo.
Seus planos não estavam obviamente concretizados, mas ele tinha contatos e recursos, e isso ajudava bastante. Seguia o caminho lento, constante, rumo à vitória. O arquivo sobre a fome no mundo foi expandido, com novos volumes detalhando outros grandes problemas: doenças, população, governo, energia, clima. Tudo atualizado todas as manhãs, com as mudanças recentes na economia e política internacional.
A recente batalha contra os Dez de Matadouro em Boston foi um revés, mas ele permanecia confiante. Vinte e três anos para ver tudo isso acontecer. Vinte e três anos para colocar o mundo em ordem. Tudo era um passo nessa direção.
Até mesmo neste cenário e com essas pessoas, com tudo que o incomodava.
Chegaram ao andar superior e se depararam com os Dentes. Sete parahumanos, usando trajes repletos de lâminas, espinhos e cristas. Conseguiram usar as condecorações de inimigos derrotados sem parecerem primitivos. Dentição, olhos, partes de corpos mumificadas e ossos estavam incorporados aos trajes, um tema que prometia agressividade e retaliação violenta a qualquer afronta.
Accord apertou firme sua bengala. Desejava acabar com eles. Sua mente fervilhava com centenas de ideias: armadilhas, estratégias, modos de usá-los uns contra os outros ou de usar os outros presentes na sala para pegá-los de surpresa.
Os Dentes não bloquearam sua passagem enquanto ele guiava seus dois embaixadores ao redor da periferia do grupo. Não havia janelas, e o vento fazia pequenos fragmentos de vidro dançarem sobre o piso de azulejo, reluzindo periodicamente sob a luz dos holofotes ao redor do cômodo.
“Bem-vindos, Accord,” cumprimentou Tattletale.
Ele olhou o grupo ao final da mesa comprida. Não estavam dispostos a esconder poder. Pelo menos seis cães estavam acorrentados atrás deles, cada um mutado e ampliado ao tamanho de um carro, pelo poder de Bitch. A eles se somava uma aranha gigante e um escorpião, ambos feitos de tecido preto. Seda? Seda do Skitter?
Regent estava ao lado de Imp, vestindo traje branco com detalhes pretos. Pareciam trocar palavras sussurradas.
Bitch usava uma máscara semelhante à aparência de seus cães, com jaqueta preta e pelagem grossa ao redor do capuz e do colar. Ela não hesitou, mesmo quando um de seus mutantes maiores rosnou e mostrou os dentes a poucos centímetros de sua cabeça. A raiva da criatura ia para Accord, não para ela.
O estilo de Parian tinha mudado em relação às imagens que Accord tinha visto em suas pesquisas. O cabelo dela não era mais loiro, mas preto, e o vestido combinava. A máscara branca que usava tinha uma rachadura. Ela era muito pequena, quase tímida, sentada de um lado da mesa, mãos cruzadas, parecendo não querer fazer parte da conversa.
Ela e Tattletale, por outro lado, estavam sentadas na aranha de tecido, bem ao lado de um grande monitor. Tattletale aparentava desdém, o cabelo bagunçado, a linguagem corporal irreverente, sentada de forma torta.
Ele teve que se esforçar para não prestar atenção nela. Voltou a atenção para as figuras no cabeçalho da mesa. Grue ficava atrás da cadeira, com uma mão no encosto, uma face demoníaca envolta em trevas completas. Skitter sentada ao final, apoiada por suas forças, observando tudo. Insetos coroavam seus ombros e parte do corpo, mas Accord notou um xale e indícios de armadura de proteção. Nem as lentes amarelas da máscara, nem a amplidão do pano preto que cobria seu rosto revelavam seu humor ou expressão. Ou as imagens que vira tinham sido enganosas, ou ela tinha feito algum ajuste na máscara, deixando assemelhar-se mais ao mandíbulos de armadura que saíam da linha do que ela aparentava ser.
Dispensando a saudação de Tattletale, Accord falou com Skitter: “Finalmente nos encontramos. Boa noite.”
“Boa noite,” ela respondeu, sua voz amplificada pelo zumbido e pelos sons de dezenas de insetos ao redor. “Sente-se.”
Ele acomodou-se na metade da mesa de doze pés, e seus embaixadores ficaram ao seu lado.
Os Caídos não estavam muito longe, chegaram em menos de um minuto após ele, Valefor e Eligos.
Valefor usava uma máscara delicada, sem orifícios para os olhos: a parte superior do rosto de uma mulher com olhos fechados. Sob a máscara, tinha um sorriso malicioso, com tatuagens que pintavam seus lábios de preto e se estendiam até as comissões. Tatuagens dos caninos saíam de lábios finos, quase na linha do maxilar, pontas alternando para cima e para baixo. Seu traje era quase feminino, com penas brancas e prateadas em roupas que grudavam ao corpo, incluindo um corpete que marcava sua cintura.
Provavelmente tentava remeter à imagem da Simurgh. Brega. Eligos também não tinha costume tão elaborado, mais adequado para uma briga, mas também evocava um Endbringer: o Behemoth. Horns de obsidiana que se estendiam para trás, armadura pesada que lembrava pele de rinoceronte, e garras embutidas nas luvas.
“Valefor, Eligos, membros dos Dentes, agora que todos estamos aqui, peço que tomem assento,” disse Skitter.
“Por que deveríamos te escutar?” Questionou Valefor, com uma voz contrasta com seu traje, um leve sotaque do sul. Ele inclinou-se sobre uma cadeira, com os braços cruzados na parte de trás, provocando.
“É costume havermos uma retaliação violenta se alguém causar confusão em uma reunião como esta,” explicou Skitter. “Normalmente, envolvendo todas as outras partes presentes.”
“Não quero dizer que pretendo causar problemas,” respondeu Valefor. “Só quero entender por que devemos seguir a escola de menina. Tenho certeza de que todo mundo aqui viu as notícias. Você, Butcher, viu?”
“Sim,” respondeu a líder dos Dentes. Uma mulher saiu do meio do grupo, elegante, de pescoço longo e membros compridos, com cabelo preso em um rabo de cavalo alto. Sua máscara e armadura tinham um estilo asiático, embora o traje fosse cravejado e adornado com lâminas cortantes e maldosas. Mais estranho ainda, três ossos alvos, branqueados, estavam amarrados um no outro, pendurados de um ombro.
O traje, era assimétrico, sem harmonia, tentando fazer muitas coisas ao mesmo tempo. A samurai, a caça de cabeças, a sangrenta. Nenhum condizia com o título que carregava: Butcher.
Imagens passaram pela cabeça de Accord. Maneiras de obliterar tanto o traje quanto a pessoa. Mais difícil do que parecia, dado quem ela era.
Como se para enfatizar sua linha de raciocínio, ela levantou à força uma metralhadora e a colocou na ponta da mesa. A massa do arma era tamanha que Accord pensou momentaneamente se a outra ponta da longa mesa de madeira não levantaria do chão.
De forma deliberada, ela recusou a oferta de se sentar. Disse apenas uma palavra, mas demonstrou muito com o gesto.
“Muito chato,” comentou Valefor, em voz alta. “Sério, não vejo por que ela deveria sentar na cabeça da mesa. Uma garota de dezesseis anos, vítima de bullying, não parece uma figura muito imponente, não?”
“Se todo mundo concordar em suspender as regras habituais, eu ficarei mais do que feliz em enfrentar seu grupo,” respondeu Skitter.
“Claro que sim. Vocês nos superam em número.”
“Só eu,” replicou Skitter.
“Quer dizer?” perguntou Valefor, pensando.
Accord analisou a situação. Valefor era um estranho, menos pelo jeito de esconder-se, mais pelas suas habilidades de lidar com a enganação. Bastava olhar para um alvo com o olho nu, e a luta acabava. Afinal, não era surpresa que ele tivesse se inspirado na Simurgh. O efeito era bem similar, no modo como a vítima muitas vezes nem percebia o que acontecera até que fosse tarde demais.
Porém, Skitter parecia não se importar. Era uma isca? Uma máscara vazia? Não.
Uma armadilha?
Accord observou a área ao redor de Valefor. O que ele faria, com as habilidades dela?
Viu algo: fios quase invisíveis, quase imperceptíveis, exceto onde a luz os pegava no ângulo certo. Fios, envolvendo Valefor, saindo do corpete, dos cotovelos e joelhos dele.
Todos apontando na direção da janela. Se fossem puxados com força, arrastariam Valefor para fora. Dependendo da resistência, ele ficaria pendurado ou cairia na rua abaixo.
“Valefor,” falou Accord, a máscara ajustando a expressão para parecer um sorriso, “Confie em mim, você já perdeu a luta.”
“É mesmo?”
“Não vou estragar a surpresa se você estiver ansioso para ver no que dá. Uma ameaça a menos. Mas, se me permite opinar, acho a resposta que ela deu, dada a situação, bastante razoável. Ganhei respeito por ela ao ver como tudo se desenrolou.”
“Então você é um tolo.”
“De qualquer forma, não vou tolerar brigas aqui. Isso cria um mau precedente.”
“Sim,” respondeu Butcher.
Valefor franziu o testa.
“Então é isso,” disse Skitter.
Accord a estudou. Viu que ela tinha uma nuvem de insetos na sombra, atrás dos holofotes, em expectativa de luta, sem dúvida. A presença deles lhe incomodava quase tanto quanto se rastejassem nele mesmo. Era tudo aquilo que ele tinha contra o vidro, só que vivos. Sabia que podia fazê-los parar, fazer sumir, simplesmente dando uma ordem aos seus embaixadores. Mas isso não era uma possibilidade real.
Olhou para Skitter. “Acho que você e eu sabemos que você venceria a luta. Mas qual seria o ponto final? Você está no comando. Mais vilões chegarão a cada dia que passa. Você está preparada para matar?”
“É algum jogo mental?” perguntou Valefor.
“Não é nenhum tipo de joguinho mental,” respondeu Accord. “Tenho curiosidade. A resposta dela daria muita luz sobre a discussão de hoje à noite.”
“Sim,” respondeu ela, atrasada, “mas prefiro manter as regras não escritas, por mais que tenham sido abusadas recentemente. Matar deve ser uma última opção.”
“Entendo.” Ela tem alguma outra armadilha na manga? Os insetos na borda da sala? “Posso perguntar se—não, espera. Não me conte. Vou gostar mais se descobrir por mim mesmo.”
“Muito bem. Agora, se todos estiverem deitados, podemos começar,” disse Skitter, apoiando os cotovelos na mesa.
Ele notou que a mesa não estava perfeitamente reta. Estava torta, em relação ao restante do ambiente. Soluções passaram por sua mente, desde as mais simples, como levantar-se e empurrar a mesa para alinhá-la, até uma bola de demolição plana que pudesse estourar a fachada do prédio.
Não, ele precisava focar. Poderia se distrair tentando descobrir os planos de contingência de Skitter.
Butcher parecia ter tomado uma decisão, o que era comum nela, que gostava de refletir e discutir. Ela sentou na ponta oposta de Skitter. Era alta o bastante para ser vista de cabeça e ombros acima do enorme revólver. Seus seguidores, ao contrário dela, permaneciam de pé, formando um semi-círculo ao seu redor, espelhando o grupo de Skitter.
“Valefor,” falou Skitter, com uma voz mais ameaçadora, insinuando o número de insetos escondidos nos cantos do cômodo, “Ou se senta, ou sai.”
Valefor olhou ao redor, depois deu de ombros, como se não se importasse mais, e sentou-se. Eligos seguiu a sua deixa.
E, naquele instante, Accord percebeu a sua estratégia de contingência. Seda não estava só ligada a Valefor, a ele, mas também às mobílias.
A mesa. Ela poderia arrastá-la com os fios de seda, cada um planejado para preencher as lacunas entre os pisos, quase invisíveis. Assim, ela poderia prender um grupo entre a mesa e a parede, ou deixá-los quase caindo, agarrados sem força.
Como ela puxaria a mesa? Com outro cão mutante? Com algum contrapeso?
Não importava a resposta; Accord se sentiu estranhamente satisfeito consigo mesmo. O perigo dessa armadilha nem mesmo lhe preocupava.
“Vamos falar de negócio,” disse Skitter. “Quer você goste ou não, os Undersiders têm prioridade nesta cidade.”
“Em uma semana e meia,” respondeu Valefor.
“Prioridade,” reiterou Skitter. “Temos regras, e, se você as quebrar ou desviar delas, seremos obrigados a agir.”
“Já conversei com Tattletale sobre as suas regras.”
“Você teve a chance de aceitar os termos que oferecemos antes. Agora, as regras mudaram. Sem matança. Ultrapasse essa linha e nós matamos você. Vários membros do nosso grupo podem fazer isso sem você notar. Se tiver sorte, Imp corta sua garganta sem perceber, ou Regent manda um de seus subordinados te esfaquear pelas costas, e você morre rapidinho. Se tiver azar, os cães da Bitch te dilaceram, lentamente, dolorosamente. Se for muito azar, encara os dois lados ao mesmo tempo, e lida comigo.”
“E se alguém tiver que morrer?” perguntou Valefor. “Às vezes, matar é necessário.”
“Você vem até mim. Eu decido,” respondeu Skitter.
“Não há novidade nisso,” disse Accord. “Tattletale já descreveu isso, embora com menos ameaças.”
“Ainda não terminei. Território. Vamos descobrir qualquer território que adquiram. O valor que paguem pela terra — e que cobre compra, aluguel e impostos — um terço vai pra gente. Mesmo que não paguem impostos ou aluguel, esperamos uma quantia justa.”
“Caro,” comentou Accord.
“Vocês poderiam aceitar nossa oferta anterior,” respondeu Skitter. “Se quiserem sair daquela restrição, podem incorporar suas organizações às nossas, passando a nos dar controle direto.”
“É uma tomada de controle passiva, então,” disse Accord. “Vocês pretendem apertar até que caguem as oportunidades?”
“Estou cansada de que me digam o que quero fazer,” respondeu Skitter. “Nossas fronteiras estão marcadas pelas assinaturas de cada um. Se traficarem ou machucarem alguém nestas áreas, retaliamos. Se atacarem um de nós, atacamos todos.”
“Não parece deixar muito espaço de manobra para a gente,” replicou Accord. “Ainda não vi uma área que não estivesse marcada como de um território ou de outro.”
“Então você entende o que quero dizer.” Disse Skitter: “Durante qualquer evento do Behemoth, ou na possível calamidade final, vocês enviam metade dos com poderes ou três membros para ajudar, o que for maior.”
“Isso é absurdo,” disse Valefor. “Você espera que enfrentemos os Endbringers?”
“Você? Não.”
“Quer arrumar confusão,” disse Valefor.
“Dou a vocês a opção de obedecer, fugir ou lutar,” disse Skitter. “Os Embaixadores aceitarão o acordo do jeito que está. Eles não vão gostar, o Accord pode até me odiar, por causa dos meus poderes e meu jeito imprevisível, mas aceitarão.”
“É mesmo?” perguntou Accord.
“Sim. Vocês farão isso porque têm recursos que podem usar para forçar o desenrolar das coisas, quando enviarem seus scouts pelo portal e abrirem a passagem para negócios. Vocês não vieram até aqui só para desistir por causa dos termos.”
“Existem outras opções.”
“Lutar contra nós? Vocês têm só dois subordinados que sobreviveram ao ataque em Boston. Por mais fortes que sejam, não estão equipados para combate. Vão se juntar a nós, porque essa é a rota mais rápida para conquistar o que vocês realmente querem.”
Ah, pensou Accord. Chafurda contou tudo pra ela.
Isso tornava a vida um pouco mais fácil, e um pouco mais difícil, de formas diferentes.
Skitter recostou-se, um braço na mesa. “O que foi que você disse pra Tattletale? Todo mundo e tudo tem seu lugar?”
“Mais ou menos.”
“Seu lugar não é numa batalha contra os Undersiders. Está nesta cidade, construindo uma infraestrutura e coletando recursos para seus planos de longo prazo. Você aceita pagar aluguel caro e limitar suas atividades criminosas por isso mesmo.”
“Querem me fazer arriscar um bom auxílio em lutas inúteis contra máquinas imortais?” afirmou Accord.
“Isso também,” respondeu Skitter. “Não espero que os Caídos aceitem essas regras, principalmente sobre lutar contra o Behemoth, mas duvido que eles fiquem aqui muito mais tempo.”
Valefor levantou-se, seguido por Eligos. Juntos, saíram em silêncio.
“Foi um pouco precipitado,” comentou Accord. “Ofenderem-nos assim.”
“Não estava mentindo. Imp e Haven darão conta deles em breve.”
“Valefor é mais astuto do que parece. Um jovem arrogante, impetuoso e imaturo, mas a história indica que é bem astuto quando realmente se dedica.”
“Não é uma preocupação,” disse Skitter.
“Se você diz...”
Skitter voltou sua atenção para a outra líder. “Butcher?”
“Não,” respondeu a mulher, levantando-se da mesa.
“Não pensei outra coisa. Tem mais alguma coisa que queira tratar enquanto estamos assim?”
“Você morre,” disse Butcher. “Não consegue me matar. Eu vencerei.”
E, com essa, sua declaração mais longa até então, ela virou-se e saiu.
“Inimigos difíceis de lidar,” comentou Accord. Agora, só ele e os Undersiders.
“Vamos nos virar.”
“O primeiro Butcher tinha força sobre-humana, resistência e a capacidade de infligir dor de longe o suficiente para causar parada cardíaca. Seus outros poderes só ficaram evidentes depois. Foi morto por um subordinado, e quem viria a ser o Butcher Dois herdou uma fração de seus poderes e uma parte de sua consciência.”
“O Butcher Três também herdou, junto com uma parte dos poderes e da consciência do Dois,” disse Tattletale. “Ele era um herói, porém.”
Accord ficou irritado ao ouvir que ela tinha falado sem autorização. Sua voz ecoava em seus ouvidos, como se cada sílaba fosse o tilintar de uma campainha, ficando mais alto a cada repetição. Fora de hora, fora de ritmo, fora de lugar.
Ele mordeu a língua. “Sim. E as duas vozes na cabeça do herói trabalharam juntas pra enlouquecê-lo. Ele já tinha desaparecido do mundo bem antes de morrer na batalha. Os Dentes recuperaram o poder, e esse legado permaneceu na organização, com sucessores herdando os poderes dos antecessores. As vozes e consciências só trabalham com herdeiros legítimos, membros do grupo que desafiam o líder e o derrotam num duelo justo.”
“Qual deles é esse?” perguntou Regent.
“Quatorze,” respondeu Tattletale.
“Este número quatorze?” questionou Regent. “Quer dizer que ela tem treze conjuntos de poderes?”
Mais um que falou fora de hora, pensou Accord.
Citrine lançou-lhe um olhar de lado. Ele a encarou, balançando a cabeça minimamente.
Tattletale respondeu: “Só uma pequena parte de cada poder. Não esqueça que ela tem treze vozes na cabeça, que lhe dão conselhos e ajudam a resolver questões, além de todas as habilidades que trouxe. Seus ataques nunca falham. Eles vêm com um efeito que faz com que deformem o espaço, de modo que atinjam o alvo. Balas mudando de direção no ar, espadas curvando, tudo isso garante que ela acerte, se o ataque chegar longe o suficiente.”
Ela desceu da cabeça da aranha de tecido e caminhou até ficar oposta a Accord.
Um a um, os Undersiders que estavam atrás de Skitter encontraram suas cadeiras. Os outros grupos já tinham saído, e agora estavam se acomodando melhor. Regent colocou os coturnos na mesa, bem na frente de Imp, que os empurrou para longe.
Excessivamente familiar. Presunçoso.
Accord fechou os olhos por um instante. A mesa agora não estava equilibrada, no sentido metafórico, mas parecia muito real. “Não me lembro de ninguém ter dado permissão para você sentar.”
Tattletale levantou as sobrancelhas. “Não me lembro de ninguém ter dado permissão pra você reclamar. Nosso território, nossa casa, nossas regras.”
Eu poderia matá-la. Car bombs, outras armadilhas. Manipular os heróis para que venham atrás de você. Quando eu dou ordens aos meus embaixadores, eles vencem suas batalhas. Você não resistiria ao que eu pudesse fazer, à pressão que pudesse exercer, e tudo e todos no mundo se tornariam uma ameaça, enquanto eu manipulasse tudo nos bastidores.
Puxou uma respiração fundo. Era muito por que se preocupar para falar assim. Com um tom mais paciente, como se estivesse conversando com uma criança de oito anos, explicou: “Estou falando de como as coisas deveriam ser, Tattletale, entendeu?”
Skitter parecia ter levado um tapa na cara.
“Chega,” pediu Skitter, com voz suave.
O silêncio que seguiu foi tanto surpreendente quanto aliviador. Ela tinha controle sobre seus subordinados. Boa. Exibir talento para exercer controle sobre indivíduos tão perturbados exige habilidade.
Ele observou a garota. Ela estava calma, apesar de menos de doze horas terem passado desde que sua identidade fora revelada ao mundo. E seus insetos... incomodava a desordem que tinham, mas agora, olhando os que ela carregava como uma camada extra de roupa, deu para ver como estavam organizados, em formação.
Skitter era serena, ponderada, razoável, mas disposta a agir com firmeza quando necessário. Inteligente. Pensava na escala que um verdadeiro líder precisa ter.
“Você aceita o negócio?” perguntou Skitter. “Melhor eu perguntar agora, porque sua resposta vai determinar o rumo da conversa.”
“Aceito,” respondeu ele. Ela tinha razão: ele não tinha escolha. Já fecheu acordos piores e enfrentou circunstâncias mais difíceis antes. “Suspeito que haverá atritos, e discordaremos às vezes, mas conseguiremos encontrar um ponto comum. Vocês e eu somos pessoas muito similares.”
Ela não respondeu. O silêncio se alongou, e seus dedos involuntariamente se mexeram, bastante perto do gatilho que transformaria sua bengala numa arma.
“Dizendo isso,” ele continuou, tentando manter o tom neutro, “estava apenas convidando uma resposta.”
“E eu estava pensando um pouco antes de responder,” ela replicou.
Começando uma frase com conjunção. Ele rangeu os dentes e sorriu, sua máscara se movendo para imitar a expressão. “Desculpe-me.”
“Vamos falar de detalhes,” disse Skitter.
■
A cidade está suja demais. Desorganizada demais. Os pensamentos novamente invadiam, opressivos, insistentes. Repetindo-se, ciclos que se sobrepunham. Então, ele precisaria fazer algo para romper esse ciclo. Poderia ser o tempo no banco de trabalho, organizando os projetos dos seus arquivos ou eliminando alguns elementos caóticos.
Assassinato não era uma opção, mas havia outros modos. Já tinha mandado os capes ao Yàngbǎn antes. É mais construtivo do que matar. Mais limpo. E ainda criava relacionamentos com a C.U.I..
“Fale,” ele disse, após minutos longos de silêncio.
“Podemos enfrentá-los, senhor,” disse Othello. “Qualquer um grupo, a gente dá conta, mas não dois ao mesmo tempo.”
“Concordo,” assentiu Accord. “Acha que conseguiria lidar se tudo desandasse?”
“Com pouca dificuldade, senhor. Só me preocuparia com Tattletale, Imp, Valefor e Quatorze,” respondeu Othello.
“Imp e Valefor... seus poderes estranhos contra os deles complicam a luta. Minha maior preocupação é a Imp. Imprevisível, impossível de rastrear.”
“Suspeito que meu poder anula o dela, senhor. Meu outro eu viu ela se aproximando do Butcher. Acho que ela tinha uma arma.”
“Interessante. Citrine?”
“Não sei, senhor. Desculpe, mas muitas pessoas acharam que poderiam lidar com os Undersiders, e estavam erradas. Não sei como meu poder interage com os deles.”
“Muito verdadeiro. Sensato. Preciso recrutar alguém, mesmo se não encontrarmos eles. Por enquanto, foco nos Dentes e nos Caídos.”
“Sim, senhor,” responderam os dois.
Skitter e Tattletale, pensou ele. São elas os reais problemas para mim. O poder da Tattletale parecia semelhante ao dele, mas é quase o oposto. Já ouvi descrevê-la como alguém que fica entre um pensador e um consertador, e talvez isso seja adequado. Ela aplica seu poder começando pelo resultado final e trabalha para trás, e os projetos que faz parecem mais com um conserto. Mas sua verdadeira habilidade é como pensador, envolvendo planejamento, percepção e ideias que vão além de quem não tem poderes.
Ele torcia para que isso não fosse necessário, mas tinha que planejar para todo e qualquer imprevisto.
Finalmente, chegaram ao seu prédio de escritórios. Era um edifício recém-construído. Ele possuía os dois andares mais altos, e comprava os debaixo conforme os proprietários aceitavam as vendas. Logo, tudo estaria do seu jeito, com rotas de fuga e armadilhas para enfrentar seus inimigos.
“Othello,” ordenou.
“Sim, senhor?”
“Envie os cinco melhores funcionários, de maior destaque, ao meu aposento. Espero-os em quinze minutos.”
“Claro, senhor.”
“Quando terminar, retire-se para descansar. Aproveite a noite,” disse. “Tem coisas grandes por vir.”
“Sim, senhor,” responderam os dois embaixadores.
Só dois. Não eram suficientes.
Ele se acomodou no quarto, preferindo móveis feitos por ele mesmo. Mais limpos, simples. Sabia exatamente de onde provinham, como eram feitos. As instalações que criou eram tão tranquilas quanto o mundo exterior não era.
Chegaram seus cinco funcionário no horário. Satisfatório. Ele abriu a porta do seu quarto e os convidou a entrar. Três homens, duas mulheres, impecáveis, todos de roupa adequada ao trabalho.
O rigor no recrutamento dele era severo. Cada etapa exigia sua permissão e a aceitação do funcionário. Cada passo envolvia provar seu valor, enfrentar obstáculos cada vez maiores e manter os padrões rigorosos de perfeição.
Podia até parecer roteiro de reality show, se não pelos poucos mortos pelo caminho. Os deles e de outros.
“Você está sendo promovido,” disse. “Depois de amanhã, será meu representante, minha embaixadora para o mundo todo.”
As emoções delas estavam bem escondidas, mas estavam lá. Estavam felizes.
“Isso é tudo.”
Sem palavras, os cinco saíram apressados do quarto.
Deixando seu celular tocar, Accord discou um número distante.
Ele sorriu um pouco. Humor não era seu forte, mas tinha seu lugar.
A chamada parou, mas não havia ninguém ao outro lado.
“Accord. Brockton Bay.”
A porta de um lado do quarto se abriu. O ar se movimentou ao se equalizar a pressão entre os planos.
O Número Humano apareceu do outro lado, na galeria branca com paredes brancas.
“Cinco frascos. Com a mesma especificação da última remessa, preço igual.”
“Feito,” disse o Número Humano. “Qual é a situação?”
“Tem potencial, mas não faço garantias.”
“Claro. Tudo está seguindo o planejado, então?”
Accord assentiu, uma vez. “Mais ou menos. Perdemos Coil, mas os Undersiders podem servir como um modelo na ausência dele.”
“Ótimo saber. Avisarei ao Doutor.”
A passagem se fechou. Accord sentou-se na ponta da cama, depois se deitou, olhando para o teto.
Coil tinha sido foco do teste, sem saber. O homem também era amigo dele, quem vendeu os bancos de dados da TPR. Sua morte foi uma tragédia, em muitos níveis. Poucos homens Accord considerava dignos de sua amizade.
Agora, tudo dependia dos Undersiders. Eles assumiram o legado de Coil, de uma forma ou de outra, e, assim como Coil, suas ambições alinhavam-se com Cauldron. As esperanças da organização estavam neles e em suas decisões. As esperanças de Accord também: seu plano de vinte e três anos, salvar o mundo do maior caos que existe. No fim, eram responsáveis por bilhões.
Não que pudesse contar com eles, ou alterar suas ações. Seria inútil, e ele sabia disso.
Cada um tinha seu lugar, no grande esquema de coisas. Para uma menina de dezesseis anos, as decisões que tomar nos próximos dias teriam impacto maior do que ela imaginava.
Tudo se resumia a ela aceitar esse novo papel, e se a cidade poderia aceitá-la também.
Accord adormeceu, sua mente cansada agradecendo o descanso contra o ataque incessante.
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